VI · minimalismo dodecafônico (apto 33)

1 nov

Nada se sabe sobre o autor de “La mort le Roi Artu”. Perto disso sobre a existência real do monarca bretão que arrancou a espada da pedra. Mas como mitos sempre arranjam maneiras insuspeitas de serem perpetuados, os personagens coadjuvantes de sua saga atravessaram os séculos, através das letras de escritores consagrados como Sir Thomas Mallory e sua obra “Le morte d’Arthur”, terminada em 1469, e ganharam tanta atenção quanto o filho de Uther Pendragon.

Emílio Lemague casou-se com uma moça que adorava fazer receitas e poções que garantia serem mágicas. Tiveram dois filhos. Gêmeos bivitelinos, um menino e uma menina: Merlin e Morgana.

O apartamento 33 do Tueris Fustado ficava na parte de trás do lado esquerdo do prédio. As janelas dos quartos davam para a Rua Andrômeda. O cômodo eleito para ser o estúdio de som de Merlin Mário Lemague ficava exatamente abaixo do banheiro da suíte pessoal de Marlise Utinga, um andar acima, na cobertura.

– Não, seu João!

Merlin era um desses poucos felizardos que nasceram numa família abastada, mas sem qualquer talento para a convivência familiar.

– Os meninos já encomendaram sanduíches no Mané! Acho até que Jojorge chamou outra pizzaria!

Embora seus pais o tivessem educado com esmero e uma boa dose de afeto, os prazeres da vida peregrina de quem passou a ganhar muito dinheiro com a criação de gado nunca os permitiram exercer um controle muito rígido sobre o comportamento do filho macho. Morgana era uma plácida garota dedicada às obras da igreja católica, contrariando as orientações de sua mãe envolvida com o excipiente movimento Wiccan. Marcela Lemague ficava tranquila apenas por saber que os cristãos haviam se apropriado das comemorações pagãs que lhe eram caras, perpetuando a memória da Grande Mãe e seu consorte adornado com chifres.

– Mas eu não tenho culpa se a molecada do edifício fica aprontando com seu entregador, seu João!

Naquele dia, algumas horas mais cedo, o pai havia ligado de Campinas, preocupado com a lei municipal 5.214. Emílio usou adjetivos bem pouco elogiosos em relação a Francisco Amaral, o prefeito da cidade, e anunciou a redução de créditos para a conta polpuda em nome de Merlin.

– Faça como o senhor quiser! Pode chamar a polícia, o exército, o SNI! Eu não vou pagar por pizzas que não foram entregues no meu apartamento!

A notícia obrigou o garoto com nome de druida a juntar-se ao coro descontente do pai com sonoros xingamentos ao prefeito endividado, mas, na verdade, não mudaria sua rotina. Sem necessidade de ganhar o próprio pão, Merlin já tentara fazer de tudo para ocupar seu tempo. Enquanto falava ao telefone com seu João Meira, o piazzaiolo irritado, Merlin vivia o papel de letrista de uma banda chamada Kone, que produzia um som híbrido de techno e rumba. Merlin era o patrocinador do grupo inspirado na alemã Kraftwerk. Os outros quatro componentes musicavam as poesias paupérrimas que Merlin usava para descrever experiências místicas duvidosas e eventos medievais irrelevantes; sua mãe deliciava-se com os poemas e adorava enviar-lhe livros de autores obscuros que escrevessem qualquer bobagem sobre deidades, cavaleiros e cruzados.

Pedrinho era o único com algum talento musical.

– Passar bem, seu João!

Desligou o telefone e fez uma careta.

– Ainda pego esses moleques!

Apesar de seus 17 anos, Merlin tinha um repertório pessoal impressionante – talvez resultado das muitas experiências a que se submetera em sua ainda curta vida – e era dono de uma contagiante alegria infantil, apesar do cinismo com que costumava comentar o próprio comportamento e a mesquinhez alheia.

