Arquivo | novembro, 2011

XXV · joguinho de múltipla escolha

30 nov

Na última página de seu “Postille a ‘Il Nome Della Rosa’”, de 1984, Umberto Eco afirmava que ninguém havia escrito “[…] um livro no qual o assassino é o leitor”.
Assumi o papel de criador dos personagens desta obra tanto quanto de sua existência, meu leitor. Transbordando de parvoíce, acredito ter criado um multiverso de realidades em que você, leitora, não passa de mais um personagem.
E pretendo preencher a lacuna literária preconizada pelo grupo francês Oulipo e do criador de Adso de Melk, dividindo a culpa de um homicídio com você!
Mas há escolhas, não duvide!
Você tem mais uma chance de provar que estou equivocado. Com sua própria vontade, você pode ratificar o total controle da vida que lhe cabe. Largue este texto já; não siga adiante!
Volte um pouco os ponteiros do relógio e deixe Renée ficar vivo em sua varanda esperando pela visita de um vizinho.
Pare a leitura aqui e ganhe a chance de imaginar os finais felizes possíveis de todas as histórias aqui narradas, inclusive a de Renée e seu cão antipático encolhido sobre o tapete do banheiro. Salpique umas tantas gotas de um aroma romântico e imagine um caso tórrido entre o travesti e seu vizinho bancário.
Se um romance não parece apetitoso, seja cruel então, reafirme sua vida sem a intervenção de um autor amalucado e assuma o papel de criador, inventando um final fatal, sem dúvida, mas de morte por causas naturais, no máximo, impingindo um assassinato a um vírus que não usa qualquer valor moral para extinguir a vida de seu hospedeiro.
Banque o escritor (venha cá, sente aqui à frente de meu computador, assuma o teclado) e escolha o assassino dentre os muitos candidatos moradores do Tueris. Quais os mais capazes? Quem com o melhor motivo?
Invente um final nunca dantes imaginado. Não me deixe indicar um caminho, induzi-lo a cometer um pecado, um erro ou um crime.
Seja bastante cruel e faça Romildo Rotti entender o sentido sexual do discurso do travesti, desistir de qualquer contato com ele, retornando ao apartamento, deixando Renée solitário, sofrendo a amargura de uma espera sem propósito.
Deixe que cada um viva sua vida para além das páginas desta obra ensandecida. Mas não leia adiante!
O aviso foi dado! O alarma disparou!
Perigo! Perigo!
Ao começar a leitura do próximo capítulo, você, leitor atento, você, leitora voraz, estará assumindo parte da culpa por uma morte que ainda não aconteceu.
E o autor terá conseguido cumprir sua missão de transformar o leitor em assassino.

XXIV · uma língua de dois gumes (apto 32)

