XIV · retenção fecal e a morte retalhada (apto 11)

10 nov

Maneiras de fugir da realidade, há muitas. A maioria é vista como simples escapismo. Porém algumas são encaradas com admiração. O mundo do entretenimento é composto de gente que foge sempre do que entendemos como cotidiano. E ganha com isso.
Lourival Alheiras tinha sessenta anos e fazia parte daquela pequena porção da humanidade que fugia da realidade como escapismo e por profissão. Homem das Artes, dedicara a última década à produção de documentários em curta-metragem. Todos os filmes eram sobre mortes. Assassinatos.
Morava no apartamento 11, um museu. As paredes eram ocupadas por quadros inusitados: cópias de reportagens, protegidas por sanduíches de vidro, ilustradas com fotos de gosto duvidoso, sobre assassinatos de todos os tipos.
Sobre uma mesinha de mesa, um grande recipiente de vidro cuja tampa não encaixava à boca, tal a quantidade de palitos de fósforos riscados amontoados em sua barriga transparente. Ao lado do cemitério de palitos, um porta-retratos com a história de duas colunas sobre o parricídio de um venezuelano ocorrido em Riga. Por razões desconhecidas da polícia letã, seus dois filhos o jogaram no Alyiekste, os pés amarrados a sacos cheios de pedras. Aleka, uma mocinha madrugadora com problemas mentais (e insensível ao frio da Europa Setentrional) presenciou o ato criminoso.
O velho não escapou por que estava bêbado e porque o primeiro cidadão a dar ouvidos à mocinha débil estava tomando seu desjejum composto de arenque e biscoitos de trigo integral e nozes. Em sua juventude o pobre Juan Acero tinha fôlego invejável, em 1977, porém, havia-se transformado num velho econômico de pulmões mesquinhos. Não é de espantar que a água gelada tenha dado cabo de el em pouco mais de dois minutos.
A história acabava ali. No recorte da revista em espanhol o texto chegava ao fim no meio de uma frase: “les pareció que no eran lágrimas sentidas e faltaba mucho…”. O autor desconfia que Lourival era incapaz de entender a língua de Cervantes.
A matéria era incompleta, mas a ilustração prescindia de explicações a quem já viu o cadáver de um afogado.
– Saudade do vovô? Vovô também tá morrendo de saudade da netinha linda!
Sobre o sofá, vários quadros compostos de fotografias acompanhadas de legendas curtas (verdadeiros primores de ausência de vernaculidade e descalabros linguísticos); tamanhos variados para uma incrível diversidade de delitos mortais.
– Esse sábado… Sim! Tenho planos encantadores para minha queridinha do coração!
Tesoura, cola branca e restos de papel sempre sobre a mesinha lateral. O tecido do sofá como evidência da tortura sofrida por jornais, revistas e toda sorte de periódicos. O velho Lourival era incansável na manutenção de sua coleção.
Já se falou que todo colecionador padece de retenção fecal, uma necessidade de guardar aquilo que já não tem mais serventia, aquilo que perdeu a utilidade original. Será que estariam aí também arrolados os responsáveis (e visitadores, por que não?) por zoológicos, galerias, bibliotecas e museus? Freud explicaria?
Na parede em frente à cozinha, latrocínios, parricídios, homicídios culposos, ataques terroristas, rajadas de bala, facadas, cuteladas, punções, marteladas, tesouradas, enforcamentos e estrangulamentos.
– Você vai querer morrer de tanto rir! Quando foi que o vovô mentiu pra você, hem?
Na parede do outro lado da sala, de frente ao corredor de acesso aos quartos, ataques frontais, emboscadas, bombas caseiras, morteiros, hecatombes nucleares (artefatos atômicos detonados e usinas sem teto), atentados políticos, crimes passionais, delitos de vingança.
Num artigo baço, as letras borradas, uma mulher chamada Gemima diagnosticara o fim do matrimônio ao não mais vibrar com os excessos do marido estoicamente dedicado às obrigações matrimoniais de alcova e administrara veneno contra cupins em generosas quantidades como ingrediente de massas engorduradas e retintas de vermelho tomate.
Presa nas Alagoas ao confessar o crime às irmãs, durante o velório do morto safardana, declarou, quase ingenuamente, que o marido era “muito rígido”.
– Agora o vovô precisa ir, querida!
O museu espalhava-se por todo o apartamento. No primeiro quarto, estantes ocupavam as paredes até o teto, as prateleiras repletas de volumes encadernados com recortes de teor semelhante. No segundo, as estantes dividiam-se entre fitas cassete com depoimentos e julgamentos de assassinos, todas em inglês (língua que Lourival entendia), conseguidas com colegas cineastas de diferentes partes do globo, e quilômetros de rolos de filmes falados num infindável número de línguas de todo o mundo – aí se incluíam seus próprios documentários.
Por impossibilidade de conversar com a filha, Lourival criou a coleção como um recado importante às gerações futuras, à neta que tanto amava.
Não havia suicídios na coleção de Lourival.
Florinda Alheiras Calgaro, sua filha única, mãe de Letícia, presenteara a todos os convivas da festa da comemoração da chegada do novo ano de 1979 – filha, marido, pai viúvo, gato, cachorro, parentes e aderentes – com um espetáculo inesquecível.
Ainda segurando a taça em que lhe serviram um espumante decente, gritou “adeus!” e pulou da sacada do décimo sexto andar do edifício em que morava. Do salto nada ornamental resultou uma mancha escurecida no piso do playground e uma mácula na psique dos sobreviventes.
O autor precisa dizer que a festa foi um fracasso?
