VII · zero ou um (apto 22)

2 nov

O coração apertava a cada saída do filhote. Olhava atenta para aquele menininho feio e seus óculos de fundo de garrafa, um leãozinho de juba encaracolada e pele marcada por pintas quase alaranjadas, do outro lado do andar, à porta do 21, supervisionando a cena como uma leoa ciosa de seus deveres, a mãe. Judia.

– Se chover, volte imediatamente pra casa, viu?

Arrependeu-se de imediato pela frase infeliz que expunha o filho ao ridículo. Davizinho fez força para não demonstrar seu incômodo ao velho vizinho e corou ao perceber que Manuel sorria.

O velho inventor divertia-se e Hannah não conseguia se decidir se o simulacro de Professor Pardal fazia pouco de seu zelo exagerado ou da semelhança do filho com o pai; muitas vezes surpreendera-se descobrindo em seu filho uma simpática cópia em miniatura do judeu ranzinza com quem casara.

Com uma prece rápida, pediu bençãos ao filho da professora. Biel, atento ao apuro do amigo, desembestou do fundo da sala e o puxou pela camisa de tergal, usando de um tratamento mais formal ao despedir-se do amigo mais velho; uma deferência pública que não desagradava ao velho Manuel.

– Tchau, seu Manuel! Janta com a gente?

Estava longe ainda a hora do ângelus, mas Davizinho parecia um milagre manifestado: uma aparição angelical de candura inefável e feiúra excessiva.

O belo Biel e o feio Davizinho faziam uma dupla difícil de ser esquecida; uma mistura heterogênea de elementos complementares. Uma frase de música bem interpretada em dueto por um violoncelista erudito e um cantor negro de jazz, o leve toque de fumaça num saboroso bocado de mel, o aplauso efusivo da plateia por um passe de mágica bem feita.

Sem perder o filho de vista, Hanna Arruda percebeu os movimentos estudados do vizinho mais velho. Manuel olhou os nós dos próprios dedos sobre o umbral antes de menear a cabeça em sua direção. Sem desviar os olhos do inventor, ouviu a própria voz e teve certeza de que soava estridente, rouca e risível. Seu pedido era mais endereçado ao filho de Adriana que ao próprio rebento.

– Sem correr, Davizinho, sem correr!

O vizinho do 21 sorriu de leve e fechou a porta de vez. Hanna apenas ouviu o barulho dos saltos. Não demorou muito e Renée Druon entrou em seu campo de visão, uma aparição escandalosamente amarela. Renée balançou os dedos, freneticamente, num afetado cumprimento de mau gosto acompanhado de um esgar desagradável. Hanna desviou os olhos e fechou a porta. Não queria ser educada.

Encostou-se à porta, respirando fundo.

Ela não poderia ignorar o infame comentário sobre sua família feito em público. O ritmo da respiração se ampliava enquanto Hanna lembrava do olhar de Renée, um par de lanças afiadas voltadas para o seu coração, o golpe fatal dado com uma perversidade requintada. Ah! Se pudesse o teria matado ali, naquele exato momento. O teria fulminado com um raio, esquartejado como um porco a ser abandonado ao sol e às formigas, indigna criatura, engano da criação. O olhar de Adriana evitara sua transformação em assassina.

Lembrava-se de sair da padaria como uma louca, chegar ao Tueris e não voltar os olhos para as pessoas que estavam no hall de entrada do edifício; teria que desculpar-se depois com dona Julieta.

Fez uma oração rápida. Precisava retomar o controle. Não podia blasfemar contra os desígnios de Deus. Em resposta à oração apressada, mas falada com fervor, pouco a pouco, Renée deixou de ser importante. O mundo externo se transformava em lembrança. Como mágica.

Nada nessa mão, mas é só fazer um movimento rápido e aqui temos uma pombinha que sai voando esbaforida, batendo as asas – flap-flap – com força, deslocando o ar, soltando arrulhos aliviados. Cruzando o espaço como os visitantes de Rigel para visitar o menino da cobertura?

Num outro momento, passa-se a mão de leve por trás da orelha de um desavisado e – pimba! – uma moeda dourada rebrilha sob os holofotes bem posicionados, uma carta surge onde vento apenas deveria haver. Oscar delgado pulando entre dimensões através de espelhos?

Prestidigitação. A arte de enganar com movimentos rápidos das mãos. Dos dedos, na verdade.

