XVI · a compreensível inveja de Aladin (apto 21)

13 nov

As histórias envolvendo o apartamento 35 são inúmeras, mas poucas são tão impressionantes quanto o rio de sangue que não queria estancar.
Conta-se que Felipe Dias fora encontrado sobre uma poça de sangue ainda agarrado à arma usada para se matar.
O corpo, faltando boa parte do sangue e da cabeça, foi levado, assim como todos os móveis e pertences do assassino suicida. Tentou-se de tudo, por duas semanas, mas a poça carmim não parava de escorrer rumo às escadas, criando um fluxo do líquido vital, um rio pegajoso, com forte odor de ferro, que deslizava pelos degraus até o patamar em frente ao 25.
Usaram de tudo, mas não havia jeito de estancar.
De início, todos ficaram assustados. Os comentários resvalavam pelas paredes, sussurrados. É o sangue das vítimas incapazes de se vingarem, comemorando a morte de seu algoz e coisas do gênero.
Depois do décimo dia, o temor fora substituído pela irritação. Marlise e o filho, do quarto andar, e todos os moradores do terceiro tinham que equilibrar-se e chapinhar sobre os degraus ensanguentados até alcançar o segundo, deixando marcas de sapatos gravadas a sangue sobre os maltratados degraus mais próximos do piso térreo.
Na manhã do décimo quarto dia após a morte de Felipe, como se fosse a coisa mais simples do universo, a sangria desatada estancou.
Não foi preciso mais do que uma quinzena para que os comentários sobre o caso perdessem espaço para questões mais importantes: o campeonato estadual de futebol, as garotas do Fantástico ou da Status, o trânsito infernal. Os mais astutos davam gargalhadas às alfinetadas da agência J. Walter Thompson à Globo pelo aniversário dos 25 anos da Manchete, afirmando que o que Adolpho Bloch tinha realizado não estava no gibi.
Isso foi no passado, lá pelos tempos do Presidente Geisel e da aprovação do divórcio.
No presente, no ano da Copa do rotundo Naranjito, num arremedo de abertura política, o mercado editorial podia oficialmente comercializar revistas pornográficas explícitas impressas em território nacional. Os sorrisos dos donos de bancas constrangiam seus fregueses mais afoitos que, às vezes, desconversavam, cantarolando “I Can’t Stop loving You” enquanto fingiam não ter qualquer interesse nas revistinhas com capas cujas modelos sapecas convidavam inescrupulosas – um indicador nos lábios da boca e outro nos grandes lábios – a viagens para além da estratosfera. Os conselhos sexuais da atriz pornô Marylin Chambers dividiam as páginas da Club número nove com as belezas de Algarve, o humor de Geandré, o Maserati Merakulous e a nudez de Dina, Jacyra, Joana, Rosemary, Diana e Paloma.
O Boeing 757 fazia seu primeiro voo comercial, Leo Sayer encaçapava mais um sucesso (“I Love You More Than I Can Say”) e João Batista Figueiredo, numa coletiva desastrada, acenava com mais liberdades, enquanto Manuel Ktir atravessava a 25 de março em meio à multidão modorrenta que abarrotava as calçadas naquela manhã do dia 19 de fevereiro de 1982.
Quase todos no Tueris haviam esquecido do rio de sangue, mas a imagem não escapava da lembrança do velho que se queria inventor.
Acontecimentos extravagantes atingem as pessoas de maneiras diferentes. Aos homens de espírito prático, surgem como mistérios a serem desvendados, subterfúgios a serem investigados com pente fino, truques a serem desmascarados sem piedade.
Há uma certa ironia na biografia do senhor Ktir, um homem prático (que não se tenha dúvida disso), já que acontecimentos extravagantes não aconteciam de maneira rara em sua vida.
Descendente de migrantes libaneses contritos e extremamente religiosos, Manuel não foi batizado Hamaz por um triz. Católicos praticantes, Ramuz e Nadir Ktir resolveram não estragar parte da vida do filho com um nome estranho aos ouvidos tupiniquins.
O rebento dos Ktir cresceu Manuel, contraiu matrimônio três vezes e três vezes enviuvou. Depois da morte da terceira esposa, Maira, familiares e vizinhos passaram a chamá-lo equivocadamente de Viúvo-Negro (é a fêmea que mata os machos, não o contrário!).
