XVIII · minhas certezas por uma Coca-Cola (apto 24)

17 nov

Um dia cheio de surpresas.
As férias estavam por acabar e o cotidiano repetitivo e enfadonho de mãe de família seria complementado com manhãs esbaforidas e tardes sonolentas das tarefas de professora secundarista e coordenadora curricular numa escola pública da Freguesia do Ó.
Logo pela manhã, ao despertar, José a presenteara com passagens para a Espanha. Iriam ver a copa nos estádios de lá! Além da fome por diversão (e alguma dose de curiosidade), sobrava pouco a ser finalizado. José tinha em mãos as passagens. Os traslados, os hotéis, as cadeiras nos estádios e os tours já haviam sido arranjados. Ah! Visitar Barcelona! E Madri! E Salamanca!
Encheu seu rosto de beijinhos e carinhos sem ter fim, esquecendo-se de pronto que os pequenos crimes do marido um dia poderiam começar esse negócio de ela viver sem ele.
Estava muito feliz e animada para pensar algo mais do que a certeza de que Biel adoraria sua primeira viagem ao exterior.
Ele tinha sido a segunda surpresa. Sempre tão ativo e apressado, seu filho permanecera calado durante o café da manhã.
“Temos uma tarefa muito importante hoje, mãe!”
Fora a resposta lacônica e circunspeta do filho que mijava azul, mas que de nobre não tinha mesmo nada.
Adriana Mendes Garcia casou-se com José Buendía Marquez, um jovem advogado promissor, por quem estava apaixonada até aquela sexta-feira, 19 de fevereiro. Dezesseis anos de um casamento dividido em três fases felizes: pouco mais de ano em que o mundo resumira-se ao casal, nove meses de uma gravidez sem atropelos e quatorze anos em que Biel era uma presença em eterna transformação.
Poucas situações se apresentaram com fortes razões a abalar sua felicidade: uma gravidez posterior, interrompida naturalmente, deixara Adriana Garcia Marquez deprimida por umas duas semanas, alheia às suas certezas; logo que nasceu, Biel Buendía Marquez preocupou a todos por causa da coloração azulada de suas excreções e fluidos vitais.
Nenhum médico, geneticista, biólogo ou curandeiro foi capaz de determinar a causa daquela poética aberração. Depois do segundo ano de vida do menino, constatadas suas boas condições, física e mentalmente, a família passou a tentar ignorar o fato de que o filho urinava azul e ter certeza de que ele seria feliz.
As nódoas deixadas nas roupas de cor clara (principalmente naquele período em que o menino chegava à puberdade e os hormônios o faziam cheirar forte e suar muito mais) eram facilmente removidas com a ajuda de qualquer sabão em pó barato.
O encontro com Hortência Arruda, quando saíra para pagar umas contas no centro velho e comprar o frango para o almoço, fora a terceira surpresa. Que a mãe das diabinhas não era uma pessoa completamente equilibrada isso era sabido, porém Adriana comprovara a total falta de controle da filha da morta. E quase morrera de rir com a situação esdrúxula.
De volta da Conselheiro Crispiniano, onde fora pagar o carnê das Casas Bahia, e do Pão de Açúcar da Roosevelt, onde comprara um frango com preço razoável, Adriana estava distraída, cantarolando uma canção do rei Roberto. Foi atravessar a Major Diogo e dar de cara com Hortência parada sobre o asfalto da São Domingos, atravancando o tráfego pouco intenso, dois táxis parados e seus motoristas a soltarem berros não elogiosos.
Adriana aproximou-se da vizinha e teve um sobressalto quando ela berrou algo a ver com guerra. Falava com a mãe, disso Adriana tinha certeza. Com todo cuidado que a situação exigia, redarguiu-a, a voz serena:
– Hortência, você precisa sair do meio da rua…
Sem voltar-se para Adriana, Hortência bateu firme com os pés sobre o asfalto gasto da estreita rua com carros estacionados em ambos os lados, liberando o tráfego, ignorando a mulher que a perseguia, agora. E a mãe de Biel tinha certeza que não foram suas palavras a tirar a mulher de lá.