Durante séculos o homem encantou-se com os mistérios dos mágicos saltimbancos e seus assistentes atrapalhados. Os anos foram passando aos milhares até alcançarem o século XX, com sua promessa de um mundo industrializado em que todos seriam participantes de uma nova revolução cultural catapultada pela burguesia ansiosa em impor suas verdades.

Sem interromper sua escalada vertiginosa, a História seguia para o terceiro milênio, acenando com a arte digital prometendo dominar a vida do cidadão comum; o mundo como uma coletividade de novos mágicos executando truques através de computadores conectados numa cadeia interminável de máquinas poderosas, renovados prestidigitadores usando aparelhos de pequeno porte, recriando a realidade a cada momento, nós de uma rede internacional de manifestações de inteligência artificial que se comunicariam através de números.

Desde tempos imemoriais, andarilhos semitas assumiram o papel de levar daqui para acolá toda espécie de bens negociáveis, mercadorias transportáveis, carregando, como bônus gratuito, as ideias de seus antepassados e suas contas do nome de Deus.

Números. Como as estrelas do céu.

Dígitos. Como os dedos das mãos.

Os filhos de Israel ouviram o anjo guerreiro de Javé e multiplicaram-se e se espalharam pelo mundo, originando muitos povos e muitas línguas – culturas de montão e numerosas maneiras de entender o universo. Os judeus desenvolveram um jeito todo seu de traduzir o mundo em números e os números, em respostas às questões que sempre inquietaram o humano.

Contar os números do mundo sempre foi uma maneira de se achar o seu próprio deus, seu novo emprego, a cara-metade, o bem mais profundo, o mal mais cruel…

Alguns escritores usam de truques baratos e contas capengas para dar ares mais nobres a textos risíveis, criando códigos simplistas para nomear obras mais volumosas que consistentes.

Quando para ela os algarismos ainda tinham um certo encanto, Hanna Arruda usou umas poucas manobras cabalísticas, manipulando alguns algarismos para acreditar que a escolha dos pais fora acertada. Não o conhecia pessoalmente, mas vira sua fotografia e a satisfizera o fato de que não era um rapaz bonito; homens feios desenvolviam espíritos mais elevados e tendiam a ser menos desejados por outrem.

Efrain, à época, possuidor de uma conta bancária com muitos dígitos, pisou, entusiasmado, sobre o cálice debaixo do lenço branco, à tarde, e concluiu o enlace, à noite, com uma cópula sem graça que seria repetida a cada quatro dias até que os enjoos deixassem óbvio de que um espermatozóide encontrara um óvulo e Hanna demoraria poucos meses até parir o leãozinho sardento, feio de herança.

Efrain Arruda era um homem completamente destituído de beleza. E o tempo lhe fora favorável, pois à época do casamento, era bem menos simpático; uma síndrome de ínfimos componentes históricos a lhe moldarem o mau-humor: uma cultura milenar que ultrapassava os limites familiares, um rancor centenário de sangue pisado e de falta de opções, uma pá de circunstâncias pessoais mal resolvidas e alguns revezes de saúde típicos da aproximação dos quarenta.

Uma tríade de Adolfs definira sua nacionalidade. O primeiro, seu pai, um húngaro primogênito de mais um dos tantos núcleos da família Kadar, escapara por milagre dos subalternos da Operação Margaret, elaborada pelo segundo, Eichmann, um dos pica-grossas sob o comando do terceiro, Hitler, em 1944.

No mesmo diaem que Fustadobancava o heróiem pleno Lácio, Adolf fugia de Szeged com a esposa recente, Emma, para Sintana, na Romênia. Nevava e ventava de modo inclemente. Completando o trio perfeito, a falta de comida. O casal e seus treze companheiros de desdita eram incapazes de avaliar qual frio era mais intenso: fora ou dentro.

As garras do nazismo espalhavam-se rapidamente pelas nações europeias e a perseguição aos judeus tornava impraticável acordar sem seriíssimas preocupações quanto ao futuro segundo e estômagos ruidosamente vazios.

Enquanto escapavam entre cidadelas semi-destruídas e aldeotas campesinas, os fugitivos viam minguar as esperanças e a saúde. Depois de muitas perambulações e tramóias magnifícas para escapar de morte certa, Adolf negociou, em Sibiu, aos pés dos Cárpatos, o que tinha em troca de duas passagens para o Paraguai, onde o Comité Central Israelita, criado há pouco mais de três anos, arranjaria nova vida ao casal. Emma morreu literalmente congelada durante a travessia de uma montanhaem plena Transilvânia.

