II · le livre est sur la table

27 out

O edifício Tueris Fustado continuava teimosamente de pé, até o dia 19 de fevereiro de 1982, localizado no número 443 da Rua Tenente Fustado, na esquina da Rua Andrômeda, no bairro italiano da Bela Vista (o famoso Bixiga dos boêmios), na cidade de São Paulo, a brasileira terra da garoa.

A história do edifício começa no Velho Mundo, em Paris, a cidade da torre Eiffel, do Arco do Triunfo, das tuilerias, da igreja de Notre Dame e seus Quasímodos bem vestidos, dos ricos museus e galerias de arte quilométricas, dos pães carregados sob os sovacos, dos bares e cafés ocupados por jovens e intelectuais enfastiados de Montmartre, e dos cinemas de arquitetura deslumbrante.

Num toque de prestidigitação voluntária, pouso o indicador sobre o ponteiro das horas de um velho relógio marchetado. O mogno cortado na Bahia e trasladado para a França num cargueiro jesuíta há mais de duzentos anos foi trazido de volta ao Brasil na bagagem de uma comissária de bordo, em 1992, transfigurado numa máquina fantástica, cada pequena engrenagem trabalhada à perfeição para que o conjunto pudesse marcar a passagem inexorável do fluxo da vida e para enfeitar a parede de um quarto de dormir desarrumado. Depois de muitas voltas contrárias à índole de seu mecanismo delicado, o ponteiro pára quando a contagem chega à segunda década do Século XX. Foi fácil. Liberado do dedo invasor, o ponteiro segue seu caminho, o tempo passa a fluir no sentido natural, os segundos vão transcorrer na mesma direção que todos os vivos percorrem, lentamente, sem se dar conta: rumo ao futuro.

As luzes se acenderam quase simultaneamente à queda das cortinas de veludo bordô. Zeferino Fustado levantou-se da cadeira coberta de couro cor de vinho e imitou os poucos presentes que se dignaram a apupar a obra que acabaram de ver. Clotilde Carvalho Fustado não demorou a seguir o exemplo do moço que desposara há pouco.

Muitos franceses, a maioria dos 573 pagantes que lotavam o theátre, lançaram-lhe olhares indignados e palavras duras cujo significado escapava a Clotilde e seu marido.

Durante a exibição da película, não entendera muito mais que os nons e ouis das plaquinhas que pretendiam substituir as falas, impossíveis àquela data dos “Annés Folles”, porém as expressões do elenco devotado à arte da ilusão a deixaram verdadeiramente emocionada, em vários momentos da audiência da estréia de Tueurs Futés, um filme extremamente violento para os padrões de 1922.

Tivesse nascido uns trinta anos depois, Serge Carreau poderia ser considerado ingênuo se comparado a Quentin Tarantino.

A trama dava voltas pelas franjas de um tórrido caso de amor impossível e os cadáveres eram mostrados de relance, os bofes espalhados pelo chão – uma desfaçatez que custaria o futuro da carreira ao diretor, de quem ninguém mais ouviu falar.

O filme ficou em cartaz por dois dias apenas. A administração da empresa já tradicional cancelou a temporada e o cartaz do filme foi tirado, no terceiro dia, da fachada do Pathé Lecourbe. Os anos vinte foram carregados de exageros, mas os parisienses acreditavam que certas ousadias eram imperdoáveis.

Os cartazes que anunciavam absinthe se espalhavam pela cidade, dezenas de marcas (Vichet, Robette, Parisienne, J. Edouard Pernot, Ducros Fils, Cusenier e Berthelot, só para citar alguns) competiam pela atenção dos que pretendiam inebriar-se com a bebida do diabo. Os cartazetes da Acqua Mineralle Ferrarelle também apresentavam moças seminuas, porém eram eclipsados pelas promessas estupefacientes do drinque.