Cansado de perder esposas, Manuel decidiu não casar mais; mesmo sem acreditar em maldição, achou por bem não dar chances a qualquer processo kármico em que pudesse ter-se engendrado. Alguma doença misteriosa que não o afetava, porém fatal a suas companheiras de cama? Improvável; Jandira morrera de um acidente vascular cerebral, Alda, de câncer, Berenice, de facada em assalto num ônibus corujão. Assumiu o papel de solteirão convicto, com direito à pensão da primeira defunta.
Sem conseguir passar sem sexo por mais de uma semana, suas necessidades eram resolvidas com as dulcíssimas frequentadoras de um bordel de quinta categoria, duas ruas distante de seu lar, doce, lar. O salário de aposentado era suficiente para manter sua vida de poucos gastos cotidianos e os encontros semanais.
Abrir as portas de seu apartamento, o 21 do Tueris, às putas não seria visto com bons olhos por seus vizinhos, nem de bom tom à memória das falecidas, acreditava. Manuel fazia questão de engordar seus gastos pagando pelo quarto fedorento do bordel, onde trocava fluidos com as meninas desavergonhadas de ancas flácidas e línguas afiadas.
Encantado, desde tenra idade, com as inovações tecnológicas, resolveu investir na carreira de cientista. Tinha, à época destes relatos, registradas inúmeras patentes de invenções um tanto estapafúrdias como o carrinho de compras com suporte para copos, motor a combustão de óleo de amêndoa e folheador automático de livros.
O tal folheador de livros, embora inútil, fora elaborado em sua compulsão no consumo de todo tipo de literatura existente. Capaz de entender duas fontes distintas de informação (quando jovem, é claro!), Manuel criara um suporte para dois livros com cronômetros que comandavam garras metálicas na passagem das páginas dos volumes – uma excentricidade, sem dúvida.
Seu apartamento parecia uma sucursal de uma biblioteca pública ou a filial de um sebo bem sortido. As paredes tinham sido providas de estantes que foram regiamente entupidas de volumes sem fim, livros que Manuel lera no calor da juventude e na calma da idade madura. Seus setenta e tantos anos arrefeceram o afã e Manuel já não lia com a frequência das décadas anteriores, embora continuasse a visitar livrarias e sair delas carregando pacotes com livros cujas páginas provavelmente não veriam olhos jamais.
Ao sair do armarinho próximo à Porto Geral, carregava uma sacola carregada de maços de cigarro de diversas marcas. Era uma carga leve, porém volumosa, dificultando sua passagem entre os transeuntes mal educados que o xingavam com termos indecorosos e qualificativos preconceituosos que, tranquilo, ignorava solenemente.
Resolveu permitir-se o luxo de lanchar num boteco e subiu o morro, caminhando, calmamente, até um pequeno estabelecimento ao lado da Catedral da Sé. Postou-se à frente da lanchonete às nove e dez da manhã, engrossando a multidão que se acotovelava à frente do balcão.
A gentileza não frequentava o lugar e Manuel teve que esperar por quase cinco minutos por uma cadeira numa mesinha apertada onde se sentou com dificuldade; não havia espaço suficiente para suas pernas e o pacote volumoso que carregava.
Depois de tentar, em vão, chamar a atenção de seu vizinho xucro que chupava, com um som gorgolejante, um copo americano cheio de um pingado fumegante, resolveu extrapolar suas capacidades físicas e, com um pouco de esforço, conseguiu enfiar o pacote sob a cadeira que ocupava.
Dez minutos depois, foi atendido pelo garçom de cara amuada. Teve que repetir o pedido três vezes, enquanto o moço de rosto coberto de acnes inflamadas fazia anotações quilométricas num caderninho esmolambado, as pontas quebradas e gastas, a espiral amassada e enferrujada, e apresentando grandes manchas de gordura na capa de padrão enxadrezado de uma cor difícil de precisar.
Não foi o mesmo moço quem trouxe o prato com o lanche de bife com fritas. Tentou reclamar pelo equívoco do pedido, mas obteve apenas um ronco incompreensível como resposta.
Sabia que em qualquer restaurante chique, pé-de-porco ou lachonete, um simples reclamo era garantia de comida cuspida, escarrada ou temperada com coisa bem pior. Opções? Ou abandonava a refeição intocada e saía sem pagar ou assumia a dívida e comia o que lhe fora apresentado.
