IX · Λαβύρινθος (apto 31)

5 nov

Crianças regalam-se a brincar de esconde-esconde, mas o jogo se torna extremamente perigoso quando é praticado por um adulto que certamente perderá a vida se for descoberto.
Há pouco mais de um mês, o governo britânico decidira jogar quatrocentos e cinquenta anos de intrigas na lixeira e reatar relações diplomáticas com o Vaticano. Seriam perdoadas todas as mortes e perseguições, as calúnias e denúncias.
Não aconteceria o mesmo com ele. Não brigara com os católicos nem com os anglicanos. Suas diferenças eram com grupos menos poderosos, mas não menos perigosos.
Não estivesse tão preocupado com a própria sorte, deixaria os lábios se esgarçarem num sorriso ao pensar que aos governantes militares preocupavam mais os subversivos que criminosos de verdade.
A ficha parecia queimar em suas mãos e ele lembrou de um conto de Malba Tahan que lhe contara, impositiva, sua mãe, quando era criança. Um conto em que um ladrão tinha sido denunciado por seu medo, sua falta de controle.
Olhava para a ficha e sentia os pés resvalarem sobre a superfície exígua de um cabo fino suspenso entre o passado e o futuro, sem redes de segurança para aparar sua provável queda. Não havia como evitar sentir-se nos números mais arriscados do circo: era o equilibrista, o homem-bala, o domador de leões, o engolidor de fogo.
Soltou uma gargalhada nervosa e olhou, tenso, para os lados, certificando-se de que estava a uma distância segura de todos os colegas do Banco Patriota.
O estômago queimava. Podia ser a extemporânea feijoada do almoço.
O coração estava disparado e a língua parecia grudar nos dentes e no céu da boca. Era a mesma coisa toda vez que Romildo Rotti assinava os boletos para retirada de pequenas quantias da conta milionária de Santino Branco.
Santino Branco era uma invenção, assim como Romildo. Personagens criados para afastar seus inimigos.
A assinatura foi desenhada com naturalidade, traçada com rapidez, a mão firme desvinculada da testa salpicada de pequenas gotas de suor. Os leões do medo eram domados sem pestanejos, mas o preço em úlceras pépticas e aftas era desagradável.
Depositou a ficha em meio a um monte que seria entregue à supervisora no final do dia.
Apanhou o dinheiro do seu caixa, contou as notas, uma, duas, três vezes, e, terminada a conta, as dobrou lentamente, tentando parecer natural, controlado.
Os colegas de Romildo o achavam um homem muito estranho. Controlado nunca era um adjetivo usado para descrevê-lo. Cada detalhe em suas roupas gritava um cuidado exagerado, cada movimento das mãos era meticulosamente estudado, cada palavra soava artificial. Mas os olhos de louco mantinham a todos a uma distância que Romildo considerava confortável.
Enrolou uma banda de elástico em volta das notas e depositou o bolo entre dois escaninhos de madeira, fora do alcance da visão dos clientes do banco e de seus colegas de trabalho.
Neurótico era a palavra mais usada em conexão com o caixa de banco que jamais fechara as contas faltando ou sobrando um centavo sequer.
Num gesto rápido, um prestidigitador talentoso e sua cartola repleta de surpresas, ao ter certeza de que ninguém olhava naquela direção, apanhou o bolo de notas que separara e o enfiou no bolso interno de seu paletó.
Romildo levantou-se e caminhou por trás dos guichês de seus colegas que fingiam não demonstrar qualquer interesse em suas atividades. O movimento na agência não era grande, apesar do carnaval se avizinhando, e ele poderia se ausentar por uns instantes sem provocar transtornos ao atendimento dos gatos pingados que por ali transitavam, indolentes.
– Vou no banheiro e volto já.
Da mesa socada entre os grandes arquivos de aço, a supervisora assentiu com a cabeça sem olhá-lo uma segunda vez.
Ao entrar no corredor que o levaria até os sanitários, Romildo desencadeou os comentários corriqueiros.
– Ele é bicha!
Dizia Telminha, uma loirinha que não admitia sonhar trocar algumas carícias com Romildo. Separava documentos e os juntava em três montes distintos.
