X · porão sincrético (apto 05)

6 nov

– Que história, moleque?!
– É verdade, mãe!
– Esses livro ficam dano ideia procê, Maleco!
O menino coçou as comissuras dos olhos sem tirar os óculos. Precisava ter paciência com a mãe. Saber de muita coisa não o autorizava ser juiz da ignorância alheia.
– Mãe, armário era um móvel usado pra guardar armas. Assim como cueca é o lugar que guarda o…
– Se falá, toma um sopapo na boca!
Era exatamente como descrito no Livro Sagrado: mãe contra filho, filho contra mãe. Hélvio Hipólito de Souza cansou de passar os olhos de seu filho a sua mulher, impávido. Deixou a mão cair com estrondo sobre o tampo da mesa. Tudo que estava sobre a superfície de fórmica branca pontilhada de minúsculos polígonos de um cinza metalizado participou do barulho consequente.
Telma e Maleco calaram-se na hora e olharam, assustados, para o gigante de ébano à cabeceira ao alcance de um braço esticado. Enquanto Telma, com uma mão, ajeitava os peitos fartos na camiseta de algodão que entrou na sua vida já bastante usada, e com a outra desarmava o gesto voltado para o filho, a xícara branca à sua frente compartilhava um pouco do conteúdo de café e leite com a fórmica da mesa. Enquanto Maleco esfregava os dedos sobre o calção remendado com tecidos de padrões incompatíveis, tentando livrá-los da remela recém garimpada nos olhos, uma xícara, também branca, mas não pertencente ao mesmo jogo, não conseguia impedir que a sobra do café desmanchasse o futuro do garoto impresso na borra grudada em suas paredes.
– O café…
O garoto articulou “hâra” (merda, em árabe), em silêncio, e a mãe fechou os olhos, ambos aproveitando a pausa do chefe da casa. Hélvio usava a voz num tom bastante calmo.
– É sagrado…
Telma abriu os três esfíncteres simultaneamente: os globos oculares tinham-se voltado para o marido, as pupilas, invisíveis em meio às íris de um castanho muito escuro, apontadas diretamente para os olhos do marido, as escleras de um matiz amarelo-amarronzado fazendo um degradê com o marrom escuro da pele acetinada, e os lábios de um rosa vivo expunham os dentes brancos num sorriso prognata que se queria conciliador.
– Um momento de paz…
Maleco ajeitou os óculos sobre o nariz de grandes alares e ponta arrebitada, evitando focar qualquer ponto específico do rosto do pai naquela expressão piedosa que o deixava inquieto.
– Entendido?
Os dois balançaram a cabeça sem emitir som, como de costume. Hélvio sorriu e apanhou metade de um pão previamente esfregado no fundo da frigideira.
Como se nenhum entrevero tivesse acontecido, a refeição composta de pão, café, leite, queijo e banana frita com açúcar e canela transcorreu tranquila.
A família do zelador ocupava o único apartamento do porão, o 05. O edifício ficava num terreno inclinado, portanto os cômodos da unidade tinham janelas altas que davam para o quintal emparedado; a vista de concreto riscado de líquen furtacor e a exiguidade da luz eram compensadas pela ventilação constante (exceção ao banheiro que dava para um dos cinco poços de ventilação do Tueris).
Era um apartamento decorado com coisas herdadas de outrem e algumas peças acumuladas, aqui e acolá, com o passar modorrento do tempo. Era uma família pobre de dinheiro.
Dedicada passista da Vai-Vai, Telma vinha gastando as manhãs dos últimos dias nos ensaios do desfile que tomaria a Tiradentes e a transformaria, efêmeros minutos, em vestal de Aruanda, mensageira do Orum Ayê, mais uma apetitosa criação de Olodum. Filha de Xangô de cabeça feita, tinha um fogo no rabo que ela rebolava freneticamente ao som de qualquer surdo ou ao menor prenúncio de teleco-teco do tamborim. De uma estirpe de mulatos enraizados no bairro da Luz, neta de um negro alforriado no ventre que viveu a escravidão por tabela, Telma tinha as carnes fartas e duras, tetas de bicos pontudos e auréolas roxas de diâmetro exagerado.
