XIII · um peito frita o peixe, o outro fita o gato (apto 14)

9 nov

Olhando assim, de frente, ficava bem óbvia a quebra da simetria. Valéria Dubeaux tinha peitos grandes cujos bicos apontavam direções muito diferentes.
Não eram feios, longe disso. Eram apenas desequilibrados.
E isso fazia pouca ou nenhuma diferença quando posava nua, diante das câmeras, enquanto rapazes rijos a penetravam. As cenas eram editadas a toque de caixa, o som era adicionado sem cuidados e as cópias eram vendidas a preços populares através de caixas postais anunciadas em revistas por todo o país.
Valéria era a estrela maior da Unicórnio Produções Artísticas, sediada numa salinha apertada no terceiro andar de um dos baixos edifícios da Avenida Ipiranga, quase em frente à Praça da República. A recepção tinha sido decorada com um balcão de atendimento cujos pregos teimavam em se soltar, uma mesinha de pernas palito ornada com um vaso horroroso com flores arranjadas com desleixo e um sofá azul celeste que há muito carecia de novo estofamento.
Terminou de esfregar o hidratante nas tetas zarolhas, agradecendo a Deus por não precisar ir à sede da empresa amiúde. Porém não estava livre de frequentar lugares desagradáveis.
Maldita hora em que aconselhara Zezinho a imprimir as novas capas na gráfica da rua de baixo. “Sabe, querida, será que não poderia ir até lá, hoje e pegar o pacote por mim?”. Filho da puta.
Mais nunca iria cair na esparrela. Odiava gente que se aproveita das outras.
Foi ouvir o grito e sorrir. Jucélia estaria se divertindo com seu novo amante, aquela aleijadinha fogosa. Divertira-se muito com o fuxico de Telma. Já fazia uns três dias que, sempre que podia, comentava com alguém dos cotocos enfiados no cu do negão que Jucélia estava namorando.
O cabelo estava horrível. Apalpou ali, apertou acolá e nada. Precisava ir até o salão de Hortência para dar um jeito naquele desastre. Os cabeleireiros da produtora eram péssimos, uns viadinhos tísicos que viviam mascando chicletes sem qualquer noção ou senso artístico. Uma mulher como ela merecia tratamento melhor. Mas sabia que isso só aconteceria na América ou na Europa – os franceses a tratariam como uma diva. Ah, sim!
Vestiu a calcinha e a meia calça. Sentada na cama, abriu sua agenda e verificou seus compromissos. Odiava isso, mas teria que sair de carro. Passaria na gráfica, pegaria os impressos, levaria até a produtora e iria correndo até a Chácara Flora para atender o novo cliente. Precisava do carro. Infelizmente.
Vestiu uma saia justíssima e muito curta. Sobre a meia-calça, um par de meias de algodão listrado de muitas cores. Um par de sapatos fechados pretos de saltos robustos e pesados.
Anotou o endereço do cliente num pepelete e o enfiou na cintura, entre a saia e a meia-calça.
Apanhou uma blusa justa de algodão e enfiou no tronco. Precisou ajeitar o par de peitos desguarnecidos de sutiã para que o desnível entre eles não fosse tão óbvio. Apertou a cabeleira, mais uma vez, inutilmente. Carregou na maquiagem. Enfiou tudo o que podia na bolsa preta e saiu de casa esbaforida. Fazia um calor além do razoável. Tinha certeza de que cairia uma chuva violenta durante o dia. De trás da porta, pegou a sombrinha plástica amarela de bolinhas verdes.
Fechou a porta, trancou-a e iniciou a descida. Parou com cara de boba, em frente ao apartamento de Jucélia. Voltou até o seu apartamento. Destrancou a porta, escancarou-a e foi até o closet. Cavucou numa caixa de papelão e de lá arrancou um par de patins gastos. Poderia passar no sapateiro para consertar os ilhoses dos patins. Queria muito patinar no sábado no Shopping Ibirapuera.
Voltou a sair de casa, carregando os patins.
Desceu as escadas e estranhou não encontrar ninguém.
Chegou à garagem em frente ao Tueris e não achou quem a atendesse. Bateu com as lâminas dos patins sobre o portão de ferro. Gilberto saiu do banheiro fechando o zíper das calças jeans. Odiava esperar.