28 nov

Repito o truque de empurrar o tempo no sentido contrário à passagem das horas. Volto até o início do último dia de aquário, no ano em que Karol Wojtila (um homem que mudou o nome para ser João Paulo II, papa da Santa Igreja Católica) visitou a África e, no Gabão, durante o discurso de despedida do continente negro repetiu o ditado mbédé: “Otcwi Holwodo mvudu a nde ha moni” [“A mente sonha o homem que viu”].
O homem que acordou naquela sexta-feira sonhara inúmeros sonhos, porém, durante toda a vida, sua mente sonhava não o homem que via, mas a mulher que previa, aprisionada num corpo masculino com trejeitos nem tão masculinos assim.
O sol penetrava o quarto através das múltiplas camadas esgazeadas da cortina, ganhando um brilho fantasmagórico previamente desejado.
Abriu os olhos remelados e percebeu o ganido contínuo do cachorro magricela que lhe servia, maldita solidão, de filho e companheiro. Fazia um exercício atroz para não ser honesto, vez em quando, e não admitir que desejava que a criatura se desmaterializasse para nunca mais voltar.
Tinha sido salvo. Pelo cão que queria distante. Escapara da morte certa, por pouco; uns três latidos.
Com as pontas do médio e do polegar, tentou livrar as comissuras oculares daquela meleca que atrapalhava a visão e do pensamento criminoso que o poderia deixar mais sozinho. Mustache passou a latir ao perceber que havia mais partes a serem movidas no corpo do dono e senhor. Renée esfregou os dedos sobre a camisola de seda em tons de champanha e ajeitou os travesseiros sob a nuca.
O cão estremecia num frêmito de excitação a ponto de quase urinar-se, um ataque escandaloso, histérico, que pouco fazia além de imitar os modos do travesti.
Com um golpe certeiro, Renée estapeou o focinho do cão que não ousava pular sobre a cama. Não fosse veloz o bastante, Renée teria sido presenteado com os dentes afiados sobre a pele dos dedos nodosos, mais um ato reflexo que real desejo de machucar a mão que o alimentava.
– Ai, Mustache, uma vez na vida, cheri, deixe a mamãe cumprir com seu ritual antes de levantar da cama, tá bom?
Como se tivesse certeza de que o cão compreendera cada inflexão, cada significante, suas denotações e conotações, Renée passou a ignorá-lo e apanhou o volume encadernado de couro esverdeado, sua coleção de anotações pessoais marcadas numa página por uma caneta Schaeffer de cabo manchado de múltiplas cores e detalhes dourados. Retirou a tampa da caneta metida a chique e escrevinhou uma lista de coisas a fazer, duas ou três possibilidades de destinos de uma viagem ainda por planejar detalhadamente, uma frase de um entrevistado do Ney Gonçalves Dias da manhã anterior (precisava descobrir o nome do tal advogado) e o nome de dois artistas de cinema com quem adoraria dividir os lençóis. O pensamento era um raio de uma tempestade que se avizinhava. Aquela história do padeiro e da filha da moradora do porão não podia continuar.
Irritou-se ao perceber que o pequeno cão mantinha os olhos esbugalhados fixos em suas mãos, ganindo baixinho.
– Arre!
Jogou a agenda e a caneta sobre o edredom cor de vinho, com alguma violência, e pulou da cama intempestivamente.
– Cachorrinho desagradável, você, biju!
O miniatura pincher seguiu as pernas de batatas grossas até a cozinha. Renée apanhou o pote de água, vazio, do chão e o postou sob a torneira, abrindo o registro ao mesmo tempo em que fazia um biquinho falso para Mustache, que parecia prestes a partir-se em muitos pedacinhos em consequência da vibração de todos os músculos de seu minúsculo corpo.
Empinando a bunda e esticando o braço esquerdo para cima e para trás, Renée estava por depositar, com o braço direito esticado, no chão, a cuia cheia de água fresca, numa pose que não conseguiu impedir que Mustache, excitado no limite máximo, o atingisse com as patinhas dianteiras.
– Ahhh!
O grito foi emitido simultaneamente a uma sequência de ações que poderiam ser cômicas: Renée soltou a cuia a poucos centímetros do piso; a água esparramou-se sobre o marrom manchado do ladrilho hidráulico moderno. Os olhos ameaçando pular das órbitas, o cão correu para longe, optando em manter o couro sobre as poucas carnes que saciar a sede que dava nós em suas tripas. O travesti perdeu o equilíbrio e chapinhou sobre a instantânea piscina em que a cozinha se transformou; um pior acidente não aconteceu por obra e graça de um anjo da guarda e braços que se debateram até ajudar o corpo a reencontrar o eixo vertical.
O cão escondeu-se sob a mesa de refeições e espiou por baixo da toalha branca pintada com rosas monstruosas. Prescindia de palavras para apreender o mau humor do dono que tinha os olhos apertados fixados sobre a mancha avermelhada na pele esbranquiçada do braço direito.
– De hoje não passa, Mustache!
O tom azedo e estridente da voz do dono obrigou o cachorro a responder com um ganido agudo; quase um dueto.
– Vamos precisar aparar essas unhas assassinas!
Com um movimento displicente, Renée jogou o pano de pratos sobre o chão, na vã esperança de que absorvesse todo o volume da água derramada, apanhou a cuia, mais uma vez, e a encheu de água, deixando-a mais próxima da porta para que o cão pudesse, enfim, matar a sede que transformara aquele começo de dia num quase acidente espetacular. Não queria nem pensar no que poderia ter acontecido caso tivesse se estatelado no chão da cozinha. Poderia ter quebrado a cabeça, o pescoço ou, pior, uma unha!
Mustache aproveitou que o dono foi até a área de serviço para buscar um pano de chão que cumprisse a contento a tarefa de enxugar o piso e aproximou-se da cuia para beber, sem deixar de atentar para cada movimento da sombra de Renée.
O pano ia de lá para cá, sobre o piso molhado, com a ajuda de um rodo e a cabeça de Renée pairava entre fazer um corte mais moderninho, como Marisa Raja Gabaglia, ou mais tradicional, como Marta Suplicy, ou mesmo bem encaracolado, como Irene Ravache. Curto, de qualquer maneira.
Detestava São Paulo em pleno carnaval. A bicharada enlouquecia e transformava os excessos cotidianos em histeria coletiva desmedida. Quem quisesse acreditar que a Aids servira de freio aos impulsos animais realmente não entendia patavinas de psicologia humana.
Voltou ao quarto e estranhou o galho de folhas frondosas ao lado de sua cama. De onde viera aquilo? Chegou à janela apenas pra se certificar que nenhuma das árvores dali poderia ter originado aquele galho estranho. Deu de ombros, esquecido do pesadelo que quase o matara, e jogou o galho no lixo do banheiro, pouco antes de enfiar-se no chuveiro.
As tarefas domésticas voltaram à normalidade cotidiana. O café ficou pronto, as torradas foram recobertas de requeijão, a ração balanceada do cão, servida. Uma refeição frugal devorada sem cerimônia nem adiamentos. Deixando a louça por lavar, jogou uma água no rosto, apanhou o estojo que Merino entregou na manhã da quinta e maquiou-se levemente. Deixou para passar o batom depois que saísse de casa. Vestiu um conjunto de Crylor que achava simplesinho, quase uma roupa de homem. Guarneceu o pescoço e o torso de Mustache com uma coleira de couro com pespontos vermelhos e pedrinhas carmesim e preparou-se para sair.
Escancarou a porta do apartamento 32 e ouviu uma voz que lhe pareceu ser a da filha da morta. Que coincidência. Precisava agradecer-lhe pelo presente. Caminhou com cuidado até o lance de escadas, tendo mais dificuldade em equilibrar-se sobre os saltos baixos da sandália fechada do que sobre as pontas de agulha costumeiras.
Usando um leve espelhinho de mão para orientar-se na pintura dos lábios, ouviu alguém trancando a porta do apartamento no andar de baixo, e passou a aplicar o batom. Sem dúvida, o melhor item do presente que deixava muito a desejar.
– E o Merino?
Ouviu a voz de Manuel Ktir com limpidez. Mustache pareceu arregalar ainda mais os olhos naturalmente estatelados e emitiu um latido nervoso. O som ainda reverberou pelas paredes envelhecidas do condomínio e o silêncio só foi quebrado pelas pancadas estaladas de sua sandália sobre os degraus da escadaria. Renée precisou arrastar Mustache pela coleira; o cachorro evitava ao máximo aproximar-se do inventor de inutilidades. Talvez algo em seu cheiro provocasse aquele terror que divertia Renée sobremaneira.
As vozes já o haviam preparado para encontrar com os vizinhos, mas não esperava que a dupla não se esforçasse em demonstrar o desagrado por aquele fortuito rendez-vous. Encarou-os desconcertado, porém baixou os olhos para ganhar novo fôlego e guardar o batom na frasqueira tão minúscula como as dimensões de seu mascote canino. Apertou os lábios, ensaiando uma frase que não soasse ridícula, mas não conseguiu impedir que a frase fosse cuspida com ironia.
– Oh! Uma reunião de vizinhos em pleno segundo andar. Mas que coisa mais… Inusitada!
Incluía-se no comentário, mas entendeu que a frase soara como se comentasse apenas o encontro dos dois. O sorriso insincero do velho inventor o desestimulou a esclarecer qualquer mal entendido; Manuel Ktir balançou a cabeça e Renée quis interpretar o menear como um cumprimento pouco lisonjeiro, mas civilizado. Hortência soou mais natural, embora o tom agudo emprestasse um tempero um tanto apimentado à pergunta.
– Tudo bem, Renée?
Pensou em desfiar o rol de problemas do mundo, do Brasil. Rapidamente pensou nas questões que o condomínio e seus moradores estavam enfrentando, mas aquele não era o local nem a oportunidade apropriada.
– Hum! Temos tanto a discutir na próxima reunião do condomínio que não vale a pena começar agora… Se não fosse todo o trabalho que meu biju me dá, estaria às mil maravilhas. Aliás, como é difícil cuidar de crianças, não, meu bem? Você que tem duas, então!
O ângulo dos olhos da filha da morta deixaram claro que ouvir as filhas chamadas de crianças a desagradava quase tanto quanto de diabinhas. Talvez tivesse exagerado na comparação de seu cão com as filhas da filha da morta. A resposta veio consoante ao desagrado.
– Elas têm treze anos agora, estão praticamente criadas…
Renée apertou os olhos, sem muito mais a dizer. Falou assim mesmo, soando ridículo propositalmente; uma tentativa de afrouxar a tensão daquela conversa, enquanto aumentava a tensão na coleira para descer os degraus e chegar ao patamar do segundo andar.
– Vai trabalhar, meu bem?
O riso da manicura tinha um quê de cruel. Renée não havia notado esse dado em Hortência. Olhou a bolsa florida que ela lhe mostrava e, de relance, percebeu que Manuel também ria.
– Como todo dia, Renée. O salão tem muitas meninas, mas nenhuma que entenda de unhas como Hortência Costanzza! Por que não vai nos visitar qualquer dia desses?
Aí estava uma cena difícil de imaginar: Renée Druon frequentando o Salão Lurdinha, em meio àquela gente de péssimo gosto. Não havia, mesmo, nada a comentar sem tornar-se rude. E precisava levar Mustache ao veterinário. Voltou a dar uma rápida olhada para Manuel, o sorriso ainda pairava nos lábios que pareciam ter sido bonitos, um dia. Estava por dar a conversa por encerrada, quando se lembrou do presente. Sorriu seu melhor sorriso, o mais simpático e mais sincero.
– Ah! Querida, tinha esquecido de lhe agradecer!
A testa curta de Hortência ganhou alguns vincos.
– Agradecer por quê?
Impossível não ser honesto. Foi direto ao assunto sem dourar a pílula. Afinal, estavam conversando quase de mulher para mulher.
– No geral, o conjunto de maquiagem não é dos melhores, mas o batom é maravilhoso…
A expressão de Hortência fez um enorme alarme tocar, bem lá no fundo do cérebro de Renée, mas o som ainda não estava claro o suficiente.
– Maquiagem… Como assim?
Renée parecia uma imitação mal sucedida do cachorro na outra ponta da coleira. Os olhos esbugalhados, desviou a atenção para Manuel. O sorriso desvanecera. O alarme agora soava mais alto, mais claro. Mais para si do que qualquer outro, deixou que as palavras cruzassem o espaço, atravessando a barreira criada por sua mão espalmada sobre os lábios decorados de carmim. Entendera tudo errado…
– Oh! Meu Deus! Quando o Merino me deu…
O sussurro da vizinha soou como uma ameaça ofídica.
– Merino lhe deu maquiagem de presente?
Renée quase agradeceu a Manuel por sua intervenção oportuna, mas estava muito ocupado esforçando-se em não deixar que a lágrima escapasse do olho esquerdo.
– A que horas você pega no salão, Hortência? Às dez?
A filha da morta olhou ausente para o vizinho inventor. Renée aproveitou que a campainha de um telefone tocou em algum lugar para verificar o relógio de pulso e soltar um gritinho teatral.
– Ai, nossa! Já são nove e meia, preciso correr! Tenho tanta coisa a fazer hoje…
Renée desceu os degraus com pressa, sem se preocupar com a saúde de Mustache, arrastando-o à força, escadaria abaixo. Chegou à entrada do edifício tão transtornado que não percebeu Lourival Alheiras na varanda de seu apartamento, observando a rua e a todos que por ali passavam, um aparente interesse pela vida que mascarava seu fascínio pela morte.
Sentiu que olhos projetavam-se sobre suas costas, mas não arriscou voltar-se. Não queria saber com que expressão Hortência Costanzza poderia o estar observando agora. Perdera o prumo, coisa rara. Sem qualquer intenção, plantara uma semente de desconfiança no coração da carola escandalosa e agora tinha certeza de que vinha sendo cortejado pelo representante de produtos de beleza de baixa qualidade.
Cruzou com Valéria Dubeaux e fingiu não vê-la, imitado pela vizinha envergando uma cara de poucos amigos.
Já não tinha necessidade de arrastar o cão. Mustache assumira o controle do passeio e puxava com todas as (poucas) forças, querendo chegar num lugar qualquer, para longe daquele velho que o amedrontava.
O ar estava pesado. Um bafejo agourento, traduzido por uma lufada morna, apontava a uma mudança brusca na atmosfera, anúncio antecipado de uma chuva que cairia mais choro que tormenta.
Sentia um aperto no coração. A sensação cambiou ao perceber a aproximação perigosa de uma Kombi de caçamba aberta. Renée pulou para a calçada e deu um forte puxão na coleira, alçando o cão até um porto seguro. Salvou a vida de ambos. O carro vinha carregado de lâminas de vidro que ultrapassavam, em muitos centímetros, os limites horizontais do veículo, uma transparente guilhotina ambulante. Renée não corria o risco de ser atropelado. Não fosse pelo pulinho, no entanto, teria a cabeça separada do corpo como se fosse uma boneca cujo encaixe afrouxara por sucessivas decapitações não intencionais. Precisava da cabeça no lugar para poder fazer o novo penteado! E também para resolver algumas questões pendentes e inadiáveis.
O caminho até a pet shop foi feito com os olhos baços. Tentava pensar em coisas boas, no prazer resultado de um novo corte de cabelos, mas a pressão do ar poluído o fazia pensar em Clodovil Hernandes e suas alfinetadas a torto e a direito. Balançou a cabeça e conseguiu afastar a imagem do estilista afetado apenas para que em seu lugar fosse congelada a mais triste das realidades: sua extrema solidão. Não uma solidão intrínseca à situação humana. Não uma solidão escolhida como refúgio, mas uma parede praticamente intransponível, uma barreira que impedia o livre trânsito de quereres. E ele mesmo tinha construído aquele dique. Represara seus sentimentos e os transformara em queixumes, eternamente cansado, eternamente descontente com tudo e com todos.
O descontentamento era não mais que a manifestação palpável da insatisfação consigo mesmo. Quebrara tantas barreiras, conquistara tantas vitórias e terminara escondendo-se numa fortaleza que o impedia de comungar com o próximo. Precisava mudar tudo, mas como começar um novo começo? Sentia-se amarrado, como o país. Atado a atavismos profundamente enraizados na alma, uma sequência mal calculada de medidas de segurança exageradas.
Antes de passar a correia da coleira para a atendente da loja, olhou os olhos esbugalhados de Mustache e viu-se metáfora, um cão de Pavlov; babava ao escutar um sino, arrepiava-se ao pensar na dor, fechava-se à auto-imposta impossibilidade de movimentos. Era um fantoche manipulado pela mídia, não muito mais que isso. Triste realidade. A nação carecia de um empurrão, um cutucão mais enérgico. O fim não estava próximo. Muito a fazer. Era preciso assumir novas posturas, encarar os monstros de frente. E mais do que tudo, acreditar ser capaz de submeter-se às mudanças dolorosas, porém necessárias, à nova realidade. Assumir as cordas que lhe comandavam o corpo de boneco articulado.
Saiu da loja sem olhar para trás. Bastava de Mustache naquela manhã. A roupa de tecido sintético pinicava. Estava com fome. Caminhou como um zumbi, desatento, até a padaria do Manoel, sem perceber que sua vida fora ameaçada mais uma vez. Duas balas passaram a poucos milímetros de sua cabeça, enterrando-se no muro do prédio de esquina da ladeira da Nestor Esteves com a Santo Amaro.
Chegou à padaria e arranjou um banco no balcão. Pediu um suco de laranja, um pingado e um pão com manteiga, embora o estômago ansiasse por croissants e um suco de pitanga. Manoel, de longe, o encarou com uma careta e fez sinais para o atendente do balcão.
A mão delicada em seu ombro o tirou do torpor. Voltou-se para a direita e quase sorriu. Sentara-se ao lado da mãe do principezinho. Nunca tiveram oportunidade de conversar. Conheciam-se há anos, de bons-dias e olá-como-vais.
– Aconteceu alguma coisa com seu cachorrinho?
A voz de Adriana Garcia Marquez era suave e a preocupação lhe pareceu sincera. Ensaiou um sorriso.
– Não. Deixei meu biju na manicure.
Adriana fez uma careta engraçada.
– Curioso você falar de manicure. Acabei de encontrar com Hortência… Não foi bem um encontro… Ela estava transtornada.
A respiração profunda, pausada, Renée empertigou-se sobre o banco e agradeceu a chegada de seu pedido sem atinar que Manoel, o padeiro, o encarava carrancudo.
– O que você quer?
A pergunta fora feita com dureza. Adriana foi esquecida por um instante.
– Precisamos conversar…
A rudeza ficou explícita com a interrupção.
– Não tenho nada pra falar com você, sua…
Manoel olhou de relance para Adriana e completou a frase com um eufemismo.
– Sua encrenqueira!
Afastou-se, pisando duro, sem dar bom dia a Adriana.
Com um rolar de olhos bem menos afetado que de costume, Renée voltou-se a vizinha, metade do pão na mão esquerda sendo usado como aparelho apontador, indicando o padeiro que se afastava de volta ao caixa.
– Você já sentiu que tem dias que tudo o que faz resulta em alguma merda?
Divertindo-se de certo modo, Adriana franziu a testa e sorriu.
– Isso acontece com todo mundo…
Mastigando parte da metade do pão com manteiga, o travesti balançou a cabeça, veemente.
– An-han!
Adriana esperou que ele estivesse pronto a falar.
– Tenho um jeito muito meu de fazer as pessoas não gostarem de mim. Sou um assassino de simpatias.
O banco parecia querer fugir de suas nádegas não muito fartas. Adriana ajeitou-se, sem jeito. Nunca imaginou encetar tal tipo de conversa com Renée Druon, o desafeto do condomínio.
– Tem muita coisa errada por aí. Aos pouquinhos, certas coisas vão voltando pros seus eixos. Taí. Bem ou mal, os militares estão prometendo suavizar o regime.
Deu um gole curto, um gesto quase másculo. Adriana fez o comentário sem esperanças de que ele a ouvisse.
– Já se pode conversar sobre política abertamente.
Renée assentiu, sério.
– Pois é. Mas tem coisas que precisam ser feitas. Serviços sujos, sabe? Nem todo mundo quer ser o lixeiro…
Adriana percebeu que aquilo não era um monólogo e engatilhou, segura, sem medo de soar grosseira.
– Quem lhe elegeu o faxineiro do mundo?
Antes de abocanhar a outra metade do pão, disparou, de sua maneira afetada de sempre.
– Querida… Você também não gosta de mim, não é?
Com uma sobrancelha apertada sobre o olho, a mãe de Biel arqueou a boca num esgar sarcástico, prestando atenção aos movimentos da mandíbula do travesti que mastigava o pão como se pudesse destroçar qualquer animosidade.
– Não tenho razões concretas pra gostar ou desgostar de você, Renée!
O travesti deu de ombros, engoliu o bolo de pão e manteiga bem mastigados.
– Trés bien! Razões? Aqui começa mais um assassinato!
A expressão de Adriana era de incredulidade, mas isso não pareceu desestimulá-lo.
– Eu posso ter sido o causador do mal estar de sua amiga manicure. O marido dela me deu maquiagem de presente e eu não percebi que era uma forma grosseira de me dar uma cantada. Ela agora sabe porque eu pensei que o presente era dela. E dedurei o safado do marido dela na frente do inventor. Inocentemente… Pode acreditar.
Sem tirar os olhos de Renée, Adriana arqueou o nariz, marcando-o com rugas próximas aos olhos e expondo os dentes bem cuidados.
– Mais dois contra mim. Se você somar aos meninos da banda do fotógrafo, já tem uma multidão me rogando pragas.
– Por quê?
– Aquela banda incomoda todo mundo, mas ninguém tem coragem de reclamar porque o síndico, aquele alucinado com a morte, é amigo dos Lemague!
Adriana sorriu, divertida. Começava a entender o que o vizinho queria dizer com serviço sujo. Gostava de Merlin e de sua turma de maconheiros, mas alguém realmente precisava impedir que aqueles ensaios continuassem por muito tempo. Uma leve simpatia começou a se desenhar no coração da professora secundarista.
– E a conta vai engrossando. Esse maldito padeiro baiano tá danado da vida comigo porque eu ameacei denunciar a safadeza dele com a filha da Samanta. A menina não tem nem quinze anos ainda!