Um de seus mais fascinantes projetos tinha, no entanto, um caráter visual: fotografar o nada absoluto. Vivia apontando um caríssimo equipamento fotográfico para pessoas e coisas em movimento, tentando “capturar o momento preciso da inexistência na efemeridade da cinese espontânea”.

À tarde, divertira-se à beça, capturando, em filme, o grupo curioso da criançada em frente ao terreno baldio, ouvindo Gelson Utinga contar mais uma de suas histórias sem pé nem cabeça ou, talvez, preparando o roubo das encomendas de pizzas dos vizinhos.

Seu apartamento tinha as paredes cobertas por ampliações das fotos que tirava. Em sua busca insana, as fotografias iam sendo sobrepostas, camada após camada, com as mais novas ampliações feitas em seu laboratório profissional. Os ambientes iam diminuindo, milímetro a milímetro, a cada nova camada de imagens que apresentavam borrões irreconhecíveis e coisas familiares completamente fora de foco. Se continuasse assim por umas centenas de anos, Merlin poderia ser aprisionado no espaço exíguo deixado por suas ampliações, personificando, em sua estase, a busca pelo momento da perfeição.

Plantado no meio do corredor, Pedrinho olhava para uma série de imagens que lembravam algum bicho de pelagem amarronzada como se estivesse à frente de uma obra-prima do cinquecento. Merlin saiu do estúdio tomando um cuidado exagerado em não esbarrar no amigo de óculos pesados. Teve dificuldades em manter o equilíbrio.

– Quase lá… Quase lá…

Pedrinho não demonstrou ter ouvido o comentário.

– Nada da pizza? E os sandubas?

Com um menear levíssimo, Pedrinho apontou o fim do corredor que dava na sala de estar. Merlin sorriu e caminhou para a sala e de lá ao lugar de seu apartamento que era muito pouco usado para a feitura de refeições de verdade: o cardápio mais comum na cozinha era composto de fatias de pão que separavam os mais esdrúxulos ingredientes. Merlin costumava fazer as refeições nos restaurantes vizinhos ou, mais frequentemente, por preguiça de aprender a cozinhar, na padaria de Manoel, alguns metros mais adiante, na mesma rua.

Flagrou Jojorge com um gigantesco pedaço de calabresa na boca. O mastigar do baterista parecia acompanhar o descompasso das notas do baixo elétrico castigado por Mazinho no estúdio inutilmente tratado acusticamente. Os tons mais graves reverberavam para os apartamentos vizinhos que tremiam sob a completa falta de ritmo do baixista.

O mais velho da turma (uns 20 anos, talvez), Mazinho da Mooca namorava Sandrinha, um petisco de olhos puxados que não desgrudavam dos volumes nas calças de qualquer representante do gênero masculino. Merlin tinha esperanças de poder expor suas partes íntimas para a garota sem que Mazinho estivesse por perto e transformar a exposição em sua sequência mais lógica, na cama. A mais forte razão para Merlin bancar todos os gastos com a banda desafinada residia naqueles olhos que prometiam prazeres indescritíveis.

– Orra, meu! Cê nem se preocupou em avisar a gente que os sanduíches tinham chegado, Jojorge?!

Fazendo um grande esforço para não desperdiçar qualquer porção do lanche em sua bocarra, Jojorge conseguiu articular alguns sons de difícil interpretação. Jojorge era gago como um galo madrugador, feio como um pontapé nos testículos e roliço como um leitão bem-tratado. Ninguém jamais tinha visto Jojorge com garotas e ele não reclamava a falta de casos amorosos, aparentemente mais interessado nos prazeres da távola do que os da alcova.

Merlin pôs as mãos na cintura e franziu a testa.

– Quanto tempo?

O conteúdo da boca escorregou pelo esôfago escondido sob camadas de gordura do pescoço largo, lentamente, como o êmbolo de uma seringa carregada de um gel espesso e oleoso, e as cordas vocais ficaram livres para que as palavras soassem familiares dessa vez.

– Caquase agogogora… Mamané sassaiu nenene… Nenenesse minuto.

