XI · espelho, espelho meu! (apto 34)

7 nov

O mundo voltou a fazer sentido.
A parte daquele mundo que ele usava para viver voltou a ganhar forma e substância. Não que tivesse demorado muito tempo, mas o lapso era sensível. Já devia ter-se acostumado, porém ainda o incomodava bastante.
Era sempre assim. Um gosto de ferro no céu da boca; não sabia precisar se real ou reminiscência.
A La Valeta estava às escuras. Apenas as luzes da rua não deixavam Oscar Delgado quase tão cego quanto era surdo. O turno tinha sido movimentado, porém nenhum caso digno de nota tinha ocorrido. Tinha certeza. Apagara quando o turno já havia chegado ao fim.
Os bêbados voltaram para suas casas com menos dinheiro do que tinham entrado na boate. As moças já haviam se recolhido e o caixa tinha fechado com lucro; todos receberam a féria sorridentes, esperando que o sucesso daquele noite se repetisse nos dias seguintes até que os shows de sexo explícito voltassem a provocar as filas que quase chegavam à esquina.
Não demorou a entender a cena. Num segundo estava de saída com os colegas de trabalho, no meio da sala, pronto a apanhar o molho de chaves. No segundo seguinte, lá estava ele, de pé, no meio da rua, certamente com a cara de bobo habitual depois daqueles apagões.
Era o terceiro episódio daquele dia. Muito preocupante.
Sestécio e Zanôi estavam agachados terminando o trabalho de enfiar os tambores e os pinos que trancavam as portas de correr de aço que lacravam a entrada da casa noturna cuja fachada não dava sinais de um dia ter sido uma bela construção art-nouveau. Oscar retomou o controle de suas faculdades e ficou de olho no movimento dos poucos gatos pingados que se arrastavam daqui para acolá, alguns cambaleando, desalinhados com o prumo do mundo, olhos esgazeados que viam dimensões além do cinza dominante na selva de pedra.
O barulho do motor incrementado fez todos se voltarem para os lados da Paulista. Àquela hora, o trânsito na Augusta beirava uma tranquilidade que seria quebrada apenas algumas horas depois, quando a maioria dos cidadãos normais dirigir-se-iam à labuta usando as mais diferentes formas de transporte.
Oscar reconheceu um Puma, mesmo ofuscado pelos faróis que queriam vencer a escuridão da madrugada. O primeiro impulso foi o de calcular a distância e a velocidade do carrinho baixo e aguardar o momento apropriado para jogar-se à frente do veículo… E esperar que o impacto terminasse o serviço. Desistiu antes mesmo de distinguir a cor do automóvel.
O Puma passou zunindo. Oscar balançou a cabeça e deixou um sorriso bailar nos lábios grossos enquanto ouvia com dificuldade o comentário de Sestécio.
– Eu bem que queria um desses pra catá umas mina, meu.
Zanôi deixou uma careta piorar seu rosto feio e olhou torto para o amigo uns dez centímetros mais alto e vários mais largo.
– Prifiro um Maverick de oito.
Sestécio deu de ombros e terminou de trancar sua seção da porta. Oscar bateu com a mão espalmada sobre o bolso da calça e pulou sobre Zanôi que já estava com o tambor de aço na mão, pronto para trancar a porta barulhenta.
– Ô, perái, Zanôi, sisqueci das chave.
A olhada de Sestécio para o Rolex falso, comprado na 25 de Março, deixou claro que os colegas não o esperariam. Os olhos de Zanôi eram perfeitos, sem qualquer desvio que justificasse o apelido, e caíram sobre Oscar como se quisessem crivá-lo de raios com alguma crueldade.
– Vai dá não. O 6475…
Oscar conhecia a história de cor, era sempre a mesma ladainha e a mesma conclusão: reclamavam que precisariam chegar até a Nove de Julho antes das cinco para poderem tomar o ônibus que os levaria até o Capão Redondo, mas sempre ficavam até as seis na farra, bebendo com outros trabalhadores da noite num bar da Praça Roosevelt, em meio à bicharada festiva. Também havia homossexuais no mundo de Oscar. E homens que fingiam que não gostavam deles, mas que não conseguiam ficar longe de suas camas.
