XII · o grande irmão macunaímico

8 nov

O apartamento dos Souza era enorme, um despautério de exagero para a casa de zelador. Não se podia dizer o mesmo da área ocupada por Samanta Sales e seus cinco filhos; deveria ser usada como depósito e acesso aos dutos de respiração dos apartamentos pares.
Era ficar sob os buracos dos respiradouros e podia-se ver uma fatia de céu trançada de canos enegrecidos, ferro oxidado e vidro engordurado. A chuva se infiltrava entre as lâminas de vidro, por onde apenas ar deveria atravessar, derramando-se em manchas esverdeadas sobre as paredes enferrujadas dos dutos cheios de canos.
O depósito que se fazia casa era a residência dos Sales nos últimos cinco anos.
Com pulmões carregados de um catarro grosso, Juninho tinha três meses de nascido quando sua mãe apresentou-se a Lourival Alheiras, o síndico que sonhava matar a morte. A trupe composta de Samanta, uma mulher magra de seus 27 anos multiplicados no rosto em cada vinco, cada desventura, e cinco crianças esquálidas de olhos baços, um quadro picassiano da série azul virado realidade, uma obra de Di Cavalcanti cruamente palpável, atingiu um recanto de seu coração. Samanta, Neneca (10), Andressa (9), Adrica (8), Kaká (7) e Juninho (5) foram instalados no úmido desvão da escadaria no porão do Tueris Fustado.
Virou moradia permanente o que seria um abrigo temporário. Cinco anos escoaram pelas paredes manchadas de musgo desde a chegada da família órfã de pai morto num acidente durante o reparo de uma das pontes sobre a Marginal Tietê. O leitor deve perguntar-se o que foi feito do seguro e o autor faz-se a mesma pergunta. Sem dinheiro, Samanta arrastou os filhos pela megalópole, pedindo por dinheiro, comida e abrigo.
Ali no porão do Tueris, a mãe via minguar suas esperanças de um dia ocupar um casebre com janelas. Mas agradecia aos céus por ter um teto sobre suas cabeças e paredes a segurar aquele teto.
O guarda-roupa da família, uma arara pendurada entre dois desvãos num canto escuro, não era composto de roupas novas, porém jamais lhes faltaram peças usadas doadas por quase todos os moradores do edifício. Os Costanzza, os Marquez e os Arruda apareciam com roupas de baciada, a cada semestre. Marlise Utinga preferia ignorar a existência da família Sales no porão do edifício. Kaká, embora quatro anos mais novo que Gelson, herdava os tênis velhos do amigo que lhe cabiam à perfeição.
Adrica tinha uma séria debilidade mental, incapaz de auxiliar nos ganhos da família, gastava e dava trabalho apenas. Andressa aprendeu a cuidar de mãos e pés e passou a trabalhar como assistente de Hortência Costanzza no salão de beleza. Juninho era esperto como quê, descolando um dinheirinho como engraxate pelos restaurantes e bares das redondezas, passava umas doze horas fora de casa, perambulando pelas ruas do centro, voltando para casa lá pelas 11 da noite. Kaká e Neneca tinham histórias mais compridas.
Neneca, a mais velha, era uma menina de corpinho magro e penso para a esquerda. Manoel, o padeiro com pendores pedófilos, viu aquele corpo eternamente pendendo para o lado e caiu de amores (mais tara que amor, é verdade).
O padeiro era Manoel por empréstimo. Nem português, nem bigodudo, Severino Silva era um baiano de Feira de Santana que os fregueses apelidaram com certa maldade. O apelido pegou, embora fosse óbvio que aquele imberbe mulato musculoso não tivesse um pingo de sangue lusitano.
Casado com Maria, que emprenhara uma meia dúzia de vezes, Manoel era um homem que adorava sexo, mas que não encontrava reciprocidade na mulher. Seu interesse por Neneca foi estimulado por Maria; o caso a poupava de fingimentos inúteis e cansativos. Os tapões enlouquecidos do marido já não lhe eram dirigidos amiúde. Neneca servia de depositário do esperma e da violência do marido dado a achaques e crises de fúria incontroláveis.
Durante todo o affair ilegal, Manoel não deixava faltar à amante e aos seus familiares o que comer. Samanta fazia vistas grossas ao fato da filha ser menor de idade e todos os moradores do Tueris evitavam emitir qualquer comentário ou julgamento.
(O autor duvida que a postura geral fosse a mesma no final do século, em que a falta de óbvios inimigos públicos fez todos virarem os olhos, afinados, para os problemas internos – cada núcleo familiar passou a ver as próprias mazelas e tentar, bem ou mal, acabar com elas).