– Será? Acho que ele toma remédio controlado.
Zuzu apoiava o queixo sobre a palma da mão com dedos manchados de azul de papel carbono. Trabalhar aos sábados não era muito animador.
– Ele é só tímido, gente. Por que você não convida ele pra uma cervejinha, Telminha? Quem sabe ele não esquece as palavras-cruzadas e até te dá uns amassos?
Belarmino lançava um olhar maldoso, parando a contagem das notas de cruzeiros, fazendo a senhora de cabelos branco-azulados esperar um pouco mais do que o necessário para receber a minguada pensão deixada como herança pelo marido morto há cinco anos e Zuzu repuxar o canto da boca num sorriso sem convicção.
– Ele é bem bonitinho.
– Eu tenho nojo de bicha!
Telminha deixou os três montes de documentos de lado e puxou a ficha de compensação das mãos do garoto de cabelos vermelhos que mascava chiclete de boca aberta. O garoto ruivo franziu a testa ao ouvir o comentário, acreditando que a mocinha bonita referia-se a ele.
Romildo ficaria irritado se pudesse ouvir aquela conversa quebrada, mas sua cabeça estava dando voltas, ruminando os cuidados para que sua verdadeira identidade nunca fosse revelada.
Entrou pela porta marcada com uma plaqueta estilizada de uma figura masculina e postou-se à frente do espelho cujos cantos enegrecidos se ampliavam dia-a-dia sob o efeito oxidante da umidade.
Romildo abriu a torneira e levou um bocado de água até o rosto afogueado. As gotas ainda escorriam sobre a face lívida enquanto o rapaz olhava para o rosto do salafrário André Madeira que fingia ser o caixa de banco Romildo Rotti, que administrava a conta do endinheirado Santino Branco, que, com o nome de Armando Cabidela, havia comprado um apartamento num edifício decadente em que morava Romildo.
Manter-se equilibrado sobre essa roda-viva de alteregos era um exercício cansativo e angustiante.
Inclinou-se sobre a pia, mais uma vez, e apanhou um pouco da água que escorria gorgolejante para o encanamento do edifício moderno. Jogou o precioso líquido sobre a cara, como se tivesse esperanças de que cada átomo pudesse carregar porções de seu passado e as levasse, pelos esgotos, para longe dali, para um lugar em que os assassinos que procuravam por André não pudessem encontrar Romildo que usufruía a fortuna que ele roubara de seus antigos associados.
Romildo tinha esperanças vãs de que a água lavasse a sujeira dos negócios escusos em que se metera em Goiás. Suas contas eram pagas com dinheiro amealhado num esquema mafioso de contrabando de material hospitalar.
André Madeira era procurado pela polícia de Goiás e pelos assassinos contratados por seus ex-sócios mafiosos. Era quase irônico que um ladrão tivesse se transformado em caixa de banco, cuidando do dinheiro alheio com zelo e probidade.
Olhou para as próprias mãos e viu o destino encruado nos sulcos que pareciam rios vistos de algum satélite esquecido na órbita do planeta. Um conjunto de linhas organizadas para resultar num futuro que ele multiplicara em Armando, Santino e Romildo para que André pudesse continuar existindo.
Com a toalha úmida e malcheirosa, enxugou as mãos e o rosto, e saiu do banheiro para voltar ao trabalho. Todos os comentários tinham se extinguido quando se sentou no banco à frente do caixa.
Um empurrãozinho no ponteiro menor: o tempo passou, modorrento, enquanto atendia os últimos clientes do dia. Fechou o caixa, sem erros, como de costume, entregou o relatório à supervisora e saiu da agência do banco sem se despedir de ninguém. A filial paulistana do Banco Patriota tinha apenas uma coisa que o interessava de verdade: a conta numerada 32245AC em nome de seu heterônimo Santino Branco.
Como sempre, dirigiu-se ao bar do Joca para tomar uma loira gelada e preparar a transformação que se daria dali algumas horas.