Enquanto se intoxicava com a bebida que matou a muitos, a cocaína vendida nas apothecaries e anunciada nas páginas do Le Figaro, ou rapé, e esbaldava-se com as noitadas sem fim, em orgias que fariam corar Mata Hari, a nata da sociedade francesa escandalizava-se com a violência da marginália que a atraía como mel à mosca.

A morte do Papa Bento XV fora encarada como inevitável, preparando o caminho para seus pios sucessores.

O final definitivo da “guerra que poria fim a todas as guerras” tinha sido negociado em Versalhes, três anos antes, e muitos ficaram insatisfeitos com os resultados. Como pudera ter sido permitida a criação dos estados da Palestina, do Iraque e da Iugoslávia e deixado os judeus de fora da festa? Os debates sobre Kosovo não foram encerrados com a dispersão dos representantes mundiais que se apresentaram à reunião de Paris; todos temiam a ameaça do comunismo, acreditando que os bens maiores – liberdade, igualdade & fraternidade – seriam varridos da História com o crescimento do movimento que pregava a revolução do proletariado.

As mulheres se dividiam entre lutar por direitos iguais e adquirir o mais novo parfum de Coty, com caixa desenhada por Lalique. Todas concordavam numa coisa: a tentativa de enquadrar seus companheiros nos novos conceitos junguianos de introvertido e extrovertido, enumerando este ou aquele feito, sob o efeito do nefasto absinto.

A violência era inadmissível.

Pobre Serge Carreau, nascido num tempo em que seus pares eram incapazes de compreendê-lo. Os Assassinos Ardilosos ficaram engavetados até o dia 6 de junho de 1965, dois anos depois do fechamento do cinema Pathé Lecourbe, quando todo o acervo da sala foi posto à venda para o grande público e algum colecionador os arrematou por um punhado de francos.

O casal Fustado não vira o filme propriamente. As cenas na pequena tela tinham sido entrecortadas por carinhos singelos e beijos ardentes, com o acompanhamento luxuoso da pianola com um ré desafinado. Os corações disparados, de excitação e medo, Fustado e Clotilde aproveitaram-se do escuro da sala, em meio aos quase seiscentos espectadores, para liberar seus instintos selvagens e dar vazão ao afã do desejo; os toques mais ousados insinuando-se entre as camadas de tecidos acetinados e drapeados generosos.

Clotilde achava os franceses estranhos, mas a reação do público a deixara corada, acreditando que as palavras duras (que não compreendia) e os olhares de censura (fáceis de serem traduzidos) eram consequência de seus atos libidinosos durante a seção e não às palmas efusivas ao filme que não assistira.

Puxava Fustado para que se afastassem céleres do cinema. O marido acreditava que a pressa adivinhava um final de tarde coroado de gritinhos e sussurros esganiçados entre os lençóis engomados do quarto do pequeno (porém nada barato) hotel na Rue Duvivier, não muito distante dos jardins do Campo de Marte e da Torre Eiffel.

Desceram as escadas do Pathé, no número 115 da Rue Lacourbe, a duzentos metros do Boulevard Pasteur, atravessando os arcos da fachada art-nouveau tipicamente parisiense, arriscando estatelar-se sobre a calçada coalhada de gente bem vestida.

A multidão deixava o cinema e se espalhava pela rua de pedras batidas numa procissão ordenada, um belo balé ensaiado em tantas outras ocasiões semelhantes. Solitários, casais e grupos animados de machos imberbes se misturavam às elegantes carruagens que competiam com os carros fumarentos pilotados por audazes jovens bigodudos, escondidos sob seus capacetes de couro e óculos de grandes lentes reluzentes.

Fustado segurou a cartola como se o impulso empregado pela mulher a pudesse lançar para longe até o calçamento, onde certamente sofreria danos sérios sob as rodas de um Citroën Cloverleaf ou um Rover inglês de oito cavalos, guiados por um dos tantos motoristas dementes que infestavam a capital francesa. O sorriso maroto bailou em seus lábios enquanto comentava, tentando emprestar o maior decoro possível às suas palavras de duplo sentido.