Praticamente voltando pelo caminho que fizera há pouco, Adriana seguiu Hortência através da São Domingos até a Conselheiro Ramalho. Sabia que a vizinha ia até o salão onde trabalhava. Nunca vira a mãe das diabinhas tão descontrolada.
Os transeuntes que cruzavam seu caminho a olhavam, ora assustados, ora curiosos, um sorriso escapando para os lábios, uma careta de censura não velada a transmutar as feições.
– Haverá. Ah, sim! Haverá! Mas, ai de quem virá o escândalo!
Adriana sorria de leve, represando a gargalhada que se avolumava por dentro. Seu rosto fazia coro às expressões divertidas de quem ouvia o discurso desconexo da manicura carola, o humor em torvelinho.
– Hortência, você precisa de alguma coisa?
A estrutura robusta da vizinha não deixava margem para aproximações sem riscos. A mulher estava tensa, com certeza, e não parecia deixar que ninguém se aproximasse sem tomar uns safanões.
– Por que tem que ser assim? Sempre! Até Davi cometeu a mesma bobagem! Até ele, o rei!
Era curioso o uso de personagens bíblicas e palavrões costurados na mesma frase.
– Salomão, em sua sabedoria, não conseguiu escapar! No cu! Vai ter que enfiar no cu!
A cada nova frase, os movimentos com o braço livre (o outro carregava a sacola com os apetrechos de trabalho) ampliavam-se, fazendo com que muitas pessoas (a aproximação à Treze de Maio ampliava o tráfego de pedestres) desviassem dos golpes certeiros, sem ter como fazer para desviar das palavras ríspidas e perdigotos que eram disparados com vigor.
Ao perceber que nada demoveria Hortência de seu trajeto e de pouco adiantaria tentar tirá-la daquele transe, Adriana resolveu cuidar da própria vida e deixar que as próximas surpresas do dia a distraíssem.
Antes de chegar em casa, a quarta surpresa: uma conversa séria com Renée Druon em plena padaria do Manoel. Enquanto o frango suava sobre o balcão, ouvia com atenção às inferências amargas do travesti e muitas revelações de fatos que desconhecia da vida do vizinho. Ah, a chegada inoportuna de Hanna!
Ainda pensava, um tanto irritada, sobre o que ouvira da boca de Renée, caminhando os poucos metros que a afastavam do Tueris, quando percebeu que parte da criançada do prédio estava reunida em frente ao terreno baldio. Atravessou a rua tentando não chamar atenção.
Assemelhavam-se a um pequeno jogral orquestrado pelo filho da designer, o menino de óculos, cabelos escuros e mãos de pianista. Não lembrava de ter visto aquela turma tão quieta e atenta; Gelson devia ter muitas boas histórias para contar, mas Neneca parecia estar chorando, com Anastácia a amparando. Não acreditava que o caso estivesse sendo discutido ali, abertamente. Seria um pouco demais. Não conseguia esquecer as duras palavras de Renée Druon.
Atravessou a calçada sem que a criançada a visse e subiu ao seu apartamento. A velha Julieta ainda não assumira seu posto, embora a cadeira e o cinzeiro que seria poupado já estivessem encostados ao pé da escada.
E a quinta surpresa a esbofeteou.
Como era possível? Gelson descia as escadarias do edifício, entre o segundo e o primeiro andares, apressado!
– Bom dia, Tia Adriana!
Adriana, com cara de boba, seguiu o adolescente contador de histórias com a cabeça, três fundos vincos sulcando sua testa. Ou o filho de Marlise Utinga conseguia estar em dois lugares ao mesmo tempo, ou ela, a mãe do menino que mijava azul, estava ficando lelé da cuca!