Falava-se sobre a possível abertura política e, aqui e ali, algumas piadas giravam em torno da falta de finura do general Figueiredo e os habitantes de seu haras. Ninguém acreditava que o governo seria entregue aos civis; as feridas causadas pelas bombas no Riocentro estavam ainda abertas e as lembranças do governo Geisel eram fantasmas tão palpáveis como os copos cheios de cerveja que se espalhavam pelas mesas do bar. Lamentava-se mais a perpétua sombra dos militares que os 33% de lares sem água encanada no país.
As conversas ficavam menos sombrias e mais exaltadas quando se falava nas façanhas de Romeu Tuma e na Copa do Mundo. As escalações eram aventadas por cada um dos clientes do bar, faladas em altos brados; Telê Santana se multiplicava como André Madeira.
– Sócrates tá dentro, com certeza!
Gritava um.
– Zico e Éder também, porra!
– Acho que Éder tá fora. Cerezo vai entrar!
– Vai nada! Rocha joga contra a União Soviética!
Falava-se, à pândega, de cada dos 72 países participantes. Ria-se, e muito, da pataquada do sorteio de distribuição das equipes. Sonhava-se em querer a taça de cinco quilos de ouro. O soho seria realizado uma dúzia de anos mais tarde. Aquele ano, a taça ficaria com a esquadra azzura tricampeã.
Romildo ouvia a tudo sem emitir opinião, sua cueca Hom pinicava um pouco na cintura por causa do elástico. Era um suplício imitar o sotaque dos paulistanos e aproveitava cada segundo em que podia ficar calado. Meio embriagado, então, era melhor não deixar escapar qualquer nota de seu sotaque goiano.
Olhou o relógio automático em seu pulso e resolveu que era hora de voltar para casa e deixar Armando se preparar para viver a noite da cidade que nunca dormia.
A caminhada de volta até o edifício Tueris Fustado se encarregava de apagar os restos da memória do cotidiano do caixa de banco para dar espaço ao jovem animado que frequentava as noites das boates chiques de São Paulo. Romildo Rotti poderia, então, ser Armando Cabidela, vestir as roupas caras compradas nas lojas da Oscar Freire e sair pela noite guiando seu MP Lafer prateado.
Caminhar o deixava calmo. Tão calmo e distraído que não percebeu a aproximação da criatura estranha que puxava um pincher miniatura por uma coleira cravejada de pedrinhas plásticas que imitavam rubis.
– Você é o meu vizinho do terceiro andar.
Embora tivesse tomado um susto dos diabos, Romildo tentou manter a calma, voltando-se para encarar o travesti que o interpelava. Reconheceu seu vizinho esquisito.
Não tentou disfarçar o desagrado ao ser importunado em sua caminhada de volta para casa.
Enquanto puxava o pequeno cão, o travesti o olhava com um sorriso que Romildo não conseguiu saber se irônico ou mal ensaiado.
– Vamos, Mustache! Vem com a mamãe, vem. É um menino muito desobediente, meu biju.
Romildo olhou para o cachorro, de esguelha, deixando clara a falta de interesse naquele bicho risivelmente feio de olhos esbugalhados. O cão devolveu o olhar de desprezo e emitiu um latido fino, irritante. Romildo entendeu que a antipatia era mútua.
– Seja educado, biju. Ele é nosso vizinho, cherrí.
Com uma coçada no ouvido esquerdo, Romildo tentou evitar que a voz afetada do travesti se incrustasse em sua memória. De maneira pouco educada, voltou a caminhar em direção do edifício, a umas duas quadras dali. O travesti não se fez de rogado e, insistente, o seguiu de perto, arrastando o pincher que queria distância do jovem arrogante, pisando duro para mantê-los afastados.
– Renée. Meu nome é Renée. Eu moro no 32, ao lado do seu apartamento.
O nome fora falado com um erre gutural alongado e soara algo como Ranê. Romildo não fez questão de voltar a cabeça para seu interlocutor indesejado. Sua irritação estava se transformando em fúria sob o conjunto dos sons desagradáveis dos latidos do cachorro, do cloc-cloc seco dos saltos agulha do seu vizinho e aquela voz masculina despejada em falsete.
– Esta cidade às vezes é tão desagradável, não é?
Desta vez, o ainda caixa de banco aproveitou-se da deixa, caprichando no esse sibilante.
