I · balé de balas

26 out

“Onde está o Fustado?” O soldado esticou o pescoço e tentou divisar as marcas da patente nos ombros dos homens à sua volta. Não conseguiu ver qualquer tenente entre eles.

Um morteiro passou alguns metros acima e foi estourar sobre ninguém, mais adiante. Ao ouvir o zunido das balas, baixou a cabeça com urgência. Daria tudo para poder enterrá-la numa carapaça intransponível, seguro das agruras da guerra, um gigantesco quelônio centenário, numa das tantas ilhas das Galápagos, sob o escrutínio cuidadoso de um evolucionista de semblante sereno.

Havia lama, muita, por todos os lados. A chuva caía sobre o campo de batalha coberto de neve e os homens pisavam o solo com cuidado, mais bailarinos que combatentes, preocupados com a superfície escorregadia e a saraivada de balas que ameaçavam atravessar-lhes os cocurutos.

O corpo acostumado à inclemência do sertão mineiro reclamava dos vinte graus negativos na encosta do Monte Belvedere, nos Apeninos.

Zé Renato tinha comemorado seu vigésimo segundo aniversário no General William A. Mann, o grande navio americano que os trouxera até o porto de Nápoles. O Capitão Klayton exclamara, todo contente, no navio: “Ah, vedere Napoli, dopo morire!”. Zé Renato perguntou o que significava a frase. Não gostou da explicação.

Sobrevivera ao meio mês da viagem no forno metálico que flutuara sem ser atingido por torpedos alemães, aos banhos de água salgada, ao interminável balanço emético e ao odor nauseante de homens suados sob as luzes vermelhas dos porões travestidos de dormitório; sobrevivera às pedradas dos franceses que os confundiram com alemães, à chegada, e a uma tentativa de assalto na movimentada Corso Umberto Primo da cidade portuária; sobrevivera à primeira tragada num Camel, que os ianques distribuíam em profusão, e à triste – porém farta – dieta das rações enlatadas made in usa (mas que, na verdade, eram produzidas em Livorno); sobrevivera aos deslocamentos de Nápoles a Astroni, de Astroni a Litória (maldito trem!), de Litória a Tarquínia (maldito caminhão!) e de lá a Vada, sob frio intenso, a poucos quilômetros da frente de batalha – o pé do morro de nome bonito – e pretendia sobreviver às balas dos chucrutes.

Ali, sob fogo cerrado, lembrava da frase do capitão e achava um absurdo. Sem essa de ver Nápoles e depois morrer!

Não tinha passado por tudo aquilo para acabar afogado na pinóia da neve enlameada de uma montanha ou enterrado no cemitério de Pistóia, num país do outro lado do mundo. Depois da manobra do tenente Fustado, no dia anterior, a tropa iniciara o ataque com ânimo redobrado, mas a chuva estava minando as forças de todos.

Cinco dias antes, a Task Force 45 ianque havia tomado o Monte Belvedere (e que bela vista se tinha de lá!) com o apoio dos inexperientes soldados brasileiros. A 232a Divisão de infantaria alemã, no entanto, conseguiu expulsar os americanos, no dia 28 de novembro de 1944, e aquele ataque estava sendo feito apenas pelos pracinhas de três batalhões da Força Expedicionária Brasileira.

A coisa estava feia. Não havia como desfrutar da bela vista do monte porque chovia muito; a chuva também impedia que os aviões americanos dessem apoio aéreo. A lama nas encostas fazia os tanques imitarem os soldados brasileiros, escorregando montanha abaixo, um tobogã lambuzado de sangue, suor e lágrimas, sob os olhares indiferentes das árvores peladas.

O ataque fora iniciado quatro horas antes e já dava sinais de que acabaria em breve, com a derrota dos que a história registraria como os mocinhos.

O sargento Otílio queria falar com o tenente Fustado, mas o tenente não estava ao alcance dos olhos.

Zé Renato jogou-se no chão enlameado, protegendo-se por trás de um morrote de neve, já não ligando para o líquido gelado que encharcava suas galochas estofadas de jornal e feno. O sargento apontou para a retaguarda.

“Vai atrás dele, soldado!”

A ordem chegou abafada, as palavras tendo que transpor a barreira do vapor que se formava à frente da boca do sargento, do barulho ensurdecedor dos tanques que patinavam sem sair do lugar, do batecum ininterrupto das gotas da chuva sobre tudo e todos, e o matraquear das armas dos inimigos, à frente e à esquerda dos três batalhões de pracinhas da FEB.

Zé Renato estava pronto para encetar uma corrida até o grupo mais atrás quando uma bala atingiu o peito de Marco Antônio, com quem jogava biriba nas horas vagas. Quase irreal: Marco Antônio falando alguma coisa, num momento, e calado, no outro, o corpo fazendo um arco até tocar o solo – num baque molhado, espalhando a lama sobre seus companheiros – para permanecer quieto, sob as águas da chuva que caíam sem trégua.