– Tá bom, cês pode irem queu me viro sozinho.
Os dois não se fizeram de rogados e encetaram a marcha em direção do centro da cidade, caminhando sobre o declive com passos resolutos. Oscar não conseguiu ouvir os comentários efusivos dos colegas de trabalho, mesmo assim deu-se o direito de observar, por um tempo, Zanôi e Sestécio se afastando, rumo às rodas de gente alegre e eternamente sedenta de álcool e aventuras.
Não tinha dúvidas de que os encontraria pelo Corsário, se desviasse alguns metros até a Consolação ao invés de seguir à direita rumo à Santo Antônio, logo atrás da praça com nome de presidente americano que abrigava uma igreja católica, uma biblioteca pública, um estacionamento, uma floricultura e, à noite, uma multidão de prostitutos que prestavam serviços ali mesmo, no escuro por trás das pilastras, e alguns larápios que fingiam vender o corpo para roubar o que podiam dos “patos enamorados”. A prostituição também era comum no mundo de onde Oscar viera.
Entrou na boate às escuras e fechou a porta com cuidado para que nenhum transeunte pudesse se sentir tentado a furtar algo enquanto buscava suas chaves. Ladrões não existiam em seu mundo e Oscar lamentava que o nosso os tivesse em demasia.
Foi rápido, preocupado em anotar cada movimento a cada segundo, caso fosse vítima de mais um corte na edição de seu filme.
Voltou à Augusta em menos de dois minutos e terminou o trabalho de trancar a casa noturna em pouco mais de quarenta segundos. Adoraria que fosse assim tão fácil atravessar a porta entre os mundos. Fazia tempo desde a última vez em que visitara sua mãe e o pobre do Osvaldo, do outro lado do universo.
Desceu a ladeira da rua passando entre as barracas de cachorro-quente e os notívagos famintos de toda espécie de carne. O trânsito não estava muito intenso, mas aqui e acolá, alguns jovens lotavam um XR3, importunando as putas com gracejos pouco gentis.
Sentiu-se tentado a atravessar a Roosevelt, mas não desviaria de seu destino final apenas para flagrar os companheiros de trabalho em sua escapada depois do trabalho. Tomou a direção contrária, embarafustando-se pelo pedaço da Martinho Prado que escorria ansiosa ao encontro da Santo Antônio. Cruzou a Avanhandava que estava lotada de motoristas de táxi e flanelinhas que trocavam comentários inócuos sobre a participação de John McEnroe em Wimbledon e análises anódinas sobre as dublagens mal-feitas dos grupos pop nos clipes apresentados no Fantástico.
Mais alguns passos e três moças parrudas vestidas à moda de caminhoneiros o encararam com um muxoxo e usando um código que Oscar desconhecia para falar algo a seu respeito. Também havia lésbicas em seu mundo. O barulho do Ferro’s Bar e suas frequentadoras alvoroçadas ecoava pelas paredes dos edifícios que formavam um paredão circundante na Nove de Julho, uns quarenta metros mais abaixo. Não arriscou uma olhadela sequer sobre o parapeito do viaduto para a avenida espraiada no vale que, soubera há pouco, um dia tivera um córrego a céu aberto.
As lésbicas entraram em acordo momentâneo e uma gargalhada polifônica se espalhou pela noite, uma multiplicidade de acordes desafinados que sobrepujaram as notas maviosas de Maria Bethânia cantando Atiraste Uma Pedra. Os sons pareciam se dissolver sobre as letras esquisitas gravadas no frontão da entrada da sinagoga em frente.
Nosso mundo era mesmo uma grande mistura de culturas. As diferenças arranjavam maneiras extravagantes de se amontoar na cidade grande. São Paulo não poderia estranhar um estrangeiro diferente de todos os outros: um visitante do outro lado do espelho.
Oscar riu com o pensamento e as pernas reclamaram a inclinação para cima. A rua retomava a subida até o Bixiga. Aproveitou a interrupção da passagem de carros e atravessou a rua para tomar à esquerda, na esquina do terreno baldio.
Moveu os lábios carnudos e deixou que as palavras escapassem, num jeito peculiar de falar consigo mesmo, como se estivesse rezando a uma deidade onipresente ou uma entidade manifestada ao seu lado.