– Muito. Mesmo.
– As pessoas se protegem sob máscaras, escondendo o que são de verdade para terem a ilusão de que podem ser livres.
Romildo estancou e olhou para Renée com as sobrancelhas enterradas sobre as pálpebras superiores.
– Como?
O travesti inclinou-se para trás, como se evitasse aproximar-se do olhar ameaçador.
– As pessoas que moram neste monstro de cidade vivem evitando as outras. É como um grande palco em que as personagens escondem a verdadeira identidade com papéis estereotipados…
Na nuca de Romildo, alguns pêlos se eriçaram e os dedos de sua mão direita se crisparam em torno da alça da pasta que carregava. Seu pescoço se esticou e a cabeça projetou-se sobre a baixa estatura de Renée, o travesti que sorria mesmo sentindo-se ameaçado.
– O que você quer…
– Eu não nasci Renée, meu querido.
Sem pestanejar, Romildo disparou.
– Tenho certeza disso.
– Veja bem. Nós moramos um ao lado do outro há mais de dois anos e nunca trocamos palavras. Eu olho para você nessas roupas baratas e não consigo ver o jovem elegante que sai à noite naquele carro sem capota…
O homem-bala sentiu um frio no estômago e a garganta do caixa de banco ardeu com o sopro azedo.
– Você anda me espionando!
Renée arregalou os olhos.
– Espionando? O que é isso, meu bem? Da varanda do meu apartamento eu consigo ver o estacionamento em frente, onde você guarda seu carro. Qualquer pessoa que mora no Tueris pode ver você saindo toda noite.
Assumindo uma expressão mais tranquila, Romildo baixou a cabeça, sem deixar de manter os olhos grudados nos do travesti à sua frente. Mustache ganiu, pontuando sua frase sussurrada.
– Você anda me espionando.
– Admita, querido. Somos a prova da monstruosidade desta cidade sem alma. Vivemos num mundo em que as ameaças pairam sobre nossas cabeças. O Brasil, apesar da inflação escandalosa, está para inaugurar uma usina nuclear que pode explodir e matar um montão de gente. O futuro é incerto. O presente é tenebroso. Somos dois solitários que se escondem sob camadas de segredos, vivendo nossas vidas sem sentido por causa de perdas irreparáveis no passado.
O pânico ficou bem guardado, bem no íntimo, em algum lugar perto do estômago, e a voz de Romildo saiu leve, um equilibrista, quase uma carícia.
– Solitários…
Renée pareceu rejuvenescer, a voz assumindo um tom mais agudo, excitado.
– Apesar de toda a torcida contra, o feioso Charles e a encantadora Diana resolveram compartilhar suas solidões. Por que temos que continuar nos isolando quando podemos dividir as mazelas com nossos semelhantes?
Sentindo-se ameaçado por um travesti desocupado em busca de dinheiro fácil, Romildo raciocinou rápido, articulando as palavras como um hábil artista que não deixa cair os malabares.
– Então… O que você propõe?
Renée voltou a caminhar, assumindo a dianteira, dirigindo-se ao edifício que já estava à vista.
– Que bom que estamos começando a nos entender. Que tal conversarmos em meu apartamento tomando um delicioso chá inglês?
Os dedos agarravam a alça da pasta com força. Romildo calculou o tamanho de Renée sob aquele macacão amarelo e não acreditou que teria dificuldades de sobrepujá-lo num embate corpo-a-corpo. A cena se desenhou claramente, o domador obrigando o tigre a saltar através de um aro em chamas. Olhou para o edifício Tueris e viu as varandas do terceiro andar, sem grades.
– Vamos, querido, vamos.
Não poderia ser visto entrando no edifício acompanhado de Renée. Tudo se encaixava perfeitamente. Ensaiando um sorriso sem graça, voltou a caminhar da maneira mais tranquila possível. Repentinamente ciente das muitas pessoas que estavam na rua, falou num tom que certamente alcançaria o vizinho, mas que não seria ouvido por mais ninguém.
– Vá na frente e prepare o chá. Preciso passar no mercado pra comprar umas coisas.