“Que bicho te mordeu, minha senhora?”

Clotilde, a respiração entrecortada pelo esforço de guindar aquele homem magro de ossatura pesada no sentido contrário do trânsito da rua movimentada, falou sem olhar para trás.

“Esses franceses… me assustam, homem…”

Arqueando uma das sobrancelhas, Fustado estancou na esquina da Rue François Bonvin, próxima à Rue des Volontaires. Clotilde quase escorregou sobre as pedras da calçada molhada pela chuva leve que se abatera sobre a cidade e que os forçara a encontrar abrigo sob a marquise do cinema Pathé. Assistir a película não fora uma opção planejada com antecedência. Depois de caminharem por horas pelas cercanias dos Invalides, cinquenta minutos no cinema se apresentaram como o perfeito descanso antes de voltarem para o Hôtel Juvet. Depois de recuperar o equilíbrio, Clotilde verificou a arrumação do vestido de muitos panos que ondeavam sobre as curvas de seu corpo robusto. Só então lançou um olhar de censura para o marido que a observava curioso.

“Perdeste o juízo? Quase me deixas nua à frente de todos!”

Fustado acariciou o próprio rosto com a mão enluvada, acompanhando os movimentos delicados e rápidos que sua mulher fazia para reposicionar o chapéu desmaiado sobre os cabelos negros que tinham ganhado um corte reto e curto recentemente. O generoso decote deixava antever partes do soutien cor de pele que Clotilde insistira em comprar no magazin Au Bon Marché.

“Teu afobamento me parece bem mais insensato…”

Clotilde, sem encarar o marido, o interrompeu.

“Não percebes os olhares de todos?”

O jovem sargento virou a cabeça, para lá e acolá, parando os olhos sobre alguns dos passantes que rescindiam a perfume adocicado e suor encruado. As narinas, acostumadas às colônias leves da esposa e da lavanda que aplicava à barba feita, estavam saturadas da abundância de cheiros de Paris.

“Do que estás falando? Fico mais impressionado com o sentido do olfato que da visão. Olho e olho, sem cessar, e apenas consigo experimentar certa náusea pelo excesso de odores.”

Clotilde fungou de leve, ultrapassando os limites da etiqueta de uma dama. Inclinou o tronco, graciosamente, para que a boca pudesse emitir as palavras num tom bastante baixo sem que fossem perdidas em meio ao barulho do entorno.

“Vês? Teu comentário apenas ratifica meu temor. Que espécie de gente é essa que se denomina civilizada e teima em não fazer as pazes com o quarto de banho?”

Sorrindo, o marido estendeu a mão até tocar o braço da companheira. Clotilde tinha as faces afogueadas.

“A eles deve parecer que nós nos banhamos demais.”

“Que estultice.”

As sobrancelhas de Fustado se apertaram num sinal franco de sua preocupação sincera, afinal três semanas tinham se passado desde sua chegada.

“Te desagrada estar em Paris, Clotilde?”

Clotilde adiantou-se e voltou a caminhar para a Bonvin, em direção do imponente perfil da torre terminada em 1899 e que fora o palco do mais belo réveillon de suas vidas.

Poderia ter sido Berlim, na República de Weimar, e não a capital francesa a escolhida para aquele final de ano, mas a remarcação absurda dos preços nas prateleiras das lojas da Alemanha deixava Clotilde enjoada, imaginando a angústia dos prussianos verem seus milhões de marcos transformando-se rapidamente em nada.

“Paris é tão maravilhosa quanto a capital do Brasil, Zeferino. E padece do mesmo mal. Lá, temos os fluminenses, aqui, os parisienses.”

Fustado agarrou o braço de Clotilde, fazendo-a tropeçar, mais uma vez, sobre os saltos de seus sapatos azul-escuro que combinavam à perfeição com o vestido de um tom predominantemente anil. A reclamação procedia.

