XVII · olha, mãe, sem as mãos! (apto 14)

16 nov

– Eu mato aquele filho da puta!
– Faz melhor, mata aquele pernilongo ali que ele já me picou umas duas vezes. Pelo menos não dá cadeia.
No final do Século XIX, Aedes aegypti infectados voltaram a atacar, espalhando a febre amarela pelo país. Apesar de todos os esforços de Ribas e Cruz, já no Século XX, a febre dizimou milhares de vidas; muitos moradores do interior sentiram-se compelidos a fugir para a capital, na vã esperança de encontrar melhores condições de higiene.
A mãe de Jucélia Resende, Maria Silva dos Santos escapuliu da vida de caipira, ainda menina, para a boca do lixo da cidade de São Paulo. O pai morreu na capital e deixou mãe e filha e dois irmãos ao sabor dos ventos e da garoa fina.
– Olha só quanto sangue o filho da puta tinha chupado!
– Volta aqui, vai. Já cumpriu com seu desejo assassino, agora vem matar minha vontade de você.
– Cê acha que eu sou assim fácil é?
De babá a faxineira, de faxineira de casa de madame a copeira de hotel barato e daí a prostituta sazonal, Marialva dos Santos cavou uma sepultura que a engoliria em menos de cinco anos. Deixava os filhos menores aos cuidados de Maria, filha mais velha, numa pensão onde, não se sabe por que sorte ou proteção de qual santo, foram presenteados com a simpatia de todos; jamais sofreram qualquer abuso.
Com a morte prematura da mãe (de bala na testa saída de cano de revólver de contrabandista de cocaína), Maria passou a ajudar Dona Quinha na administração e manutenção da Pensão Penha. A velhota virou mãe, pai e avó e educou as três crianças como pôde; Maria casou-se com um italiano amalucado; Zizinha engravidou de um grego cego de um olho, de um espanhol bem dotado e de um pernambucano sem incisivos – terminou casando com um baiano porreta que negociava cacau com algumas indústrias de chocolate importantes; Guinho virou bandido, foi preso várias vezes e escapou umas outras tantas – está foragido, mas há quem diga que está fazendo a ponte Bolívia-Brasil negociando pó de papoula.
– Nossa, seria fodido ter uma farinha aqui pra…
– Pára com isso, Zé! Você já é ótimo sem precisar dessas coisas.
O velho Fernando Resende, em 1898, abandonou os pobres subúrbios de Sintra em busca de sustento e fugindo de jovens armados e mal intencionados a mando de pais insatisfeitos com o resultado volumoso de certos encontros em olivares entre o mancebo e suas respectivas filhas.
Trouxe uma sacola com poucas peças de roupa, uma bíblia com capa de couro preto e uma esclerose múltipla que só começaria a se manifestar dali uns trinta anos.
– Sinca…
Entrou no ramo de venda de papel de empresas suecas e dinamarquesas que pretendiam derrubar a hegemonia das fábricas inglesas no fornecimento às gráficas brasileiras.
– Sinca Chambord…
Numa das tradicionais quermesses de Nossa Senhora da Achiropita, no tradicional bairro do Bixiga, conheceu Antonina Labriola, filha de um milanês metido a etrusco que, de cara, não gostou de Fernando.
Uma noite. Foi o bastante para os pombinhos fugirem e se entregarem ao amor que os consumia. O fato consumado virou gente, Bruno, nove meses depois, quando os dois já estavam devidamente casados (o trabuco era frio à testa do trintão lusitano) e alojados num dos cômodos da queijaria do velho Labriola.
– Ah… Aero Willis…
Criado como um pequeno príncipe, Bruno Resende saiu da adolescência enquanto a Europa preparava o palco da I Grande Guerra. Conheceu Maria dos Santos numa situação inusitada. O motorista que distribuía os queijos adoeceu e havia muitas entregas a fazer. Brunino tinha ainda frescas as aulas de direção e achou por bem ajudar o avô. Atropelou um garoto que jogava ludopédio em plena via pública, exatamente em frente à Pensão Penha, onde foi pedir por um pouco de água e uma toalha limpa.
– Ahhhh… Esplanada…
O atropelado sobreviveu.