O tom de voz era propositalmente alto e Adriana incomodou-se que aquele segredo estivesse sendo comentado assim, indiscretamente.
– Renée, este é um problema que só diz respeito a…
Renée assumiu um ar mais ameaçador.
– Não! Engana-se a senhora, dona Adriana Marquez! Estamos falando de um adulto casado, pai de dois filhos menores, que tem um caso com uma menor de quinze anos, com o consentimento da esposa frígida e da mãe da criança! Isso é caso de polícia!
Pensando nas muitas implicações do caso, Adriana segurou o ombro do vizinho com alguma energia, como se ali fosse o ponto de controle do volume vocal.
– Renée. Manoel cuida bem de Neneca e da família dela…
Três piscadelas: o necessário para Adriana acostumar-se à transformação do travesti. Renée encurvou-se. Parecia um abutre maquiado. A voz assumiu um tom rascante, sombrio.
– Eu sei o que Manoel faz pela família. Mas ninguém perguntou à menina o que ele faz com ela. Eu perguntei! E é triste saber que tem gente de bem, como você, que aceita essa situação. Como se o sofrimento de Neneca fosse um preço razoável pelo bem estar da família miserável!
Sem argumentos, Adriana resolveu calar-se. Poucas pessoas poderiam entender os sussurros dele agora. Prestava atenção à articulação das palavras ciciadas e não notou que Hanna Arruda a cumprimentava, próxima à entrada.
– Não é!
Renée piscou, perturbado por algum inseto invisível. O discurso era cuspido, interrompido, frenético.
– Eu já tive uma família. E um nome. Irônico. André. Barnavi. Meu pai era um homem de bem, casado, três filhos. Batia na mulher. Homem de bem. Manoel também bate na dele, sabia? E nos filhos, todos. E em Neneca. Homens de bem. Meu pai me molestava, dona Adriana!
Adriana engoliu em seco, sentindo o frango descongelar sob seu braço, sobre a fórmica do balcão da padaria. Hanna aproximou-se lentamente, tentando reconhecer o interlocutor de sua vizinha.
– Meu pai me enrabava e me batia enquanto me chamava de meretriz. E eu nem sabia que isso significava puta. Minha mãe via tudo e não fazia nada, aquela… Meretriz! Uma senhora de bem. Eu tinha sete anos e já era a puta de meu pai. Um pequeno judeu de sete anos que cresceu com o pai brincando de enfiar o caralho no cu do próprio filho!
Adriana percebeu a chegada de Hanna e assustou-se. Sua expressão assustada fomentou o azedume de Renée, que sentenciou, sem perdão.
– Aprendi muito com ele, cheri! Aquele homem de bem me transformou numa prostituta! Belo judeuzinho de merda com a mãezinha judia que permitia toda a canalhice! Esses judeus só sabem tomar nosso dinheiro e foder com a vida alheia. São todos uns safados.
A atenção de Hanna desviou-se de Adriana para Renée. E ela reconheceu aquela aberração imediatamente. E acreditou ter entendido cada palavra infame da criatura. Renée lançou-lhe um olhar matador que não lhe era originalmente endereçado. Ao voltar o corpo, derramou a caneca quase cheia de leite pingado sobre o balcão, sem que o líquido pegajento atingisse os domínios das poças de degelo do frango de Adriana. A aberração completou, os olhos plantados sobre os olhos de Hanna, um perdigueiro feroz e furioso.
– E sabem, principalmente, foder com a própria prole.
Hanna balançou a cabeça, incrédula, viu a expressão espantada no rosto de Adriana e resolveu afastar-se sem dizer palavra, branca como uma folha de papel.
Sem saber se corria atrás da amiga ou ficava para ouvir o resto da confissão amargurada do travesti molestado, Adriana ficou de pé, observando Hanna sumir na Rua Andrômeda, os ouvidos atentos às palavras rancorosas de Renée.
– O que tá fazendo aqui, seu nojento? Já comeu? Vai embora, então!
Adriana voltou-se e deu de cara com Maria Silva, a mulher de Manoel, o padeiro pedófilo. Desviou o olhar para os braços da nordestina franzina e reconheceu as marcas de maus tratos. Renée não estava mentindo, tinha certeza.
O desprezo era óbvio; Renée jogou algumas notas de cruzeiros sobre o balcão, sem contar se precisaria de troco ou não. Levantou-se e caminhou para a saída. Adriana sentiu muita vontade de sorrir com o comentário aparentemente inócuo.
– Não esqueça da galinha.
Apanhou o frango e seguiu o travesti.
– Espera…
– Não é bom ser visto comigo agora, cheri. Sua amiga judia parece precisar de ajuda. Viu? Está somando os desafetos?
Com um forte puxão, Adriana agarrou o braço de Renée e o encarou desafiadora.
– Ninguém lhe deu o direito de se meter na vida alheia, Renée! Esse é o seu problema!
Renée reassumiu sua postura afetada tradicional.
– Vamos aumentar a soma!
E apontou o nariz de Adriana.
– Seu silêncio é um crime. Você se cala e se torna uma assassina. Meu problema é que somos todos assassinos! Ao permitir que bastardos tomem nossa nação sem corrermos o risco de perdermos a pele, somos assassinos de ideais, assassinos de sonhos! Quando permitimos que uma criança seja marcada para toda a vida por um canalha como o padeiro ou meu pai, somos assassinos mais cruéis ainda, porque a alma morre e o corpo permanece vivo, morrem os sonhos e ficam apenas os pesadelos.
Adriana balançou a cabeça, negativamente. Não havia muito a fazer com Renée Druon.
– Você é uma assassina como todos os outros, senhora dona Adriana Marquez.
Sem mais o que dizer, sem desejar ouvir mais nada, Adriana deu as costas para Renée e caminhou em direção do edifício em que moravam. A criançada estava reunida à frente do terreno baldio. As ancas magras de Adriana balançavam numa cadência pesada, um balé de vencida, um corpo a atravessar um turbilhão aquoso, evitando, por um triz, afogar-se naquela torrente.
Renée precisava tomar um banho de imersão, afogar essas mágoas submersas que voltaram, momentaneamente, à tona.
Atravessou a rua e gravou com perfeição cada expressão no rosto da garotada. Pareciam jurados num processo em que ele, o réu, ouvia o veredicto de culpado. A cena lhe pareceu congelada, um quadro doloroso a traduzir sua solidão, seu talento, sua sina.
Estava ainda sob o efeito daquele fuzilamento público quando tomou um grande susto. Estava mais alterado do que imaginava. Entrou no Tueris e, no grande hall do térreo, cruzou com Gelson Utinga, o mesmo Gelson que vira há instantes, no meio da rua, em frente ao terreno baldio, com a criançada que o sentenciara em silêncio. Aquela cópia, aquela alucinação, parou no meio do último lance de escadas antes de alcançar o patamar com o jardim central. Estavam sós; Renée e uma imagem fantasmagórica de um contador de histórias adolescente que o atraía sexualmente. Sentiu uma vontade quase incontrolável de rir ao pensar num duelo ridículo de pistoleiros num filme italiano de faroeste. O olhar da cópia do filho da designer era de desafio.
Caiu na gargalhada. Estava enlouquecendo. Desafiado por uma alucinação travestida de um desejo inconsciente? Será que Adriana não tinha razão? Será que seus desejos latentes não comprovariam que crianças molestadas se transformavam em adultos molestadores?
Não era hora de chegar a qualquer conclusão. Nem de prestar atenção às invenções tresloucadas de seu inconsciente. Atravessou o hall e subiu as escadas sem voltar a cabeça pra encarar a cópia de Gelson Utinga que o encarava imóvel.
Chegou em casa e abriu a torneira da banheira, lacrando a saída do ralo. Em poucos minutos estava jogado em meio a uma cordilheira de espuma de banho olorosa, preparando o espírito para esquecer e esquecer-se por algumas horas restauradoras.
O primeiro espasmo o fez dobrar o abdômen com violência. Saiu da banheira e sentou-se no trono, desfazendo-se em merda rala, talvez consequência do pouco veneno que ingerira com o leite pingado servido pelo padeiro. Mais uma vez, Renée livrara-se da morte por causa do acaso. A diarréia causada pelo raticida duraria, no máximo, uns quatro dias.
A caricatura de mulher que se acreditava o salvador da pátria, passou boas horas em seu banheiro, pulando da bacia sanitária para a banheira, do banho de espuma, que esfriava rapidamente, para a disenteria fétida e dolorosa, numa caricatura de sauna que o fez suar muito. Na sétima vez em que sentou no trono, nada saiu, garantindo-lhe que já era hora de ir buscar Mustache. Tomou uma chuveirada refrescante, preparou soro caseiro com açúcar e sal, engoliu de uma vez, vestiu-se com um macacão amarelo-ovo justíssimo, calçou um par de sapatos stiletto e carregou na maquiagem. Estava vestido para matar ou morrer.
Saiu de casa e deparou-se com Gelson. Desta vez era o Gelson real, acompanhado do surdo do 34. Lembrou-se do olhar da garotada e foi propositalmente irônico, carregando nas tintas, insinuando uma relação que sabia não existir.
Ouviu a voz de Hanna Arruda e sorriu. Ela sempre o tratara com desprezo. Depois de seu comentário na padaria, não teria mais muita paz, cogitando bobagens sobre o marido, que bem poderia ser tão canalha quanto seu próprio pai.
Desceu as escadas sem muito interesse em conversar com ninguém. Deu de cara com uma desconhecida gorda e com a gorda da judia que não mais fingia ser educada, à porta.
Cumprimentou dona Julieta Bentes e Hélvio, os únicos moradores do Tueris por quem nutria algum tipo de afeto (sem contar com a família do zelador).
Saiu à rua, um toc-toc cadenciado chamando atenção de todos, até o pet shop onde apanhou Mustache, tosado e de unhas aparadas. Não pretendia voltar ao Tueris de imediato. Andou pelas ruas do centro, vendo gente, tentando ler as pessoas, entender cada impulso, prever os sonhos, escutar os medos em cada gesto, cada olhar, cada entonação de palavra pescada casualmente.
Saiu da Nova Barão e dobrou à esquerda em direção do Mappin. Viu, ao longe, Marlise Utinga e acreditou ser a hora de saborear o resto da refeição fria, completar a vingança. Puxou Mustache e ziguezagueou, com certo desembaraço, entre os pedestres até alcançar a designer numa das entradas da grande loja de departamentos. Aproximou-se furtivamente e, sem qualquer prévia preparação, expôs as garras (não fora ele a visitar a manicura) e falou, a língua como navalha.
– Tome cuidado com Oscar Delgado. Ele é surdo, mas não é castrado!
Afastou-se sem dar tempo a Marlise de esboçar qualquer reação. Não olhou para trás, para não se arrepender. Uma parte do peito ardia como uma ferida exposta. O que pensara? Que seria fácil? Ser cruel exigia sacrifícios além do razoável. Como o herói vence o medo, o bandido precisa matar a consciência, qualquer resquício de humanidade, o afeto mais sincero.
Estabeleceu um ritmo alucinado, atravessando o viaduto do Chá como um furacão arrastando um cãozinho com cara assustada, abrindo caminho em meio à multidão de atarefados e desocupados que se mesclavam sem distinção. Quase sem perceber, Renée Druon descobriu-se na Praça da Sé, em frente à catedral que há muito precisava de cuidados, mais uma palmeira plantada a poucos metros do marco zero. Sem coragem para entrar na nave da casa de Deus, sentou-se no banco de concreto e ali, sob os gritos de admoestação de crentes e anúncios de pente, loterias e jogo do bicho, deixou que o peito se adiantasse à chuva prometida.
Chorou de soluçar. As resoluções da manhã transformando-se em pouco mais que nuvem passageira, esvaindo-se com uma frase com meia dúzia de palavras venenosas.
– O sangue de Cristo tem poder!
Levantou a cabeça e conseguiu perceber o vulto de pouca estatura aproximando-se, um braço estendido como um nazista em continência, um livro aberto, certamente uma bíblia, na outra mão. Uma visão pouco alentadora.
– Arrepende-te, criatura. Deixa que a paz do Senhor invada seu coração empedernido!
Não podia sequer chorar em paz! Olhou para o rosto do homem feio que não deveria suspeitar o que era materialismo histórico nem ópio das massas. Quase sentiu pena daquele macaquinho ignorante bem treinado. Levantou-se, ameaçador, deu um safanão no baixinho que pretendia catequizá-lo e puxou Mustache, afiando a língua, mais uma vez.
– Vai tomar no meio do seu cu!
Atravessou a praça e ouviu um clarinetista tocando as notas iniciais da Rhapsody in Blue, de Gershwin! As lágrimas saíam-lhe dos olhos como as águas das fontes à frente da catedral maneirista, mais feia que bonita. Perdeu-se pela Avenida da Liberdade, levado pelo rio de lágrimas que vertia em profusão. Esperou a fonte secar em frente à banca de revistas da estação do metrô e descobriu um lenitivo nas ruas vicinais, gastando todo o tempo do mundo para observar cada peça posta à venda nas muitas lojas identificadas com garatujas que não conseguia traduzir. O dia foi, lentamente, preparando a chegada da noite e da chuva e Renée achou por bem retornar a casa, seu último refúgio.
A umas duas quadras do edifício, reconheceu o vizinho que morava no apartamento ao lado do seu. Havia algo de terrivelmente assustador em sua expressão ausente. Porém Renée sentia-se tão vazio que mesmo a possibilidade de flertar com o perigo parecia uma experiência válida, naquele momento.
– Você é o meu vizinho do terceiro andar.
A ausência foi substituída por uma expressão de alerta. Com essa cara, Romildo Rotti encarou Renée Druon, dando pouca atenção ao cachorro minúsculo. O rosto foi se transmutando: de ausente a alerta, e então a incomodado. Renée tentou ser simpático, sorrindo, apesar de estar irritado com o cachorro que estancava feito asno empacado.
– Vamos, Mustache! Vem com a mamãe, vem. É um menino muito desobediente, meu biju.
Renée percebeu que Mustache latia desacatando o vizinho que o olhava feio.
– Seja educado, biju. Ele é nosso vizinho, cherrí.
Qualquer animal percebe o medo. Renée farejou o medo em Romildo, mas o traduziu como timidez. Por que não, afinal? Seguiu o rapaz que, tímido, bancava o antipático.
– Renée. Meu nome é Renée. Eu moro no 32, ao lado do seu apartamento.
Fez uma pequena pausa, dando-lhe tempo para digerir a informação e saborear o nome que lhe jogara como uma flor, um convite despudorado.
– Esta cidade às vezes é tão desagradável, não é?
A resposta ampliou sua confiança.
– Muito. Mesmo.
– As pessoas se protegem sob máscaras, escondendo o que são de verdade para terem a ilusão de que podem ser livres.
Romildo estancou.
– Como?
Com um passo para trás, Renée preparou-se para retomar o discurso. A isca havia sido abocanhada. Agora era só uma questão de gerenciar o comprimento da linha, puxar e soltar, puxar e soltar, com paciência, um jogo delicado de avanços e recuos.
– As pessoas que moram neste monstro de cidade vivem evitando as outras. É como um grande palco em que as personagens escondem a verdadeira identidade com papéis estereotipados…
A testa franzida de Romildo não arrefeceu o impulso de Renée. Era um balé, os passos acompanhando o Bolero de Ravel.
– O que você quer…
– Eu não nasci Renée, meu querido.
– Tenho certeza disso.
– Veja bem. Nós moramos um ao lado do outro há mais de dois anos e nunca trocamos palavras. Eu olho para você nessas roupas baratas e não consigo ver o jovem elegante que sai à noite naquele carro sem capota…
– Você anda me espionando!
Renée arregalou os olhos.
– Espionando? O que é isso, meu bem? Da varanda do meu apartamento eu consigo ver o estacionamento em frente, onde você guarda seu carro. Qualquer pessoa que mora no Tueris pode ver você saindo toda noite.
Mustache emitiu um ganido.
– Você anda me espionando.
– Admita, querido. Somos a prova da monstruosidade desta cidade sem alma. Vivemos num mundo em que as ameaças pairam sobre nossas cabeças. O Brasil, apesar da inflação escandalosa, está para inaugurar uma usina nuclear que pode explodir e matar um montão de gente. O futuro é incerto. O presente é tenebroso. Somos dois solitários que se escondem sob camadas de segredos, vivendo nossas vidas sem sentido por causa de perdas irreparáveis no passado.
– Solitários…
– Apesar de toda a torcida contra, o feioso Charles e a encantadora Diana resolveram compartilhar suas solidões. Por que temos que continuar nos isolando quando podemos dividir as mazelas com nossos semelhantes?
– Então… O que você propõe?
Renée estava animado.
– Que bom que estamos começando a nos entender. Que tal conversarmos em meu apartamento tomando um delicioso chá inglês?
Romildo pareceu pestanejar, olhando para o Tueris.
– Vamos, querido, vamos.
– Vá na frente e prepare o chá. Preciso passar no mercado pra comprar umas coisas.
Renée voltou-se, querendo rir do choro na praça da Sé. O sorriso foi afogado pelo ganido do cachorro cuja pata havia sido tratada pela veterinária e maltratada pelo salto agulha do dono.
– Perfeit… Oh, biju, pardon!
– Então tá combinado. A gente se vê daqui há pouco.
Romildo encaminhou-se para o mercado do coreano e Renée apressou-se em subir ao apartamento para preparar uma noite promissora.
O edifício estava estranhamente quieto. Dona Julieta o cumprimentou enigmática sem tentar interromper sua escalada até o terceiro andar.
– As aparências enganam, Renée.
– Boa noite, dona Julieta.
Enquanto passava pelos andares, sentiu-se observado por olhos invisíveis, uma perseguição mágica numa antecipação trágica… Entrou no apartamento e pôs água na chaleira para esquentar, torradas no forno para ficarem crocantes, uma garrafa de vinho Riesling no freezer para temperar e pacotinhos de chá inglês no bule, esperando a água que liberaria seus aromas.
A banda do fotógrafo reiniciou o castigo aos ouvidos dos vizinhos. Não poderia permitir que esse detalhe estragasse a noite. Separou uns discos de música romântica e decidiu-se por Billie Holiday como repertório inicial.
Sob o olhar abobado do cachorro tosado, destrancou a porta de entrada e a deixou entreaberta. Foi até a cozinha e despejou a água fumegante no bule. Havia algo de muito estranho com o dono. Mustache não gostava da mudança de comportamento; no que dizia respeito a Renée Druon, a bonança sempre prenunciava a tempestade. Achou por bem aninhar-se sobre o tapete do banheiro, esperando pelo pior.
Renée verificou tudo, satisfeito. Foi até o quarto e apanhou o caderno de capa de couro que permanecera, obedientemente, onde tinha sido abandonado pela manhã. Precisou procurar pela caneta que se deixara abraçar pelas dobras das roupas da cama, escondendo-se numa prega do lençol de linho branco espremida entre volutas do edredom cor de vinho. Voltou à sala e jogou-se no sofá de veludo cotelê num tom indefinido entre a fúcsia e o grená, de frente para uma cadeira rococó de madeira estranhamente pintada de pink e uma poltrona estofada coberta de fustão púrpura de linhas retas e austeras. A mesa de centro era um bloco de madeira de um metro quadrado coberto por lâminas de aço escovado, nas laterais, e laminado plástico preto, no tampo. As mesas laterais, duas, eram idênticas e assemelhavam-se à central, porém mais altas.
Sobre o tampo da mesa, Renée jogou os pés descalços e abriu a caderneta na página usada naquela manhã. Usou a página seguinte para descrever, em linhas econômicas, os encontros do dia, caprichando nos temperos da conversa com Romildo Rotti acontecida há poucos minutos.
Pareceu-lhe escutar alguma coisa no hall fora de seu apartamento. Deixou o livrinho sobre o sofá e deu uma espiada naquela direção, antecipando a chegada daquele que acabaria com todas as agruras de uma vida solitária.
Apagou a luz da sala, o abajur lateral de papel chinês dava perfeita conta da iluminação. Caminhou, apressado, até a varanda para olhar a chuva que começava, fininha, e assumir uma postura em que a ansiedade não ficasse óbvia. O corpo tremia como mimetismo ao frêmito de Mustache no início do dia. A voz fanhosa da cantora negra atacou com “Embraceable You” e o travesti vestido de amarelo-ovo sonhou um sonho molhado, olhando a chuva e sentindo o olor adocicado do chá que se espalhava pela noite.
Um tanto irresponsável (a paixão transforma a todos em ridículos audazes adolescentes), projetou o corpo para fora da varanda, deixando que algumas gotas lhe escorressem pelo rosto, deliciado. Fechou os olhos para atentar aos sons da cidade. Voltou à segurança da varanda, protegido dos pingos da chuva e da telha assassina que despencou do telhado, atravessando o espaço há pouco ocupado por seu rosto.
Uma pequena sinfonia de telefones soou pelo edifício. Cada andar participando com um ou dois aparelhos. Cada voz foi sendo calada até que não sobrou nenhuma.
Ouviu o ranger das dobradiças da porta sendo aberta e sorriu, o coração aos pulos. Passou o dorso da mão esquerda sofre a face, tentando enxugar a chuva e o choro que se mesclavam, sem pudor, à maquiagem que se desmanchava, lânguida.
– Eu sabia que isso aconteceria, mais cedo ou mais tarde.
O movimento na sala foi interrompido, Renée tremia de excitação, antecipando o contato físico, o enlevo que transformaria seu corpo em leve pluma a pairar sobre o céu da cidade cinza.
– Era inevitável…
As gotas da chuva engordaram e um arrepio ligeiro usou sua coluna vertebral como tobogã. Ah, doce sofrimento! Ah, dolorosa antecipação! Voltou-se para encarar seu algoz, um carrasco impiedoso que o fazia antegozar o desfecho.
Conseguiu abrir a boca, mas o grito emudeceu nos lábios rubros. O empurrão foi rápido e preciso. O corpo fez um giro sobre a balaustrada da varanda e projetou-se no espaço vazio. Tudo deixou de ser importante antes de estatelar-se na calçada da Tenente Fustado.
Renée Druon caiu como uma pedra, mas, num átimo, sentiu o corpo perder peso e atravessar o universo, projetado em linha reta como o último raio de sol que bruxuleava entre as nuvens plúmbeas que antecipavam a tempestade.