Olhou para o relógio na parede (havia um em cada andar do edifício) e repetiu três vezes antes de ter certeza de que lembraria daquela hora: 11:42, 11:42, 11:42.
Entrou no apartamento e um telefonema de Ana Menezes, sua amiga fotógrafa, a fez esquecer de Gelson e suas múltiplas manifestações. Conversaram bobagens, fofocaram sobre os maridos, Adriana contando dos pequenos crimes cometidos por José, o advogado, Ana reclamando das neuroses de Osvaldo, o psicólogo. Comentaram a situação política, o clima, o papa, a copa (Adriana achou por bem não falar da viagem, ainda) e marcaram de almoçar “qualquer dia desses”.
Pôs o fone no gancho e arregalou os olhos. Era meio dia e vinte! Precisava preparar o almoço. Vestiu um limpo avental para proteger sua camisa de algodão branco e a calça jeans de um azul desmaiado.
Abriu a sacola suada e separou as peças cortadas de frango. Enquanto relembrava das cenas com Hortência, foi separando a pele e as fáscias dos músculos tenros da ave abatida num passado indefinido. Temperou tudo com sal e sumo de limão e deixou que a carne branca absorvesse aquele caldo ácido.
Cortou as cebolas, muitas, em rodelas e triturou os dentes de alho, quase uma cabeça. Ao terminar a tarefa, cheirou os dedos, apenas para ter certeza de que fediam a alho. Numa panela funda, despejou tudo com um tanto de óleo e azeite. Acrescentou manjericão seco e um pouco de salsinha fresca picada. Aspergiu sal e um fio de vinagre, duas gotas de molho de pimenta vermelha. Cheirou os dedos, mais uma vez, mas o odor de alho vencia qualquer outro.
Com um fósforo de cabeça rosada, acendeu o fogão e o forno, fazendo malabarismos para manter acesa a chama, sem precisar riscar novo palito, nem chamuscar as pontas dos dedos.
Sacudiu a panela para que os ingredientes se misturassem.
Detestava verem confirmados os comentários maldosos de seu marido José sobre a filha da morta. Um tanto arrependida de ter rido em público da vizinha, foi até a sala e deitou a agulha sobre a superfície do disco depositado no prato da vitrola Grundig, sem encontrar a capa.
A voz em eco de Elis Regina provocava um amante, rindo do amado. Mais uma morta a habitar o mundo dos vivos, a servir de eterno memento da efemeridade da vida.
“Uísque e cocaína”, pensou, ouvindo os ataques das cordas no final da primeira música.
A sanfona cantava uma canção francesa de entrada para o samba bem brasileiro. Balbuciou a palavra inglesa com sotaque tropical, saboreando cada letra, cada sílaba. Era uma lástima que malte lhe soubesse a coisa velha, a mofo amargoso.
Um brilho de aluguel.
Foi até a geladeira, embriagando-se nas palavras que traduziam um amor que não o seu, uma dor que não sentia. Vasculhou por trás de uns Tupperwares e arrancou de lá uma garrafa de cerveja. Usou o abridor com energia; a tampa saltou para longe com um estampido que a encantou – uma evocação de um tempo não muito distante em que as comemorações eram feitas com champanha, bêbados que se equilibravam na corda bamba, de sombrinha, entre a vida e a morte, no solo do Brasil.
Depois sorri meio sem graça.
Enquanto a moça se arrumava na vitrola, do gargalo, sorveu um gole do líquido amarelado e espumante. Sorriu, com graça. Melhor que whisky, mas ainda amarga. Espalhou os pedaços de frango numa forma untada, jogou as rodelas de cebola e os pedaços de alho marinados e, sobre tudo, despejou o conteúdo da garrafa. Apagou o bocal do fogão e enfiou a forma coberta com papel aluminizado no forno, àquela hora, bastante quente.
Foi até a sala, esbarrando num espelho casual.
Basta de clamares inocência.