Iniciou, cinco minutos depois, o processo de análise do prato à sua frente. Não demorou muito a se decidir por comer o sanduíche. A aparência não era tão desoladora e o sabor compensava tudo. Escorregou a língua sobre os beiços e sentiu-se tentado a lamber o prato quando já não havia mais nada além das manchas gordurosas do molho sobre o plástico esverdeado.
Para sair de lá obteve a ajuda inusitada de um jovem office-boy esquálido com um sorriso cariado que inspirava sérias elucubrações sobre a resistência da dentina e das trabéculas ósseas.
Voltou, lentamente, ao caminho que o levaria ao edifício em que morava, carregando a sacola de cigarros com ansiedade pueril. Estava para atravessar a Andrômeda quando percebeu o grupamento das crianças moradoras do prédio, em frente ao terreno baldio vizinho da tinturaria.
Acenou para a criançada e levantou o pacote para que Biel o visse. Limpou a garganta e forçou o peito para ser ouvido de longe.
– Nosso experimento!
Biel parecia preocupado. Todos estavam sérios. Até as gêmeas do Merino estavam lá. Mais impressionante era a presença do filho da moça da cobertura que parecia orquestrar aquela assembléia inusitada.
Aproximou-se e todos ficaram quietos. Biel apressou-se em tomar a dianteira, sorrindo pouco à vontade.
– Subo daqui uns dez minutos, seu Manuel!
Acreditou não valer à pena dar muitos tratos à bola por qualquer peraltice que os meninos do Tueris estivessem aprontando.
Sorriu, sincero, e afagou os cabelos lisos do menino.
– Tá bom. Enquanto isso, vou preparando tudo.
Deu as costas e aproveitou que não vinha carro para atravessar a rua sem precisar apertar o passo. Antes de dobrar a esquina, porém, lançou um olhar curioso, de esguelha, sobre a criançada. A discussão reassumira o ar de seriedade antes de sua interrupção.
Sorriu, divertindo-se em pensar quem seria a vítima de suas maquinações.
Chegou à porta e ampliou o sorriso para Hélvio, o zelador de ébano, suarento.
– Mas que boa coisa achá-lo aqui desocupado, meu caro.
O sorriso irônico do negro não denotava a humildade que as palavras fingiam.
– Quié isso, seu Manuel!… Desocupado, nunca… Muita coisa pra fazer… Antes do fim do mundo…
Manuel fez um muxoxo, decepcionado.
– Que pena, Hélvio. Tô com uma cadeira de ferro com uma perna torta que eu queria que você consertasse…
O zelador em câmera lenta foi incrivelmente rápido.
– Mas sempre tenho tempo… Pro senhor… Seu Manuel!
Sem perder o impulso, Manuel subiu os degraus de mármore da escada frontal até alcançar a porta de entrada do edifício, de onde se podia ver o jardim central no final do estreito corredor de acesso. Falou sem voltar a cabeça para Hélvio.
– Então vamos lá.
Hélvio seguiu Manuel no mesmo ritmo do homem de cabelos completamente brancos e pele marcada por muitas rugas e uma infinidade de pintas escurecidas. Atravessaram o corredor e chegaram ao jardim de onde podiam ver Dona Julieta sentada em sua cadeira de balanço, imóvel qual estátua. Manuel falou com intimidade.
– Na folga, Julieta?
A resposta veio afiada naquele tom metálico de voz que passou do ponto, como se as cordas vocais tivessem sido castigadas além de sua resistência. A montanha de restos de cigarros aumentava, a seus pés, indiferente ao desagrado do negro zelador.
– Nem tudo na vida é trabalho, Manuel.
Manuel gargalhou estrepitosamente, subindo as escadas, seguido de Hélvio, calado.
Chegaram à porta do 21 e Manuel fez um movimento ensaiado de sacar a chave do bolso e rodá-la entre os dedos antes de enfiá-la na fechadura. Com rapidez, torceu a chave e escancarou a porta para Hélvio entrar. Seguiu o zelador e largou o pacote com os maços de cigarro num canto já ocupado por uma montanha de livros para os quais não havia encontrado espaço nas estantes da sala.
Foi pelo corredor até o quarto dos fundos com a janela que dava para a Andrômeda. Hélvio o seguiu, respirando fundo para deixar o cheiro de papel velho penetrar com vontade nas narinas generosas. Seu filho tinha a mesma paixão pelo odor de papel, tinta e mofo.
Hélvio percorria os cômodos do apartamento de Manuel imaginando que prazeres se escondiam em cada compartimento daquelas estantes sem fim. Nunca teria coragem de pedir permissão de trazer o filho até ali. E Manuel jamais imaginaria que Maleco era um garoto superdotado que tinha aproveitado cada migalha de conhecimento contida nos presentes que ele lhe enviara.