XXIII · erpmes, opmet o moc odnacnirb

25 nov

Gelson Utinga abriu os olhos estranhando o silêncio.
As férias garantiam a possibilidade de varar madrugadas durante a leitura de um romance policial instigante ou a biografia presumida de uma personagem histórica sem que Marlise o censurasse duramente. Era um leitor incansável. Não resistia em derramar os olhos sobre fórmulas resumidas em rótulos de produtos alimentares, de limpeza ou higiene. Em casa alheia, não se furtava à leitura atenta de qualquer texto ao seu alcance ou à tentativa em decifrar cada termo a povoar as bulas dos medicamentos espalhados sobre os balcões e prateleiras dos banheiros, enquanto aliviava a bexiga. Sequer lhe escapavam quaisquer anotações em papeletes largados sobre escrivaninhas, mesas ou aparadores; indiscretamente curioso, absorvia, sem distinção ou preferência, alfarrábios antiquíssimos, anotações personalíssimas, dados sigilosos e listas de compras sem qualquer importância.
Consumira os recortes mórbidos de Lourival Pontes em porções, como capítulos de um folhetim sensacionalista, a cada rápida visita ao lar do síndico, na incumbência de garoto de recados; lia metade de um recorte ao trazer um documento assinado por sua mãe, a outra metade ao apanhar uma comunicação do velho colecionador à designer desempregada.
Afastou o livro que desabara sobre o peito: um romance presenteado pelos amigos rigelianos, trazido de um tempo futuro – Gelson antecipava-se às gerações vindouras e saboreava com prazer redobrado cada parágrafo da aventura redigida por J.K. Rowling.
Piscando muito, verificou o horário no relógio da estante.
Os pentelhos surgiram em sua vida acompanhados de comichões enervantes. Coçava, sem se dar conta, os pêlos da cabeça e da região pubiana antes de despertar completamente.
Caminhou até a sala, vestido apenas com a slip branca e uma camiseta amarela desbotada com o rosto gravado de Ernesto Guevara. Achou a mãe jogada no sofá de couro tingido de branco, ressonando de leve. Havia uma taça com vinho tinto pela metade sobre a mesa de centro. A garrafa, vazia, estava deitada sobre o tapete, também branco, desses que parecem um jardim de grama japonesa.
Não lembrava qual mão usara para coçar as partes baixas. Cheirou as duas. Elegeu a esquerda para cutucar a mãe.
– Não era hoje a entrevista, Marlise?
Sem abrir os olhos, a designer pareceu saborear os fluidos acumulados na cavidade bucal antes de articular a pergunta numa voz pastosa que alcançou Gelson no bonde em que também viajava um bafo etílico de respeito.
– Que horas… São?
Gelson pôs a mão em cuia à frente da própria boca e soprou. Fez uma careta: tampouco seu hálito era agradável. Marlise tentou ser incisiva.
– Que horas?
¬– Cinco pras dez.
Pulou do sofá como uma possessa sem emitir qualquer som. Gelson assustou-se com a atitude da mãe e quase perdeu o equilíbrio. Seguiu Marlise até a porta da suíte. A mãe dirigiu-se ao banheiro e Gelson continuou até a cozinha. Enquanto Marlise preparava-se para o compromisso ajustado a duras penas (ouvira injunções desagradáveis e engolira muitos sapos para ter o nome adicionado a uma lista lendária), Gelson prepararia o desjejum. Voltando a coçar os pentelhos, demorou alguns segundos para decidir por onde começar.
Não queria crer, mas a voz esganiçada de Renée Druon reverberou pelas paredes do edifício; reconhecia o timbre do travesti, mas não conseguia entender as palavras, como se fosse um lamento fantasmagórico, uma memória embaçada, um sussurro malfazejo. Balançou a cabeça para espantar aquela assombração auditiva e iniciou um ritual infrequente, porém não raro.
Marlise penetrou a cozinha no exato momento em que o café, os pães e os ovos estavam prontos. Havia queijo prato, bolacha, manteiga e leite, além de geleia de morango e requeijão fundido. Beijou o filho na testa e sentou-se à mesa, deixando uma pesada pasta portifólio de couro preto sobre a cadeira do lado. Depois de engolir o farnel com um afã que fez Gelson acreditar que não faria diferença se tivesse preparado tudo com papel, cola e tinta, Marlise agarrou o portifólio e levantou-se, esbaforida.
– Deixa tudo aí que eu lavo depois, tá bom?
Mais um beijo na testa, desta vez sabendo a ovo e café. Marlise saiu pela porta da cozinha, deixando Gelson ainda mastigando um pedaço de bolacha de água e sal coberta com Polenghinho, grunhindo algo em resposta, sem esperanças de que a mãe o ouvisse.
O ovo não estava nada mal. Terminou o café, guardou na geladeira tudo o que precisava de refrigeração, limpou a mesa sem deixar uma migalha de pão ou bolacha, um pingo sequer de café ou leite, lavou toda a louça e voltou para o quarto, caminhando lentamente. O relógio marcava 10:17h. Tinha ainda treze minutos até que Klpytdy e Tajkdy chegassem para levá-lo. Aquele era o dia.
Foi até seu banheiro, tirou as poucas peças de roupa que vestia, enfiou-se sob o chuveiro e abriu a torneira. O jato de água gelada atingiu-o rudemente, apagando qualquer sinal de torpor completa e imediatamente. Não levou mais que oito minutos para ter todas as partes do corpo cascavilhadas e ensaboadas. Mais água para tirar o excesso de espuma e estava terminado o banho.
Jogou a camiseta com o Che e a cueca no cesto de roupa suja e aprontou-se em pouquíssimo tempo. Sentou-se no sofá da sala e esperou. Lembrou de como custara a convencer seus amigos a fazer aquele passeio, a levá-lo numa viagem através do espaço e do tempo. Verificou o relógio de pulso, falando para si mesmo.
– Parece que hoje é o dia dos atrasos…
As duas criaturinhas pularam do telhado para a varanda e balançaram os braços no cumprimento habitual. O autor não pretende transformar esta narrativa numa coleção de notas de rodapé, portanto poupará você do trabalho de procurar pela tradução da conversa feita em rigeliano – toda frase na língua dos viajantes do tempo será, então, redigida em itálico.
Klpytdy sorriu daquele seu jeito sem jeito.
– Se vamos, não há razão para mais demora.
Gelson carregou nas tintas, com os parcos conhecimentos da língua, tentou deixar clara toda irritação.
– Não eu fui-me a atrasar, sim vocês!
Tajkdy, sempre de melhor humor, deixou escapar uma risada que soava como os arrulhos de um casal de periquitos, deixando Gelson na dúvida se ria da situação ou de sua prosódia.
Klpytdy cutucou o ouvido, educadamente, e ensaiou uma desculpa corroborada pelos movimentos circulares dos ombros de Tajkdy.
– Tivemos problemas no transconversor de empuxo, chegamos meia hora atrás e achamos nós já aqui. Durante tentativa de correção de momentum, escorregamos para mais adiante no tempo e nos deparamos com a nave ainda aqui.
Com um movimento rápido da mão, Gelson escancarou a porta da varanda e torceu o nariz num convite explícito para que os amigos entrassem na sala. Tajkdy sorriu abertamente e comentou, sarcástico.
– Pensei que não nos convidaria…
Fazendo um esforço para entender a situação apresentada pelo amigo de outra galáxia, Gelson imaginou o terraço do Tueris abarrotado de cópias da navezinha rigeliana e relaxou a pressão nos músculos da testa.
– Acertamos a hora na terceira tentativa.
Gelson olhou o relógio de pulso e rebateu.
– Acertaram quase de erro. Atraso um de quinze minutos! Conversa não fica a viagem que precisa!
Com uma inclinação leve da cabeça, Tajkdy parecia um cachorro que olha o dono sem entender seu desejo.
– Quer que saiamos agora para o passeio?
Gelson o olhou sério, arqueando as sobrancelhas.
– O que foi eu falei não isso?
Klpytdy explicitou sua censura ao piscou os olhos rapidamente.
– Não, com certeza!
Tente imaginar como os papos amigáveis entre o garoto terrestre e seus amigos rigelianos se desenrolavam. Entre frases arrevesadas, Gelson cortou um dobrado para convencer Klpytdy e Tajkdy a levá-lo num passeio para o futuro.
Subiram pelas escadas até o grande terraço no teto do edifício, onde estava a navezinha e Gelson chegou a duvidar que estivesse para fazer a coisa certa. A dúvida se ampliou com o comentário de Tajkdy.
– Vai sentir frio.
A nave tinha uns dois metros e meio de diâmetro, no máximo três. Entrar na pequena bólide extraterrestre não foi muito complicado. O problema ficou claro quando estava lá dentro: havia apenas duas cadeiras próprias para uso de nascidos em Rigel. Se Gelson tentasse sentar numa delas, ficaria com meia bunda para fora. Ocupar a área de navegação era impossível, já que os pilotos precisavam fazer suas cadeiras deslizarem pelo convés, de um instrumento a outro.
Restou-lhe o compartimento de carga.
– Sufocado eu morrer aqui vou! Caralho, vou perder o melhor da viagem!
A expressão séria de Klpytdy, enquanto fechava o compartimento em que teria que viajar em pose fetal, tranquilizou-o quanto ao seu bem-estar, mas não foi de grande ajuda quanto a ficar chateado por perder a vista.
– Não, com certeza! Jal-ysy ficará seguro!
Os motores da nave foram acionados. Gelson preparou-se para prender a respiração. Sentiu um leve estalar do ar e engoliu em seco para que a pressão nos ouvidos diminuísse. Um frio agudo percorreu seus ossos. Ouviu o clique da porta do compartimento e preparou-se para ouvir o pior. O rosto sorridente de Tajkdy surgiu na fresta da porta entreaberta.
– Problema algum surgiu?
O sorriso do extraterrestre ampliou-se.
– Sem problemas! Chegamos!
Gelson franziu a testa e esticou-se para fora do compartimento de carga, incrédulo. Olhou o relógio. Cinco segundos haviam se passado.
Enquanto ouvia os motores serem desligados, desceu da navezinha, esfregou os braços para esquentá-los e, com um nó na garganta, caminhou para as escadas que o levariam aos andares de baixo, pedindo aos amigos, com sua sintaxe atravessada, para que o esperassem ali.
A ideia original tinha sido apanhar o livrinho de anotações de Renée Druon. Era necessário garantir que o caderninho fosse parar no passado (como havia já estado!). Foi no caderninho que ele descobrira a informação que usaria para chantagear Renée e deixar a vida de Neneca continuar seu rumo desgovernado. Se era assim que a amiga queria, faria de tudo para impedir Renée de denunciar Manoel e Neneca. Não tinha escolha. Precisava apanhar o livrinho para que o contínuo espaço-temporal não fosse rompido!
Correu feito um desesperado, mas estancou de chofre, ao perceber o horário no relógio do andar. Estava adiantado! Muito adiantado! Não poderia pegar o livrinho naquela hora! Bem que estranhara haver tanta luz. Deveria ter desconfiado lá no terraço.
Parado no meio da escada, ouviu uma porta sendo aberta.
Espiou para o andar inferior e reconheceu o amigo. Mas também conseguiu saber que Oscar Delgado estava passando por algum apuro. Falou mais alto para poder ser ouvido sem dificuldades.
– Tudo bem, Oscar?
A expressão de Oscar era preocupante. Pensou em Klpytdy e Tajkdy na nave logo acima e pensou em seu atraso e no erro da hora da chegada – eles bem que mereciam tomar um chá de cadeira rigeliana. Abriu seu melhor sorriso. A frase de Oscar soou destituída de qualquer ânimo. Acabara de passar por um de seus blecautes.
– Tudo bem, Gelson?
Não economizou em cutucar a ferida do amigo.
– Há quanto tempo você não visita sua mãe?
Gelson desceu para encontrá-lo no patamar do terceiro andar e espantou-se que Oscar não o estava esperando, mas também descia. Talvez pensasse que estaria saindo também.
– Desculpa, não queria ter sido grosseiro. Mas você tá com uma cara horrível… E faz tempo que você não fala de sua mãe ou de seu irmão.
Alcançou o amigo e surpreendeu-se com a secura de Oscar.
– Perciso cumê alguma coisa. Geladêra tá senada.
Gelson agarrou seu braço esquerdo.
– Olha, eu posso preparar uns sanduíches lá em casa. Que acha?
Rapidamente, Oscar voltou-se para ele. Conseguira chamar sua atenção. Mas aí a porta do apartamento 32 foi aberta com estardalhaço.
Oscar e Gelson voltaram-se para Renée Druon, um sol num tom amarelo bastante desafinado. Os amigos voltaram a se olhar. Mas a voz de Renée saiu carregada de maldade.
– Como está Marlise, Gelsinho?
Gelson respirou fundo. O que ele queria? Esboçou um largo sorriso e respondeu da maneira mais agradável possível.
– Bem, obrigado.
O sarcasmo foi redirecionado a Oscar. Nunca ouvira Renée tão viperino.
– Ela não está em casa agora, está?
Hanna Arruda gritou no segundo andar.
– Sem correr, Davizinho, sem correr!
Quase chamou pelos amigos, queria saber como andavam os preparativos, mas havia mais a fazer naquele momento.
– Assim não vale, Biel!
Ouviu a voz de davizinho e largou o braço de Oscar. Respondeu ao travesti com vontade de enforcá-lo.
– Ela vai voltar às quatro… Acho.
Não viu o biquinho que Renée ensaiou para Oscar.
– Bastante tempo…
Gelson percebeu que o amigo surdo se preparava para descer e resolveu tranquilizá-lo com um sorriso e um sinal para que o seguisse até o 41. Não entendeu o que aconteceu. Oscar parecia decidido a ir embora, mas parou, olhando a porta do ex-apartamento de Felipe Dias. Deu meia-volta e subiu os degraus. Gelson ficou feliz. Desafiar Renée era um exercício interessante naquele momento.
Os dois chegaram à porta da cozinha do 41, ainda ouvindo o travesti descer as escadas sobre seus saltos agulha. Gelson destrancou a porta e deixou Oscar entrar. Indicou uma das cadeiras da mesa da cozinha e encaminhou-se para o banheiro. Precisava passar água no rosto.
Tomou um susto dos diabos ao ser jogado contra a parede do estar íntimo. O susto transformou-se em terror ao reconhecer o próprio rosto por trás do indicador sobre os lábios apertados num biquinho.
O seu eu atacante o liberou. Não sabia o que fazer. Ajeitou os óculos sobre o nariz e foi puxado para a sala de estar.
O outro Gelson abriu a porta de entrada e sussurrou.
– Klpytdy e Tajkdy são uns atrapalhados mesmo! Você precisa sair daqui agora. Eu cuido de Oscar. Você precisa voltar mais tarde!
Saiu do apartamento, com cara de bobo e a porta foi fechada atrás de si. Lembrou do comentário de Klpytdy e balançou a cabeça, não acreditando na sua falta de sorte. Arranjara um par de patetas para ajudá-lo num plano que parecera perfeito. Já tinha a informação que precisava para encostar Renée na parede, mas precisava ir até o futuro para pegar o caderninho que garantiria no passado que saberia da informação. E tudo estava começando bem mal.
A porta foi escancarada às suas costas, fazendo-o pular de susto. O outro Gelson o cutucou no ombro. Voltou-se irritado.
– O que é, agora?
A expressão divertida em seu próprio rosto, estampada naquele que não era ele (mas que o era, assim mesmo) o deixou mais irritado ainda.
– Calma! Fale baixo! Tire isso!
Olhou para a mão que seu eu futuro lhe estendia, apontando o seu relógio de pulso. Não atinou para o significado daquilo.
– No seu pulso ele é inútil.
Completou a frase, como se fosse a mesma pessoa (afinal, era mesmo).
– Vou deixar no terraço. Pra saber se aqueles malucos acertaram o horário!
Conseguiu refrear o impulso de agradecer à sua cópia. A porta havia sido fechada outra vez, de qualquer jeito. Sorriu, entre divertido e preocupado. Subiu as escadas com cuidado. A porta do apartamento de Merlin Mário Lemague havia sido aberta.
– Muito louco esse bagulho!
– Só!
Não era o vizinho, mas seus amigos da banda.
– Onde é mesmo?
– Ali, caralho! Tá vendo? Lixo tem cara de lixo em qualquer lugar, meu!
Alcançou o terraço, tirou o relógio do pulso e o deixou no parapeito do janelão. Tajkdy sorriu e balançou os braços, mas desistiu ao ver a expressão carrancuda de Gelson.
– O que aconteceu?
– Erro vocês hora antes!
O pequeno rigeliano voltou os olhos para o companheiro.
– Eu falei, Klpytdy, eu falei!
Gelson embarafustou-se no interior da nave e não esperou que abrissem o compartimento para enfiar-se nele.
– Embora daqui sairmos! E não vista Terra de longe verei! Chegar casa preciso hora saída.
Tinha a reunião com a garotada. O rosto de Tajkdy parecia constrangido enquanto fechava o compartimento.
– Vocês confusão muita antes fizeram!
O rigeliano não respondeu. A pressão no ouvido se repetiu, assim como o frio quase congelante, e o rosto surgiu logo depois. Gelson pulou de dentro do “porta-malas” da nave, desceu esbaforido e verificou o relógio que ficara no janelão. Agora estavam atrasados!