Renée Druon ameaçou denunciar o caso ao juizado de menores. Em seu caderninho de memórias, anotara vários números de telefone de delegacias, advogados e políticos. Até Romeu Tuma estava arrolado – onde diabos ele conseguira o número?
Se o caso virasse público, Manoel seria preso (sob o risco de estupro na cadeia, os presos têm regras muito rígidas quanto a esse tipo de comportamento) e Samanta também arriscava ser presa, mas, com certeza, perderia a guarda dos filhos; a criançada seria mandada para instituições governamentais, espalhando-se em unidades da Febem pelo estado.
Kaká seria, talvez, o que perderia mais com tudo aquilo.
Samanta não engravidara do mesmo homem; seus filhos tinham pais diferentes. As três filhas mais velhas eram filhas de um carioca malandro que todos chamavam de Tino Sem Tino. Quando soube que Samanta estava de namoricos com um motorista de táxi da zona norte, azeitou os trilhos e partiu para outras estações.
Do taxista, um mulato bem apessoado chamado Evandro de Almeida Teodoro, nasceu-lhe Kaká. Foi Samanta engravidar que o rapaz mudou a bandeirada e a praça. Há quem diga que tinha boas intenções; seu sumiço fora involuntário. Vítima de assalto à mão armada, reagira e morrera numa rua estreita do Paraíso. Dona Anja, a Avó do garoto, no entanto, dava uma explicação diferente: uma bruxa cigana previra que Vandinho seria assassinado pelo próprio filho.
O garoto, mais interessado em meninos que meninas, ria-se do dramalhão, uma cópia mal urdida da tragédia edipiana. Não podia se imaginar à cama com qualquer representante do gênero feminino, muito menos a mãe!
O pai de Juninho, Pedro Felício dos Anjos, um homem que assumira Samanta e a filharada, foi enterrado sob toneladas de concreto em meio a uma das colunas da Ponte do Limão, durante um dos tantos desassoriamentos do Tietê.
Quando nasceu, Kaká causou muitos sustos à família por causa dos bichos que o rodeavam. Eram sapos, rãs e lagartos – osgas, salamandras, lagartixas e calangos – que surgiam de repente.
Karlos Sales era o Grande Irmão extemporâneo do Tueris. Como morador do subsolo do edifício, tinha acesso aos dutos de ventilação de todos os apartamentos. Enfiava-se entre os canos e subia, qual anfíbio, até as aberturas de respiração dos banheiros, acompanhado dos lagartos e das rãzinhas; os maiores batráquios ficavam sob o duto, coaxando, impossibilitados de subir pelas paredes escorregadias.
As histórias se desenrolavam nos banheiros e viravam narrativas picarescas contadas nas rodas de amigos, durante as tardes esbaforidas de verão ou nas manhãs preguiçosas de inverno.
Através de Kaká, Gelson soube do hábito de Renée de fazer anotações em seus caderninhos de memórias. E muitas outras histórias…
Gelson gostava de Kaká apenas desconfiando que a atenção dedicada do garoto era um pouco mais que amizade. Acostumara-se à sua comitiva de criaturas de sangue frio. Já não o incomodavam as pererecas de dedinhos gelados que se jogavam, vez ou outra, sobre o pescoço ou os braços.
Apesar de morar no subsolo, os insetos não importunavam a família Sales. Os seguidores de Kaká tomavam conta de devorar cupins, mosquitos, moscas, formigas e baratas, um batalhão de anfíbios mais eficientes que qualquer empresa de dedetização.
Era tanto bicho que a família usava vários como complemento do cardápio. Não fosse pela rudeza do porão onde morava a família miserável, certas refeições seriam dignas de gente endinheirada. Kaká curtia as peles e as usava para fazer belas pipas que empinava com maestria. Algumas, ele vendia a preços razoáveis. O espetáculo de pandorgas furta-cor enchia o céu do Bixiga, uma poética alteração do processo evolutivo: os descendentes dos dinossauros retornavam às nuvens, rememorando seu parentesco distante com a passarada ruidosa.
Naquela manhã de sexta-feira, Kaká acordou-se com a barulhada de Jucélia e Zegalinha. Sem se preocupar em comer qualquer coisa ou lavar a cara, enfiou-se debaixo da escadaria e alcançou o duto que servia os apartamentos de fundo, as unidades com final cinco, seguido de sua comitiva. Subiu poucos metros até a abertura do 05 e deu de cara com Maleco se manipulando ao som do casal escandaloso um andar acima e dos pais menos ruidosos.
Sem pensar duas vezes, juntou-se ao festim, escanchado entre os canos e conduites. A orgia seria transformada, num tempo futuro, em mais uma das tantas narrativas apimentadas dos moradores do Tueris Fustado.

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