– Num durmi ainda… Inda é dia 18 pra mim…
Havia deuses e fantasmas em seu mundo. E ele não gostava muito de ambos. Se rezava, era para si mesmo.
A madrugada da quinta para a sexta estava movimentada pelas ruas do bairro boêmio. Havia gente, muita, pelas calçadas e lotando os bares e restaurantes. Com um leve movimento de cabeça, Oscar percebeu a multidão que se amontoava na esquina da Treze de Maio e seguiu afastando-se dali.
Daquele ponto até a Coronel Fustado, tudo pareceu acontecer a outra pessoa. Oscar não se lembrava de ter chegado ao Tueris, mas lá estava ele em frente à porta do edifício em que morava.
O quarto lapso (quem disse que desgraças vêm sempre aos pares?).
A rua estava calma, embora se pudesse ouvir música e risadas de um boteco de uma rua vizinha. É preciso que se diga que qualquer som que Oscar pudesse ouvir deveria ser uma grande chateação às pessoas normais. Ele era praticamente surdo de um ouvido e a acuidade auditiva do outro não chegava à metade do que os otorrinolaringologistas costumam chamar de normal. Uma benção, se considerarmos o barulho enfrentado em seu cotidiano de segurança de boate e vizinho de Merlin Mário Lemague e sua banda inimiga do mais simples cânone musical.
Mais um corte brusco no filme da vida de Oscar. Como mágica, ele estava no interior do apartamento 34 do edifício Tueris Fustado, segurando o molho de chaves na mão esquerda e olhando como bobo para seu reflexo no espelho da parede em frente à porta de entrada.
Esses lapsos de memória eram parentes próximos de sua surdez. Lá vamos nós fazer novo passeio pelo tempo, embora, desta vez, estejamos viajando também no espaço, de uma maneira bem mais radical.
Num belo dia de verão, uns três anos antes daquela madrugada, Oscar Delgado resolveu que era hora de dizer adeus ao mundo cruel. Enfiou o revólver frio que comprara de um policial desonesto no bolso da jaqueta jeans desbotada e montou na Honda 125 disposto a atravessar a cidade e percorrer alguns quilômetros até enfiar-se no meio do mato para fazer o mal-feito.
Atente, caro leitor, que, no mundo de Oscar, muitas semelhanças há com o nosso mundo. Porém as diferenças são monstruosas. Por exemplo, enquanto a telefonia celular era apenas um sonho para nós, era comum para Oscar e seus conterrâneos, há mais de cinquenta anos. Não havia ladrões, como afirmei anteriormente, mas corrupção e crimes de morte não lhe eram estranhos – a arma ilegal havia sido comprada com a ajuda de um policial corrupto.
Ao supor que não poderia ser visto da estrada, Oscar jogou a moto num canto e verificou, mais uma vez, o tambor da arma. Estava carregado. Olhou sobre os ombros e certificou-se: não conseguia ver a estrada. Nem sinal da Bauru para onde a família tinha migrado de Escada, uma pequena cidade açucareira no interior de Pernambuco. Fazia um calor lascado e a arma escorregava entre os dedos suados de Oscar.
Assumiu uma postura marcial, abrindo as pernas como se precisasse aumentar o plano de sustentação do corpo que, em breve, tinha esperanças, jazeria morto ali, no meio do nada. Apontou o revólver para a têmpora direita, mordeu os lábios fartos, fechou os olhos e puxou o gatilho.
A bala atravessou-lhe a cabeça e perdeu-se em algum pé de planta, muitos metros adiante.
Oscar caiu sobre arbustos e grama. A arma voou na direção oposta. Não sentiu dor alguma, apenas um sabor de ferro e fumaça e um zunido ininterrupto, como um cão ganindo fininho no mesmo tom agudo.
Pouco a pouco, o sabor intensificou-se e a pressão na cabeça foi se transformando numa dor latejada. O zunido transformou-se numa batida ritmada que acompanhava as contrações de seu coração acelerado.
Teve dificuldades em abrir os olhos. Um líquido grosso e quente o impedia de ver qualquer coisa. Com a mão esquerda, trêmula, tentou limpar os olhos e certificou-se que era sangue. Tentou gritar, mas as cordas vocais pareciam ter se desmanchado.