Hélvio reclamava das guias de contas vermelhas e negras e das velas que queimavam ininterruptamente pelos cantos do apartamento e ensaiava, vez ou outra, um discurso catequizante solenemente ignorado pela umbandista de carteirinha.
“Ora essa! Tu me conheceu na umbanda e me quis. Agora vai me cobrí com esse lero-lero preu virá crente? Eu que nunca quis te fazê virá macumbêro! Tu cuida da tua alma que eu cuida da minha, nego. O único paraíso que eu desejo aqui na terra é aqui, contigo.”
As discussões paravam por aí, mesmo, com Hélvio todo prosa. Aliás, a maioria das reais discussões na família Souza acontecia entre Telma e Maleco.
Isso porque o menino nasceu sem chorar e só foi articular a primeira palavra ininteligível quando contava com cinco anos de idade. Não se sabe como, mas o garoto conseguia ler tudo sem nunca ter visitado uma escola. Aos dez anos, Maleco era poliglota, sem nunca ter frequentado curso de língua, tido acesso a livros ou dicionários (a minguada soma de salários do pai e da mãe não permitia esses luxos), numa época muito anterior à popularização da Internet.
A primeira palavra ninguém entendeu: “jävlar!”; um vocábulo sueco como tradução de uma interjeição de raiva muito popular no Brasil. Durante algum tempo, uns acreditavam que o menino era débil, outros, que era altista, ainda outros, surdo, uns outros tantos, tudo isso junto.
Quando se descobriu que, além do velho e bom português, o negrinho de olhar distante era capaz de falar, com fluência e desenvoltura, mandarim, sueco, árabe, letão e indonésio, a vida do casal transformou-se num inferno de parentes em romaria querendo uma graça do santo que espalhava “ren jue!”, “sjas!”, “hâra!”, “velnišķīgs nācija!” e “setan!”, aos borbotões, pelos cômodos da casa.
Para acabar com a graça de todos, Hélvio e Telma tomaram uma decisão admirável: afastar o menino da loucura ensandecida das famílias para educá-lo como uma criança comum, longe dos fanáticos que o queriam beatificado, dos pediatras que o queriam tese de doutorado, dos cientistas que o queriam patrimônio da humanidade e dos espertos que o queriam fonte de renda e atração circense.
Maleco cresceu ateu, mas foi amado, e muito, pela mãe umbandista que nunca descuidava da casa, fazendo milagres com o pouco da receita familiar, e pelo pai zelador protestante que sonhava amiúde com uma hecatombe que acabaria com o mundo, mas que não deixava de tentar consertar tudo o que podia no mundo que teimava em não acabar.
Certa feita, em 1980, um psicólogo ocupou o apartamento do caçador de tesouros por algumas semanas e pediu permissão para fazer uns testes em Maleco. Os pais negaram veementemente, mas o garoto resolveu matar a curiosidade e passou, às escondidas, por um batalhão de testes tediosos (o mais maçante era o conjunto de placas com manchas coloridas) apenas para que se descobrisse que era um garoto inteligente, mas estava longe de ser um gênio.
– Hoje… Tem ensaio?
Telma engoliu um naco de pão e, como se o marido tivesse feito a mais imbecil das perguntas, não se deu ao trabalho de responder, inquirindo-o em contrapartida.
– Quié que cê tem, hem, tá bobo, nego?
Maleco tentou, em vão, poupar o pai da ironia materna e não deixar a frase exageradamente paternalista.
– Vai ter ensaio até o desfile, pai.
– É… Eu sei…
A frase saiu como um suspiro. Se havia alguma razão inédita à aparente palermice de toda manhã, o filho não conseguia definir; Hélvio demorava para acordar de verdade.
Depois de verificar que todos tinham terminado o café, a mulata levantou-se da mesa e passou a recolher talheres, xícaras e pratos para a pia da cozinha.
– Bem, amores da minha vida, a mamãe precisa se trocá. Pode deixá queu vô comprá pão na volta, nego.
– Ah, não, mãe! Pode deixar, eu vou.
A mãe sabedora do prazer que o filho tinha em trocar ideias com os adultos frequentadores da padaria, deu de ombros e voltou-se com as mãos ocupadas para a pia a fim de arrumar sua carga sobre a cuba de ágata manchada.
– Maleco, meu filho, cê pode lavá esses prato, num pode? Deixa as panela queu lavo de tarde.
