III · a distração do motorneiro

28 out

O ano de 1942 alcançou Zeferino Fustado incorporando a patente de tenente do exército brasileiro e uma pança digna do Sancho, tratada a pão-de-ló.

A fortuna deixada como herança pelo senhor desembargador Hermínio Fustado fora usada com langor e poucas doses de parcimônia. Fustado vivera uma existência fausta e não economizara para satisfazer os mais absurdos desejos das mulheres da casa.

Uma mão sobre a barriga volumosa recoberta por roupas de tecidos caros costurados com maestria, a outra cofiando o farto bigode que começava a manchar-se de branco, Fustado observava os viandantes que se apressavam para alcançar uma proteção à garoa fina e gélida que caía solene sobre o distrito da Vila Buarque.

O dinheiro herdado tinha sido multiplicado com os investimentos que fizera no ramo da construção. Várias de suas empreitadas tinham mudado a cara da região. A Avenida São Luís estava desfigurada. Os monstruosos arranha-céus ruidosos haviam tomado o lugar dos casarões tranquilos. A Praça da República estava, ainda, rodeada pelos sobrados de fachadas delicadas, mas, se dependesse de Fustado, em breve, também ali, deixaria a marca do progresso transformar o passado em memórias facilmente olvidáveis.

Não lhe interessava mais dinheiro, tinha-o aos montes. Queria esquecer sua solidão e apagar da cidade os monumentos que cruelmente o faziam lembrar da perda que a fortuna não conseguira evitar.

Clotilde já não estava entre os vivos há nove anos. Sua companheira inabalável tinha sucumbido à tuberculose e não testemunhara a derrocada dos tenentes.

Os malditos médicos foram incapazes de evitar-lhe o sofrimento. De que adiantavam todos os remédios miraculosos e a vacina de Calmette e Guérin se faltavam aos curandeiros – sim, não passavam de curandeiros – a competência e o tino no trato com os pacientes e suas enfermidades?

Fustado emitiu uma tossida de cachorro e afastou-se da janela, cambiando a atenção da rua lacrimejante para a bela caixa de madeira onde guardava charutos olorosos que consumia com avidez.

Estava melancólico. E isso era normal no dia de aniversário da morte de Clotilde. Espalhou-se sobre a confortável poltrona estofada e acariciou o couro tinturado de vinho que recobria o braço do móvel. Clotilde a encomendara a Rafael Montello, o hábil marceneiro da Rua da Abolição, e o presenteara no natal de 1932.

Naquela época, seu mundo parecia dar cambalhotas. Lembrava com amargura da derrota dos Constitucionalistas e o acordo vergonhoso estabelecido com Vargas. O mundo civilizado abria-se para as democracias e o Brasil namorava o absolutismo. Plínio Salgado queria fazer crer ir contra o ditador, mascarado sob o discurso nacionalista dos integralistas, mas não passava de mais um radical querendo o poder absoluto.

As notícias da invasão da Manchúria pelo Japão e a subida de Adolf Hitler à presidência da Alemanha o tinham deixado preocupado; seus temores tinham se materializado.

Tomara a decisão certa ao investir na indústria imobiliária e não na agricultura. Quantos de seus companheiros foram à falência com a queima dos estoques de café? E as sacas continuavam a arder até aquela tarde. Os amigos o consideravam um homem de sorte.

Vargas ensaiara a redenção de seus desmandos com obras como o Cristo, no Rio, e Francisco Campos telefonara preocupado com a mudança do governo estadual e o campeonato vencido pelos carcamanos do Palestra Itália.

Estavam no novo horário de verão. E São Paulo insistia em não respeitar o clima no resto do país. Como se fosse naquele exato momento, ouviu a campainha da rua tocar e Clotilde entrar em seu escritório, um sorriso de orelha a orelha.

“Tenho uma surpresa para você, tenente!”.

E lá estava a poltrona de couro vinho, resplandecente como o rosto da mulher amada.

“Da cor das poltronas do cinema Pathé!”.