Com frases que não diferiam muito entre “caralho, numurri!” e “ondi tá a porra do revólvi?”, o cérebro de Oscar conseguiu ordenar aos membros que o arrastassem pelo mato à cata da arma. Foi uma caçada às cegas, espalhando sangue fresco em grande quantidade sobre a folhagem de um verde intenso.
Difícil saber quanto tempo transcorreu até que ele tenha achado a arma ilegal. Mas ele achou. E também achou forças para levantar-se e apontar mais uma vez para a cabeça ensanguentada. E puxar o gatilho uma segunda vez.
O estampido soou distante. A bala entrou pelo ouvido direito, atravessou a cabeça numa nova rota, abrindo um túnel quase paralelo ao cavado pela irmã que se perdeu no meio do mato, e parou antes de atingir o pavilhão auricular esquerdo.
Mais uma vez, Oscar foi jogado para um lado e a arma saiu voando como se quisesse afastar-se com rapidez daquele maluco suicida.
Desta vez, doeu muito. E os mundos se calaram para Oscar.
Os olhos estavam encharcados do fluido vital. A boca sabia a sangue. As mãos tentavam, em vão, livrar o rosto do líquido viscoso que, acreditava, jorrava apenas dos dois pares de buracos em cada lado da cabeça.
Depois de desistir de achar a arma, Oscar arrastou-se para a estrada. Estava longe, mas não desistiu. Tinha esperanças de jogar-se sobre o asfalto e ser atropelado por um caminhão dirigido por algum motorista distraído.
Foi resgatado e levado para um hospital próximo e, de lá, à capital.
O estrago foi grande. Não o suficiente para matá-lo, é verdade, mas bem grande, mesmo. Quase todos os ossos internos se partiram em cacos minúsculos; alguns foram projetados em alta velocidade contra as mucosas internas, fazendo o palato e as fossas nasais sangrarem como as crateras criadas pelos projéteis nas têmporas e ouvidos; o direito passou a servir apenas como depósito de cera. A primeira bala operou uma pequena lobotomia e a memória de Oscar jamais foi a mesma desde então. Os nervos oculares escaparam por milagre.
Depois do tratamento, ele resolveu não voltar a Bauru. E ficou por São Paulo, onde tentou tirar a própria vida, várias outras vezes. Pulsos cortados, pílulas para dormir, gás, coisas assim, sem sucesso, até o momento desta narrativa.
Milagre? Um suicida incompetente? Um anjo da guarda para lá de poderoso? Ou um deus brincalhão divertindo-se à custa do desequilíbrio de uma de suas criaturas? Ou ainda o cumprimento de uma lei de karma por pesados delitos em vidas passadas?
Um arranjo aleatório de probabilidades, talvez. Numa dimensão paralela, Oscar Delgado morreria em consequência do primeiro disparo. Numa outra, os pulsos cortados drenariam todo o sangue de seu corpo e sua alma estaria perambulando num infinito jardim de anêmonas fedorentas sem possibilidade de encontrar uma saída. Numa terceira, ele nunca tentaria se matar. E continuaria assim, indefinidamente, não apenas para Oscar, mas para cada ser vivente em nossa realidade.
Oscar Delgado tentou se matar numa dimensão muito próxima da nossa e a lobotomia operada pela segunda bala abriu sua percepção às passagens entre as muitas dimensões existentes no universo – ou universos.
Oscar sempre fora capaz de ver mundos paralelos e seus habitantes. E isso se transformou num tal transtorno que ele não podia discernir entre o que estava acontecendo em seu mundo e nos mundos que todos acreditavam estar apenas em sua mente doente.
Depois dos tiros, ele passou a reconhecer as portas de conexão entre os mundos e, faz uns dois anos e meio, começou a perambular daqui para acolá, pulando entre possibilidades de existências como se estivesse saltitando sobre um grande barreiro salpicado de poças de lama.
Os saltos de um mundo a outro não são lá muito fáceis de operar. É preciso concentração. E os erros de destino são comuns. A vinda de Oscar para a nossa realidade foi consequência de um desses erros. De alguma maneira, nossa realidade era mais consistente do que algumas outras. Por isso Oscar passava tanto tempo sem visitar os parentes na São Paulo que ocupava sua dimensão natal.