Renée voltou-se, pisando inadvertidamente, numa das pequenas patas de Mustache. O cão reagiu ganindo e abaixando o coto de rabo como se quisesse enterrá-lo nas pregas do cu.
– Perfeit… Oh, biju, pardon!
Romildo passou por eles sem voltar a cabeça.
– Então tá combinado. A gente se vê daqui há pouco.
Seguiu resoluto até o mercado, deixando para trás Renée Druon e seu cachorro magoado pelo dono.
Tentava não pensar em nada, mas não conseguia deixar de articular, em sussurros.
– Que ousadia…
Se o dragão pensava que não reagiria a qualquer tentativa de extorsão, ia ter uma surpresa. Sabia o que tinha de fazer. Caminhou entre as gôndolas do pequeno mercado e não demorou muito para encontrar o que queria: uma capa de chuva de plástico transparente e um par de luvas amarelas para lavar louça.
O caixa estava vazio e o coreano não demorou mais que um minuto para lhe dar o troco. Romildo saiu do mercado com as compras num pacote de papel pardo e conseguiu ver as luzes da sala que chegavam à varanda do apartamento de Renée. De relance, lhe pareceu que uma luz intensa rebrilhava sobre o teto do edifício, mas não deixou o pensamento correr livre, precisava centrar foco em Renée e sua missão.
Os primeiros pingos da chuva eram magrinhos; sobre o tecido do paletó de Romildo, deixavam marcas que sumiam de repente, como uma ilusão de ótica.
Ainda olhando para cima, atravessou a rua e quase esbarrou em Manoel, o dono da padaria, carregando um pacote de sanduíches (o aroma inequívoco de pão quentinho e recheio de carne dava voltas em torno do padeiro como se fosse um campo de força protetor), à porta de entrada do edifício. Os dois homens não trocaram palavra. Romildo usou sua chave para abrir a tranca da porta e permitiu que o padeiro entrasse. Não respondeu ao agradecimento, mas percebeu que as mãos que seguravam o grande pacote tremiam muito. Não deu muitos tratos à bola para tentar descobrir porque o padeiro viera entregar uma encomenda pessoalmente.
Cruzaram com um garoto vestindo o uniforme da Pizzaria Monteverde, contando as notas de dinheiro que trocara pela encomenda de algum morador esfomeado.
Manoel subiu os degraus da escada principal até o átrio coberto de vidro em cujo centro havia um jardim bem cuidado seguido do caixa de banco que se desejava prestidigitador infalível, invocando um manto de invisibilidade. Em vão. Era visto por todos, mas não percebeu um pé de patim de gelo abandonado.
O pé direito não atingiu o patamar do átrio: enganchou-se no patim. Romildo perdeu o equilíbrio e estatelou-se sobre o mármore do piso sem largar da pasta e do pacote com as possessões recém-adquiridas. O cotovelo direito atingiu o chão com força e a dor intensa chegou até os dentes.
– Caralho!
Tivera sorte de não despencar pelos degraus da escada do corredor de entrada.
Foi um baque seco, sem coreografias especiais. O padeiro voltou-se para ele, com cara de preocupado, pronto para galgar os degraus para os andares superiores.
– Meu Deus! Precisa de ajuda?
Romildo conseguiu balançar a cabeça negativamente e emitir, entredentes, uma frase pouco compreensível. Fitando o relógio da parede, por falta de alvo melhor.
– Tudo bem… Esses desgraçados… Tô bem…
Hélvio correu para postar-se ao lado de Romildo e Manoel deixou de se preocupar com o caixa de banco, o malabarista que caíra da linha sem rede, seguindo seu caminho. Com a ajuda de Hélvio, Romildo tentou apoiar-se no cotovelo machucado para se levantar. Soltou um grito fino e voltou a deixar o corpo abater-se sobre o piso gelado, pensando na carta que mandaria para o síndico sobre os adolescentes irresponsáveis do condomínio. Podiam matar alguém, aqueles assassinos.
Matar alguém.
Foi delicadamente puxado pelo zelador e com um pequeno esforço, conseguiu erguer-se, o cotovelo e o orgulho bastante machucados.