Voltaram ao passado, mas chegaram quase uma hora mais tarde. Correu feito um endemoniado, só faltava a turma ter-se dispersado sem que seu plano recebesse o aval de todos.
Estava para alcançar o segundo andar do edifício quando cruzou com Adriana Buendía Marquez, a mãe de Biel a quem chamava de tia. Sem diminuir o passo, a cumprimentou.
– Bom dia, Tia Adriana!
Nem percebeu que Adriana o seguia com os olhos cujas sobrancelhas se multiplicavam, na testa, em três vincos profundos.
Alcançou o segundo andar e de lá, pulando os degraus de quatro em quatro, chegou ao térreo. Renée Druon o deixou completamente sem graça, chegando da rua, vestido quase como homem. Dona Julieta havia abandonado seu posto para fazer alguma coisa em seu apartamento (Xixi?). O olhar do travesti estava carregado. E Gelson não sabia dizer do quê. Sua maldade no encontro com Oscar o deixara um tanto aparvalhado. O pior é que o encontro já acontecera para ele Gelson, mas não para Renée.
Não poderia esquecer que estava viajando no tempo, numa aventura amalucada, à mercê dos guias rigelianos atrapalhados que não conseguiam controlar a própria nave e ficavam jogando-o para frente e para trás, num labirinto de passados e futuros entrelaçados. Tinha que manter a cabeça no lugar sem perder a noção do que era agora, antes e depois.
Gelson resolveu reassumir o ar de desafio do encontro anterior (que só aconteceria algumas horas mais tarde) e não conseguiu evitar arregalar os olhos ao ver a expressão misteriosa do travesti transformar-se numa gargalhada quase histérica. Era preciso tomar cuidado com aquele homem. Ele parecia louco. Renée atravessou o hall e subiu as escadas sem voltar a cabeça pra encarar Gelson, que o encarava imóvel.
Já havia sentido os olhos do travesti pousarem pesadamente sobre si e acreditara que eram olhares de desejo, um desejo que o repugnava, mas que não o deixava preocupado.
Aquele olhar tinha sido algo bastante diferente: Renée Druon o olhara com olhos de assassino. E Gelson não estava preparado para isso.
Dona Julieta voltava em seus passinhos de pinguim. Sua voz cavernosa o atingiu profundamente, como o fio de um machado que chega à nervura que equilibrava o tronco, algo quebrou por dentro, como o estalo que antecede a queda de uma grande árvore. Gelson ouviu as palavras, com clareza, mas pareciam vir acompanhadas de um berro ancestral, um aviso, um alarme.
– É muito perigoso brincar com certas coisas, Gelsinho!
Completamente desnorteado, saiu do edifício.
Na calçada, uma mulher gorda com sotaque estranho o interpelou.
– Por fabor! Save onde fica o Tuerir Furtado?
Gelson a olhou com desconfiança e apontou para o letreiro acima da entrada do edifício em que morava. A mulher pestanejou, desconsertada, e agradeceu em puro castelhano.
– Muchas gracias!
Dobrou a esquina e tomou novo susto. Lá estava ele mesmo, à frente da garotada. Estancou e percebeu que seu outro eu gesticulava para que voltasse ao edifício. Franziu a testa. Pelo menos a reunião acontecera. Seriam os erros de Klpytdy e Tajkdy parte de um roteiro pré-programado que culminaria no livrinho de memórias de Renée Druon ter chegado a suas mãos na noite anterior?
Cruzou o hall de entrada e passou por dona Julieta, a moça gorda e Hélvio. O pai de Maleco, sempre simpático, o interpelou.
– Nossa, Gelson… Até parece que o mundo… Acabou…
Subiu as escadas sem responder, lamentando parecer mal educado. Chegou ao terraço e não se deu ao trabalho de fazer cara feia para os rigelianos. Apenas comentou, ausente.
– Errada hora… Uma mais vez…
Entrou na nave e saiu cinco segundos depois, esfregando os braços para esquentar-se. Estava escuro e havia outra nave lá, preparando-se para decolar. O espetáculo não passou de um grande clarão fugaz; num momento, lá estava ela, brilhando e zumbindo levemente, no instante seguinte, apenas a noite com poucas estrelas, uma chuva de gotas grossas a ensopar as roupas. Gelson e seus amigos estavam cruzando com cópias suas em momentos diferentes. Quase sorriu. Ao tentar manter o equilíbrio espaço-temporal, estavam causando a maior confusão na linha cronológica.
Desceu as escadas do terraço até o quarto andar e já não se surpreendeu com outro de seus eus futuros segurando o livrinho de capa de couro vinho.
– Você precisa voltar pra noite de anteontem e deixar isso com nossa versão passada.
Já nem ousava questionar a ordem. Estava perdendo o rumo da própria vida, a noção de tempo e de si mesmo.
Olhou nos olhos através das lentes dos óculos e percebeu que a testa estava perolada por gotas grossas de chuva ou de suor. Havia algo diferente naquela voz, a sua voz. Aquela versão parecia ter envelhecido uns duzentos anos, porém as roupas eram as mesmas que ele estava usando. Não queria pensar em que outras confusões se envolveria antes do dia acabar. Simplesmente apanhou o caderninho e voltou para a nave. Parou em frente a Tajkdy e falou sério, estruturando a frase da melhor maneira possível.
– Confusão vocês fizeram muita! Agora ajudar resolver vão! Ontem antes preciso ir, noite! Agora!
Quinze segundos depois Gelson estava de volta à noite do dia 18 de fevereiro de 1982, tiritando de frio, embora a temperatura estivesse acima dos 22. Foi até o apartamento, usou sua chave para abrir a porta, entrou em casa e deixou o caderninho sobre o balcão do banheiro. Estava para sair (conseguia ouvir a si mesmo lendo em voz alta no quarto) quando se lembrou que descobrira o caderninho com um bilhete.
De uma prateleira da biblioteca, apanhou uma folha de sulfite e um dos lápis de Marlise e anotou.
“Leia com certa urgência. Klpytdy e Tajkdy virão hoje. Convença-os a levá-lo ao futuro para roubar este mesmo caderno das mãos de Renée, depois de amanhã, 11 da manhã. E mantenha a calma. Tudo vai dar certo”.
Estava satisfeito. Tudo acontecera sem grandes atropelos. O livro estava entregue. Já poderia voltar para casa. Saiu do apartamento sem que ninguém o tivesse visto. Riu por lembrar que ele era o único em casa naquela noite; Marlise havia saído com umas amigas. A bebedeira solitária aconteceria uma noite depois.
Voltou ao terraço, cansado, mas feliz.
– Para casa!
A viagem foi rápida, como sempre e Gelson resolveu que os amigos mereciam um descanso, como ele. E um prêmio.
– Alguma coisa vamos comer.
Tajkdy chegou à beirada do terraço, olhando para a entrada do edifício quatro andares abaixo, atraído pelo aroma de massa, queijo, tomate e manjericão.
Havia um pacote com três pizzas embaladas aparentemente abandonadas à entrada do edifício. Usando de sua rapidez absurda, o rigeliano foi até a entrada e voltou, carregando as pizzas que haviam sido encomendadas por Merlin Lemague e seus amigos.
A entrega não havia sido abandonada, já sabemos. O coitado do entregador precisava urgentemente urinar. Deixou a encomenda sobre os degraus e afastou-se uns dois metros para regar a grama do jardim lateral logo abaixo da varanda do síndico do edifício. A luz da entrada tinha queimado há quatro noites. O rigeliano não viu o entregador, nem o entregador, o rigeliano.
Sem pizzas a entregar, voltou à pizzaria do João e falou que havia sido roubado. A conversa telefônica entre o dono da pizzaria e Merlin Lemague não deixou ninguém feliz. E resultou na chegada de policiais relatada num capítulo adiante.
Os três viajantes do tempo foram até o quarto de Gelson e fizeram uma festa barulhenta, saboreando os pedaços de pizza e a vitória pelo passeio bem-sucedido.
A pancada na porta funcionou como botão de desliga; os três calaram-se de imediato. O solo de saxofone de Anthony Helliwell preencheu o silêncio de Marlise, de Gelson e seus amigos, por alguns segundos. O adolescente cansado tinha esperança de que a mãe desisitisse, mas a maçaneta foi forçada. A pancada com a mão espalmada foi suficiente para deixar claro que Marlise não o deixaria em paz. A frase gritada soou redundante.
– Gelson! Abra essa porta!
Gelson orientou os amigos para saírem pela janela que dava para a varanda e esperar por ele. Apanhou o livro de Harry Potter, diminuiu o volume do som e abriu a porta, numa fresta. Tentou imprimir uma expressão de surpresa ao rosto afogueado.
– Mais alguma coisa, manhê?
Marlise estava séria.
– Quem está com você aí?
Gelson escancarou a porta e fez um movimento amplo com a mão que carregava o livro e sorrindo, maroto.
– Ficou louca? Eu tô sozinho. Pode entrar. A casa é sua.
O ohar de desconfiança da mãe fez Gelson arquear as sobrancelhas. Marlise inclinou-se para aproximar a mão das pizzas e Gelson sentiu novo arrepio.
– Quem trouxe isso? Você comeu tudo isso sozinho?
Gelson ergueu as sobrancelhas e levantou as mãos, como quem se entrega às garras da justiça, e sorriu.
– Tá bom. Você me pegou!
– O que você anda aprontando, Gelson?
Gelson jogou as cartas na mesa.
– É que eu tô recebendo uns amigos de Rigel. Eles trouxeram as pizzas.
Marlise fez um muxoxo e inspecionou o quarto, qual perdigueiro.
– Muito engraçado! Esse livro é de ficção-científica?
Gelson tentou esconder a obra. Errara ao escolher aquele livro que só seria publicado muitos anos no futuro. Engoliu em seco e deixou que um fio de voz escapasse da garganta.
– Sobre uma escola de bruxos…
– Então mudamos de gênero? Como você consegue ler com esse barulho todo? Eu ficaria maluca! A leitura é como um ritual religioso, Gelson. Exige concentração.
Olhando a mãe sobre as lentes, Gelson disparou, querendo mudar o foco da conversa.
– Você sempre fica nervosa assim quando está menstruada.
– E você não ajuda nada com o barulho que tá fazendo!
Com um suspiro inaudível, Gelson tranquilizou-se quando a mãe lhe deu as costas, decidida a abandonar o quarto, porém parou de repente e voltou à carga.
– Não minta pra mim, tá bom? Você tá envolvido com drogas?
Gelson foi rápido.
– Como o Abba e Barry Manilow? Nem de brincadeira!
Marlise sorriu.
– Vai à merda, Gelson. E dê um jeito nesse quarto que tá uma bagunça insuportável. Vou receber um editor importante, mais à noite, e não quero ver isso assim. E não tranque essa porta!
A indignação bailou na expressão do garoto.
– O apartamento é enorme! Pra que você tem que mostrar o meu quarto prum estranho?
Marlise afastou-se, fuzilando-o com o olhar.
Gelson relaxou. Procurou pelos pequenos amigos na varanda, mas não estavam lá. Marlise não deveria encontrar os visitantes de Hajykapadtydg! Havia um fedor de carne podre vindo da sala.
Não demorou nem um segundo para que os rigelianos saíssem para a varanda. Gelson trancou o quarto e saiu pela janela para juntar-se aos amigos, enquanto Marlise procurava por seu sanduíche desaparecido.
Os telefones do edifício dispararam a tocar. E o alarme em seu cérebro disparou junto.
Tinha pretendido levar os amigos até o terraço para se despedir. “Estúpido!”, pensou. Havia ainda muito a fazer. E acabara de perder uma oportunidade de ouro. Não fora ao encontro com a meninada! Não conversara com Oscar. Nem tirara o livro do apartamento de Renée. O contínuo espaço-temporal estava aberto, incompleto. Outra de suas versões cruzou correndo, vindo do terraço que tantas vezes, naquele dia, servira de aeroporto de nave rigeliana. Antes de disparar escada abaixo, seu outro eu apontou o terraço, deixando claro que deveria sair com seus amigos, partir de volta ao passado.
Estava estupefato.
Os telefones foram calando, um a um. Parou em frente à nave que rebrilhava sob os pingos da chuva. Klpytdy e Tajkdy subiram na nave. O rigeliano mais simpático o esperou com a plataforma abaixada.
Estava em dúvida se levava aquela loucura adiante. Se tivesse olhado para a direita, para os lados da Tenente Fustado, talvez pudesse perceber seu amigo Oscar Delgado cambaleando perigosamente à beira do telhado acima do apartamento de Renée Druon, e aí, sim, desisitiria de tudo para tentar evitar que ele se jogasse lá embaixo.
Mas não olhou. Ao contrário, virou-se à esquerda.
Sob a chuva que engrossava, verificou o relógio que esquecera sob o janelão e apurou os ouvidos, parecia-lhe ter escutado um baque surdo. Sem saber o que era o barulho, explicou sua necessidade da melhor maneira aos amigos de Rigel, subiu na nave e partiu com Klpytdy e Tajkdy de volta ao passado.
A nave pousou ao lado da outra. Tajkdy estava excitado.
– Está vendo, seu burro, chegamos num momento em que já estávamos!
Gelson desceu da nave.
– Esperem aqui! Demoro!
Seu relógio não estava lá! Ficou preocupado. Daí resolveu olhar as horas no relógio do andar do edifício. E sorriu ao ouvir as vozes no andar de baixo. Tinha razão. Esse era o momento de seu primeiro encontro consigo mesmo.
Foi direto para o 41, ouvindo seu eu passado, Oscar e Renée, discutindo no terceiro andar. Entrou em casa com muito cuidado e esperou que os dois entrassem pela porta da cozinha. Já sabia que sentiria vontade de passar água no rosto. Era a hora apropriada para mandá-lo de volta.
Agarrou-o pelo braço e tapou-lhe a boca; os olhos pareciam querer pular das órbitas, como o cachorro de Renée. Não deveria, mas estava começando a se divertir com aquilo. Sinalizou para que ele ficasse calado, com um biquinho nos lábios e o indicador sobre ele. Soltou a si mesmo. Havia algo naquele toque que o incomodava, como se ambos não fossem sólidos o bastante. Viu-se ajeitando os óculos sobre o nariz e puxou-se para a sala. Abriu a porta de entrada e sussurrou.
– Klpytdy e Tajkdy são uns atrapalhados mesmo! Você precisa sair daqui agora. Eu cuido de Oscar. Você precisa voltar mais tarde!
Fechou a porta sabendo que tudo daria certo. Já vivera aquilo naquele dia. Daí lembrou-se do relógio. Escancarou a porta de sopetão, assustando ele mesmo, de costas, dando um pulinho ridículo. Cutucou-se no ombro. E lembrou-se de como isso o irritara.
– O que é, agora?
Não pôde deixar de rir.
– Calma! Fale baixo! Tire isso!
Apontou o relógio no pulso de seu outro eu.
– No seu pulso ele é inútil.
Sentiu-se orgulhoso de si quando sua frase foi completada como se o outro pudesse ler sua mente.
– Vou deixar no terraço. Pra saber se aqueles malucos acertaram o horário!
Fechou a porta e foi, sorridente, até a cozinha preparar uns sanduíches para Oscar Delgado que o esperava esfaimado, ansioso por comida. Gelson foi rápido na preparação de belos sanduíches de presunto, queijo e orégano para o amigo. Não aguentava mais comer nada e o cheiro do orégano o lembrava das pizzas que Tajkdy roubara de algum vizinho.
– Bom, muito bom!
Enquanto comia, Oscar pontuava o prazer por saborear aqueles sanduíches fartos, desfiava o rosário de suas ausências e reafirmava o medo que sentia em perder-se numa dimensão qualquer, sem ter como voltar para esta realidade ou a sua própria.
Com uma piscada, Gelson desviou os olhos. Parecia não ter prestado atenção aos medos de Oscar; sentia uma pontinha de inveja. Raciocinava que o amigo podia viajar entre mundos, através de espelhos, sem precisar da ajuda de equipamento passível de falhas, como o de seus amalucados amigos extreaterrestres.
A campainha da cozinha tocou. Gelson atendeu a porta e deu de cara com Adriana Marquez. A vizinha parecia não saber o que dizer. Um cheiro delicioso de frango tinha tomado a região do óculo central do Tueris. Gelson sorriu.
– Marlise não está, tia Adriana. Foi resolver umas coisas de trabalho. Quer alguma coisa?
Soou como uma viciada em plena síndrome de abstinência.
– Coca-Cola…
– Quer entrar?
Não conseguiu entender a resposta de Adriana, mas escancarou a porta, assim mesmo. Oscar a cumprimentou com um movimento leve da cabeça.
Rápido como quem rouba, Gelson apanhou uma garrafa de Coca da geladeira e a ofereceu a Adriana. A mãe de Biel despediu-se de Oscar (achara-o grosseiro com a boca cheia de um bocado do sanduíche que não largara) com um aceno de mão. Antes de Gelson fechar a porta, porém, deu meia-volta.
– Diga a Marlise que eu devolvo mais tarde, tá bom?
– Tá bom.
Havia alguma coisa no ar. Gelson acreditou que tinha relação com seu encontro nas escadas. Para evitar que qualquer conversa pudesse resvalar para aquele encontro, resolveu falar do segredo que todos conheciam.
– O que a senhora acha do caso do Manoel e da Neneca?
Adriana fez uma careta.