De volta no tempo, ao nosso tempo e à nossa dimensão, ao apartamento 34 do Tueris, encontramos Oscar com os olhos ainda grudados nos olhos de Oscar no espelho. Oscar em nossa realidade resolveu deixar de se olhar com cara de bobo e ir dormir. Estava muito preocupado, afinal, acabara de passar pelo quinto episódio de amnésia temporária num mesmo dia.
Talvez fosse hora de ir tomar o café da mãe.
Ou tentar novo suicídio.
Na dúvida, recostou-se no sofá barato adquirido a crédito na Tamakawi e caiu no sono, sem poder lembrar se tinha trancado a porta de seu apartamento.
Acordou-se com uma dor latejante no pescoço. O sol tentava vencer a cortina da chuva fina que se derramava prazenteira sobre a terra da garoa. Olhou o relógio sobre a prateleira da estante e saltou de seu posto, assustado com o tarde da hora. Costumava acordar ao meio-dia, mas o ponteiro pequeno apontava a segunda hora da tarde.
O estômago reclamou de fome, roncando audivelmente.
Foi até a cozinha e abriu a geladeira. Um pacote plástico de leite solitário parecia gargalhar para ele. Se havia um sentido de Oscar do qual não se podia reclamar era o olfato. E havia um odor nauseabundo se espalhando da geladeira para o mundo. Abriu a gaveta do fundo e uma metade de uma cebola rolou até chocar-se contra o plástico que envolvia um repolho que ganhara tons azulados e pardacentos e um cheiro parecido com as anêmonas do jardim daquela outra dimensão.
Se não fosse um processo tão lento, talvez tentasse morrer de inanição, dia desses. Naquele momento, era achar um jeito de fazer compras e matar a fome que estava por transformar seu estômago numa criatura mais loquaz que seu dono.
Decidiu-se por comer um sanduíche na padaria do Manoel, mas antes precisaria dar um jeito de ficar mais apresentável. Enfiou-se no chuveiro e deixou que o jorro de água quente brincasse de escorrega sobre seu corpo cheio de músculos bem definidos, por um bom tempo.
Vestiu a primeira roupa que encontrou limpa e não se surpreendeu ao perceber que deixara o apartamento destrancado durante todo o tempo em que dormira no sofá. Quase sorriu ao pensar que um invasor pudesse matá-lo durante o sono.
Saiu de casa, esfaimado. Estava trancando a porta, diligente, quando ouviu a voz conhecida.
– Tudo bem, Oscar?
Virou a cabeça, enquanto dava a última volta na chave ainda na fechadura. Os olhos do garoto levemente ampliados pelas lentes corretivas pareciam sorrir mais do que os lábios.
– Tudo bem, Gelson?
– Há quanto tempo você não visita sua mãe?
A pergunta o atingiu como uma facada. A expressão em seu rosto deve ter sido delatora. Gelson ficou visivelmente preocupado e caminhou ao longo do parapeito para iniciar a descida pelo rol de escadas que separava o terceiro e o quarto andares.
Não estava disposto a conversar com Gelson sobre isso de barriga vazia. Encetou a descida, mas foi interrompido pelo garoto de óculos redondos, que estava genuinamente preocupado com o humor do amigo.
– Desculpa, não queria ter sido grosseiro. Mas você tá com uma cara horrível… E faz tempo que você não fala de sua mãe ou de seu irmão.
Muito rapidamente, o menino estava ao seu lado, mas ele não fez questão de ser simpático. Soltou as frases enquanto descia os degraus, sem olhar para seu interlocutor.
– Perciso cumê alguma coisa. Geladêra tá senada.
Continuou a descida até que Gelson agarrou seu braço esquerdo. Oscar não estranhou a intimidade, já que os dois tinham gasto muito tempo em conversas sobre suas aventuras incomuns.
– Olha, eu posso preparar uns sanduíches lá em casa. Que acha?
A menção a sanduíches o fez estacar a marcha e olhar para o garoto com mais atenção. Gelson sabia como preparar sanduíches deliciosos.