– Tava precisado, dona!
Respondeu seca, com seu humor de ratazana.
– Bom dia, Gilberto. Tô com pressa.
O rapaz ajeitou as calças e arqueou as sobrancelhas, desculpando-se de antemão.
– Faz tempo que a senhora não sai de carro, tenho que tirar uns três pra pegar o da senhora.
Bateu os pés no asfalto do piso do estacionamento, amuada. Passou os patins para o rapaz, sem qualquer cuidado, quase cortando seu braço com as lâminas afiadas.
– Ponha isso dentro. Vou tomar um café no Manoel enquanto tu manobra o carro.
Saiu sem esperar resposta. Caminhou até a padaria do baiano e pediu um pingado e uma média para o atendente magrinho de nariz empinado.
– Rápido, por obséquio!
O garoto sorriu e foi aviar o pedido, animado. Manoel aproximou-se, com uma careta.
– Seu vizinho tá querendo encrenca.
Valéria bateu com os dedos de unhas compridas sobre a fórmica do balcão.
– Tu quer que eu vá lá dizer o quê pra ele?
Manoel aproximou-se e quase cochichou, atento aos olhos da mulher que o vigiava do caixa. Usando o corpo como anteparo, passou a mão sobre a de Valéria.
– Que ele tá se metendo com quem não devia.
A dona dos peitos vesgos enfiou-lhe uma unha no dorso da mão. A mão do padeiro bateu em retirada e o dono fez uma careta sem emitir um som.
– Eu sou puta e massagista, meu bem. Não sou pombo correio. Cadê minha média, caralho?
O jovem de nariz empinado depositou o farnel em frente a Valéria, enquanto Manoel se afastava acariciando a mão ferida. O atendente entendeu que o sorriso lhe era dirigido e ousou.
– Gostei muito de “Garota de Programa III”…
Valéria o olhou nos olhos e sorriu maliciosa.
– Cinco mil cruzeiros por uma chupada. Pode pagar?
De imediato, o rapaz deixou o sorriso morrer nos lábios e se afastou, quase esbarrando em outro atendente que o xingou.
– Bocó!
O pão e o café com leite foram engolidos com ligeireza. Valéria saiu da padaria deixando uma bela gorjeta para o garoto que a cortejara sem jeito.
Como aconteciam coincidências! Lá vinha o travesti de boca grande e seu cachorro histérico! Os dois fingiram não se ver. Chegou à garagem e Gilberto estava com seu Gurgel BR800 azul ligado, pronto para encetar viagem.
Verificou se os patins estavam no banco lateral e saiu sem se despedir ou agradecer ao manobrista. Por alguns dez minutos o odiou de verdade. Seguiu com o carro até a Santo Amaro e dobrou à direita na Jaceguai. Precisava dobrar à direita de novo, na Major Diogo, mas estava com o cérebro ocupado em odiar o manobrista.
Não viu o ciclista que, inadvertidamente, cruzou à sua frente. Num átimo, pisou no freio, mas a rua estava coberta de areia. O carro não parou e o atropelou. Foi bicicleta torcida para um lado e ciclista desavisado para o outro, quicando no asfalto coberto de areia de construção. Quando o Gurgel estancou, Valéria desceu do carro, gritando como louca.
– Quer me transformar em assassina, seu filho da puta?
Aproximou-se do jovem magro atropelado. Movia-se, portanto estava vivo. Não deu tempo que o alívio se manifestasse. Deixou que a irritação tomasse conta do humor.
– Tu viu o que tu fez?
O rapaz tentou levantar-se, afagando o cotovelo dolorido.
– Entre já nesse carro queu vou te levar prum hospital!
– Não, dona, eu tô…
Partiu para cima do rapaz.
– Tu vai entrar nessa porra de carro e é agora!
Agarrou-o com as mãos de unhas afiadas como garras e o jogou contra a porta de fibra de vidro. O carro todo estremeceu com o impacto e o rapaz parecia querer expelir os olhos das órbitas, de tão assustado.
– Você é louca!
Transtornada, Valéria apanhou o que antes fora uma bicicleta Monark e tentou enfiá-la no carro, sem resultado.
– Caralho!
– Ei, solta minha bicicleta, sua doida!