A partir daí, Adolf Kadar perdeu a noção do tempo, do espaço e de si mesmo. O que lhe sobrara da sanidade e da saúde, no entanto, foi suficiente para levá-lo até Medgidia, onde conseguiu fazer parte da carga de contrabando de um negociante libanês levada de avião até Patras, no Peloponeso. A partir da Grécia, Adolf foi roubado, enxovalhado, enganado e abusado, porém, depois de várias viagens de navio em mares muitas vezes dantes navegados e alguns voos clandestinos em ares nem sempre novos, alcançou a Argentina.

Escapuliu de Buenos Aires, onde a perseguição aos judeus era feroz, com rapidez e chegou em Assunción mais morto do que vivo. Antes de saber das atrocidades nos campos de concentração (e isso só aconteceu uns dois anos depois), cultivou a ilusão de que teria sido melhor enfrentar as tropas germânicas a fugir aquela fuga em que se perdeu até de si mesmo.

No Paraguai, Adolf não fez amigos, porém usou do auxílio de muitos para ganhar nova identidade (passou a se chamar Adolfo Arruda) e trabalhos que o devolveram a saúde, uma boa quantia de dinheiro e alguma dignidade. Em 1947, ainda falando um espanhol apenas sofrível, migrou, mais uma vez. Arrastou mala e cuias através da ponte fronteiriça para o Brasil, tentando deixar seu passado angustiante em território guarani, com sorte, abandonaria em Ciudad Del Est qualquer lembrança que porventura resistisse.

Penetrou em território brasileiro com novo ânimo. Em Guarapuava plantou milho,em Manuel Ribascolheu algodão e gonorréia, curou-se em Londrina com a ajuda de sulfas ministradas por um certo doutor Tomeu,em Venceslau Brásconheceu Jandira, com quem casou em Itapeva, e foi vender rendas em Botucatu.

O negócio prosperou enquanto iludia-se com a evanescência das memórias. Comprou uma venda em Bofete (que já fora Samambaia, Piedade e Rio Bonito) onde nasceu seu filho varão. O menino Efrain cresceu ouvindo as prosódias de um húngaro falante de portunhol e de uma caipira incapaz de conjugar normativamente o verbo ser. Ouviu muita história de países vizinhos e de terras de alhures.

O passado estava grudado em Adolfo como um visgo. Jandira também tivera seu quinhão de desventuras e carregava um rosário de desafetos capaz de fazer sangrar o coração dos mais suscetíveis.

Nos dias mais tranquilos, Adolfo xingava apenas os alemães e Jandira lamentava não ter castrado os posseiros que a estupraram aos doze anos.

O supra-sumo de tudo o que menino Efrain ouviu e vivenciou culminou numa aversão a alemães, paraguaios, argentinos, sírios, japoneses, coreanos, americanos e brasileiros, pobres, ricos, remediados, doentes e sãos, religiosos e ateus. Não chegou a odiar totalmente os judeus porque, ao banhar-se ou urinar, lembrava-se de que era um deles.

Dividido entre o Javé de Israel e o Jeová de todos os cristãos, entre o pai fugitivo que queria esquecer o passado sempre presente e a mãe analfabeta que o lembrava eternamente das querelas comezinhas da ignorantada aparentada, entre o pão ázimo e o pão francês, entre o Pesach e a páscoa, entre a venda e a escola, Efrain descobriu-se sem opções.

Que verdadeiras opções tem os que nascem marcados?

Enviado à capital paulista para completar os estudos, o jovem e feio Efrain Arruda deparou-se com uma sociedade preconceituosa, malediscente e racista. Encontrou uma realidade em torvelinho; estudantes e proletários enfrentavam policiais em escaramuças desiguais e militares preparavam o golpe que extinguiria com as liberdades de um país ainda carente de uma identidade, de uma ideologia, um povo ignorante de uma nação.

Efrain aprendeu a ser judeu sem gostar da ideia, aprendeu a ser brasileiro sem saber ao certo o que significava brasilidade, aprendeu a ser livre num país em que a liberdade lhe havia sido usurpada.

Fez fortuna, imiscuiu-se entre os sionistas, casou com Hanna e conheceu Vilaça, um português de moral tão elástica quanto as bandas de borracha que, glutonas, expandem-se sem limites para açambarcar mais notas de qualquer bolo de um dinheiro de origem ignota.