Ronaldo Calgaro, o jovem viúvo, conseguira reconstruir a vida; casara-se, dois anos depois, com uma também jovem viúva simpática interessada em manter Letícia em contato com o avô, apesar de sua coleção mórbida.
Lourival defendia sua esquisitice afirmando que criara um museu em que a morte era apresentada sem firulas, sem máscaras, sem hipocrisias. Para que todos respeitassem mais a vida. Para que cada habitante do planeta aprendesse de uma vez por todas que o milagre da vida deveria ser comemorado a cada dia, que a morte chegaria, cedo ou tarde, e que sua interrupção prematura não passava de uma triste estrada sem retorno.
Lacrado num envelope, seu testamento deixava claro que a coleção deveria ser encaminhada ao Arquivo do Estado, um legado do qual se orgulhava e ao qual deixaria de acrescer novos relatos apenas quando sucumbisse à morte.
Nunca acreditei no discurso esconço de Lourival. O velho vivia obcecado com a morte por temê-la. Profundamente. Esfregar os dedos sobre a morte documentada seria uma tentativa desesperada de aprisioná-la e dela se livrar, como um vampiro que ludibria a irmã do sono apenas por manter a consciência desperta quando o corpo e o espírito deveriam, há muito, descansar.
Um outro autor documentara a história de um bruxo britânico que, no século XIX, pretendera aprisionar a morte e conseguira apenas sequestrar seu irmão, espalhando um sem número de enfermidades relacionadas a distúrbios do sono, como uma endemia de letárgicos eternamente adormecidos e insones a ocupar igualmente horas da noite e do dia.
Lourival parecia padecer do mesmo mal. As olheiras lhe cabiam bem, mas deveriam ser resultados de longas noites em claro a recortar papéis a ampliar sua coleção.
No quarto de dormir, acima da cama, a história do atentado contra um militar americano, adição recente. A foto era de uma simplicidade atroz. Uma nuca e um furo ensanguentado. Em Paris, participante do corpo diplomático americano, mas não incluído no esquema de proteção por sua posição secundária, um assistente do adido militar, tenente-coronel, 42 anos, tomou uma bala no pescoço. As autoridades francesas não conseguiram fazer mais do que culpar, sem fundamentos sólidos, os terroristas líbios.
Lourival levantou-se do sofá da sala do que fazia as vezes de lápides sensacionalistas de centenas de milhares de mortes. Espreguiçou-se e estalou os dedos das mãos, um a um.
Havia documentos a assinar, o dia estava apenas começando e ele já queria voltar à cama para sonhar até que chegasse o sábado, quando encontraria a neta querida, com quem iria a uma peça de teatro, tomaria sorvete e esqueceria da morte.
Lourival sonharia em documentar uma morte próxima. Registrar cada momento do dia de um sério candidato a uma vaga num cemitério ou crematório. Lourival mantinha agendas em que anotava cada movimento de sua vida. Na falta de premonição, faltavam-lhe candidatos sem risco de erro. Por garantia, anotava sua vida e cumpria o papel que acreditava ser o mais importante da História.
Era um homem previdente, admitamos.
Chegou à varanda e respirou fundo, esperando que as partículas suspensas significassem mais que apenas poluição, que o ar da manhã trouxesse revelações inequívocas, indicações precisas de um moribundo a quem pudesse acompanhar ao jazigo, alguém às portas do derradeiro julgamento a emprestar vida ao seu desejo mórbido.
Inclinou-se sobre o parapeito vazado de sua varanda e encostou a testa à grade metálica, olhando para a rua em frente ao edifício, pouco mais de dois metros abaixo. Era mais tarde do que imaginara. Verificou as horas. Nove e trinta e cinco.
Voltou a olhar a rua e viu saírem do edifício o morador do 32 e seu cachorro mínimo. Lembrou-se da carta registrada recebida como reclamação do barulho feito pelos garotos da banda do filho do Lemague. Suspirou fundo e não lamentou que o condômino não o tivesse cumprimentado.
Havia uma reunião de condomínio marcada para dali dois dias e tinha que apresentar a carta ao simpático menino com nome de mágico bretão.
Nessas horas, detestava ser o síndico do Tueris Fustado.
Precisava anotar isso. Sentira um não-sei-quê no peso do ar. Talvez um cheiro de morte? Bem poderia estar à boca do caixão e não poderia deixar de registar seus últimos sentimentos, as definitivas inquietações.
Se não acontecesse o óbito em breve, suas anotações poderiam muito bem servir de roteiro para um novíssimo documentário a ser gravado em 16 milímetros ou super 8.
O velho acreditava estar pronto a morrer tranquilo, se pudesse encarar a morte com tranquillidade.
Fixou os olhos em Renée Druon e Mustache e deixou-se embalar no medo de deixar passar a oportunidade de ver seu sonho realizado. Não poderia permitir aquele presente dos deuses escorrer como chuva através de seus dedos.
Acorreu à mais recente agenda e iniciou a rabiscar frases telegráficas enquanto lá fora um dos tantos sérios candidatos a defunto levava o cachorro à manicure.
Antes de morrer, o que mais Lourival teria era tempo para descobrir que seus temores sempre poderiam transformar-se em realidade.
A unidade 11 do Tueris Fustado era ocupado por um velho viúvo intranquilo, colecionador de assassinatos. Ali estava um homem que aprendera a escrever, mas dedicara-se pouco tempo à difícil arte de ler. Especialmente quando o objeto de leitura eram presságios trazidos pelo ar poluído de uma megalópole que ainda não esquecera de ser cidade.

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