– Gelsinho, isso não é coisa pra se comentar…
A frase o deixou irritado. Controlou sua raiva e usou de todo o seu charme para quebrar as resistências da mulher que chamava de tia.
– Com uma criança? Tia Adriana, eu tenho dezesseis completados faz duas semanas. Por que não posso comentar sobre um problema de uma amiga com uma mulher que considero uma segunda mãe?
Percebeu que Adriana enrubescia e vibrou com sua vitória.
– O que a senhora faria se estivesse no lugar de Samanta?
As mudanças na expressão de Adriana Marquez eram loquazes. A mulher à sua frente estava numa conferência com várias versões de si mesma, debatendo cada argumento. A frase surpreendeu Gelson de uma maneira que ele não admitiria depois.
– Arranjaria um modo de manter Renée calado.
Sorriu, sincero.
– Obrigado, Tia Adriana.
Fechou a porta, pensando no que acabara de ouvir. Tinha razão ao seguir com o plano do roubo do caderninho. Esqueceu-se por um tempo daquela questão. Lembrou-se dos amigos de Hajykapadtydg.
– Oscar, preciso dar uma saidinha e volto já, tá bom?
Oscar assentiu com a cabeça, veemente. Gelson saiu do apartamento e cruzou o hall do andar. Subiu os cinco degraus até o terraço e bateu com o nó dos dedos sobre a estrutura do metal semi-opaco usado na construção da nave rigeliana. A plataforma foi baixada e Tajkdy saiu acompanhado de um fedor insuportável de carniça. Gelson protegeu o nariz lacrimejando. O que acontecera com os rigelianos?
– Que isso aconteceu?
O rosto constrangido do amigo era cômico.
– Algo que comemos não nos fez bem.
Então os rigelianos também enfrentavam problemas de ordem intestinal! Gelson foi sucinto e Tajkdy balançou os ombros para deixar claro que havia entendido.
– Demoro assaz!
Gelson voltou ao apartamento e Oscar estava arrotando. Não gostava de ver Oscar preocupado – sabia de suas tendências suicidas e não queria perder o amigo, um dos poucos com quem podia conversar sobre seus amigos de Rigel (mas não pretendia apresentá-los, de maneira alguma! Talvez por ciúme, mas, mais provavelmente, por saber que aquele trio não aprontaria coisas boas pelos confins do universo).
Oscar apontou a própria barriga e sorriu.
– Dar um tempo pra coisa abaixar, né?!
Ato reflexo, Gelson tentou ver as horas em seu relógio de pulso, mas estava sem ele. Procurou pelo relógio da cozinha e estranhou que não estivesse na parede. A conversa descambou para o fantasma de Felipe e Oscar pareceu mais animado ainda. O tempo correu como é comum quando estamos nos divertindo. A pressão do ar mudou. E a conversa mudou para os visitantes de Rigel.
– É ôsh quelesh vêm? Vofê divia ifcrevê eshash ishtóra…
Gelson coçou a cabeça e esboçou um sorriso desbotado. Pretendia virar escritor, sim, mas naquele momento, havia coisas mais práticas a serem feitas. Oscar parecia ser um poço sem fundo; tinha comido oito sanduíches e não dava sinal de estar saciado. Tentou imprimir verdade à fala falsa. Deixara os rigelianos esperando por ele.
– Devem chegar daqui à uma hora, mais ou menos. E costumam ser pontuais, os safados.
Foi falar em pontualidade e Marlise entrou pela porta da cozinha, carregada de pacotes e uma expressão irritada. Gelson tinha razão quanto aos atrasos do dia. Marlise chegara atrasada na reunião marcada e gastara a oportunidade rara. Mas tivera outros encontros depois. Pelo menos um a deixou feliz: encontrara com Josué Prado, editor de uma série de revistas populares e uma paquera antiga. Tomaram café e marcaram um jantar. Outro, a deixara bastante irritada: Renée Druon fizera insinuações preocupantes. Seu olhar caiu sobre Oscar como um cutelo.
– Vocês estão aí há muito tempo?
A lembrança dos comentários maldosos de Renée fez Gelson piscar os olhos, incrédulo. Entendeu que a mãe encontrara-se com o travesti e aquele desgraçado a havia envenenado. O que não conseguia aceitar era sua mãe dar ouvidos às futricas de Renée. Mentiu, propositalmente.
– Oscar chegou quase inda agora.
Marlise depositou as sacolas que carregava sobre o tampo do balcão e encostou-se à borda, cruzando os braços logo abaixo das tetas não muito fartas, porém ainda firmes.
– Essa amizade de vocês é muito estranha, sabiam?
Gelson ficou estupefato. Nunca imaginou que Marlise fosse dessas pessoas que avaliam as relações alheias pelas fofocas que outros fazem. O golpe fatal saiu num tom sibilante.
– Você tem mais de vinte e cinco, Oscar. Gelson tem só dezesseis. As pessoas ficam falando…
Gelson engoliu em seco.
– Seria bom que você saísse agora e não voltasse, Oscar.
Oscar levantou-se, sem olhar para Gelson. Marlise trancou a porta depois da passagem do surdo capaz de viajar através de espelhos e percebeu que o filho a olhava com desprezo.
– Você tem que entender…
Gelson não deu tempo para que a frase fosse continuada. Foi até o quarto, bufando de raiva. Jamais pensara poder sentir tanta raiva da própria mãe. Estava indignado. Trancou-se no quarto, pulou a janela para a varanda e saiu para o terraço. Tajkdy o interpelou, sorridente.
– Esperamos muito. Está gostando da aventura?
Gelson enfiou-se pela plataforma. Klpytdy devia ter peidado outra vez, o mau cheiro empestiava a cabine da nave. Suas palavras soaram amargas. Os olhos lacrimejando (mais pela indignação que pela fedentina).
– Adorando! Duas viagens mais!
Klpytdy estava pálido, mas sua frase soou clara e calma.
– Para onde agora?
Gelson falou em português.
– Onze e meia. Em ponto. Por favor!
A tradução de Tajkdy fez Klpytdy ficar sério.
– Ele falou às onze horas e trinta minutos locais.
– Eu entendi! Só não entendi porquê estamos fazendo isso.
– Nós erramos no começo, ele tem alguma razão…
Poucos segundos, um frio cortante. A porta do compartimento foi aberta e Gelson pulou para fora da nave. O cair da tarde fora substituído pelo sol quase a pino.
Voltou-se para os amigos e não tentou falar na língua rigeliana.
– Dêem uma volta por aí. Tem muitas cópias de todos nós viajando por este dia. Minha cabeça está rodando e é melhor vocês não estarem aqui por um tempo. Voltem em uma hora. E não se atrasem!
Sem se preocupar em quem o via, desceu as escadas até a rua. Dobrou a esquina e viu as gêmeas, Biel, Maleco, Davizinho e Neneca à espera, em frente ao terreno baldio. Atravessou a rua sem perceber que quase cruzara com Hanna Arruda aos prantos. Caminhou até os amigos, resoluto. Neneca, amedrontada, parecia querer enfiar a cabeça em algum buraco no chão, enfiando-a nos ombros, os olhos fixos nos pés de Maleco. Amanda estava ao lado de Neneca, uma mão sobre seu ombro esquerdo – parecia o único apoio a impedir que a filha de Samanta desmontasse. Biel tentava antever os mínimos peitos de Anastácia através da blusa de algodão. Anastácia, com sua expressão de eterno enfado, chutava alguma coisa invisível suspensa no ar e não se incomodava aos olhares lascivos de Biel. Davizinho parecia ausente, certamente envolvido em seus cálculos amalucados. Maleco fez um biquinho, sério, e disparou sem deixá-lo respirar.
– Não é dar muito na cara essa reunião aqui?
Nem o olhou, mas a resposta lhe foi endereçada.
– Agora se pode ficar nas ruas em grupo sem medo de ser preso por subversão. O AI5 já não dá medo em ninguém.
Maleco fez uma careta.
– Sério que você acredita nisso?
Ignorando o negrinho simpático que queria discutir sua autoridade, apontou o dedo para Neneca.
– Tem certeza de que é melhor que tudo fique como está?
Neneca ameaçou chorar, os olhos marejando.
– Neneca! Sem choro!
Amanda encarou Gelson com faíscas nos olhos. Ele a ignorou. Não estava com muita paciência para aquele drama todo. Biel desviou o olhar para oeste e Gelson resolveu que seria hora de aliviar a pressão naquela guerra silenciosa entre ele e Neneca. O velho inventor caminhava devagar em sua direção, carregando uma sacola plástica cheia de pequenos pacotes. Uma menina loirinha entrou na tinturaria e o velho Manuel acenou com a sacola, ainda uns trinta metros adiante.
– Nosso experimento!
Manuel Ktir aproximou-se e todos ficaram quietos. Biel adiantou-se, sorrindo pouco à vontade.
– Subo daqui uns dez minutos, seu Manuel!
O velho sorriu e afagou os cabelos lisos do menino de sangue de monarcas.
– Tá bom. Enquanto isso, vou preparando tudo.
O velho deu as costas e a meninada voltou a falar sem se preocupar se o velho realmente dobrara a esquina. Gelson vomitou as palavras com uma segurança que o deixou impressionado.
– Temos um problema pra resolver. Eu tenho como fazer isso. E cada um de vocês tem um papel importante no plano. Mas preciso saber se você realmente quer que as coisas continuem como estão, Neneca!
Amanda apertou o ombro da amiga. Neneca, um pouco mais alta, encarou Gelson e os dois ficaram parados, se encarando. Gelson sentiu um nó na garganta, uma pressão no peito.
Nenhum dos garotos pareceu perceber a passagem de Adriana Marquez.
Uma lufada gelada de vento anunciou uma chuva futura e Gelson sentiu os pêlos de seu pescoço eriçarem-se. O arrepio subiu até a nuca e se espalhou pelos ombros, chegando aos braços. Sentiu que uma sombra estendia a mão sobre seu coração. Estava com ódio, um tipo de ódio que se espalha pelas fibras do ser como CFC se espalhava pela tubulação de uma geladeira, congelando tudo.
Pouco depois de Adriana, foi a vez de Renée Druon atravessar a calçada oposta a da tinturaria. Os participantes da reunião a céu aberto o encararam, sérios. Gelson estava com uma expressão malévola, o espírito abatido pelo ressentimento em relação a Marlise e a lembrança do olhar assassino de Renée (que só aconteceria, na verdade, alguns segundos depois!).
Rápido, Gelson voltou-se para os amigos e os inquiriu com firmeza. Podia voltar tudo para trás, não apanhar o caderninho e não saber como impedir Renée, deixá-lo denunciar o safado do padeiro e deixar Samanta perder a guarda dos filhos.
– Vou cometer um crime! Ele é antipático, mas isso não o faz a vítima perfeita de roubo. Pense bem, Neneca. A coisa pode acabar aqui e agora. O que você quer?
Todas as atenções se voltaram para Neneca. Gelson, no entanto, não desgrudou os olhos da esquina do Tueris. De repente, lá estava ele, uma cópia de si mesmo com cara de bobo.
Fez-lhe sinais para voltar ao edifício.
Tomou um grande susto quando ouviu Kaká falar ao seu ouvido.
– Num sei como cê faz isso, mas é foda!
Gelson virou-se para o irmão de Neneca que se aproximara sem que tivesse percebido. Os lagartos vinham se arrastando pela calçada e já havia muitas rãs coachando baixinho ao pé do muro do terreno baldio. Os olhos de Kaká ainda estavam grudados na esquina. Tentou reassumir o controle, deixando de fitar um sapinho vermelho de bochechas elásticas e coachar de barítono.
– Do que você tá falando, Kaká?
O sorriso do menino de 12 anos tinha uma circunspecção de gente madura.
– Já vi muita coisa nesse prédio, Gelson. E sei guardar segredo de quase tudo o que vejo. O seu, por exemplo.
Gelson estava precisando redirecionar o ódio que o comia por dentro. Kaká estava se apresentando como um candidato sério a alvo. Kaká aproximou-se e sussurrou.
– Seu segredo e dos anõezinhos tá seguro.
Era curioso Kaká saber da existência de Klpytdy e Tajkdy e não relacioná-los à sua capacidade de estar em dois lugares ao mesmo tempo. Afinal, o menino dos anfíbios não era tão maduro assim. Não mudou sua expressão e resolveu ignorar o garotinho vestido apenas com uma bermuda que, antes de virar sua possessão, já fora lavada mais frequentemente.
– Não tenho todo o tempo do mundo!
Mentia, mas não sabia como desviar o assunto perigoso que Kaká tinha trazido à baila. Neneca voltou a chorar. Afinal, a decisão não era fácil, todos sabiam disso. Numa reunião anterior, tinham discutido todas as saídas possíveis. Apenas dois dias atrás, Gelson tinha surgido com a sugestão que agora precisava ser aprovada ou descartada de vez.
– Neneca…
O grito o deixou tenso, mas nada surpreso. Neneca explodiu em fúria, as lágrimas como riachos, cuspindo a cada palavra, cada respiração.
– Eu quero que esse filho da puta morra!
E Gelson não sabia se ela falava de Renée ou de Manoel.
– Eu quero que ele morra!
Amanda abraçou Neneca, sussurrando alguma coisa que a tranquilizou. Anastácia fez uma careta e Biel sorriu, nervoso. Davizinho enfiou um dos dedos na boca e parecia que pretendia operar uma falangectomia sem anestésicos. Detestava sapos. Kaká olhava para a cena, quieto, calado. Gelson pensou, “como uma tumba”. O terreno baldio à sua frente ganhou ares de cemitério, tal a profusão de lagartos e batráquios. As coisas com Kaká estavam piorando a olhos vistos. Se o sol não estivesse a pino, quantas mais dessas criaturas se aproximariam, sem cerimônia?
– Hoje, a partir das seis, vocês devem fazer de tudo pra que ninguém saia dos apartamentos!
Maleco, que permecera com as mãos nos bolsos da calça, ergueu o braço esquerdo e coçou a orelha.
– E como vamos impedir que o velho Manuel saia?
Foi a vez de Biel.
– Ele vai jantar com a gente.
– E Merlin e a banda torta dele? E Jucélia? E todos os outros moradores que não tem filhos?
O olhar de Gelson deve ter tocado um nervo exposto.
– Eu já pensei num álibi perfeito, Ismael.
Maleco o olhou com a testa franzida.
– Álibi? Você vai roubar um caderno, Gelson, não vai cometer assassinato!
Sem prestar atenção ao comentário de Maleco, Gelson apontou para Biel e Davizinho e foi enumerando com os dedos.
– Não esqueçam de entregar a lista de telefones pro Juca, tá bom? Ele vai ligar pra Jucélia, pro síndico, pro Merlin oferecendo assinaturas de revistas que ele vende na venda dele. Ele tem cinco linhas de telefone e os funcionários vão ajudar. O Oscar ficou de ligar pra Dona Julieta, Valéria e Romildo, oferecendo entradas pro show.
Biel caiu na gargalhada.
– Hahahaha! Fico imaginando a velha Julieta no La Valeta!
Todos riram, até mesmo Neneca. Aproveitando que o clima tinha ficado mais leve, Gelson arqueou as sobrancelhas para ela, perguntando-a em silêncio. Neneca ficou séria e respondeu com uma só palavra.
– Faça.
Gelson voltou-se para todos.
– Então estamos combinados! Conto com cada um de vocês! Não se preocupem com os outros moradores.
A garotada começou a se dispersar. Kaká seguiu Gelson até o Tueris. Os dois andaram num passo mais acelerado, afastando-se do grupo, capitaneando aquela procissão de sapos e lagartos multicoloridos.
– Num sei por que cê guarda segredo disso.
A pergunta não tinha soado com sarcasmo. Gelson olhou para o irmão da amante do padeiro. Kaká continuou.
– Olha, o Biel mija azul, o Maleco fala umas duzentas línguas, é só tocar o braço de alguém que a Amanda revê o passado e a Anastácia prevê o futuro. Eu num consigo me livrar desses bichos. E ninguém no Tueris é normal de verdade. Você tá lá em cima com o Oscar agora. Por que esconder que cê pode se multiplicar?
Entraram no átrio do jardim central do edifício e Gelson deixzou claro que preferia subir só.
– A gente conversa sobre isso outro dia, Kaká.
Subiu, sentindo os olhos do garoto grudados em suas costas. Só uma coisa o incomodava, naquele momento: muita gente envolvida.
Antes de dar a volta no primeiro patamar de escadas, Gelson fez uma piadinha, mas não riu dela.
– Você precisa fazer mais pipas.
Alcançou o quarto andar e lembrou da conversa com Oscar, talvez a última. Sentiu-se tentado a mudar toda a história. Tinha meios para isso. Deveria?
Klpytdy estava com uma coloração azulada e um mau humor dos diabos. Tajkdy, costumeiramente mais simpático, recebeu-o com um sorriso.
– Podemos ir agora?
– Não! Ainda uma viagem. A última.
O pequeno rigeliano assentiu, um tanto desolado. Gelson entrou na nave que ainda rescindia a carne podre, deu as coordenadas e enfiou-se no compartimento de carga, pensando no destino e como os registros históricos e lendas e mitos descreviam centenas de milhares de homens tentando modificá-lo.
Tajkdy fechou a porta do compartimento e os motores zuniram. O frio percorreu seu corpo tão rápido quanto o pensamento de que fazia parte de uma tragédia, mais uma peça num jogo com todos os movimentos gravados num livro à frente de uma divindade tirânica ou um personagem basbaque incapaz de fugir de sua própria sina em controlar o começo e o fim de todas as coisas.
Gelson estava tonto.