O que poderia ser uma benção transformou-se em danação; a desonesta pessoa de Ronaldo Vilaça deu-lhe um golpe – de mestre – e escapuliu com tudo o que podia, deixando a ver navios (Ah, esses lusitanos!) o homem que aprendera, contra a vontade, a ser judeu, brasileiro, comerciante e marido, e que teria, a pulso, de aprender que navegar é preciso e viver não é preciso.

David tinha dez anos quando o pai perdeu tudo.

Efrain aprendeu, e bem, a ser um homem amargurado que nutria um ódio mortal por quase toda a raça humana e, principalmente, a enojar-se com a ideia de qualquer deus a manobrar as vidas dos que nada lhe deviam a não ser um lampejo, uma chama, um sopro nas narinas.

Hanna, uma mulher de fibra, o ensinou, pouco a pouco, a transformar parte desse ódio em amor pela vida e pela família. E conseguiu evitar que o filho, a cara cuspida do pai, enveredasse pela mesma sanha indomável que corroía seu coração como uma sânia viscosa e indelével.

Essa, sim, conseguia viver sem passado.

A história de Hanna resumia-se às histórias de suas famílias. Vivera com os Iacobson até casar com Efrain e agora tinha Davizinho para cuidar. O que mais poderia esperar uma mãe judia de verdade?

Os Arruda mudaram-se em 1978 para o Tueris e ocuparam a unidade 22, desde então. O aluguel era condizente com os ganhos de Efrain, que conseguira emprego no Mappin como gerente de vendas.

O filho dos Buendía Marquez tornara-se um companheiro inseparável de David Arruda. Os dois viviam fazendo chacota um do outro, mas existia muito carinho entre eles quando se chamavam de “Bic Estourada” (referência à cor do sangue de Biel) e “Sangue de Jesus” (pela linhagem comum entre Cristo e Davizinho).

Hanna Arruda conseguia viver sem gozar. Afinal não conseguem a mesma façanha todos os que abraçam o celibato? Há muito aprendera a substituir o prazer sexual pelo consumo exagerado de tudo que contivesse muito açúcar e/ou muito álcool.

Hanna Arruda sabia como negar a si mesma. Não havia milhões de crentes a seguirem os ensinamentos daqueles que se libertaram de seus egos?

Hanna Arruda precisava muito de matemática para tentar decifrar os códigos das tabelas complicadas dos planos estabelecidos pelo marido; listas de processos otimizados para limpar a casa, róis de receitas para a preparação de refeições balanceadas, gráficos de utilização inteligente dos eletrodomésticos para redução de gastos e coisas assim.

Hanna Arruda não precisava de mágica para manter a casa em ordem, nem para abrir as pernas para o marido de gozo rápido e silêncio demorado. Não precisava de números para entender os segredos da fé, nem para sentir a passagem do tempo sobre as dobras de pele sob os olhos de um verde claro. Não precisava de dígitos para respeitar e apoiar o marido birrento e neurótico, nem de truques para amar e proteger o filho cândido e feio.

Hanna Arruda tinha o corpo inflado sem grandes encantos, mas era uma fortaleza capaz de achar energia para iluminar uma cidade inteira, se preciso fosse. Devia a Renée Druon o favor de tê-la ensinado a ver com clareza, a não mais confiarem ninguém. Nemno próprio marido.

Hanna Arruda não precisava de felicidade, nem de presentes, nem de compensações imediatas. Conseguia conviver com as etiquetas autocolantes que o marido espalhava à guisa de memorandos aos ocupantes do apartamento sobre esse ou aquele procedimento de higiene pessoal, de comportamento social ou de postura moral.

Toda mágica é truque, enganação, mas nem toda enganação ou truque é mágica! O engodo de Hanna, por exemplo, não passava de pura máscara.

O coração disparou ao ouvir o barulho. Teve certeza de que uma arma havia sido acionada. Pena não ter soado no andar de cima… Mas era apenas uma porta batendo logo ali do lado…

Hanna Arruda esforçara-se para ensinar o marido e o filho a não nutrirem ódios, mas não conseguia evitar, o coração como uma locomotiva desembestada, o pensamento de querer matar um arremedo de homem fingindo ser mulher que habitava com um minúsculo cachorro antipático o apartamento exatamente acima do seu.

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