Ah, Cartola! O trombone a fez lembrar de “Cry me a River”. Sussurrando “bier, biére, birra”, passou os olhos sobre a sala. Em meio às revistas do cesto, a Manequim com Xuxa Meneghel na capa. De modelo de nariz de batata a atriz de chanchada semi-pornô; de namorada de Pelé às capas das revistas. Uma loira gelada. Que mais degraus a mocinha galgaria antes de sucumbir à insaciável sede da mídia de novas caras, novas bundas?
Olha, meu bem o que restou…
Jogou a revista de volta ao cesto e retornou à cozinha para apanhar o saco de lixo. Enxúndia de galinha a deixava enjoada. Havia muito mais lixo, no entanto.
Pareceu-lhe ouvir a voz do filho nas escadas. Sorriu ao pensar que estaria com o velho inventor ou com Davizinho, aprontando algum mal feito.
Eu, hein Rosa!
Arrumou o que não servia mais à família em três sacos de lixo. Poderiam ter sido dois, mas não pretendia voltar a ver os restos do cadáver do frango que assava em seu forno. Pagara alguém para cometer o crime; apenas consumiria o produto do ato.
O perfume da comida começava a se espalhar pelo apartamento como a sede que a consumia.
Sedenta e sussurrando, como um mantra, “Coca, Coca, Coca”, abriu a porta da cozinha e deparou-se com a sexta surpresa daquela sexta-feira.
Havia alguém no 25! Uma mulher gorda com cara de estrangeira e de poucos amigos a olhava do meio da sala, através da porta escancarada. Seria o tal fantasma?
Eu vou assistir teu fim!
Deixou os sacos na lixeira do corredor do patamar de seu andar e voltou a prestar atenção ao apartamento defenestrado. A mulher sumira, engolida pelas entranhas da unidade assombrada ou cansara-se de manifestar-se solidamente, espalhando-se, uma nuvem de partículas desordenadas buscando nada mais que o caos. A morta esgoelando-se em seu próprio apartamento.
Não era mais uma criança, porém não intentou convencer-se de que sua curiosidade deveria ser fustigada até o aniquilamento, ignorada, no mínimo. Em vão lutou consigo mesma, uma batalha fadada ao fracasso, qualquer parte fosse a vencedora. Derrotada, Adriana subiu os degraus que a separavam do meio patamar e aproximou-se da porta escancarada.
E quem sabe esse disco, esse risco de sombra…
Apurou os ouvidos e arriscou falar.
– Olá?
Não obteve resposta, nem conseguiu ouvir qualquer ruído dentro do apartamento. Apenas percebeu os barulhos do edifício e os de fora, da rua, seus conhecidos. Alguém não se decidia sobre essa ou aquela estação de rádio a ser sintonizada, passando de uma a outra, um processo irritante. Alguém estava com a TV ligada com um volume bem alto.
A porta estava aberta, não estava alucinando.
O relógio…
Realmente vira Gelson descendo as escadas enquanto ele deveria estar na calçada com todas as outras crianças? Realmente vira a mulher rotunda a olhando com olhos inamistosos? Adriana estava começando a duvidar, de leve, da própria sanidade, a desconfiar das próprias certezas. A porta estava aberta, isso era certo.
– Olá!
A aparição da mulher a assustou. Mas conseguiu esconder seu medo. A expressão parecia indefinida. Desprezo? Desgosto? Decepção?
A mulher a respondeu sem emoção.
– Voa tarde.
De imediato, Adriana percebeu a repugnância saltar do âmago daquela moça muitos quilos acima do peso, ganhando forma e volume quase tão generosos quanto os da dona. E era estrangeira, com certeza.
Como um ensaio inepto de um movimento mais amplo, bateu as mãos sobre o avental. Conseguiu evitar, e agradeceu a Deus por isso, pigarrear antes de emitir o primeiro fonema.