A porta do apartamento 32 foi aberta com certo estardalhaço e Renée Druon entrou no vestíbulo do andar como uma vedete no palco de um teatro de variedades – com pompa e circunstância. A voz em falsete de Renée incomodava Gelson e seus ouvidos perfeitos sobremaneira, mas apenas soava impertinente a Oscar e sua surdez. Os dois olharam para o travesti (uma visão quase ofuscante de tão amarela) e voltaram a se olhar, talvez por educação. Renée não deu tempo para Oscar responder negativamente ao convite.
– Como está Marlise, Gelsinho?
Embora não tivesse qualquer vontade de ser simpático com o vizinho, confusão não era exatamente o que Gelson gostaria de criar com Renée. Queria livrar-se dele com rapidez. Respirou fundo. Esboçou um largo sorriso e respondeu da maneira mais agradável possível.
– Bem, obrigado.
Renée passou os olhos sobre Oscar parado no meio da escada, posicionou a boca num esgar que se queria sorriso, mas que Gelson entendeu como escárnio, e fuzilou.
– Ela não está em casa agora, está?
Não fosse pela preocupação com o visível mal-estar de Oscar Delgado e a vigilância impertinente de Renée Druon, Gelson teria gargalhado ao ouvir a voz esganiçada de Hanna Arruda. Olhou o relógio e percebeu que ainda tinha muito tempo.
– Sem correr, Davizinho, sem correr!
Ouviu os passos apressados do amigo e mais um garoto com ele e teve vontade de chamá-los, mas sabia que tudo já havia sido conversado. Sua curiosidade seria saciada mais tarde. Oscar e Renée eram prioridades no momento. A voz de Davizinho corroborou sua desconfiança de que ele estava com o menino que urinava azul.
– Assim não vale, Biel!
Soltou o braço de Oscar e subiu alguns degraus. Fingiu um tom casual e tentou responder à pergunta maldosa de Renée. Seria interessante acrescentar uma questão pessoal ao caso… Suas palavras foram pontuadas pelo barulho dos saltos altos do travesti atravessando o piso do vestíbulo até o lance de escadas.
– Ela vai voltar às quatro… Acho.
Renée passou por Oscar, fazendo um biquinho maroto, e desceu às escadas, rumo aos andares inferiores, fazendo um barulho, com os sapatos, que ele supôs irritante aos donos de ouvidos menos surdos que os seus.
– Bastante tempo…
Oscar não estava bem disposto antes daquela insinuação. O tom maldoso e a careta lânguida de Renée provocaram-lhe ânsias de vômito. Não precisava daquele tipo de problemas. Ouvia Renée e via uma serpente.
Gelson percebeu a expressão perturbada de Oscar e, rápido, sorriu, sinalizando para que ele subisse.
Oscar estava para ir embora. Sentiu um arrepio e deu de cara com a porta do 25, um patamar mais abaixo, sobre os ombros do travesti que coleava em sua descida. Um sussurro impossível escorregou por seu ouvido surdo e a frase se espalhou no tempo, ganhou novas cores no espaço, esgueirando-se entre as dimensões possíveis, transformando-se numa sensação, uma certeza. “Não o deixe sozinho. Não agora”.
Nosso mundo, vez ou outra, ganhava nuances tão impalpáveis quanto a sobrevida de Oscar às balas que atravessaram seu crânio, em seu mundo natal. E tudo parecia estar acontecendo numa produção barata da Paramount. Oscar tinha certeza que não sofrera outra interrupção. Mantivera-se consciente desde que acordara bruscamente no sofá da sala.
O sussurro continuou ecoando em seus ouvidos capengas. Deu meia-volta e resolveu subir os degraus até a casa de Marlise Utinga para comer alguns sanduíches com seu amigo Gelson, sem ligar para qualquer comentário posterior daquele vizinho desagradável.
Ou ao menos tentaria não pensar em todas as mentiras que Renée iria contar a Marlise, em seu próximo encontro fortuito.
Passou em frente ao apartamento 35, vazio como o 25, e outro arrepio revelou o incontestável: Oscar Delgado, o homem que, destemido, tentara se matar inúmeras vezes e, temeroso, viajava por mundos através de espelhos, tinha pavor do vazio que ocupava os dois apartamentos dos fundos dos andares superiores do Tueris Fustado.

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