Ao ouvir aquelas palavras, Valéria parou, séria e encarou o rapaz que começava a sangrar por um dos cotovelos. Atravessou o espaço que a separava do acidentado com um salto fantástico e iniciou uma saraivada de chutes e tapas bem aplicados. Todos atingiram o alvo.
– Tu quer acabar com minha paz, moleque! Quase viro assassina por tua causa, caralho!
E tome tapa na cara e tome pontapé na canela.
– Socorro, essa doida vai me matar!
E mais pontapé certeiro.
– Eu preciso te atender pra não dizerem queu fugi…
Um senhor de barba grisalha e expressão tranquila saiu da multidão que observava o espetáculo e tentou segurar a possessa.
– Dona! A senhora não conseguiu matar o moço com o carro, mas vai conseguir na porrada! Que foi que ele lhe fez?
A voz da razão chegou como um raio. Valéria caiu em si, enquanto, alguns metros adiante, Hortência Costanzza fazia um discurso inflamado para a mãe imaginária. Olhou para o rapaz magro jogado no asfalto coberto de areia respingada de sangue. Afastou-se dele e assumiu uma expressão contrita. O senhor grisalho sorriu.
– Vá embora, dona, antes que os amigos dele apareçam pra tirar sastifação.
Subiu no carro e deu partida, sem olhar para trás nem agradecer o conselho salvador do sexagenário providente. Dobrou à direita duas vezes e, na Abolição, à esquerda para pegar a Japurá. Parou o carro na esquina da Nestor Esteves.
Bateu na porta de ferro da gráfica e esperou por quase dois minutos até que viessem atender. Estava já com a respiração normal e pronta para derrubar a porta quando uma menina de cabelos ruivos puxou o portão lateral. As duas ficaram se olhando caladas, a menina com expressão de boneca de pano.
Odiava gente que não dizia nada, pensou Valéria, começando a ficar irritada de novo. Aquele seria o dia.
– Vim pegar uns impressos. O Quinzinho disse que…
– Tão pronto! Podentrá!
Quase tomou um susto pela voz de barítono da ruivinha.
– Não tem ninguém pra carregar no meu carro?
– Tem não!
Suspirou profundamente e seguiu a ruiva de voz grossa. Suspirou mais profundamente ao se deparar com as duas caixas de papelão repletas de capas dos VHS em que era comida por vinte e cinco garanhões em seguida.
Pegou uma das caixas e fez um leve careta. Daria para carregá-las, sem problema. Indicou a outra com o queixo e a ruiva entendeu a mensagem. Pegou a outra caixa e a jogou sobre a que Valéria já carregava. Até o carro, a segunda caixa deu provas que sua integridade estava ameaçada.
Pediu que a menina abrisse o porta-malas e lembrou dos ladrilhos que haviam sido depositados ali há mais de dez meses. Agachou-se para deixar as caixas com as capas caírem sobre as caixas com os ladrilhos quando muitos impressos se espalharam, alguns caindo na rua.
Valéria praguejou alto, tentando equilibrar-se sobre os saltos que brigavam com a inclinação da sarjeta. Apanhou vários dos impressos do chão, jogou-os dentro do porta-malas e procurou pela menina. O portão já havia sido trancado.
– Filha da puta!
Gastou mais um tempo catando as capas, mostrando as calcinhas para quem por ali passava. Tarefa terminada, fechou o porta-malas com violência e deparou-se com a cara do atropelado acompanhado de mais dois malandros.
– Cê apanhou dessa vagabunda?
O sangue subiu-lhe à cabeça. Era puta, vagabunda não!
Com a cabeça fervendo, distribuiu socos e pontapés, palavrões e mordidas, sem perceber que um dos amigos do atropelado tinha puxado de uma arma e disparado dois tiros. Os projéteis passaram longe do alvo, indo alojar-se na esquina da Nestor Esteves com a Santo Amaro, quase atingindo Renée que vinha subindo a ladeira depois de cruzar com ela sem vê-la.
A fúria de Valéria foi tanta que os três amigos ficaram jogados sobre a calçada em frente à gráfica, desacordados.
Ao entrar no carro, pronta para abandonar a cena, irritou-se mais ainda ao perceber que sua meia-calça estava com o fio corrido. Ligou o carro e, antes de partir, desceu, caminhou até o atropelado desacordado e o chutou, com força, gritando, histérica.