– Meu nome é Adriana. Moro no 24 com meu marido e meu filho. É um bom apartamento, não é? Pretende alugar ou comprar?
– O apartamento tamvém está à benda?
Adriana deixou o sorriso espalhar-se no rosto emoldurado pelos curtos cabelos acobreados. Os olhos azuis apertaram-se.
– De onde você é? Não. Deixa eu adivinhar. Argentina?
A expressão no rosto redondo pareceu aliviar-se, tornar-se quase humana.
– Si, Buenos Aires.
– Uma cidade linda!
A curiosidade era tanta que Adriana fingiu não perceber o desânimo da portenha.
– Bocê coniece?
– Ah, estive por lá umas duas vezes. A última foi há uns dois anos. Adorei voltar à Recoleta. Há quanto tempo você está aqui?
Sem aviso prévio, a moça gorda deu-lhe as costas e sinalizou para que Adriana a acompanhasse. Há muito queria saber o que havia naquele apartamento. Sem choro, nem vela, seguiu a desconhecida em direção dos quartos, enquanto Elis cantava o “Bolero de Satã”.
– Muito tempo. Fejado há muito? Este apartamento?
Algo incomodava a estranha e Adriana agora tinha certeza que não era apenas a sua presença.
– Muitos anos. Moramos no Tueris desde que o Biel tinha três anos.
Adriana fez uma pausa e percebeu que o rosto gordo da estranha assumira uma expressão ausente, como se aquela mulher fosse entrar em transe a qualquer momento. Era melhor continuar a falar. Adriana não saberia lidar com alguém tendo um ataque, assim, de repente. Tinha certeza.
– Ele tá com catorze agora. Uns onze anos, pelo menos.
A moça estranha e antipática – era isso, era realmente antipática; e não se poderia culpar todos os portenhos (como gostava de fazer José) pela chatice de uma moça mal-comida e, certamente, mal amada – entrou num dos quartos. Adriana a seguiu. Entrou no aposento em tempo de vê-la testando uma das janelas antes de abri-la. A luz penetrou o ambiente, aquecendo o quarto há muito fechado.
– Onse ânios… E como ele está tan bem cuidado?
Adriana olhou à sua volta e arregalou os olhos ao se dar conta do perfeito estado de tudo. Não havia qualquer sinal de poeira, as paredes estavam como se tivessem recebido uma recente demão de tinta branco-neve.
Não pôde evitar falar para si mesma, sentindo-se boba.
– Nossa… Nunca vi ninguém entrar aqui. É a primeira vez que eu vejo essa porta aberta. É a primeira vez que entro nesse apartamento. Isso é impressionante.
– O selador, talbez…
Adriana titubeou, mas tinha certeza de que ninguém entrava naquele apartamento há anos. Estava constrangida, assustada, mesmo. Desconversou, tentando achar algum assunto que a fizesse esquecer das histórias contadas pelos cantos e em conversas sem consequência.
– Não que eu saiba… Que bela vista, não?
– É o nome do vairro, no é? Seu filho tamvém é muito vonito.
Algo estalou no cérebro. Uma subseção dentro da seção. Uma surpresa embutida na surpresa.
– Você conheceu o Biel?
Virgínia sorriu pela primeira vez desde que se cumprimentaram de longe. Adriana entendeu que a moça divertia-se com sua surpresa. Além de antipática, sádica.
– Eu suvia para cá enquanto ele descia com un amigo.
O alívio foi imediato. Adriana estava vendo fantasmas.
– Davizinho.
Imediato, porém efêmero. Cauby juntou-se à cantoria e o odor de frango queimando no forno chegou de mansinho, um sopro sutil, o prenúncio de um pequeno desastre familiar.
A moça gorda olhou-a como se fosse sua vez de presenciar mortos insepultos. Adriana ensaiou um pedido de desculpa, mas conseguiu apenas balbuciar.
– Ai, meu Deus!
Você me fez sofrer.