A mancha de sangue em seu peito se espalhou com a ajuda do aguaceiro inclemente e um pequeno rio vermelho se juntou à enxurrada que não se decidia se incrustava na neve ou fluía morro abaixo.

Por que ninguém parecia capaz de repetir a façanha do tenente Fustado? O homem virara herói agindo bravamente na primeira tomada do Belvedere, no dia 25 de novembro, salvando quarenta de seus companheiros ao jogar-se sobre uma casamata e aniquilar os cinco soldados que comandavam uma metralhadora devastadora. Com as mãos nuas, Zeferino Fustado desaninhou os safados que desovavam balas a granel sobre as cabeças dos pracinhas.

Zeferino Fustado tinha sido um homem de uma sorte assombrosa. Ninguém mais queria jogar cartas com ele – sempre ganhava, não importando se eram apostados cigarros ou um dia completo de bóia.

O empurrão do sargento deixou claro que não poderia adiar mais a procura pelo herói do batalhão. Zé Renato fez uma oração curta para Nossa Senhora dos Inválidos e arremeteu em direção da retaguarda, as balas inimigas mergulhando na neve enlameada sob seus pés.

Não saberia precisar quanto tempo levou para atingir o grupo de retardatários, sob a chuva de morteiros que completavam os estragos causados pela água que caía do céu encoberto de nuvens pesadas, mas não demorou em descobrir que, também ali, ninguém sabia do paradeiro do procurado.

Talvez fosse bonito – poético até? – imaginar o Tenente Zeferino Fustado à beira da morte, atingido na cabeça por um projétil disparado de uma das armas dos chucrutes que seguravam a investida dos pracinhas que escorregavam pela encosta.

Os americanos forneceram o grosso do equipamento, mas alguns pracinhas usavam Mausers 1908 levados até o Brasil por um acordo entre Hitler e Getúlio, num tempo em que os tupiniquins não se tinham ainda definido contra ou a favor do Eixo. Os rifles germânicos eram superiores aos Springfield americanos e os que podiam não estavam interessados em dar uma chance ao azar. Poderia-se aventar a possibilidade (caluniosa?) de que a bala teria saído de um dos fuzis alemães carregados por seus compatriotas.

Sob a luz bruxuleante do sol se despedindo naquela tarde do dia 29 de novembro de 1944, Marco Antônio se transformou em Fustado, escorregando sobre a lama, o sangue escorrendo-lhe sobre os olhos, a voz, num fio, clamando pelas coisas que não mais veria, por tudo o que havia deixado no Brasil. Os companheiros pracinhas desesperados, mesmo sob a batuta precisa do coronel Castelo Branco, subordinado ao nem tão eficiente general Mascarenhas de Morais, ficariam sem saber como reagir à cena tocante que engrossaria o número final de 454 brasileiros mortos nas terras de Mussolini.

Não. Certamente o Tenente Fustado não pensaria nas mesquinharias da guerra que o arrancara de sua solidão na cidade da garoa e o fizera juntar-se ao quinto exército americano, na Décima Divisão de Montanha – elogiada por sua eficiência pelo marechal da defesa alemã, Albert Kesselring –, para suprir o desfalque que o grosso dos aliados deixou ao deslocar-se para a França. Talvez ele sorrisse ao vislumbrar o reencontro com a mulher amada, vítima da tísica, e a filha, vítima de um bonde.

O capelão lhe ungiria a cabeça ensanguentada com óleo para lubrificar fuzis (uma ironia?) e, sob libações consternadas e o matraquear das armas inimigas, encomendaria sua alma imortal para que pudesse atravessar os portões do Paraíso, onde sua família o esperaria de braços abertos.

Seria bonito, quase poético. Mas não aconteceu assim.

25.334 brasileiros foram levados até a Itália. Em meio às baixas fatais, aos 1577 soldados brasileiros feridos em ação de combate e aos 1145 acidentados, há um número curioso nos documentos oficiais da empreitada da FEB na Segunda Grande Guerra: 23 pracinhas se extraviaram. Na lista dos que perderam o caminho, constava o nome de Zeferino Marcondes Fustado, tenente.

Uma bala alemã saída da Linha Gótica fez um belo serviço de prospecção encefálica no crânio do sargento Otílio Duarte e o leitor, como Zé Renato, ficará se perguntando o que ele queria com Fustado.

Ninguém sabe exatamente quando o tenente se perdeu, mas, nos depoimentos posteriores ao retorno à pátria, todos afirmaram categoricamente que ele lutava com seus companheiros do Décimo Primeiro Regimento de Infantaria nas primeiras horas da batalha. O tenente Fustado se extraviou durante o terceiro ataque ao Monte Belvedere, próximo ao Monte Castelo; os registros o indicam como desaparecido.

 

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Uma resposta to “I · balé de balas”

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  1. Tueris, um romance em pedaços « Valdo Resende - novembro 6, 2011

    […] I · balé de balas […]

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