– Fiho da puta, tu rasgou minha meia, caralho!
Voltou ao carro e saiu de lá.
Precisou fazer muitas voltas até alcançar a São João para estacionar perto da produtora. Foi ajudada pelo manobrista a passar uma corda em torno da caixa que se desmontara e depois carregar as duas caixas até a entrada do edifício.
– A puliça teve hoje cedinho. Os cara fugiu. Levaro um montão de fita.
Aquele era o dia. Respirou fundo; por sorte os VHF ainda não tinham sido entregues. Se não precisasse daquelas capas para embalar seu novo filme, jogaria tudo ali, na sarjeta, largaria as caixas quase na esquina da Ipiranga com a São João, em plena boca do lixo. Alguma coisa estava acontecendo com seu coração e ela sabia muito bem que até o final do dia estouraria numa tempestade de mau humor.
– Não deixaram endereço?
– Ói, dona, dujeitchu quissaíru correno, acho que eles nem sabe prondi fôro.
Caminhou de volta ao estacionamento, praguejando contra toda a humanidade. Devolveu as caixas de papelão ao porta-malas e verificou as horas. Ainda tinha muito tempo antes de sua seção de massagem com o figurão da Chácara Flora.
Resolveu ir até o sapateiro ver se conseguia consertar os patins. O carro quase seguiu no automático, tal o nível de irritação. Parou o carro na Jandira, exatamente em frente ao sapateiro.
Deixou o carro por lá e caminhou até o shopping. Comeu uma batata assada e viu muita gente bonita. O ar condicionado a deixara um tanto constipada. Voltou ao sapateiro no horário combinado, uma hora e meia depois.
Nova surpresa. Aquele par de patins não era o seu.
Economizando o leitor de mais uma saraivada de palavrões e cenas de violência gratuita, relato que o sapateiro perdeu dois dentes e que a ponta de uma das unhas de Valéria ficou cravada no ombro direito do assistente.
Era muito para um dia só. E aquele era o dia.
Estava na hora de visitar o novo cliente rico. Enfiou a mão na cintura e catou o endereço. Saiu da Avenida Santo Amaro, cruzou a Adolfo Pinheiro e rodou feito barata tonta pelas ruas do bairro sem conseguir achar a desgraçada da Rua Fradique de Melo. Dava voltas e voltas e não aguentava mais passar à frente do Maria Imaculada.
Sentia-se sem esperanças como um personagem de Refugo, aquela revistinha vendida à porta do Cine Clube Bixiga por um desenhista de boca tão suja quanto a sua, orelhas de abano e cabelos de Jesus Cristo. Perdera a hora. Estava uns trinta minutos atrasada.
– Merda! Caralho! Buceta!
Gritava pela janela do carro. Freou bruscamente ao perceber a ruazinha curva em ferradura. Quase chorou.
Sem qualquer esperança, tocou a campainha do casarão. Foi atendida por uma mocinha de cabelos avermelhados que a olhava com desmascarada censura.
Aquele era o dia!
– Doutor Alvarenga esperou pela senhora até uns cinco minutos atrás.
Entrou no carro e desabou num choro desembalado, sob o olhar curioso da governanta ruiva.
Voltou para casa desiludida. Deixou o carro para que Gilberto o estacionasse, saindo da garagem carregando duas caixas que ameaçavam desmantelar-se cheias de capas com sua bunda exposta e um par de patins que não lhe pertenciam.
Subiu as escadas do Tueris até o patamar do jardim central e tropeçou num degrau. Um dos pés dos patins caiu e ela não teve ânimo para apanhá-lo. Pegaria depois, quem sabe. Não era seu, mesmo…
Entrou em casa, vencida, mais desequilibrada do que os peitos. Foi até o recinto que era mais obra inacabada que banheiro. Jogou água no rosto e voltou para o quarto onde depositara um pé de patim e as caixas que, enfim, desmontaram-se e deixaram seu conteúdo se espalhar sobre o piso de madeira.
Jogou-se sobre a cama, exausta, com a certeza de que não deveria ter acordado.
A tarde estava quente e uma tempestade se aproximava. Odiava chuva. O dia não chegara ao fim ainda, mas Valéria Dubeaux se dera por satisfeita. Dias assim, era melhor não tê-los.

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