O rosto assustado afastou-se, voltando-se para a direção dos telhados das edificações da Bela Vista, para onde se dirigia o olhar perdido de Adriana. Foi a deixa perfeita para Adriana sair correndo. Recuperada do próprio susto, a mãe de Gabriel Buendía Marquez conseguiu, enfim, esclarecer o equívoco e expor que lamentava sair daquele jeito atabalhoado.
– Desculpa! Esqueci o frango no forno!
Quem sabe de tudo não sabe seu fim.
Entrou pela porta que deixara aberta e ali o cheiro era bem mais intenso. Um quê adocicado e ressequido que incomodava as narinas.
Mesmo cheirando o frango queimado, sentiu-se bem mais leve do que estava no apartamento 25. Tinha certeza.
Desligou o forno e escancarou a pequena porta envidraçada. O odor de queimado invadiu as narinas e os pulmões, provocando-lhe lágrimas grossas. Num gesto automático, impensado, agarrou uma toalha e um pano de prato e arrancou a bandeja de dentro do forno.
Ficou enormemente feliz ao perceber que o cheiro de queimado não se originava diretamente da fôrma, mas de uma porção de molho e frango que caíra sobre a cobertura cinza esbranquiçada da câmara do forno.
As aparências enganam.
O disco chegava ao fim e o almoço estava salvo. O acidente fora bem menor do que o imaginado.
O que permanece como mistério é por que meios aquele pedacinho de frango caíra da fôrma? Foi o pensamento cruzar a cabeça e Adriana deu um pulinho cômico, assustada com o estrondo de uma das janelas sendo fechadas com violência no apartamento que há pouco visitara em companhia da moça antipática.
Esticou o pescoço e viu a porta da cozinha batendo como se impulsionada por um furacão. O barulho foi ouvido por todo o condomínio, como um tiro.
Outro barulho, uma janela talvez, também sendo fechada com força.
Não demorou muito para que a moça gorda surgisse à porta de entrada, empertigada e contrita.
O que Adriana viu a deixou arrepiada.
Por trás da moça gorda uma forma inequívoca de um homem não muito velho, fazendo, era certo, uma mesura, um cumprimento, uma leve inclinação da cabeça. O cumprimento era endereçado a Adriana, não à argentina.
Adriana teve pouco tempo para se recompor e chegar até a porta da cozinha de seu apartamento e perguntar, abobada, para a moça que, depois de fechar a porta do apartamento, disparava pelas escadas, rumo aos andares inferiores, à saída.
– Já vai? Não aceita um cafezinho?
A argentina balançou a cabeça negativamente daquela sua maneira grosseira. Na falta de melhor comentário, Adriana descobriu-se sem saída.
– Não gostou do apartamento?
Desta vez, já no lance central, a meio caminho do primeiro andar, a moça gorda olhou para Adriana, preocupada.
– No hai espacio para más nadie allá.
Adriana entendeu perfeitamente o recado. As palavras da portenha faziam total sentido à professora secundarista. Depois de todas as histórias que ouvira durante o tempo que morava no Tueris, depois da visita ao apartamento, depois da visão que a deixara com os cabelos em pé, tudo fazia sentido.
“Não há espaço para mais ninguém lá”.
Ficou olhando para a mulher gorda e mal amada de quem jamais saberia o nome. Em sua antipatia, Virgínia Lélis não se dera ao trabalho de se apresentar.
Os eventos do dia fizeram um amálgama irreconhecível de suas certezas. A leveza provocada pela perda momentânea de certezas encruadas sempre provoca um enlevo alucinado, um súbito tremor gozoso, uma tranquilidade efêmera, porém eficaz. Se a felicidade é um somatório de momentos felizes, naquele momento, a mãe de Biel previu a felicidade pura, ainda longe de ser alcançada. Precisava urgente de uma coca e não tinha lembrado de comprar.