Sabedor dos pesadelos que atormentavam Hélvio, Manuel acreditava que Maleco tinha os mesmos pendores catastróficos inspirados pelo temor religioso e não dava muita importância aos esparsos comentários que Biel fazia do amigo.
Apontou para a peça metálica torcida que nascera cadeira, mas que parecia uma escultura e sorriu.
– Você consegue dar um jeito nisso?
Hélvio coçou a cabeça, apanhou a estrutura de ferro oxidado, coçou a virilha e lambeu os lábios.
– Olha… Acho que dá pra fazer… Pro final do dia…
Apenas para não precisar explicar com que experimento tinha conseguido desmantelar o móvel, ensaiou um comentário sem qualquer graça. Manuel não pretendia ser grosseiro, mas não conseguiu impedir que as palavras fossem faladas. Quando percebeu a gafe, era tarde demais.
– Se o mundo não acabar, não é?
Hélvio abriu um sorriso iluminado. Manuel ficou vermelho como um pimentão. Passou uma nota amassada de duzentos para a mão de Hélvio. O negro manteve o sorriso, sem olhar para o valor impresso na nota. Sem ter bolsos na calça de cor desbotada, manteve-a na mão, um tanto constrangido.
– Hehehe… Isso…
Sem falar mais nada, Manuel guiou Hélvio até a porta. Ao abri-la, lá estava Biel.
– Oi, Hélvio!
¬– Olá, Biel!… Té logo, seu Mané…
– Entra, Biel!
O negro dirigiu-se à escadaria, ainda sorrindo. Não era burro, mas não entendera a piada de seu Mané, mas sabia que era uma piada. Só podia ser. Por que razão seu Mané iria fazer pouco de sua desgraça? Nesses momentos, Hélvio tinha uma pontinha de inveja do próprio filho – queria ter metade da inteligência de Maleco e poder compreender as piadas de pessoas cultas como o inventor do 21.
Manuel e Biel trancaram-se no apartamento, deixando Hélvio e seu pecado escorrerem pela escada como o sangue fantasmagórico que não saía da cabeça do velho Viúvo-Negro.
Biel, muito à vontade, jogou-se sobre a sacola e arrancou os pacotes de cigarro.
– O que vamos testar hoje?
A mesa arrastada por Manuel tinha cantos marcados por manchas escurecidas, queimaduras deixadas por muitas baganas de cigarro abandonadas para queimar ao bel prazer. Parecia o balcão de um boteco de terceira. Retirou, sem cuidado, todas as revistas que se amontoavam sobre o tampo, arrastando com um golpe preciso os dois cubos de Rubik desmontados que faziam companhia às publicações.
As pecinhas coloridas espalharam-se sobre o piso, dificultando a solução do problema matemático popularizado pelo húngaro que ensinava Artes Aplicadas em Budapeste.
– O tempo de queima. Mais uma vez.
Assim que Manuel parou de empurrar a mesa, Biel passou a abrir os maços diferentes e alinhar, cuidadosamente, um cigarro de cada marca sobre a borda da mesa.
– Já fizemos isso na quarta passada!
Manuel fez uma careta.
– A ciência precisa da pesquisa feita da maneira correta por homens incansáveis. A verdade precisa ser conhecida por todos, Biel!
Um sorriso maroto bailou nos lábios do menino de olhos claros e rosto angelical. Não sabia dizer se as palavras de Manuel eram sérias ou se o velho viúvo não estaria apenas gastando o tempo que lhe sobrava na vida em experimentos malucos apenas por puro divertimento.
– Ah! Esqueci minha meia azul aqui no feriado. Minha mãe tava reclamando.
– Eles viajaram pra Ilha Bela, não foi?
– Não, Manuel! Eu dormi aqui quando eles foram pro Rio. Eu também fui pra Ilha Bela, lembra?
Num gesto que não significava sim ou não, Manuel meneou a cabeça. Afastou umas outras tantas revistas de nomes inusitados com o canto do pé até descobrir o cronômetro inglês que descansava sobre o piso de madeira do apartamento.
Apanhou-o com movimentos parecidos aos usados com a chave do apartamento e olhou sério para Biel.
– O que vocês andam aprontando?
Biel o olhou com o canto do olho.
– Quem? Aprontando?
