De passagem

11 fev

Havia muitas nuvens no céu. Brancas. Nada que prenunciasse chuva.

Havia muita gente nas calçadas. Um vai-e-vem incessante de cabeças cabeludas, em ondas; aqui e acolá, uma careca luzidia que capturava os esquálidos braços do sol que atravessavam a barreira algodoada das nuvens modorrentas.

Ficou ali na praça pensando em como a multidão não tinha cara. As nuvens assumiam mais identidade em suas formas fugidias do que os rostos amuados que se misturavam nos passeios. O ritmo da procissão no céu era ralentado e apenas o fluxo de carros nas pistas das ruas que se cruzavam era mais intenso do que a caravana apressada da multidão de solitários.

Na mão, o envelope com o resultado dos exames apanhados há pouco no laboratório de análises. O céu nublado não dava sinais das constelações que alguns insistiam poder definir os destinos e no papel um dos signos anunciava um prognóstico funesto.

Nunca fumara, nem abusara de químicos maléficos. Nunca experimentara os carinhos lânguidos de amantes insaciáveis. Não consumira destilados ou fermentados a ponto de perder a consciência. Tinha dúvidas se lamentava tudo isso. O calendário não alcançara mais do que dois meses além das duas décadas e um ano de vida. A maioridade chegara solitária como os atores naquele espetáculo polimorfo da mutidão que passava.

A cidade parecia crescer como o acúmulo de células desesperadas que se multiplicavam em suas entranhas, atrapalhando o tráfego dos intestinos e cobrando um pedágio impossível de ser pago em vida.

Sentia dores leves pelo abdômen entumecido.

Quanto havia que ainda não experienciara, quanto sonho adiara por isso ou aquilo, razões indefinidas, medos impalpáveis, sustos antecipados. Quase sorriu ao lembrar do tanto que sacrificara para parecer normal; vestira-se a contento, cumprimentara o vizinho antipático, aquiescera aos comentários maldosos da avó bisbilhoteira, lera livros sem graça e sorrira de piadas mal compostas; não beijara a prima gostosa, nem comera a vizinha casada; não roubara fruta da feira ou bala da loja; evitara mentir e masturbar-se com frequência.

Saboreaou o novo sentimento e despediu-se de um azedume envelhecido num canto empoeirado de sua história.

Fora bom aluno, bom filho e cidadão.

O futuro parecia curto e mesquinho, e o passado, um longo e desnecessário desperdício.

Esperou que o vermelho desacelerasse os carros e atravessou a rua, misturando-se à multidão. Seguiu como hipnotizado até a avenida principal. Parou atrapalhando a parada.

Deitou-se em diagonal, em meio ao passeio, impedindo, como um câncer, o fluxo de pessoas com pressa. Pouco a pouco, curiosos se amontoaram para tentar intuir as razões do sujeito estirado, acotovelando-se para poder olhar para ele que queria apenas dividir com todos um pedaço de solidão e olhar deliciado para as nuvens que deslizavam tranquilas no céu.

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3 Respostas to “De passagem”

  1. Silas fevereiro 11, 2011 às 6:22 pm #

    Poético sem exagero, humano e envolvente. Gostei muito!

  2. Otavio JM fevereiro 11, 2011 às 8:13 pm #

    Excelente!

  3. Fil. julho 11, 2011 às 10:02 pm #

    Acaba de conquistar-me.
    Quando um texto assim me toma em silêncio… ah, vi meus olhos em tuas palavras.

    Foi in-perfeito. Como a vida o é.

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