Agradeceu ao negro que o olhava como se estivesse tentando segurar o riso.
– Esses… Garotos…
Passou ao lado da velha cega na cadeira de rodas, fumando um cigarro de filtro alaranjado; enquanto Sócrates batalhava para não sucumbir à tentação de voltar a fumar (é preciso dizer que sem esse sacrifício ele estaria fora da Copa?), Julieta Helena de Guimarães e Bentes não mais se preocupava em entupir os alvéolos com nicotina e alcatrão.
– Você precisa tomar cuidado com o que deseja, meu filho.
Ignorou o comentário solenemente, como um palhaço que finge não ouvir as vaias da platéia. Subiu as escadas, ouvindo o zelador e a velha cega conversando com palavras ininteligíveis e sentindo o cheiro adocicado da infusão de ervas do chá de Renée, e chegou ao seu apartamento, esbaforido.
Entrou em casa com pressa. Deixou a pasta e o pacote de papel pardo sobre o sofá da sala e dirigiu-se à cozinha.
Tirou o paletó, largou-o sobre a mesa, sem pensar na pequena fortuna que era carregada num dos bolsos, e arregaçou a manga direita da camisa de cambraia barata até expor o cotovelo. Não havia cortes nem arranhões, apenas uma mancha vermelha extremamente dolorida. Menos mal.
Abriu a torneira da pia e projetou o cotovelo de maneira a deixar que a água corrente aliviasse um pouco da dor. Passou algum tempo ali, revendo cada detalhe de seu plano desesperado. Podia dar certo.
Esticou o braço e verificou que, apesar da dor, os movimentos não tinham sido alterados. Tirou a gravata de listas marrons e verde-musgo e a jogou sobre o paletó, sobre o tampo da mesa da cozinha.
Foi até o quarto e vasculhou o armário até achar o pijama listado que ganhara de Telminha no amigo-secreto do natal anterior e que nunca tinha usado. Uma provocação que engolira calado. Achou o par de chinelas velhas que há muito se prometera jogar fora.
Despiu-se com rapidez, sentindo pontadas no cotovelo e vestiu as roupas escolhidas. O pijama caiu-lhe bem e as chinelas permaneciam confortáveis. Voltou à sala e retirou do pacote de papel pardo a capa de chuva e o par de luvas que comprara no mercado. Vestiu a capa e as luvas, abriu a porta e perscrutou as escadarias atentamente.
Seu telefone começou a tocar. Fechou a porta sem fazer barulho. Não poderia atender. Não naquela hora. Quem seria? Precisava consertar a secretária eletrônica. Aquilo estava dando nos nervos. Quem ligava era persistente. Engoliu em seco e decidiu-se.
Saiu do apartamento, tomando cuidado para não ser visto, sabendo-se incapaz de ficar invisível, ignorando o telefone que berrava como possesso.
Alguém estava descendo (ou subindo?) as escadas com pressa. A chuva engrossara, lá fora.
Esperou que os passos se perdessem em meio aos outros ruídos dominados pelo barulho arrítmico da banda do fotógrafo. O olor do chá invadira o corredor do edifício cheio de sons que chegavam dos apartamentos vizinhos: o maluco das fotografias estava ensaiando com sua banda desafinada, algum programa de TV servia de acalanto ao sono de um trabalhador exausto e alguém estava ouvindo Supertramp.
Caminhou até a porta do apartamento de Renée e tocou a campainha. Estava nervoso e impaciente e não tinha reparado que a porta estava entreaberta. Empurrou-a de leve.
Billie Holiday cantava “Lover Man” num volume razoável e o ambiente estava à meia-luz.
Romildo Rotti entrou no apartamento de Renée Druon como um homem-bala disparado de um canhão, preparado para garantir que a brincadeira de esconde-esconde não chegaria ao fim assim, sem mais nem menos, por causa de um invertido intrometido.

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Uma resposta to “IX · Λαβύρινθος (apto 31)”

  1. Ju loyola novembro 6, 2011 às 12:02 am #

    Oie Cariello!
    Sou eu a Juliana Loyol,lembra de mim?! 🙂
    eu encontei vc na DA e já comentei lá!
    Abraços!

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