Manuel sorriu. Julgou não ser adequado iniciar uma investigação sobre a meninada.
– Pronto?
Biel apressou-se em apanhar a prancheta e a caneta Bic de tinta preta.
– Que história você vai me contar hoje?
Manuel sorriu.
– A invenção da caneta esferográfica! Pronto?
– Por que da Bic?
– As invenções mais impressionantes são as mais simples! Veja o exemplo do clipe de arame! Pronto?
– Peraí.
Ainda insatisfeito, Biel ajeitou os cabelos lisos, apanhou o isqueiro e postou-se em frente à mesa com os cigarros alinhados. Acendeu a chama e preparou-se para encostá-la na ponta do John Player, o primeiro da fila. Tinha que ser paciente, pensou, Gelson tinha razão. Piscou para o velho inventor.
– Pronto!
– Marcando. Zero!
A chama tocou a ponta do cigarro e uma fumaça olorosa se desprendeu, rebolando qual dançarina do ventre.
Biel postou-se à frente do Marlboro e esperou o sinal aprovador de Manuel.
– Marcando. Três!
Biel acendeu o cigarro, anotou o número na tabela em sua prancheta e postou-se em frente ao terceiro, um Hollywood.
– Marcando. Doze!
E assim continuaram até que todos os treze tubinhos de fumo prensado industrialmente estivessem acesos, um harém de dançarinas feitas de fumaça. Manuel olhou para Biel e sorriu, sem deixar de segurar firme o cronômetro transformado em jóia de um pachá chamado Hamaz.
Os experimentos eram pura diversão sem deixar de ser uma pesquisa séria que estava desenvolvendo desde 1974, desde o incêndio do Joelma. Tinha certeza que podia provar que os fabricantes estavam alterando o papel, a cola e o fumo para que queimassem mais rápido, para ampliar o consumo dos tabagistas. Além de suas leituras e das pesquisas, Manuel gastava horas preparando cartas de cunho científico, reclamando às fábricas e denunciando o desleixo e a má fé às autoridades e meios de comunicação.
Biel era outra questão fascinante. Sua relação carinhosa com o garoto era incentivada pelos pais ocupados; José Buendía Marquez e sua esposa Adriana acreditavam que Manuel era uma boa influência (e um bom tomador de conta, quando o casal precisava ir ao cinema ou fazer viagens curtas).
Biel era um garoto de aparência agradável, inteligência mediana, educação razoável e curiosidade infinita. Mas, mais do que tudo, Gabriel Buendía Marquez era um caso como poucos: era um garoto aparentemente normal que suava, urinava, lacrimejava e sangrava azul.
Era como se os olhos da cor do céu se derramassem pelos poros, escorressem pelas veias e artérias e quisessem se espalhar pelo mundo através das excreções do menino.
Apenas supondo, uma imputação obviamente lógica, o autor não pode afirmar que o fascínio de Manuel por Biel tinha alguma relação com a Sangria de Felipe. O inventor, porém, tinha um grande desafio em tentar descobrir as razões científicas que faziam aquele garoto mijar da cor do céu.
Levantou-se solene, o cronômetro a matraquear o tique-taque sem parar.
– Suco de manga ou de goiaba?
Com uma careta, Biel respondeu insolente.
– Tem Coca?
Deu de ombros e foi à cozinha para apanhar o refrigerante da geladeira. Ao voltar à sala, pegou Biel em flagrante delito, dando uma tragada num dos objetos de seu experimento científico.
– Mas será possível? Assim você estraga a experiência!
Depositou as garrafas de vidro suadas sobre o tampo castigado da mesa e apanhou um cinzeiro onde jogou todos os cigarros acesos.
– Ei!
– Vamos ter que começar de novo! Você estragou tudo! E vai acabar muito mal se começar a fumar com essa idade!
E o tempo passava assim, com os dois entretidos em experiências engraçadas. Biel tirava proveito, vez em quando, do cheiro impregnado em suas roupas para usar como desculpa, acobertando umas tantas tragadas que dava nos experimentos científicos da dupla.
– É verdade que os americanos inventaram o avião?
– Eles catapultaram um aparelho com os irmãos Wright antes do Alberto levantar voo com o 14Bis… A briga é feia e ninguém chega a um consenso.
– Viu que eles vão lançar um brinquedo com luzes coloridas pra gente ficar batendo na sequência?