Hélvio levantou-se e, dando provas de que começava a ganhar controle da própria vida, chegou por trás da mulher de ancas largas e apalpou-lhe uma banda da bunda, sem cerimônia e sem evitar que o filho visse. Enquanto Telma arrumava a louça na pia, cochichou-lhe no ouvido, tentando fazer pausas semínimas.
– Se eu pudesse… Ia lá ver você… Rebolando esse cu maravilhoso…
A mulher deu uma gargalhada estridente e estapeou a mão do marido. Adivinhando o conteúdo do cochicho, Maleco achou que seria hora de ir até o quarto fazer qualquer coisa até que pudesse voltar à cozinha para lavar a louça.
Pulou da cadeira, serelepe, e foi até o banheiro. Sentia vontade de urinar. Fechou a porta, como era costume em sua família e postou-se de pé, diante da bacia.
O fio de urina espessa descrevia um arco da abertura do prepúcio até a superfície da água da bacia. Os gemidos o alcançaram com clareza. Segurou o fluxo de xixi. Maleco tinha certeza de que não eram seus pais a emitir aqueles ruídos de prazer. Os sons chegavam através do poço de ventilação. Em meio aos gritos, conseguiu entender Decavê e não teve dúvidas de que Zegalinha e Jucélia estavam chegando à fase final de mais uma trepada escandalosa.
Sorriu e deixou que a urina fluísse livre pela uretra, derramando-se sobre a água da bacia numa torrente ruidosa a mascarar os gritos dos vizinhos do apartamento de cima. Quase arrebentou de rir, espalhando urina sobre o tampo da bacia e o piso de pastilhas hexagonais cuja massa de rejunte há muito deixara de ser branca, ao lembrar do comentário da mãe, ouvido através da porta (que certas coisas Telma não falava na frente do filho). “Pela gritaria, a tarada da Jucélia deve enfiá os cotoco no cu do moço! O rapaz deve tá é sofreno”. E a sábia conclusão do pai, tão hilariante quanto a fala da mãe: “Sofre não… Ele sempre volta…”.
Usando do papel higiênico barato em que se podiam ver mínimos pedaços, mas ainda reconhecíveis, de antigas embalagens de balas recicladas, Maleco enxugou a urina do piso e da tampa, lavou as mãos e espremeu a Kolynos sobre sua escova Tek vermelha. Olhou para a imagem no espelho e ela lhe cumprimentou com um sorriso de bom-dia.
Abriu a porta do banheiro e ouviu os pais animados na cozinha. Voltou a entrar no banheiro e evitou que a porta fizesse qualquer ruído. Os pais ali do lado e os vizinhos acima, gente fazendo sexo, um convite à participação inadiável àquela sinfonia erótica matinal.
Sem se fazer de rogado, Maleco abaixou o calção e a tampa da bacia, sentou-se sobre ela, molhando uma parte da bunda com um fio de urina que escapara à sua limpeza ineficiente, e iniciou os movimentos cadenciados da mão sobre o próprio pau.
Pensando em Jucélia, a vizinha maneta que fazia um negro de dois por dois miar feito gatinho, sem precisar imaginar seus gemidos que lhe chegavam pelo poço, Maleco foi ficando com a respiração alterada – curta, sôfrega, apressada.
O prepúcio cobrindo e descobrindo a glande, submisso aos movimentos da mão que se agitava cada vez mais rapidamente.
Um maestro imaginário ergueu os braços exigindo a participação de todos naquele final apoteótico. Hélvio e Telma, na cozinha, Maleco, no banheiro, e Jucélia e Zegalinha, pelo poço, vibraram as cordas dos seus instrumentos e gozaram ao mesmo tempo, finalizando aquela peça improvisada.
O autor interrompe o libreto apenas para lembrar que naquele momento, Julieta Helena de Guimarães e Bentes dormia profundamente, no apartamento 13, somando à orquestra o ronco e os peidos rasgados, enquanto Merino e Hortência seguiam fortissimo suas partituras, no 23, incomodando os moradores dos andares superiores.
Maleco não conseguiu ouvir as partes da velha cega e do casal carola, sequer a coda de Renée Druon, chorando durante o pesadelo em que era torturado por monstruosos ramos de plantas impiedosas.