XXII · eu vejo gente morta (apto 13)

23 nov

“Está trancado, perdido em seus rancores, multiplicando as dores de uma existência impalpável”.
Os fumos do asfalto chegavam aliados aos olores das buganvílias e ipês. A cidade exalava seus cheiros sob a massagem da tempestade. Vez em quando um relâmpago piscava, arrotava como barítono recém-acordado e emprestava azoto para ser somado aos perfumes da noite.
– Isso também não te incomoda, Zeferino?
Os olhos fitavam a forma fantasmagórica que se apresentava mais definida que as auras dos vivos, embora fosse sentida como uma brisa gélida. Incapaz de ver com os olhos da cara, Julieta Helena de Guimarães e Bentes via auras com os olhos da alma.
“Lamentações são tão tipicamente humanas. De que me valeria lamentar o que sou? Ou o que fui? A chuva apenas parece chorar, Julieta. Vivi um tempo querendo esquecer, mas a morte me trouxe a tranquilidade das lembranças desapaixonadas”.
A risada seca e rouca da velha cega espalhou-se pela sala iluminada apenas pelas luzes de fora do apartamento (o que luzes poderiam mudar na realidade de uma velha cega recebendo a visita de um amigo etéreo?).
“Não faça pouco. Não minto. Quando ainda tinha carne tais sensações me eram caras, admito, blasfemei contra o universo e todos os deuses. Sequer consigo achar graça nisso, agora”.
A voz não era falada por boca concreta, ouvia-se através de uma barreira esgazeada, um filtro que a deixava abafada, profunda. Não tinha origem de fácil localização. Soava existir antes e depois, percebida no momento presente como uma recordação de palavras anciãs ou um presságio de uma frase ainda por se fazer ouvir.
– Não censure o garoto, Zeferino. A maioria das feridas cura mais rápido na pele que no espírito.
Com mãos hábeis, Julieta apanhou o isqueiro descartável, o rolinho de tabaco da caixa de Hollywood e o acendeu. O rosto que servia de tela para as cores das luzes das viaturas policiais, ganhou, por instantes, laranjas emprestadas da chama do isqueiro.
Puxou com vontade, usando toda a força de seu diafragma de fibras cansadas, enchendo os brônquios friáveis com o calor do cigarro.
Havia muitas viaturas. As guias da Tenente Fustado e da Andrômeda tinham a oportunidade de relembrar a noite da morte de Felipe Dias. Já não enxergava a velha Julieta, então. O espetáculo lhe era indiferente.
A fumaça expelida bailou no ar e Julieta imaginou-a ganhar as formas de sua visita.
– Então foi cumprida a desgraça?
A mudança na pressão à sua volta a fez virar os olhos na nova posição da massa de ar gelada que se mostrava como um senhor elegante que podia ter a idade do mundo.
“Não aconteceu desgraça alguma. Apenas mais um fato…”
– Um fato que você não queria ver realizado. Que história foi aquela de tentar Oscar impedir Gelson de sair de casa?
“O menino é cheio de truques. Tentei facilitar a vida do jovem, porém ele sabe como se cuidar. Tenho muito pouco a ver com os vivos, Julieta”.
A massa de ar tremeu, um boneco de molas liberado de uma caixinha de surpresas.
– Por que o riso?
“Não pretendia ofendê-la, minha velha”.
Novo trago, nova fumaça dançarina, mais um pigarro.
– Não. Estou ainda muito viva, Zeferino, e não me ofendi, tranquilize-se. Porém seu comportamento com a moça de aura manchada à tarde não foi nada educado.
“Meu trabalho ainda não está encerrado. E ela vibrava numa frequência nada agradável”.
– Preocupo-me com seu exibicionismo. Não bastava o pedaço de frango dentro do forno? Desnecessário se mostrar para Adriana…
“Ela reagiu bem. Quase tão bem quanto à grosseria de Virgínia”.
– Virgínia? Que belo nome.
A expressão no rosto vincado de Julieta não se alterou durante a liberação da flatulência ruidosa. A dança da brisa gelada pareceu acompanhar a emissão da baforada. Estava gargalhando dessa vez. As vozes dos policiais à frente de seu apartamento confundiam-se à estática dos rádios de bordo.
– Esses gases desgraçados acometem-me desde criança. Na idade adulta, causavam dores atrozes quando os segurava. Nunca foram tão barulhentos como agora, no entanto. Ainda não recolheram?
“Pára de reclamar, mulher! Deixa que as rapinas saboreiem o espetáculo”.
Novo peido, nova tragada, novo deslocamento da brisa.
Julieta soltou a fumaça devagar, saboreando o espetáculo que lhe cabia. O quanto aprendera durante as muitas décadas que se desenrolaram como tapete sob seus pés!
Não fora sempre uma mulher tranquila. Nem cega.
Houve um tempo no qual Julieta Helena carregava um corpo pueril e os sobrenomes de França Guimarães, apenas mais uma das doze filhas de seu Nonô e dona Aurélia. Não que carecesse de amor ou atenção, apenas dividia aqueles bens com onze irmãs, duas primas e uma criada que a mãe considerava parte da família.
Tanta mulher junta, vez ou outra, transformava-se numa confusão que deixava o velho Nonô de cabelos em pé; a farta cabeleira ganhou matizes de cinza aos trinta e branquejou totalmente aos quarenta. O pai nunca deixou faltar nada, cumprindo, com superávit, seus deveres de provedor.
Nunca economizava na distribuição de cascudos e afagos, tratando quase todas as suas fêmeas com igual deferência. Era humano, portanto desenvolvera preferências. Eunice, a quinta filha, a mais encapetada, tinha cadeira cativa no melhor camarote no coração do pai.
E abusou dos privilégios. Sem usar da esperteza que lhe imputavam, criou um clima ruim à sua volta; as irmãs se uniam para fazê-la sofrer humilhações públicas.
Julieta cresceu uma menina de beleza medíocre, dada a achaques e pantins constantes, de inteligência mediana, siderada e indiscretamente curiosa. Descobriu os prazeres do tabagismo aos nove. Menstruou aos onze e amasiou-se aos quinze com um caixeiro de bigodinho encerado, corpo bem distribuído e um pênis monstruoso que não sabia usar para dar prazer à moça mais interessada em sair de casa que rolar os olhos enquanto era penetrada.
Geraram três filhas. Julieta parecia perpetuar os genes da mãe, uma abelha-rainha incapaz de parir machos. Antes que o lar se transformasse em colméia, abandonou o marido e as filhas.
Encheu as estradas de pegadas e a cama de amantes. Muitos homens a fizeram gozar, mas o coração foi endurecendo e as economias minguando.
Voltou à capital paulistana e procurou o pai de suas filhas. Achou-o casado de papel passado com uma costureira pernambucana, que rodou a baiana e a expulsou, sob socos e pontapés, da mansão da Rua Novo Horizonte, sob os olhares constrangidos da filha mais nova, Maria Amélia, uma bela mocinha de casamento marcado.
Estava noiva de Humberto Limeira, um rapaz distraído que trabalhava como motorneiro no bonde que levava até o município vizinho de Santo Amaro. Naquele dia, voltaria para casa chocado por ter atropelado e matado uma garota apressada que cruzara o seu caminho.
Ferida na perna, no ombro e na alma, Julieta ficou dando voltas na rua em ferradura, matutando as opções que lhe sobravam. Jogar-se na Rua Bahia, para virar cadáver, lá embaixo, e jogar vergonha sobre a família Julião e Leite? Inspirar-se no formato da rua e usar de grosseria equina, gritando insultos a plenos pulmões, até que toda a vizinhança tivesse ouvido os axincalhes e vitupérios, até que o rubor na cara da filha se aproximasse de roxo de fim de tarde?
Vingança era um prato para ser comido frio.
Manquitolou até a grande avenida de casas de vastos jardins e ali em frente ao São Luís, as roupas rotas e as faces inundadas, fez uma jura, enquanto deixava escapar flatulências ruidosas.
Trabalhou em casa de família, ajeitou os dentes e guardou dinheiro. Com um investimento inicial irrisório, abriu uma doceria e amealhou uma pequena fortuna. Conheceu o rico, velho e viúvo juiz Ercílio Moreyra e Bentes. Com ele, contraiu núpcias. A festa foi o assunto da nata da sociedade por semanas.
Vendeu a doceria e engordou a já rotunda fortuna familiar.
Dez anos depois de ser expulsa a porretadas da casa de seu ex-companheiro, acreditou estar pronta para cumprir com a jura, saborear sua vingança. No dia 11 de fevereiro de 1932, enquanto o papa Pio XI recebia Mussolini, com pompa e circunstância, no Vaticano, Julieta Helena pediu ao motorista que a levasse até a mansão que pretendia comprar. À compra seguiria a expulsão de seus ocupantes, sem dó, nem piedade.
À porta da mansão, foi atendida por uma senhora distinta, de olhos castanhos e voz macia, que a comunicou do falecimento de toda a família Julião e Leite, num acidente automobilístico, na estrada para Santos, um par de anos antes.
A tontura acometeu-a ali mesmo, no vestíbulo da mansão que já não tinha razão para comprar. Foi levada às pressas à Santa Casa de Misericórdia, onde os médicos atestaram que não corria risco de morte, mas rodavam feito baratas tontas, incapazes de nomear o mal que cegara uma dama tão distinta.
Oito anos depois, senhora de seus domínios, por onde caminhava com desembaraço, usando apenas uma bela bengala de castão prateado, estranhou que o marido se dirigisse a ela e, em meio à total escuridão que a engolfava, sua silhueta pudesse ser vislumbrada.
“Isto é apenas o começo, senhora dona Julieta Helena”.
O marido teve um enterro digno no jazigo da família e seu espírito jamais voltou a contatá-la.
De impulso, vendeu todas as propriedades e guardou o dinheiro em papéis. Comprou a unidade 13 do Tueris Fustado, onde o dom de ver as auras e falar com gente morta foi apurado.
Vamos lá. Os dedos voltam a mexer nos ponteiros e aqui estamos nós de volta ao presente: a noite da sexta-feira 19.
– Sabe, Zeferino? Quando ouvi a frase do Cilinho, acreditei que ele falava de mim. Hoje, vejo que era sobre si mesmo o comentário.
A figura moveu-se e um arrepio percorreu a pele do braço esquerdo.
“Cada dia é um novo começo. Em qualquer realidade”.
Entendeu que o cigarro chegava ao fim, o calor nos nós dos dedos beirava o insuportável. Ainda insatisfeita, acendeu outro na brasa do moribundo.
– Mesmo para alguém como Felipe?
“Estabelecer quem é merecedor de benesses ou castigos não é papel de quem ainda não desencarnou”.
– Seu papel, então?
“Tampouco”.
A sala pareceu ser varrida por um tufão. A brisa aproximou-se de Julieta e a velha resistiu ao frio sem pedir que a visita se afastasse.
“Eu também quis morrer, me matar. Meus atos de heroísmo não passaram de atitudes desesperadas de alguém intentando levar um balaço no meio da testa. Depois de matar os alemães na casamata, entendi o contrasenso de uma guerra. No dia seguinte, escondi-me numa toca de coelho na encosta. Deculpe-me, muito frio?”.
Julieta apenas balançou a cabeça afirmativamente, dando um belo trago no cigarro de filtro amarelo. A brisa afastou-se automaticamente.
“Fugi à noite, em meio aos mortos. Refiz minha vida no berço da cultura latina. Nada glamuroso. Trabalho duro, arando a terra, carregando água e tangendo gado. Uma vida tranquila numa Itália necessitada de reconstrução”.
Uma sirene escandalosa transformou tudo em dor compactada, uma pressão nos tímpanos amenizada com o afastamento do veículo vermelho.
“A morte veio indesejada. A guerra chegara ao fim, mas não os conflitos internos. Iniciaram-se os fuzilamentos e as desforras. Tomei uma bala na testa, de ex-balilla, ex-soldado fascista. Discussão em boteco. Uma batalha extemporânea num país perdido entre a guerra e a paz. Adeus amante, adeus morros verdejantes, adeus Piemonte, adeus vida”.
– Você está saudosista, Zeferino. Quase poético. Espero que mantenha este humor até o dia de me ajudar.
A gargalhada chegou-lhe como pequenas ondas, leves sopros gelados em intervalos curtíssimos.
“Ainda muitas águas a passar sob esta velha ponte”.
Julieta deu uma derradeira tragada no cigarro e bocejou.
– Espero que não sejam tantas assim.
“Julieta! Deseja a morte tanto assim?”
– Não quero viver mais do que o necessário.
“Como se traduz isso em anos?”
O silêncio da velha demorou pouco, mas as palavras não vieram como resposta à brisa gelada.
– Ao contrário de você, os vivos precisam dormir, Zeferino. Seria gentil…
A brisa se desfez, espalhando-se sobre as paredes do quarto, dissipando-se ao atravessá-las. Nesses momentos, Julieta era capaz de perceber as dimensões do ambiente que a rodeava.
A voz era apenas um sussurro numa montanha ao longe.
“Boa noite, minha querida”.
Julieta Helena de Guimarães e Bentes fechou os olhos e riu. Sempre tão cortez; um verdadeiro cavalheiro à moda antiga. Levantou-se da cadeira de balanço e caminhou até o quarto, no escuro, sem esbarrar em qualquer dos muitos móveis que se amontoavam no apartamento necessitado de pintura.
Esticou os lençóis e deitou-se em sua cama. Preparando-se para dormir.
Fora uma criança egoísta, uma jovem egoísta e uma mulher egoísta. Os olhos eram sãos, mas estava cega pela ideia de que o universo a usava como umbigo. A velhice a alcançou mudada. Os olhos tinham-se tornado insensíveis às miragens do mundo visível.
Julieta Helena, enfim, aprendeu a ver.
Ajeitou-se na cama e soltou uma série de peidos barulhentos e fedidos. Era apenas humana. Mais uma moradora de um edifício assombrado pelo espírito de um suicida e de seu construtor preocupado em servir de ponte entre o mundo dos vivos e os mundos dos desencarnados.
Tabagista desbragada de voz rouca e rasgada. Uma cega que adorava olhar as cores fluidas que emanavam das plantas do jardim central do edifício e as fluorescências das pessoas que por ali passavam cotidianamente.
Uma espectadora dos erros e acertos alheios, sem possibilidade de alterar os caminhos traçados por cada alma viva, encantada pelo espetáculo que se descortinava diante de seus olhos cegos, pequenas surpresas a iluminar a escuridão em que vivia.
O suave olor de rosas invadiu seu quarto. Lembrou-se de Jucélia e sorriu.
As vozes de quem estava na calçada da Andrômeda somaram-se ao coaxar dos batráquios acampados em torno de Kaká e funcionaram como acalanto a embalar seu sono.
Poucos minutos depois de deitar, roncava baixinho. Não era mais a menininha que aprontava com a irmã, nem a moça que fugiu com um rapaz bem-dotado, nem a jovem que abandonou as filhas, nem a mulher que não conseguiu ter sua vingança.
Mudara absurdamente, transformada, como o mundo. Aprendera muita coisa. Principalmente a ver. Tornara-se mais sábia? Duvidava, seriamente.
Era apenas mais uma velha peidorreira repondo as energias para enfrentar os desafios de um novo amanhã. Até que o fim chegasse, era tudo apenas um outro começo.

XXI · tatalares e facas afiadas (apto 35)

22 nov

Falar de um assassino é como falar de uma pessoa normal. Ele (ou ela) vive como todos os outros seres humanos comuns. Nasce filha única, querida, desejada, numa família pacata de classe-média, cresce primogênito numa mansão milionária em que todos o enchem de responsabilidades ou vive caçula de uma prole imensa num casebre com um cômodo, molestado pelo pai, espancado pelos três irmãos mais velhos e sem saber ler.
Um dia, como se quebrasse a casca de um ovo para fritá-lo no café da manhã, ele (ou ela) faz a vítima. Assim, sem mais nem menos.
Felipe Dias era o quinto filho de uma escadinha de sete que Seu Everaldo e Dona Bina fizeram em noites de pouca intimidade. Uá, pem, bum e a coisa estava acabada antes mesmo que Dona Bina pudesse começar a se arrepiar. Embora não fosse de família pobre, Felisbina Moreira não enfrentava os problemas que muita gente rica tem de superar para gerar filhos. Dona Bina era como as miseráveis e faveladas: sentia o odor inequívoco de esperma a uns dez metros e engravidava na hora.
E foi assim por longos sete anos desde o dia em que se amasiaram para viverem felizes para todo o sempre, amém. Felipe não tinha nascido ainda quando o casal resolveu oficializar a relação. Raldo e Bina casaram de papel passado no cartório da Praça João Mendes com as economias que conseguiram juntar para comprar a nova cozinha.
As panelas deram vez à papelada e as refeições continuaram sendo feitas em caçarolas com cabos moles e remendos enegrecidos sobre o fogão de duas bocas e o balcão de granito gasto e comido pelo tempo e os maus-tratos.
Quando Felipe completou cinco anos, várias panelas já não tinham cabo há muito.
Mas o garoto nunca passou fome. Havia sempre comida no prato e os pais eram o espelho da felicidade insossa de quem se ama com intensidade sem fazer demonstrações físicas do afeto. E assim era com os filhos.
Quando em vez, uma palmada dava um jeito de corrigir os desvios de comportamento da garotada cheia de energia. A Escola Técnica Carlos de Campos, no bairro da Luz, encaminhou quase todos os filhos do casal. Felipe era técnico em eletricidade.
Andou pendurando-se em postes e tomando choques de voltagens bastante altas por um longo tempo. Choques elétricos que talvez tenham mexido com a arrumação de seus neurônios, sabe-se lá…
Pacato, cordato, carinhoso, educado e sorridente, Felipe Dias não era bonito nem feio – simpático, assim o chamava Sandrinha, com quem perdeu a virgindade e um pouco da sanidade. Tiveram um caso tórrido que durou exatamente o tempo entre duas edições da Veja.
A descoberta de que Sandrinha passara a frequentar motéis com seu irmão Totonho causou grande comoção. A família ficou horrorizada com a desfaçatez da moça e a falta de coração do moço. Felipe apenas os olhou, piscando muito.
Embora Dona Bina frequentasse a missa todo domingo, ninguém imaginou que Felipe tivesse qualquer pendor religioso, porém ficou claro que ele mantinha uma relação mais do que íntima com o catolicismo.
Totonho sumiu um mês depois da grande confusão e seu paradeiro só foi descoberto oito anos depois, quando a polícia fez uma batida num galpão esquecido da antiga Light onde ainda funcionava um depósito de material e o cemitério dos restos mortais das vítimas de Felipe.
Eram todos homens jovens. E todos tinham tido alguma coisa com Sandrinha. Os ossos mais antigos eram de Totonho. Os especialistas descobriram que Felipe preparava pratos rápidos com o corpo dos rapazes e levava pedaços fartos de carne fresca para servir de mistura nas refeições da família. Durante oito anos, todos se refestelaram, deliciados, em carne humana sem o saber.
Mesmo depois de ter mudado para o apartamento 35 do Tueris, Felipe não deixava de fornecer a carne para as ocasiões, festivas ou não, da família do bairro do Bom Retiro.
No apartamento, centenas de bíblias com as páginas riscadas de hidrocor vermelho com a frase “aqui se faz, aqui se paga”. Em algumas páginas, marcas claras de que o jovem desequilibrado usava os livros em seções de sexo solitário.
Modus Operandi? Felipe atraía os rapazes com promessas de bebida e encontros com garotas fáceis. Ao chegar ao depósito abandonado, ele os degolava e esquartejava com um cutelo de aço inoxidável. Um dia, um funcionário da empresa o flagrou entrando no depósito com um dos rapazes e saindo, duas horas depois, sozinho.
A denúncia transformou-se em busca e em mandato de captura.
A polícia chegou com luzes piscando, e armas, e cães, mas não teve chance de pôr o equipamento em uso. Felipe deu um tiro na boca com uma espingarda calibre 22 que guardara como lembrança dos tempos do CPOR, na sala do apartamento que alugava por uma ninharia.
Aquela bala fez o serviço esperado. O cérebro de Felipe Dias espalhou-se sobre as paredes e os móveis da sala e não houve quem conseguisse lavar ou sobrepor as manchas com qualquer espécie de tinta conhecida na época.
O apartamento nunca mais foi alugado. Na verdade, a dona nunca quis ser identificada e não demonstrou interesse em deixar alguém ocupar a unidade 35 do Tueris.

XX · o que as vozes contam

20 nov

– Nunca vi tanto sangue, Oscar!
– E as coisa dele?
Estava quente, o ar pesado antecipando uma chuvarada, carregado de eletricidade. Gelson fez uma careta, ajeitando os óculos que teimavam em escorregar até a ponta do nariz.
– Dizem que tá tudo ainda no apartamento.
Oscar deu uma bela mordida no oitavo sanduíche, aquele de presunto e queijo, que Gelson havia preparado com esmero e balançou a cabeça. Os olhos arregalados de Gelson provocaram um arrepio na nuca de Oscar. Não gostava de passar em frente ao apartamento 35.
– Eles tiraram tudo, mas o apartamento é assombrado. O fantasma de Felipe trouxe tudo de volta!
– Vofê xá fiu?
Os olhos de Gelson apertaram-se numa expressão que combinava uma encenação de raiva mal ensaiada e riso genuíno.
– Você não acredita em mim?
Oscar fez um gesto com a mão e tentou falar. Bocados do sanduíche quiseram escapar da boca. Enquanto ajeitava o começo de desastre, Oscar pensava consigo mesmo que um homem capaz de viajar através de espelhos não podia se dar o luxo de duvidar da existência de fantasmas ou de visitantes de outros mundos como os amigos extraterrestres de Gelson. Quase dono da situação, Oscar arriscou usar de sua gasta prosódia piorada pela comida em sua boca.
– É ôsh quelesh vêm? Vofê divia ifcrevê eshash ishtóra…
Gelson coçou a cabeça e esboçou um sorriso desbotado. De todos os sonhos que nutria, desde dar voltas em torno da Terra, numa nave toda de vidro, para ver do alto cada detalhe da geografia terrestre, tentando reconhecer esse ou aquele local que sabia apenas de atlas escolares, até virar ator de telenovela para dar ardentes beijos de língua nas beldades hollywoodianas, Gelson queria virar escritor famoso e ganhar o Nobel de Literatura.
– Devem chegar daqui à uma hora, mais ou menos. E costumam ser pontuais… Os safados.
Pareceu ensaiado. Marlise abriu a porta da cozinha ao mesmo tempo em que Gelson expeliu o último fonema de sua frase sobre os amigos de outra galáxia. Estava ofegante e com cara de poucos amigos. Olhou para Oscar e demonstrou grosseiramente não estar feliz por vê-lo ali. Gelson acreditou ser pelo consumo dos víveres conseguidos, nos últimos tempos, com dificuldades, e sentiu-se mal por sua mãe e por seu amigo.
– Vocês estão aí há muito tempo?
Gelson percebeu que a preocupação da mãe recaía em Oscar estar comendo algo mais do que sua comida.
– Oscar chegou quase inda agora.
Marlise depositou as sacolas que carregava sobre o tampo do balcão e encostou-se à borda, cruzando os braços logo abaixo das tetas não muito fartas, porém ainda firmes.
– Essa amizade de vocês é muito estranha, sabiam?
Gelson não acreditara que a mãe fosse tão diretamente ao ponto. Oscar parou de mastigar, o bolo de comida ganhando um volume insuportável na cavidade bucal, querendo sumir ou morrer ali mesmo, fulminado por um raio.
– Você tem mais de vinte e cinco, Oscar. Gelson tem só dezesseis. As pessoas ficam falando…
Os dois amigos lembraram das palavras de Renée. Gelson engoliu em seco. Oscar forçou o bolo alimentar goela abaixo, rasgando dolorosamente a garganta com os pedaços mal mastigados e ainda parrudos do sanduíche. Seria muito feio cuspir ou tossir naquele momento. Morrer não era problema, comportar-se grosseiramente seria imperdoável.
Num mundo paralelo, a situação nunca teria acontecido. Num terceiro planeta Terra, os pedaços do sanduíche teriam sido impulsionados até metade do caminho entre Oscar e os pés de Marlise. Numa outra dimensão distinta, Oscar seria a designer desempregada, Marlise seria o filho adolescente, e Gelson estaria engasgado com o sanduíche nas mãos do homem que podia viajar entre mundos através de espelhos.
Em qualquer das dimensões possíveis, os amigos não precisaram falar qualquer coisa para entenderam que sua amizade estava encerrada oficialmente. Oscar ficou imaginando mortes atrozes a serem infligidas ao travesti linguarudo, pois nada o demoveria de acreditar ter sido ele a provocar a mãe do garoto que preparava sanduíches muito saborosos.
Oscar conhecia mundos inimagináveis até mesmo aos mais criativos escrevinhadores. E outras tantas dimensões escalafobéticas que inspiraram e inspirariam contadores de histórias em nosso mundo. Mas não tinha certeza de qual poderia fazer uso para infligir castigos àquela caricatura de mulher.
Levaria Renée para visitar os espectros de Citagazze num tempo anterior ao sacrifício de Lyra, e o abandonaria por lá, à própria sorte?
Ou, como quem não queria nada, o empurraria para um dos abismos do quarto círculo do inferno daquele escritor italiano?
Ou ainda o levaria à original floresta bretã para duelar com os verdadeiros Cavaleiros-Que-Dizem-Ni?
Sentiu aquela coceira na barriga, perto do umbigo, anunciando que estava para ter um de seus lapsos de memória.
– Seria bom que você saísse agora e não voltasse, Oscar.
Sem precisar ouvir mais nada (e ouvir não era mesmo o forte de nosso amigo), Oscar Delgado levantou-se e caminhou para a porta da saída, com dignidade, sem olhar para trás, sem dizer adeus, nem obrigado. Tinha apenas um último favor a fazer pelo amigo que perdia.
Por que dera ouvidos à voz que o aconselhara a permanecer com Gelson? O que queriam esses fantasmas desgraçados com suas mentiras malfazejas? Por que obrigá-lo a passar por mais aquela situação vexatória num mundo que não era o seu?
Seriam as vozes de invejosas criaturas demoníacas a jogar com os sentimentos dos humanos? Ou seriam de manifestações angelicais cumprindo os desígnios de um deus ciente do começo, do meio e do fim?
Como a maioria dos pobres mortais diante dos assuntos mais embaraçosos, não conseguiu respostas a qualquer de suas questões. Ouviu a porta sendo trancada às suas costas e o mundo virou uma só escuridão, um breu sem fim e sem medida.
Lá fora o dia esvaía-se, escorrendo rapidamente, a luz esmaecendo como água sugada pelo ralo voraz da noite, prenunciando postes se acendendo, pessoas voltando para casa depois de um dia de labuta, mesas sendo postas para o congraçamento da ceia restauradora, corpos se aconchegando nos braços do ser amado.
Na cabeça de Oscar, um grande poço. Vazio, escuro, sem fundo. Uma queda num abismo sem fim.
Voltou a si apenas para descobrir estar com o pé direito a poucos centímetros do beiral do telhado do Tueris, exatamente acima do apartamento de Renée Druon.
A boca da noite cuidara de engolir cada fiapo de luz do sol; o dia havia sido consumido, transformado em História, em memória, em pretérito.
Oscar, roubado de uma porção de seu passado, assustou-se e deu dois passos para trás, cambaleando e balançando os braços em busca do equilíbrio perdido. Uma telha partiu-se sob o peso de seus setenta e oito quilos e projetou-se em queda livre até alcançar o gramado seco do jardim da Coronel Fustado.
A chuva castigava sua pele. O coração disparou. Os ouvidos ficaram mais surdos aos barulhos do mundo de fora; ouviam apenas os batimentos apressados e seus pensamentos desordenados.
Sob a cadência do coração possante, o suicida inconstante entendeu que não era hora de se jogar. Carecia, ainda, antes do último suspiro, fazer o serviço para o amigo e visitar a família em seu próprio mundo, em sua realidade.
Precisaria atravessar muitos espelhos e mundos, até lá e de volta, para fazer cumprir seu destino derradeiro. Não pereceria naquele instante. Se alguém merecia morrer era o morador do apartamento logo abaixo.
Com cuidado, pisando macio para não quebrar mais telhas, Oscar voltou à segurança do quarto andar do edifício e alcançou o lance de escadas, batendo sobre a roupa tentando livrar-se da água que se acumulava na trama dos tecidos. Estava atrasado e não podia deixar de cumprir sua promessa. Correu até seu apartamento e ligou para os números no papelete.
Vários telefones começaram a tocar no edifício.
Estava ainda sob o efeito alarmante de tantas campainhas tocando simultaneamente, quando caiu em si. Acabara de cruzar com a pequena nave dos rigelianos estacionada no terraço do Tueris. Ligou para um número. Para outro. Sem resultado, também. Dona Julieta estaria fora? E o que teria sido feito de Valéria? Romildo não atendia. Insistiu.
Depois do vigésimo toque, desistiu, acreditando ter falhado com Gelson. Também perdera uma grande oportunidade de conhecer os rigelianos. Malditas ausências. Maldito travesti. Da varanda, através do janelão da sala, percebeu o clarão provocado pela decolagem da pequena nave que levava Klpytdy, Tajkdy e Gelson para algum momento no passado.
Olhou o relógio de pulso e estacou de chofre, na dúvida: deveria ir trabalhar e deixar as coisas tomarem seu rumo natural ou fazer uma visita de surpresa ao travesti cuja língua solta envenenara a mãe de seu amigo?