Bruno e Maria trocaram o primeiro beijo sob as luzes fugidias dos fogos de artifício que, no Clube de Regatas Corinthians, pontuavam a atuação impecável da banda de Jones Morell, comemorando a chegada do ano de 1922, no exato momento em que Zeferino e Clotilde Fustado admiravam, fascinados, outros fogos a delinear a torre projetada por Eiffel, na Paris do pós-guerra.
Agora me diga, leitor, como poderia eu respeitar a linha do tempo quando há tantas histórias que nos levam ao passado e nos obrigam a voltar ao presente para que a narrativa se torne compreensível, aqui, no futuro?
– Fusca… Quatro portas…
– Opa… Esse ainda… Existe…
Durante dez anos, Maria e Bruno fizeram todos os exercícios, usaram de todas as mandingas, rezaram todas as missas para todos os santos e apropriaram-se de todas as simpatias conhecidas para engravidar. Os esforços se provaram vãos.
– Não…
Os exames disponíveis foram conclusivos: ambos eram saudáveis e férteis. A cada novo resultado, a alegria vinha acompanhada de desalento.
No décimo primeiro ano do casamento, iniciaram as conversas sobre adoção. O velho Labriola era contra e não tinha mais o genro para contrariá-lo (a esclerose múltipla fora clemente e levara o luso Fernando ao óbito com rapidez).
Duro na queda, Labriola viveu para testemunhar as mortes da mulher, da mãe da nora, da de dois filhos e um neto.
– Não existe, não…
– Exis… Existe, sim…
Apenas com a morte do empertigado queijeiro, vinte e um anos depois da festa do matrimônio, o casal Resende pôde, enfim, consumar a adoção de um menininho sisudo anteriormente batizado de Sezefredo.
Sezefredo completou o primário e o ginásio e enveredou na carreira militar. Prestou os exames para a Escola Preparatória de Cadetes do Ar e passou. Deixou o seio familiar para morar na escola que ficava no interior do estado de Minas, em Barbacena.
Maria não se acostumou à casa sem o filho. A suspensão de seus fluxos mensais só piorou a situação. Iniciou uma derrocada vertiginosa, embarafustando-se numa depressão poderosa ao supor ter-lhe chegado a famigerada menopausa.
– Gordini!
Foi salva da loucura porque sessenta dias depois de sua última menstruação passou a ter desejos inusitados e a enjoar por qualquer tolo motivo: o suave perfume da loção de barba do marido, o cheiro inescapável de pipoca à porta do cinema, o hálito adocicado da assistente do dentista.
– Gordini!
Jucélia Resende veio ao mundo em 1955.
A família foi feliz até a queda do avião pilotado por Sezefredo, num exercício vulgar com um caça inglês, em 1967, nas cercanias da Escola de Aeronáutica (que dois anos depois passaria a se chamar Academia da Força Aérea), em Pirassununga, no interior do estado de São Paulo. Morreu sem conhecer os jatos Cessna T-37C encomendados aos americanos. Os negócios do pai, capitaneados pela queijaria herdada do velho Labriola, escorreram pelo ralo. A queijaria, curiosamente, foi a última empresa a entrar em falência.
– Gordini!
– Ah!
Bruno Resende morreu de infarto do miocárdio no dia da decretação da insolvência da Queijaria Labriola Lda., em 1972, durante as comemorações do sesquicentenário da Independência.
Maria não esmoreceu, mas achou melhor aceitar o convite para morar com Zizinha, em Prazeres, um lugar ermo e paupérrimo no Triângulo Mineiro. As duas irmãs dividiam as dores da velhice e a pobreza herdada da falência de ambos os maridos. Maria cumpriu sua sina, voltando à vida de caipira, tendo deixado uma semente na cidade grande.
– Ahhhh! Ahhhhhh!
A semente, Jucélia, era uma batalhadora que habitava o apartamento 15 do Tueris Fustado.
– Gord…
Uma mulher bonita, embora muito magrinha, tirava o ganha-pão de um trabalho como poucos: lavadora de vidraças de edifícios. Isso, desses trabalhos que se fazem pendurados em cordinhas do lado de fora de grandes edificações.
