VIII · gestalt escancarada (apto 41)

4 nov

Estava irritada. E não conseguia entender como seu filho não ficava surdo com o volume da radiola tocando aqueles LPs daqueles cabeludos barulhentos. Mesmo originado do outro lado da extensa cobertura, o barulho das guitarras chegava até a cozinha!

Já não bastava a bagunça do apartamento de baixo? Sentia saudade dos tempos das baladas ingênuas dos Beatles, Neil Sedaka, dos Carpenters, Ronnie Von e Leno e Lílian, “I’m a believer” dos Monkeys, “Something Stupid”, com os Sinatra, e “A Whiter Shade of Pale”, de um grupo de nome esquisito, regravada pelos Pholhas.

Apanhou o sanduíche de alface, tomate e maionese com uma das mãos e o depositou sobre um prato de sobremesa em que já havia um guardanapo de papel. Com a outra mão apanhou os pacotes plásticos com as verduras e os levou até a geladeira, pensando na sua adolescência; não dera trabalho para Dona Gisele, tinha certeza! A turma curtia o Pink Floyd, fumando maconha e bebendo cerveja, mas não provocava qualquer problema a mais ninguém. A guerra do Vietnã matava soldados americanos e o mundo se convencia que os vietcongues eram bandidos miseráveis que mereciam ser dizimados.

Sua turma fizera passeatas contra a guerra. Contra todas as guerras, mesmo as sem nome, mas usava camisetas com a cara do Che e bebia Coca-Cola como se não fosse um símbolo do imperialismo americano.

Será que Gelson estava envolvido com drogas?

Ah! As preocupações com os filhos acabam com as mães! Como se manter tranquila num mundo em que todas as oportunidades descambam, cedo ou tarde, no nefasto?

Pegou o pote de vidro de Hellmann’s e também o guardou na geladeira. A porta permanecera aberta, liberando um hálito frio que provocou um arrepio na mãe preocupada.

Empurrou a porta e olhou para o vazio, tentando levar para longe o pensamento e encapsulando o frio de volta à sua prisão de paredes plásticas sob as quais corriam tubos entupidos de CFC, num tempo em que a preocupação com a camada de ozônio ainda não tinha virado moda e lei. Franziu a testa e caminhou, resoluta, através do corredor que ligava a sala de jantar e o estar íntimo. Cruzou a biblioteca com os livros cujas capas tinham sido substituídas com suas criações de designer sem carteira assinada e postou-se à frente da porta fechada do quarto de Gelson.

Farejou o ar, um cão da polícia militar em busca do mais sutil toque de qualquer odor suspeito, mas não conseguiu sentir o adocicado cheiro de erva queimada. Um cantor em falsete chorava, num volume acima do razoável, um lamento para alguém chamado Babaji (Roger Hodgson, o vocalista do Supertramp, cantava para um santo hindu). Mas havia outras vozes: crianças conversando numa língua que ela não conseguiu entender.

Era só o que faltava!

O único aroma perceptível era o de pizza preparada com manjericão. Bateu com os nós dos dedos sobre a superfície pintada de vinho da porta. Não obteve resposta. Forçou a maçaneta, mas o acesso lhe foi negado; estava trancada.

Bateu mais forte, com a palma da mão. Como se já não bastassem a visita inoportuna e a falação dos vizinhos!

– Gelson! Abra essa porta!

Mais alguns segundos e o volume do som diminuiu. A chave rodou na tranca, por dentro. A porta foi aberta numa fresta e o rosto de Gelson apareceu por trás dos óculos redondos, uma expressão mista de falsa surpresa e ironia.

– Mais alguma coisa, manhê?

Marlise Utinga tentou emprestar seriedade ao seu rosto preocupado.

– Quem está com você aí?

Gelson escancarou a porta e fez um movimento amplo com a mão que carregava um livro marcado pelo indicador. Sentiu mais uma ponta de irritação ao perceber o sorriso maroto do filho adolescente. A voz era estudada, ensaiada, destituída de sinceridade.

– Ficou louca? Eu tô sozinho.

A brisa fazia as cortinas ondularem de leve.

– Pode entrar. A casa é sua.

O tom irônico a fez olhar com desconfiança para o filho. Detestava ser enganada. Embora fosse óbvio que não havia mais ninguém além do filho no grande quarto decorado com pôsteres de filmes (Star Wars e O Império Contra-Ataca tinham lugar de destaque), mulheres nuas e grupos de coisas barulhentas que se queriam música. Em meio às peças jogadas pelo chão acarpetado de bordô, três caixas de pizza. Duas estavam praticamente vazias, guardavam apenas manchas de gordura e restos de queijo endurecido.

Marlise inclinou-se para aproximar a mão. Percebeu que havia ainda calor. Onde ele conseguira as pizzas? Ele não saíra do quarto desde que Oscar fora embora e nenhum entregador tocara a campainha.