– Isso nunca vai fazer sucesso… O que eu realmente temo é a chegada dos computadores pessoais. As pessoas vão deixar de sair de casa só pra ficar na frente da tela do computador.
– Ué! Não é muito diferente da TV, é?
Manuel estancou. Olhou sério para o garoto de sangue de reis e estourou numa sonora gargalhada.
– Hahahahaha! Acho que você tem razão…
O inventor era assim: sério e divertido. Acertava numas (a questão dos computadores) e errava feio noutras (sobre o brinquedinho Genius que iria virar uma febre absurda durante a primeira metade dos anos 1980).
Naquele dia, um par de horas correu tranquilo, com vários cigarros queimados, a história da invenção do também húngaro Ladislau Biro (como aquele outro húngaro Erno Rubik, o do cubo), a venda da patente para os franceses Bich e Buffard, e muito papo sem consequência, até a hora em que Davizinho tocou a campainha à procura de Biel.
Hanna estava à porta do 22, preocupada com o filho.
– Se chover, volte imediatamente pra casa, viu?
Davizinho queria ignorar a mãe. Manuel sorriu ao ver o rosto amuado do menino de bochechas sardentas e óculos de grossas lentes corretivas.
Biel saiu correndo, puxando Davizinho pela manga da camisa.
– Tchau, seu Manuel! Janta com a gente?
Manuel também se divertia com a mudança de tratamento. A ideia de jantar com os Marquez lhe pareceu simpática. Sorriu e assentiu com a cabeça. Biel devolveu o sorriso.
Com a saída de Biel teria tempo de fazer análise das amostras de urina do menino cujo corpo acreditava-se nobre. Gastara algum dinheiro montando um sistema paralelo de coleta do material do lavabo apenas para analisar os dejetos de Biel. A satisfação em descobrir o mistério por trás daquela coloração bizarra seria mais do que razão suficiente para os gastos efetuados na reforma.
Os garotos apressados ainda estavam dando a volta pelo óculo sobre o jardim central no térreo quando o barulho dos tamancos do vizinho de cima foi ouvido pelo corredor.
Manuel pareceu ouvir a voz de Oscar (com o volume sempre alterado devido a sua surdez) e a de Renée Druon, aquele travesti desagradável.
A voz gasguita de Hanna Arruda beirava o ridículo.
– Sem correr, Davizinho, sem correr!
Manuel sorriu de leve. Não pretendia ser grosseiro com a vizinha. Antes de fechar a porta em definitivo ainda pôde ver Renée descer as escadas.
Estranhou que aquela amostra grátis de mulher estivesse desacompanhada da amostra grátis de cachorro. Fechou a porta e ficou observando através do olho-mágico até que Renée Druon sumiu rumo ao térreo, escorrendo pelas escadas qual mau agouro vestido de amarelo ovo.
Não gostava do cachorro do travesti, mas gostava do travesti menos ainda. Depois do que fizera a Hortência Costanzza naquela manhã, Renée Druon merecia algum castigo bem dado. Quase permitiu que um sorriso malicioso bailasse nos lábios imaginando Renée escorregando pelos degraus e aspergindo carmins sobre as escadas e as paredes – uma reprodução reduzida da Sangria de Felipe, o corpo descrevendo um arco amarelo listado de escarlate, uma pasta de dentes bicolor, uma bólide voadora desprovida de motor.
Aladin teria inveja da possibilidade de voo sem uso de um tapete mágico, mas ficaria bem mais irritado ao presenciar um monstro metálico, pesando toneladas, alçar voo, sem pressa, como uma pluma, alcançar os céus da cor do sangue de Biel, e, despudorado, refletir os laranjas despejados pelo astro-rei durante a despedida de um dia.
O homem rodeado por invenções de outrem, tentava inventar maneiras de apagar da mente os pensamentos que o atormentavam.
Afastou-se da porta, arrepiado, o crânio como pêndulo, talvez tentando arrancar da cabeça a visão de sangue, muito sangue, e um desejo intenso de morte.
Manuel perdeu-se em pensamentos e sensações desagradáveis. O tempo desembestou a se transformar em bocados maiores e os minutos foram se somando. Até que a letargia foi substituída pelo voo de uma sombra sobre o coração. O barulho o fez arregalar os olhos. Um disparo, uma bomba? Acontecera no interior do edifício, ali perto.
Mesmo depois de entender o que acontecera (uma porta sendo fechada com violência), Manuel gastou bocados maiores do que minutos para que seu ritmo cardíaco voltasse ao normal.

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