Jucélia não apenas cumpria com seus deveres de penduricalho de arranha-céu. Ela adorava o trabalho de cujos rendimentos tirava o sustento e ajudava à mãe e à tia a viverem com certa dignidade – metade de seus ganhos eram enviados religiosamente até a agência do Banco do Brasil de Prazeres.
– Ah! Ahhhhhhh!
Jucélia despencara três vezes de alturas acima do vigésimo andar de edifícios comerciais e jamais sofrera um arranhão. Todos acreditam que entidades do centro espírita que frequenta a protejam permanentemente, apiedadas por seu infortúnio com as mãos.
Ainda não falei das mãos?
– Go…
– Ahhhhhhhhh! Ahhhhhhhhhhhhhhhhhh!
Cinco anos depois da morte do pai, Jucélia sofreu um terrível acidente de automóvel. Estava a praticar um magnífico felatio em Quirino, o namorado. O rapaz dirigia um Opala quatro portas bege, sem economizar da pressão sobre o acelerador, na estrada vicinal que leva até Guararema, onde o casal iria passar um fim-de-semana na casa de um colega da faculdade de odontologia de Quirino.
Jucélia descobrira seus pendores às artes do sexo muito mocinha. Aos seis anos de idade, admitiu para a mãe que gostava do formato dos órgãos sexuais dos meninos e que adorava o som de uma das palavras que os designava.
“Acho rola uma palavra linda! Gosto tanto que acho que poderia ficar gritando ela por um bom tempo. Posso, mãe?”
Maria, mais avó do que mãe, sorriu sem jeito, encabulada em comentar que os meninos tinham pintinhos e não rolas, mas acreditou que mal não faria a menina berrar por rola por alguns minutos.
Com a permissão, Jucélia postou-se à janela da casa de cinco cômodos ocupados pela família, no bairro da Aclimação, e gastou uns bons três minutos esgoelando-se, feliz.
“Rola! Rola! Rola! Eu gosto de rola!”
– G… Ahhhhhhhhhhhhh!
– Ahhh! Ahhhhhh! Ahhhhhhh!
Prevendo complicações à filha desembestada, Maria recolheu-se ao seu quarto para chorar, sem tentar impedir que a gritaria tresloucada da filha se propagasse pelos ares da capital paulistana, mas pedindo a Deus, entre soluços, que nenhum vizinho pudesse identificar a dona da voz pueril.
– Ahhhhhhhhhhhhh!
Não houve reza que impedisse a menina de aprimorar o seu gosto por caralhos, nem santo que impedisse o acidente na estrada para Guararema.
– Ahhhhhhhh!
O gozo encheu a garganta de Jucélia do líquido viscoso e quente do namorado. E o rapaz perdeu o controle do carro.
Não houve mortes. Quirino quebrou o braço esquerdo e várias costelas, mas isso não o impediu de se transformar num respeitável cirurgião dentista.
Jucélia teve as duas mãos decepadas. E não houve criatura capaz de achá-las no local do acidente, à beira do Paraíba.
A mocinha afim de sexo teve que aprender a fazer tudo sem as mãos.
Desde a mudança da mãe para Prazeres, Jucélia morava só. Não havia dia em que rosas brancas que exalam um perfume penetrante, estivessem dispostas em vasos longos sobre os móveis de seu apartamento.
O perfume das flores era tanto mais intenso quanto intensas as noites ruidosas em que Zegalinha aparecia para passar a noite. O namorado era um negro de quase dois metros de altura por dois de largura, uma máquina possante de fazer sexo, cuja voz também possante era usada no volume máximo, durante os orgasmos, para gritar marcas de automóveis fora de linha.
– Ahhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhh!
Jucélia e Zegalinha, em noites de cópula furiosa, eram apenas superados pela gritaria dos Costanzza, os carolas do 23. A voz do negro gritando loas a Romisettas e Gordinis quase encobria os miados de Jucélia. Com os Costanzza, era Hortência a abafar os urros guturais do hemorrágico Merino.
– Ahhhh! Nossa!
Rolou de lado, suarenta, desligando-se do pênis do amante que respirava num ritmo veloz. Era o terceiro orgasmo daquela manhã.