XIX · wuddaphuk (apto 12)

19 nov

Elenora afastou a cadeira para facilitar a limpeza. Duas semanas antes uma thonet de assento de palhinha trançada, muito mais fácil de arrastar, adornava aquele canto da sala. A bergére que a substituíra era robusta, construída com madeira maciça, um pouco mais pesada que os 52kg da faxineira daltônica. Há coisa de três quinzenas havia um banco de junco ali, porém Elenora não pôde vê-lo; foi substituído pela thonet em três dias.
O dono do apartamento 12 era um caçador de tesouros. Sua última visita ao Brasil acontecera há uns quatro meses. Ninguém além da faxineira possuía as chaves do apartamento.
Era sempre uma surpresa passar por lá. As visitas quinzenais tinham sido combinadas pelo dono. O salário chegava pontualmente através de ordens de pagamento recolhidas na agência central dos correios, no vale do Anhagabaú.
Elenora lamentava não poder distinguir as mudanças das cores da decoração e dos cenários paradisíacos em que o apartamento se transformava. Também lamentava não entender nada de inglês, a língua que seu patrão usava para anotar o que achasse pertinente em seu diário. Cada palavra era reproduzida, em tempo real, na tela do grande quadro de avisos da sala de estar; numa época em que ainda não havia MSN ou ICQ, poderia ser um modo maravilhoso de saber o que estava acontecendo do outro lado do mundo.
Fucked two kinky native girls with big tits. Dick’s sore.
Na sua ignorância, a faxineira ficava encantada com as letrinhas surgindo para compor palavras naquelas mensagens que acreditava serem de extrema importância. Reconhecera apenas um nome. Quem seria o tal Dick? Algum amigo de seu patrão?
O patrão em questão comprara o apartamento no Tueris há 15 anos, mas passara muito pouco dessa década e meia em sua residência oficial.
A história de Jônata Correia iniciou-se nos Estados Unidos da América, no dia 5 de setembro de 1939, em que o país declarava neutralidade em relação à II Guerra Mundial.
Neto de um português imigrado, Jônata cresceu na William Street, a três quadras da 22nd State Road, em Hillside, no estado de New Jersey. A família morava no 55, exatamente entre a Gurd e a Liberty, numa casa de madeira com um jardim separado da calçada por uma sebe viva e da casa vizinha por um aléia de olmos e arbustos frequentados por esquilos cinzentos eternamente dispostos a mostrar os dentes afiados a quem atravessasse seu caminho.
Sempre necessitado de cuidados, o jardim abrigava flores, grama e ervas daninhas sem distinção.
Ênio, o pai, era um bêbado que trabalhava como motorista da carrinha de entregas de um supermercado cujo dono, um lusitano de Frades, uma pequena vila dependurada nos morros a pouco mais de dez quilômetros de Viseu, resolvera deixar os repolhos e as cabras da família aos cuidados do irmão caçula e “fazer o mundo” na terra das oportunidades. Uma estreita amizade entre o velho Alberto Pontes, dono do Leiria’s, e o pai, o não menos velho António Correia, garantia ao embriagado um emprego praticamente vitalício.
Kirsten, a mãe, uma neta de belgas de Geel, distante uns quinze quilômetros da Antuérpia, era uma mulher magra com olhos cujas bolsas inferiores chegavam-lhe à metade do caminho até as cartilagens alares. Também afeita ao álcool, preferia doses duplas de uísque ou brandy servidas a cowboy.
No ano do nascimento de Jônata (a criança foi batizada pelo avô, mesmo sem a autorização da mãe furiosa, que preferia algo mais ao gosto ianque), o mundo estava em polvorosa. Mesmo antes de entrar na guerra, Franklin Roosevelt criara o Projeto Manhattan, aconselhado por Albert Einstein.
Aos cinco anos de idade, Jônata espantava os esquilos e subia nas árvores que separavam a sua casa do vizinho e acreditava dominar o mundo, embora pudesse apenas ver partes de Irvington, Newark e as Oranges, ao norte, Union e Westfield, a oeste, Elizabeth e Linden, ao sul. A coisa ficava realmente interessante quando voltava os olhos para leste; para lá se espraiava Jersey City, Hoboken e, mais além, para lá do Hudson, New York com seus arranha-céus imponentes. Conseguia reconhecer os pináculos do Empire State e do Chrysler.
O vento balançava os ramos das árvores altaneiras e o menino imaginava navegar por mares revoltos, em busca de tesouros, descobrindo novas terras povoadas por nativos desnudos sempre prontos a trocar suas riquezas por espelhinhos empenados e cortes de tecido barato produzidos em Livingston.
Os sonhos o assombravam durante a noite, dormindo, e acordado, de dia, agarrado aos troncos enrugados. No dia em que Zeferino Fustado desalojou os alemães de uma casamata, Jônata Correia errou um galho e o pé escorregou para adiante. O corpo seguiu o impulso e não conseguiu vencer a lei da gravidade.
Caiu como uma bomba sobre os arbustos, estragando a sebe e marcando a testa com um corte reto, uns dois dedos acima da linha das sobrancelhas.
Naquela noite, depois da visita ao hospital onde ganhou onze pontos e um curativo que lhe cobria a fronte por completo, Jônata sonhou com ilhas paradisíacas, guerreiros de pele escura e mulheres de peitos fartos e sarongues que cobriam os genitais pudicamente, oferecendo frutas exóticas que sabiam a goma de mascar e cumbucas com doces assemelhados a pralines, achocolatados e marshmallows caramelados.
O dia começou com um susto. O grito de Kirsten o arrancou do sonho apenas para duvidar dos próprios olhos. O quarto de criança de família proletária americana transformara-se em cabana de alguma tribo desconhecida perdida numa das muitas ilhas dos mares do sul.
O carpete que cobria o piso fora substituído por areia fina e esbranquiçada, a cama era uma esteira de palha de palmeira, o guarda-roupa não mais existia e a parede era uma encosta vulcânica por onde escorria um fio de água que se acumulava ao pé da porta, onde plantas de folhas largas e flores de cores vibrantes eram usadas como puleiros por pequenos pássaros exuberantes de movimentos suaves e arrulhos delicados.
A vida da família jamais foi a mesma.
A cada sonho com terras distantes, nova trasnformação se operava nos ambientes da casa.
Em frente à edificação cujas paredes de madeira não deixavam antever os cenários tropicais encapsulados, no inverno de seu sexto aniversário, jurou para si mesmo, em meio à neve que lhe chegava aos joelhos, que não deixaria o ano de 1960 chegar para achá-lo ali, perdido entre aquelas cidades cortadas por auto-estradas e divididas pelo racismo.
Enquanto a batalha da Normandia era iniciada, Ênio bebia cerveja à beira-mar de uma ilhota rodeada de águas límpidas e repleta de belas nativas, em plena sala de estar. Kirsten tomava sol, na cozinha, enquanto preparava o almoço à base de peixes de escamas violetas e nadadeiras semelhantes à plumagem de flamingos.
Lá fora, o frio tinha sido substituído pelo sol gélido da primavera.
Enquanto crescia, Jônata ouvia falar dos testes nucleares nos intermináveis desertos de sua nação e dos bombardeios de Hiroshima e Nagazaki.
No seu décimo oitavo aniversário, Jônata abandonou o pai em meio ao turbilhão da nevasca das terras de Odin. Kirsten havia morrido picada por uma serpente minúscula, uns dois anos antes, depois que o filho sonhara estar na Amazônia. Ia para a América do Sul, para o Brasil, visitar ao vivo e em cores, as florestas com que sonhara. Com a sua saída, o interior da casa dos Correia, em Hillside, jamais deixaria de ser castigado pela neve. No número 55 da William Street seria sempre inverno.
O voo o levou até São Paulo. Antes de seguir rumo aos estados do norte do país, encantou-se com a beleza de Merinha, uma mulata de ancas largas e lábios róseos. O Norte poderia esperar um pouco mais.
No dia 4 de outubro de 1957, os russos lançavam o Sputinik I, primeiro satélite artificial a orbitar a Terra, e Jônata Correia assinava o contrato de compra do apartamento 12 do Tueris Fustado.
Merinha engraçou-se por um zagueiro da Portuguesa de Desportos e abandonou o gringo com cara de padeiro. Jônata não chegou a lamentar, a moça começava a ser um estorvo; uma vez conquistado, o prêmio perdia metade da graça. Precisava correr o mundo atrás de novos desafios. E assim foi. Fez fortuna com pepitas de ouro conseguidas com os Terena em troca de apitos plásticos. Seguiu para o Triângulo das Bermudas e ganhou fama de bucaneiro insaciável.
Atravessou o Panamá em lombo de jegue e ganhou o Pacífico e suas milhares de milhas repletas de ilhas onde se escondiam peças importantes do quebra-cabeça da História do homem. Peças que importavam a Jônata por seu valor de troca por dólares.
As impressões dos lugares por que passava geravam sonhos impresionantes que se transformavam em novos cenários socados entre as paredes do 12 no Tueris, para deleite de Elenora. Não a assustavam as caranguejeiras, as serpentes venenosas, nem as feras; mantinham-se à distância, observando-as, temendo sua presença naqueles cenários improváveis.
Na madrugada daquela sexta-feira, Jônata chegara a uma ilha de Sumatra onde descobrira um templo dedicado a uma entidade deídica que amava ser presenteada com artigos de prata maciça. E seus fiéis tinham gastado séculos preparando as melhores oferendas possíveis.
Gastara gordos minutos a calcular o quanto lucraria com aquelas oferendas. O transporte seria o mais complicado. Os guardiões do templo não seriam sério obstáculo. A coisa toda tinha causado tão forte impressão que estava sonhando sobre a questão.
Entrou no templo, resoluto, e alcançou a sala do tesouro. Havia colares, taças, pulseiras, incensários, escarradeiras, penicos, cachimbos, lanças, facas, machados, cocares, tiaras, anéis, cintas e sandálias confeccionadas com prata de pelo menos três tons distintos. Algumas peças tinham sido criadas como cruas manipulações do metal ainda quente, outras tinham sido trabalhadas com mais cuidado, encrustadas com pedras semipreciosas de extrema beleza. Tudo estava amontoado.
Não se preocupou com os guardas se aproximando. Virou-se com a pistola em punho, uma Taurus 38, e descarregou o tambor sobre os três guerreiros munidos de lanças inúteis contra balas de chumbo.
O susto ficou por conta da presença do seu vizinho do 32. Aquele travesti antipático que sempre o cumprimentava como se o quisesse desfrutar de sobremesa. O que estaria Renée Druon fazendo em seu sonho?
Ainda de arma em punho, mais reflexo que intenção, inquiriu o intruso.
“Como você chegou aqui?”
“Isso não é certo”.
Como ele podia ousar usar aquele tom?
“Esse tesouro pertence ao povo da ilha”.
Caiu na gargalhada.
“Sem mim, eles manteriam isso aqui guardado até o final dos tempos. Eu posso transformar isso em riqueza pra todos”.
O rosto de Renée transformou-se, num ricto de dor. Jônata compreendeu, naquela careta, a verdade de seus atos. Gritou furioso.
“Você não tem o direito de invadir o meu sonho e…”
Renée arregalou os olhos.
“Seu sonho? Você está em meu sonho!”
Não poderia ser. O sonho era dele, sim. O travesti era o invasor. E não tinha o direito de julgar seus atos. Quem era ele para dizer o que era certo ou não?
Era o dono do mundo. Desde a infância, sobre as copas dos olmos de sua casa. Ninguém poderia censurá-lo por qualquer coisa que fizesse com o mundo que lhe pertencia.
Desistindo de arrazoar com o caçador de tesouros, o travesti afastou-se, pretendendo sair do templo dessacralizado.
Ergueu a mão esquerda, consciente de que sua arma estava descarregada. Não precisava dela. Tinha o sonho. A testa coçou um pouco, exatamente sobre a cicatriz que atravessava a fronte em linha reta.
Os ramos das trepadeiras que se agarravam às paredes de pedra começaram a tremer. Apontou as costas do invasor e os galhos soltaram as estruturas da edificação e se lançaram sobre o travesti desavisado, pegando-o de surpresa.
Envolto por galhos que o apertavam com rapidez, a folhagem exuberante exalava um cheiro de chuva, de selva, de pedra. De morte.
De algum lugar distante, um latido esganiçado ecoou entre as paredes do templo. Uma vez. Duas. Três.
Num passe de mágica, um raio de sol penetrou entre as paredes e alcançou o exato ponto ocupado por Renée Druon. A luz tocou as pálpebras do travesti e o corpo desapareceu, em meio às folhas de tamanho exagerado, os galhos fazendo sanduíche de galhos sem recheio.
Jônata Correia acordou, suando. Relaxou no momento em que sentiu o toque delicado da pele de suas companheiras de tetas grandes.
Apanhou sua agenda e rabiscou com garranchos rápidos um recado para si mesmo. Devolveu a agenda para a mesa de cabeceira e mexeu-se na cama com um pouco mais de vigor. As garotas acordaram com um sorriso nas caras redondas de beleza exótica e pele escura.
Naquele momento, seu apartamento no Tueris esquecia-se do templo de pedra coberta de trepadeiras com folhas monstruosas para voltar a ser apenas um quarto de hotel em Palau.
Se Elenora tivesse chegado mais cedo poderia ter lido, sem entender, é óbvio, a mensagem no quadro de avisos.
“Weird. Dreamt of the damn tranny. Could’ve killed him”.