A poltrona permaneceu, mas Clotilde se foi, deixando uma menina de onze anos para ser criada num mundo que parecia a Fustado ter virado de ponta cabeça.

O tempo passou e a pequena Tueris desabrochou como uma flor selvagem, deslumbrante e caprichosa. Irascível e bela como a mãe, Tueris se transformara numa jovem inquieta e destemida como o pai.

A filha tinha sido batizada com o nome do filme que a chuva em Paris os obrigara a assistir.

Fustado suspirou baixinho, apanhou um dos charutos da caixa de madeira e mastigou uma das extremidades, cuspindo fora o tampo de folhas de fumo enegrecido sem se preocupar onde iria cair.

Nove anos sem Clotilde.

Batalhara contra si mesmo ao nomear um dos edifícios que construíra na Bela Vista. Queria homenagear as mulheres de sua vida, mas não acreditara poder suportar ver o nome de sua amada à entrada de uma construção. A homenagem migrou para a filha e o batizara, então, de Tueris Fustado.

Nove anos sem sua companheira. Quase uma década de batalhas para manter sua posição inabalável e outras tantas para evitar que Tueris saísse dos trilhos. Aos 45 anos de idade, Fustado testemunhara e participara de muitas guerras e escaramuças. Não demoraria para o país entrar na Guerra, enredado pelas manobras americanas em território brasileiro.

Não havia nada mais ridículo do que um país governado por um ditador entrar numa guerra para defender as causas democráticas. Mas Getúlio Vargas era um político de mão cheia, um demagogo populista com um clube de admiradores maior do que os do Corinthians e quase tão grande como o dos detratores do coitado do Lourival Pontes.

O cuco da máquina grudada à parede anunciou a quinta hora da tarde. Fustado puxou a pesada corrente de ouro para verificar o seu relógio de algibeira. Precisava ir até a matriz da Consolação para a missa pela alma de Clotilde. Tueris estava atrasada, como sempre.

Dando potentes tragadas em seu charuto, Fustado levantou-se da poltrona, apanhou o casaco e o chapéu do cabide do chapeleiro e preparava-se para deixar o escritório quando ouviu as pancadas em sua porta.

Escancarou-a esperando ver a filha afogueada, mas não se surpreendeu ao dar de cara com Mariinha, sua secretária, aos prantos, acompanhada de um cadete da polícia, de cenho consternado.

“Pára com essa choradeira, mulher. O que Tueris aprontou desta vez?”

Mariinha, uma mulher franzina de meia idade, deu-lhe as costas e desabou num choro escandaloso que obrigou Fustado a engolir em seco.

O cadete teve que repetir a mensagem para que ele pudesse atentar para o conteúdo trágico.

Fustado não conseguiu prestar atenção a mais nada, plantado sobre o piso de parquet escolhido por Clotilde. O charuto caiu sobre seu sapato, rolou para o tapete persa e o queimou como reflexo da dor que o tenente sentia no peito.

Mesmo aos soluços, Mariinha conseguiu debelar o início de incêndio, mas nada podia fazer contra a queimação que se refletia até o braço esquerdo do militar empreiteiro.

As palavras do cadete ficaram ecoando por um tempo incomensurável na cabeça de Fustado, parte indivisível de sua dor.

“Os trilhos estavam molhados e o motorneiro não conseguiu fazer o bonde parar em tempo. Sua filha atravessou a rua apressada e foi atingida em cheio. Lamento informar que Tueris faleceu a caminho do hospital”.

Depois de ter sido atendido por um médico particular que o tirou de seu torpor, sessenta minutos mais tarde, durante a execução da Ave Maria de Gounod e Bach, na hora do ângelus, Fustado, acreditando ter gastado toda a sorte, conseguiu articular duas palavras, num sussurro.

“Maldito dia.”

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Uma resposta to “III · a distração do motorneiro”

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  1. Tueris, um romance em pedaços « Valdo Resende - novembro 6, 2011

    […] III · a distração do motorneiro […]

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