– Preciso… ir…
– Me prometa que não vai fazer besteira contra Renée!
– Ju!
– Prometa!
Naquela sexta-feira Jucélia estava de folga, mas Zegalinha precisava cobrir a ausência de um colega acamado. Pulou da cama sem fazer a promessa. Tomou um banho rápido, mordiscou uma bolacha de água e sal e saiu saltitando, um fauno de ébano penetrando a picada que levava à selva de pedra.
O dia transcorreu tranquilo, entre ligações telefônicas a todas as amigas, em casa ou no trabalho, uma troca de informações de pouca importância, comentários maldosos e boatos infundados. Não fossem os telefones de teclas, a tarefa seria mais complicada, os discos com buracos dos aparelhos antigos ofereciam uma resistência heróica à pressão dos dedos – imagine, caro leitor, tentar rodar os famigerados discos com um lápis escanchado entre os dentes!
Papel higiênico era só usado por visitas ou seus amantes. Limpar-se apenas com o auxílio de bidê e muita água corrente. As tarefas mais simples ganhavam complicações para alguém sem dedos ou mãos. Mas Jucélia sabia se virar. Era impressionante vê-la riscar fósforos com a caixa entre os cotos e o palito entre os dentes.
Tentou ouvir o rádio, porém não conseguia obter muito além do chiado irritante de estática entre estações. Desistiu depois de quase um minuto pelejando contra o dial e a atmosfera carregada de eletricidade.
A história espalhada pelos vizinhos de que Zegalinha gostava de ser penetrado por seus braços sem mãos até a divertia. Infelizmente, o amante era macho demais para permitir tais manobras. Adoraria vê-lo uivando, gritando as marcas de carros enquanto era penetrado. Nada que a fizesse arrepiar, mas serviria como tempero adicional às já condimentadas trepadas do casal.
Jucélia não queria acreditar que o travesti tivesse espalhado o boato. O que Renée ganharia com isso?
Era quase meio dia quando resolveu que seria melhor almoçar perto da biblioteca Mário de Andrade e depois assistir uma seção de “Num Lago Dourado”, mais um filme produzido no país presidido pelo inepto ator de faroeste. Adorava a expressão eternamente perdida do velho Henry Fonda. Talvez fosse a mesma razão que a fazia admirar Francisco Cuoco – o mesmo olhar de cão esquecido, os mesmos sobrolhos circunflexos, a mesma maneira negligente em cuspir as palavras, como se os incomodasse permanecer por mais tempo com os fonemas entre os dentes.
O carnaval estava começando e muita gente ficaria fora da cidade, o bairro do Paraíso transbordando para além de seus limites geográficos.
Almoçou num pequeno restaurante ao lado de uma loja de discos, assistiu ao filme numa das salas do Cine Ritz. Emocionada, atravessou a cidade para ir até o horto florestal, para visitar uma amiga adoentada com febres e calafrios. Não havia um lago dourado por lá, mas temia perder a amiga. Talvez aquela fosse a última oportunidade de falar com ela.
Não era. A amiga estava bem. O passeio foi agradável.
Chegou em frente ao Tueris ao mesmo tempo que as viaturas da polícia, depois que caíra a noite e a chuva se transformara em tempestade. O coração se apertou, temendo que Zegalinha tivesse concretizado a ameaça.
– Ahh!
Encostou-se ao capô de um dos carros estacionados do outro lado da rua, sentindo as gordas gotas da chuva, os pulmões carentes, a vista escurecerendo. Ninguém estava gritando nomes de carros defuntos, portanto não podeira estar gozando.
– Ahhhhh!
Olhou para cima, tentando desobstruir as vias respiratórias. Viu um grande clarão acima do terraço da cobertura do edifício.
– …
Desmaiou, batendo com a cabeça na superfície metálica do Corcel e escorregando para o meio-fio, onde foi socorrida, em meio à grande confusão instalada no edifício em que morava.
Ganhou apenas um arranhão na testa. Nada sério. Afinal, o que era um baque até a calçada comparado às quedas de mais de vinte andares das quais saíra ilesa?

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