– Quem trouxe isso? Você comeu tudo isso sozinho?

Gelson ergueu as sobrancelhas, levantando as mãos, permitindo que ela lesse o título do livro: Harry Potter e o Prisioneiro de Askaban. A ilustração na capa mostrava um garoto que poderia ser uma representação estilizada do próprio filho. Apaixonada por livros, Marlise nunca ouvira falar daquele volume. Gelson sorriu, como o garoto da capa.

– Tá bom. Você me pegou!

Empertigou-se e voltou o corpo para Gelson, semicerrando os olhos e fazendo com a linha dos lábios se tornassem uma linha sem volume.

– O que você anda aprontando, Gelson?

O filho enterrou a cabeça nos ombros, um cachorro que mijou no tapete da sala e foi pego em flagrante delito.

– É que eu tô recebendo uns amigos de Rigel. Eles trouxeram as pizzas.

Marlise inspecionou o quarto, indubitavelmente, ocupado por ninguém mais além dela, do filho e suas coisas espalhadas como num campo de batalha.

– Muito engraçado! Esse livro é de ficção-científica?

O gesto do filho a fez acreditar que ele queria esconder a obra, desconsertado. A voz saiu sem vontade, o fôlego curto.

– Sobre uma escola de bruxos…

– Então mudamos de gênero? Como você consegue ler com esse barulho todo? Eu ficaria maluca! A leitura é como um ritual religioso, Gelson. Exige concentração.

Gelson a olhava sobre a armação dos óculos. Marlise convenceu-se de que não havia muito mais a tirar do filho, decidido a manter um silêncio irritante. Nem podia reclamar muito do garoto; suas notas eram ótimas e nunca tivera problemas sérios quanto ao seu comportamento. Tinha a língua afiada, dado a histórias fantasiosas e amigos estranhos e outros imaginários, mas era um bom menino.

– Você sempre fica nervosa assim quando está menstruada.

Fez uma careta de enfado e contra-atacou.

– E você não ajuda nada com o barulho que tá fazendo!

Decidida a sair do quarto de Gelson e retomar suas atividades, deu as costas para o filho plantado no meio do quarto bagunçado. Marlise estancou, os cabelos negros bailando soltos sobre os ombros bem desenhados pelos anos de ginástica rítmica no Ginásio N. S. das Dores, lá pelos idos de 1967, enquanto completava o curso pedagógico. Lembrara-se da razão original de vir até ali.

– Não minta pra mim, tá bom? Você tá envolvido com drogas?

– Como o Abba e Barry Manilow? Nem de brincadeira!

Não conseguiu deixar de rir.

– Vai à merda, Gelson.

Dessa vez, foi ele a sorrir. Mas o sorriso não durou muito, varrido pela frase da mãe.

– E dê um jeito nesse quarto que tá uma bagunça insuportável. Vou receber um editor importante, mais à noite, e não quero ver isso assim. E não tranque essa porta!

Gelson estampou uma cara de indignação.

– O apartamento é enorme! Pra que você tem que mostrar o meu quarto prum estranho?

O olhar de fuzil de Marlise dispensava qualquer comentário adicional. Saiu do quarto. Gelson fechou a porta e aumentou o volume da aparelhagem de som. A voz fina do cantor gritava, na língua de Shakespeare, algo como “você pra mim e eu pra você, de agora em diante”.

Embora Marlise reclamasse da música do Supertramp, “From Now On” não era mais ruidosa que “Light My Fire” dos Doors, que ela adorava desde os tempos do ginásio.

Ainda tinha muito tempo até que começasse a preparar o jantar para receber o novo namorado. Voltou à cozinha em estilo americano. Procurou pelo sanduíche que deixara no prato sobre o balcão que fazia a divisão entre a cozinha e a sala de jantar. Tinha certeza que o deixara ali.

Nem mesmo o prato estava lá. Verificou a porta de saída da cozinha. Estava trancada. Ninguém poderia ter entrado no apartamento por ali.

Olhou para a sala de jantar e não viu o prato com o sanduíche. Voltou pelo corredor até o estar íntimo. Não poderia estar assim tão fora de controle. Não. Não deixara o sanduíche ali. E não tinha estado no estúdio onde usava lentes de aumento para pintar com cuidado as letras e as ilustrações das capas que fazia para substituir as originais de péssimo gosto que os editores publicavam. A designer não tinha emprego nem respeito pelo trabalho dos colegas.

Marlise mantinha as sobrecapas originais numa das gavetas, como um cemitério do mau-gosto alheio.

Ouviu o som da descarga do lavabo e caminhou até lá.

