Julgamento

12 jul

Sem precisar de sentenças para saber-se condenado, tomou nas mãos o grande risco de fazer-se vivo.
Não tem o que temer da escuridão mais suja de suas torpes vontades, desejos escravos nebulosamente insinuantes…
Lava, com saliva e suor, pelas camas, sua pele sedenta, o corpo emprestado.
Repete velhos ritos, à espera que parta, outra vez, uma dor não escolhida.
Desfaz o desenho dos pêlos, com mãos de carrasco, num toque suave, do corpo que treme; a alma enjaulada carece de gozo, padece em pedaços de tempos perdidos deixados atrás.
Capturado entre as paredes, o breu, tão denso quanto os olhos escuros que cerra, o envolve. Encerra outro dia, fechando cortinas e jogando cobertas sobre si, solitário.
Numa das múltiplas ribaltas sinápticas, enfrentará o derradeiro tribunal. Perfilados abantesmas e repetidos reflexos povoarão seus sonhos inquietos.
Aspergido com sua própria semente, prescinde de sentenças.
E adormece, condenado.

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2 Respostas to “Julgamento”

  1. Fil. julho 14, 2011 às 1:02 am #

    Quanta sinestesia! Assim, a aflição é até bela.
    Senti-me perseguido.

    Consolado? Dá até impressão.

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