Depois de gozar, o principal problema de Maleco era limpar seu sêmen daquele canto do banheiro – algumas gotículas na parede, muitas no chão. Era mais fácil livrar-se do grosso no peito, onde o branco leitoso fazia contraste com o negro da pele.
Antes dos catorze, era sempre mais fácil masturbar-se. Invejava Neneca, que podia manipular-se onde bem entendesse, gozar a qualquer hora do dia, em qualquer situação, deixando como pista apenas um apertar de olhos, um tremor súbito e passageiro, sem esperma com cheiro de água sanitária, sem esperma que seca grudento. Sem esperma.
Maleco vivia um dilema cruel. Adorava gozar, mas detestava porra. Tinha horror ao sêmen que podia transformá-lo em pai prematuro, ao delator que tornava público o ato íntimo, o carreador da doença que ameaçava se transformar no grande assassino do final do século.
A batida na porta o fez saltar assustado.
– Sua mãe… Precisa usar o banheiro.
Puxou o calção e arrancou um generoso pedaço de papel. Limpou tudo e deu descarga.
– Tô saindo.
Escancarou a porta para ver o pai e a mãe com sorrisos mal disfarçados. Telma entrou no banheiro e trancou a porta. Se tivesse um olfato mais apurado, Maleco teria percebido que o pai exalava um odor muito parecido com o seu. Hélvio piscou o olho esquerdo e falou alto, surpreendentemente sem pausas.
– Vê se não responde mais pra sua mãe, moleque!
O pai puxou o filho para a sala, tirou a camisa e a entregou com um menear da cabeça. Maleco não entendeu. Hélvio esticou o braço, a camisa em riste, e apontou com o queixo para o peito do filho.
– Eu tinha um truque…
Antes mesmo de olhar para o próprio tórax, Maleco sabia o que havia lá. Sentiu o rosto queimar, enquanto apanhava a camisa que o pai lhe oferecia à guisa de pano de limpeza.
– Cobria o pau com a cueca…
Hélvio percebeu a hesitação do filho e gesticulou para que ele completasse o serviço de limpeza do peito marcado pelo próprio sêmen.
– Sabe, Ismael… Sua mãe é uma mulher…
Não conseguia olhar para o pai. Lentamente, foi esfregando o peito com a camisa que exalava o forte cheiro do suor de Hélvio, como se o negro estivesse encruado em cada fibra daquela peça de roupa. De leve, sobre o odor do pai, o perfume suave da colônia da mãe. Maleco sentia-se mal, como se estivesse limpando sua porra com um pedaço dos pais.
– De pouca cultura… Mas é uma mulher…
Sem levantar os olhos, não deixou que o pai recuperasse o fôlego e completou a frase.
– Admirável. A mãe é uma mulher admirável.
Foi obrigado a encarar o pai, já que Hélvio usou a manopla sob seu queixo para que seus olhos se encontrassem. Estava sorrindo.
– Isso mesmo!
Maleco arranjou um jeito de afastar-se do pai, com delicadeza. Mostrou a camisa sem saber o que dizer. Mais uma vez, Hélvio usou as palavras certas no momento mais oportuno.
– Precisava lavar…
Deixou o pai na sala e deitou-se na cama, pensando. Admirava Hélvio e sua maneira pausada de levar a vida. Seu pai era um homem amado por todos que Maleco conhecia.
Percebeu que ainda estava com a camisa do pai apertada na mão. Cheirou-a e sorriu. A camisa carregava os cheiros de toda a família: o perfume de Telma, o suor de Hélvio e o esperma dele mesmo. Um sincretismo de odores que o agradava. Não gostava de esperma, mas o odor ali misturado era bom. Muito.
Lamentava que Neneca não tivesse uma família assim, de gente que se amava e se respeitava, gente que, mesmo sem ter luxo, não se dispunha a ultrapassar certos limites.
Tinha que participar da reunião. Não concordava com os métodos, mas sabia que o resultado seria eficaz.
Entendia os medos do pai e seus pesadelos catastróficos. Não pretendia deixar que o mundo se acabasse assim, sem mais nem menos. Sabia não ter meios de espalhar um amor que a tudo permeasse e a todos inspirasse a uma paz universal.
Mas havia muito a fazer e ele não pretendia medir esforços para que todos se pudessem entender.

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