Merlin percebeu que sua admoestação caíra em solo pouco fértil a qualquer tentativa de fazer Jojorge sentir-se culpado, apanhou meio sanduíche de frango da sacola de papelão engordurado e antes de mordê-lo, inquiriu o amigo rotundo.

– E o Julinho?

Jojorge apanhou a outra metade, a enfiou na bocarra antes do dono do apartamento mordiscar a sua e deu de ombros. Os sanduíches de rosbife permaneciam intocados.

Julinho, 16 anos, era o guitarrista eternamente drogado (ácido, que fique bem claro) de quem, como o nobre marido de Guinevere, muito pouco se sabia. Merlin, mastigando diligentemente, o procurou na área de serviço e no depósito. Não o encontrou. Voltou, pé ante pé, até a cozinha. Por um momento, lamentou não estar com sua câmera. Os movimentos da mandíbula de Jojorge pareciam promissores.

Apanhou metade de mais um dos sanduíches, deu uma bela fungada, sorriu e foi até a sala. Depois de uma rápida espiada no terraço, embarafustou-se pelo corredor, onde Pedrinho continuava a examinar as fotos com a forma desconhecida marrom.

A sequência semitonada de notas do baixo o fez balançar a cabeça desalentado. Os grandes continuavam grandes e vendiam seus vinis, sem susto. Djavan e Marina faziam turnês para divulgação de seus discos e solidificação de suas carreiras. Sandinista, do Clash, era a lufada de novos ares que prometia refrescar o viciado cenário musical; era ouvido em todos os lugares. Merlin sonhava com algo assim para sua banda, mas não via muitas esperanças com aquela formação.

Dando de ombros, perguntou para Pedrinho:

– Cê viu o Julinho?

– Então chegaram os sanduíches? Sabe que eu acho que vi um disco voador?

Merlin sorriu e deu um cutucão nas espáduas do tecladista. Pedrinho era músico de verdade e não aparentava seus 19 anos; passaria com facilidade por um garoto de 15 ou 16. Os óculos de grossas lentes não maculavam sua beleza. Vivia sempre com uma garota diferente – todas as suas namoradinhas eram mulheres lindíssimas, com idades que variavam dos 15 aos 25 anos. Apesar de talentoso, belo e simpático, Pedrinho não primava pela inteligência.

– Chegaram.

Merlin entrou em sua suíte e descobriu Julinho olhando para a carta que seu Lourival entregara no começo da tarde. O garoto de olhos de doente o encarou sério.

– Tem sanduba na…

– Por que cê num falou dessa carta com a gente?

Merlin quis reclamar que sua correspondência não deveria ser vasculhada por ninguém, mas lembrou-se de que deixara a carta aberta sobre a cama.

– É um problema meu…

– Nosso, Merlin! É um problema nosso! Pedrinho concorda comigo.

Julinho saiu da suíte carregando a carta e Merlin, com a boca cheia de um bom naco do sanduíche, mais uma vez, lamentou não estar com a câmera pronta para capturar aquele momento. A erva que Mazinho havia trazido tinha deixado sua percepção aguçada.

Mais por impulso que por consciência, seguiu o amigo pelo corredor sem se preocupar, dessa feita, em evitar esbarrar em Pedrinho, que permanecia absorto pelas imagens coladas às paredes.

Pareceu-lhe, de repente, que as batidas de Mazinho entravam em acordo com os cânones musicais, mas percebeu outros instrumentos sendo tocados. Reconheceu uma canção de um grupo progressivo que o filho da vizinha de cima adorava ouvir às alturas. Deveriam ter recebido uma intimação semelhante à que Julinho carregava pelo apartamento com olhos de assassino.

As notas do baixo do namorado da garota que cobiçava mataram os acordes perfeitos da música de verdade e Merlin sentiu uma pontada no coração, mastigando, com gosto, a comida em sua boca.

As palavras de Pedrinho demoraram em se organizar em seu cérebro ocupado na atenta observação de Julinho caminhando à sua frente. O tempo pareceu estancar. Cada sílaba ficou batendo nas quinas do córtex, um sem-número de vezes até que se juntaram em fonemas e termos com significado.