Será que Marlise tinha alguma que pudesse emprestar? Subiu os degraus até a cobertura e tocou a campainha. Gelson atendeu a porta da cozinha. Por um momento, Adriana não sabia o que dizer. O filho da vizinha designer sorriu aquele seu sorriso irônico que a incomodava de leve.
– Marlise não está, tia Adriana. Foi resolver umas coisas de trabalho. Quer alguma coisa?
Ver Gelson ali a fez lembrar do encontro nas escadarias. Tinha certeza que parecia uma boba, mas não conseguiu impedir que o mantra ganhasse sonoridade e virasse palavra.
– Coca-Cola…
Gelson não se surpreendeu com a expressão da mãe de Biel. Fez um cálculo rápido e não achou que seu segredo corria risco.
– Quer entrar?
Na falta de coisa mais inteligente, Adriana balbuciou algo entre sim e não sei. Oscar Delgado, sentado à mesa da copa, em silêncio, a boca recheada de sanduíche, cumprimentou-a com um menear da cabeça.
Olhou para a garrafa de refrigerante que Gelson tirara da geladeira e a oferecia e devolveu o sorriso estampado no rosto, este, bem mais simpático.
Com um gesto econômico, Adriana despediu-se de Oscar e deu meia-volta. Estava por permitir que Gelson fechasse a porta à suas costas quando rodou nos calcanhares.
– Diga a Marlise que eu devolvo mais tarde, tá bom?
Deu de cara com Gelson sério.
– Tá bom.
Sentiu-se tentada a perguntar sobre o incidente da escada, mas foi atropelada pela interpelação à queima-roupa. Gelson falava como se evitando que Oscar o escutasse.
– O que a senhora acha do caso do Manoel e da Neneca?
Fez uma careta antes de articular uma resposta enviesada.
– Gelsinho, isso não é coisa pra se comentar…
Gelson a interrompeu, seco.
– Com uma criança? Tia Adriana, eu tenho dezesseis completados faz duas semanas. Por que não posso comentar sobre um problema de uma amiga com uma mulher que considero uma segunda mãe?
Com o rubor espalhando-se pela face, Adriana dividia-se entre admirar e desconfiar de Gelson; ele sabia jogar como poucos. Verdade ou não, a frase atingiu o alvo e fez vibrar a corda apropriada, amolecendo o coração da mulher das certezas.
– O que a senhora faria se estivesse no lugar de Samanta?
Ainda assim, o assunto era muito complicado, muito perigoso. Então a conversa da garotada era realmente sobre Neneca. Não imaginara que o caso era de conhecimento de todos. Antes de Renée desfiar o caso para ela, na padaria, desconhecia os detalhes sórdidos. Ficara enojada com Manoel, a princípio. Depois com Samanta. Depois com Neneca. Sentira pena de Maria, a mulher do padeiro, mas seus comentários à meia-voz e as ameaças a Renée a candidatavam ao foco da ojeriza.
Ali, diante de Gelson Utinga, uma ideia nova ganhou forma de uma maneira clara. Respondeu de sopetão, articulando as palavras com precisão, agarrando a garrafa de Coca-Cola; a temperatura transmitira-se ao coração, carregando suas palavras da gélida certeza que lhe era tão peculiar.
– Arranjaria um modo de manter Renée calado.
O sorriso de Gelson a deixou com a desagradável sensação de que breve lamentaria ter proferido a frase.
– Obrigado, Tia Adriana.
A voz de Gelson ficou ecoando enquanto descia as escadas até em casa, onde o frango do almoço a esperava, oloroso.
Passou em frente ao 35 e lembrou-se do rio de sangue de uns anos atrás. Com certeza, morar no Tueris Fustado era conviver constantemente com o bizarro e o inusitado. Desceu mais dois lances de escadas e passou à frente do 25. A imagem do velho cumprimentando-a com a cabeça não seria fácil de esquecer.
Muitas surpresas num dia que ainda estava pela metade.

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