“Queres mesmo me transformar na galhofa do dia?”

Fustado riu, de leve, desculpando-se com um sutil menear da cabeça, indicando com a mão enluvada um caminho diverso.

“Vamos pela Breteuil.”

O olhar indignado da mulher o fez apagar, dos lábios, qualquer lembrança de um sorriso.

“Por aqui é mais rápido, estou certa!”

“Decerto, minha querida, porém por lá é mais agradável. A caminhada mais longa irá nos ampliar o apetite e pretendo comprar um jornal naquele quiosque simpático próximo ao Hospital.”

A expressão divertida de Clotilde deixou Fustado mais tranquilo.

“Mas se tu não sabes ler uma vírgula de francês, homem!”

“Tu tens tuas esquisitices, deixa-me nutrir as minhas.”

Caminharam em silêncio, até o quiosque de ferro batido em volutas semi-escondidas por publicações em várias línguas – Clotilde não vendo a hora em que pudessem chegar ao hotel para trocar de sapatos e atenta aos olhares furtivos dos que por eles passavam; Fustado embebido com o mesmo ar saturado que um dia enchera os pulmões de Bonaparte enquanto estudava na École Militaire.

A noite se anunciava no horizonte e os milhares de candeeiros abriam suas goelas a velhos desdentados e garotos maltrapilhos fazendo malabarismos para acendê-los; Paris precisava fazer jus ao epíteto de cidade das luzes.

A lua-de-mel estava chegando ao fim.

Fustado despedia-se de tudo, dos edifícios clássicos e dos museus austeros, dos grandes jardins e dos bulevares floridos. Havia pouco tempo para usufruir os encantos da cidade que se recuperara magnificamente de uma guerra que desfigurara a face do Velho Mundo. Sem entender qualquer palavra do que o vendeiro falara, Fustado comprou um exemplar do Le Figaro. Não diria nada à esposa, mas já que estava impossibilitado de permanecer por mais tempo em Paris, tinha esperanças de levar consigo um anúncio, ao menos, da peça La Mort de Moliére que estrearia dali algumas semanas com a divina Sarah Bernhardt.

Enfiou o jornal sob a axila esquerda e olhou, antecipadamente saudoso, para o pináculo da torre metálica que dominava os céus daquela parte da capital francesa.

Mais três dias e deixariam a cidade para tomar o navio de volta ao porto de Santos, passagem obrigatória até São Paulo, onde o exército esperava pelo retorno do sargento Fustado. Homero Batista, ministro da Fazenda do governo de Epitácio Pessoa, ostentava, orgulhoso, a cifra irrisória de três por cento de inflação acumulada no ano anterior.

Os militares estariam comemorando o centenário da independência e preparando as bases para as manifestações rebeldes tenentistas contra a política oligárquica do café-com-leite. As eleições presidenciais aconteceriam no dia primeiro de março e, apesar da briga acirrada, Artur Bernardes levaria a melhor contra o oposicionista Nilo Peçanha.

O casal deixaria Paris com mais coisa do que chegara vinte dias antes: a bagagem estaria superlotada de exemplares de La Mode Illustré e quinquilharias amealhadas nas feiras da Rue Cler e nas lojas careiras de Montmartre.

Clotilde, no entanto, carregava a mais preciosa carga: no útero, um embrião estava ocupado em multiplicar suas células para que, nove meses depois, se transformasse em gente – uma filha que seria parida na cidade sob o trópico de capricórnio e a égide do modernismo antropofágico.

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3 Respostas to “II · le livre est sur la table”

  1. rocpet outubro 27, 2011 às 5:03 pm #

    amo!

    • cucomaluco novembro 6, 2011 às 9:04 pm #

      fiz umas poucas mudanças no livro como um todo. ele ficou mais enxuto e, acredito, melhor redigido… hehehe.

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  1. Tueris, um romance em pedaços « Valdo Resende - novembro 6, 2011

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