– Ele tem razão.

Pedrinho falando de razão não era coisa boa… Um alarme disparou na cabeça de Merlin. Jojorge havia comido metade dos sanduíches e arrotava sem gaguejar. Julinho abriu uma das gavetas do armário da cozinha. Quando se voltou, o guitarrista tinha uma grande faca na mão, empunhando-a como uma espada.

A língua parecia engrossar mais a cada momento, porém Merlin engoliu o que restava da dentada no sanduíche e conseguiu articular sua pergunta de maneira bastante clara.

– Cê tá doido?

Jojorge soltou uma espécie de latido a guisa de risadinhas.

– Elele tatambebem fufumou, Memerlin!

Evitando rir do comentário óbvio do baterista, Merlin tentou empregar um tom mais sério, quase esquecido do resto de pão recheado em sua mão direita.

– Quié que você pretende fazer, Julinho?

O sorriso no rosto do guitarrista deixou claro para Merlin que ele sabia bem menos sobre Julinho do que achava confortável. O mundo à sua volta ganhou tons sombrios. As fotos coladas às paredes aumentavam a sensação de sufocamento. A pia da cozinha transbordava de coisas que requeriam água e sabão. O cheiro dos sanduíches, de repente, passou a provocar um embrulho na boca do estômago. Merlin conhecia tudo aquilo. Estava para “amarrar um bode”.

Engoliu em seco e procurou com os olhos por um copo ainda limpo na cozinha que parecia ter sido vítima de um atentado terrorista.

– Já não basta essa cambada ter espalhado essa doença desgraçada?! Vou conversar com seu vizinho antipático. Essa bicha vai ter que explicar o que tem contra…

Merlin detestou não estar completamente senhor de suas faculdades. A frase carregada de preconceitos do garoto de olhos assassinos parecia ganhar solidez e, como uma lâmina, ser enterrada no seu abdômen convulso. Com muito esforço, conseguiu liberar as palavras sem atropelos.

– Você não vai conversar com ninguém assim, Julinho!

Com o instrumento de cozinha apontado para o amigo e a carta em riste, Julinho apagou o sorriso do rosto.

– Pedrinho concorda comigo! Jojorge também.

– É… Concordo…

A frase de Pedrinho deixou Merlin assustado. O garoto bonito deixara de admirar suas fotos no corredor e chegara por trás, silenciosamente. Agora quase toda a turma estava na cozinha. As cordas do baixo de Mazinho continuavam sendo castigadas no estúdio e Merlin sentiu-se muito mal.

Imaginou Renée reagindo à investida de Julinho e um crime sendo cometido por causa de seus desejos escusos em relação à namorada do baixista que não sabia tocar baixo. O coração disparou e a língua parecia querer virar constelação no céu da boca.

Com um golpe certeiro do facão, Julinho redividiu uma das metades de um dos sanduíches que Jojorge não devorara. Com a ponta afiada, espetou uma porção cortada e a levou até a boca.

– Alguém prefiva vafer um papinho com efa bifa…

– É… Concordo…

– Tatambém.

Merlin sentiu o chão faltar e fez um grande esforço para manter-se de pé. Acreditou-se Artur traído por Lancelote. Mallory ganhava ares de Shakespeare: uma aventura de capa e espada podia se transformar numa grande tragédia.

Por sobre os ombros de Pedrinho, viu algumas de suas fotos. As paredes fechando-se sobre ele, acompanhando o ritmo dos pingos da chuva que castigava a cidade e o contraponto desencontrado do baixo de Mazinho.

O telefone disparou a tocar.

Imaginou sua banda matando o travesti do andar de cima como na cena de Assassinato no Expresso do Oriente e sua busca pareceu ter chegado ao fim. O nada ganhou uma consistência absurdamente concreta. Sentindo-se incapaz de evitar o desastre iminente, Merlin Mário Lemague previu sua banda fazendo sucesso entre o contingente carcerário, enquanto seus membros cumpriam pena em algum calabouço nauseabundo.

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