– Gelson, você viu meu sanduíche…

O lavabo estava vazio, embora um fedor de carne podre se espalhasse pelo ambiente que não tinha abertura para o exterior do prédio. Marlise, um tanto enjoada, verificou a biblioteca só para ter certeza de que seu lanche não estava lá, também. Voltou à cozinha para preparar outro sanduíche, duvidando de sua sanidade e acreditando que estava ouvindo coisas e sentindo cheiros estranhos que não existiam. As histórias fantásticas de Dona Julieta, a velha que falava sozinha, estavam mexendo com seus nervos, assim como as futricas de Renée. Não podia se deixar levar pelas fantasias de uma velha cega, como os crédulos com que dividia o condomínio. Nem escutar as sandices maldosas de um dragão solitário que todos detestavam.

Marlise não estava louca, apesar de descontrolada pelo fluxo mensal que tantos transtornos causa a toda mulher saudável, pelas palavras retumbantes de Dona Julieta e as fofocas perigosas de Renée Druon.

Acostumada às narrativas divertidas do filho, Marlise ficava incomodada com as muitas histórias contadas pelos corredores do Tueris Fustado, em visitas para um cafezinho, troca de receitas e truques de maquiagem, nas rodas da garotada que se reunia para ouvir os deliciosos relatos pausados de Hélvio e seus fantasmas e fins de mundo.

A explicação sobre as pizzas não ficou clara. Marlise preferia não acreditar no filho. Não chegou a ver os amigos de Gelson. É que os habitantes de Rigel eram muito rápidos. A gravidade da Terra os transformava em verdadeiras bólides, apesar da baixa estatura e do pouco volume de seus músculos compactados em corpos esquálidos. Acostumados a gravidades mais fortes, cada movimento que faziam na Terra os transformava em versões do Flash, o rápido personagem dos quadrinhos de super-heróis americanos.

Ao bater na porta do quarto de Gelson, Marlise deflagrou um corre-corre dos diabos. Gelson agarrou um dos presentes que seus amigos trouxeram do futuro e orientou Klpytdy (falado Clápiti) e Tajkdy (Tâiki) a saírem pela janela que dava para a varanda da sala de estar.

– Mas esperem por mim!

Foi o que acreditou ter sussurrado na língua que tinha aprendido com alguma facilidade.

Os amigos rigelianos se viram no terraço, sua conversa animada interrompida enquanto mordiam bocados generosos da pizza marguerita roubada aos vizinhos de baixo. Os estômagos vorazes ainda insatisfeitos, enquanto Marlise e Gelson discutiam, Klpytdy e Tajkdy foram até a cozinha e encontraram o sanduíche que lhes pareceu apetitoso. Como eram extraterrestres civilizados, levaram o prato até a sala de estar e se refestelaram com o quitute, como manda a etiqueta, apanhando pedaços com as mãos e os levando à boca rapidamente. Cinco segundos e o sanduíche tinha se transformado numa lembrança que amargariam mais tarde.

A maionese provocou-lhes um desarranjo que primeiro atacou Tajkdy. O pequeno ET acinzentado correu ao lavabo e se desfez em fezes fétidas como carniça. O mesmo aconteceria com Klpytdy, na nave minúscula, durante o trajeto de volta para Hajykapadtydg (Arrâikapadí), na constelação de Rigel. Apesar de pequena, qualquer nave rigeliana que se destina a atravessar os confins do universo está preparada para esse tipo de emergência.

Foi Marlise afastar-se e Gelson voltou a trancar a porta. Saiu pela janela e encontrou-se com os amigos na varanda. De lá, atravessaram a porta da sala para alcançar, sob a chuva que engrossava, o terraço do edifício onde estava estacionada a navezinha rigeliana.

Telefones soaram quase simultaneamente.

Lembrando do relógio que deixara ali fora, no batente do janelão, Gelson verificou as horas. Apurou os ouvidos, em algum lugar, um barulho de algo pesado atingindo a calçada provocou-lhe um leve arrepio.

Marlise, depois de comer um sanduíche semelhante ao que causou o estrago no aparelho digestivo dos moradores de outro sistema solar, voltou à atividade que ocupava seu tempo livre: paredón com o design alheio.

A nave dos rigelianos alçou voo, quase silenciosa.

Gelson abandonara o quarto com o livro das aventuras de um aprendiz de bruxo com uma marca na testa com que os moradores da Terra iriam se deliciar uns vinte anos depois daqueles dias, sob os acordes inspirados de “Fool’s Overture”.

Marlise não ouviu a queda de Renée Druon. Os detalhes do acontecido foram relatados bem mais tarde, quando o editor importante chegou para jantar e dividir a cama da designer desempregada que vivia de trabalhos esparsos e uma minguada pensão alimentícia de um ex-marido que se provara um pai definitivamente ausente, colecionando suas lágrimas em copinhos de papel encerado.

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