XIX · wuddaphuk (apto 12)

19 nov

Elenora afastou a cadeira para facilitar a limpeza. Duas semanas antes uma thonet de assento de palhinha trançada, muito mais fácil de arrastar, adornava aquele canto da sala. A bergére que a substituíra era robusta, construída com madeira maciça, um pouco mais pesada que os 52kg da faxineira daltônica. Há coisa de três quinzenas havia um banco de junco ali, porém Elenora não pôde vê-lo; foi substituído pela thonet em três dias.
O dono do apartamento 12 era um caçador de tesouros. Sua última visita ao Brasil acontecera há uns quatro meses. Ninguém além da faxineira possuía as chaves do apartamento.
Era sempre uma surpresa passar por lá. As visitas quinzenais tinham sido combinadas pelo dono. O salário chegava pontualmente através de ordens de pagamento recolhidas na agência central dos correios, no vale do Anhagabaú.
Elenora lamentava não poder distinguir as mudanças das cores da decoração e dos cenários paradisíacos em que o apartamento se transformava. Também lamentava não entender nada de inglês, a língua que seu patrão usava para anotar o que achasse pertinente em seu diário. Cada palavra era reproduzida, em tempo real, na tela do grande quadro de avisos da sala de estar; numa época em que ainda não havia MSN ou ICQ, poderia ser um modo maravilhoso de saber o que estava acontecendo do outro lado do mundo.
Fucked two kinky native girls with big tits. Dick’s sore.
Na sua ignorância, a faxineira ficava encantada com as letrinhas surgindo para compor palavras naquelas mensagens que acreditava serem de extrema importância. Reconhecera apenas um nome. Quem seria o tal Dick? Algum amigo de seu patrão?
O patrão em questão comprara o apartamento no Tueris há 15 anos, mas passara muito pouco dessa década e meia em sua residência oficial.
A história de Jônata Correia iniciou-se nos Estados Unidos da América, no dia 5 de setembro de 1939, em que o país declarava neutralidade em relação à II Guerra Mundial.
Neto de um português imigrado, Jônata cresceu na William Street, a três quadras da 22nd State Road, em Hillside, no estado de New Jersey. A família morava no 55, exatamente entre a Gurd e a Liberty, numa casa de madeira com um jardim separado da calçada por uma sebe viva e da casa vizinha por um aléia de olmos e arbustos frequentados por esquilos cinzentos eternamente dispostos a mostrar os dentes afiados a quem atravessasse seu caminho.
Sempre necessitado de cuidados, o jardim abrigava flores, grama e ervas daninhas sem distinção.
Ênio, o pai, era um bêbado que trabalhava como motorista da carrinha de entregas de um supermercado cujo dono, um lusitano de Frades, uma pequena vila dependurada nos morros a pouco mais de dez quilômetros de Viseu, resolvera deixar os repolhos e as cabras da família aos cuidados do irmão caçula e “fazer o mundo” na terra das oportunidades. Uma estreita amizade entre o velho Alberto Pontes, dono do Leiria’s, e o pai, o não menos velho António Correia, garantia ao embriagado um emprego praticamente vitalício.
Kirsten, a mãe, uma neta de belgas de Geel, distante uns quinze quilômetros da Antuérpia, era uma mulher magra com olhos cujas bolsas inferiores chegavam-lhe à metade do caminho até as cartilagens alares. Também afeita ao álcool, preferia doses duplas de uísque ou brandy servidas a cowboy.
No ano do nascimento de Jônata (a criança foi batizada pelo avô, mesmo sem a autorização da mãe furiosa, que preferia algo mais ao gosto ianque), o mundo estava em polvorosa. Mesmo antes de entrar na guerra, Franklin Roosevelt criara o Projeto Manhattan, aconselhado por Albert Einstein.
Aos cinco anos de idade, Jônata espantava os esquilos e subia nas árvores que separavam a sua casa do vizinho e acreditava dominar o mundo, embora pudesse apenas ver partes de Irvington, Newark e as Oranges, ao norte, Union e Westfield, a oeste, Elizabeth e Linden, ao sul. A coisa ficava realmente interessante quando voltava os olhos para leste; para lá se espraiava Jersey City, Hoboken e, mais além, para lá do Hudson, New York com seus arranha-céus imponentes. Conseguia reconhecer os pináculos do Empire State e do Chrysler.
O vento balançava os ramos das árvores altaneiras e o menino imaginava navegar por mares revoltos, em busca de tesouros, descobrindo novas terras povoadas por nativos desnudos sempre prontos a trocar suas riquezas por espelhinhos empenados e cortes de tecido barato produzidos em Livingston.
Os sonhos o assombravam durante a noite, dormindo, e acordado, de dia, agarrado aos troncos enrugados. No dia em que Zeferino Fustado desalojou os alemães de uma casamata, Jônata Correia errou um galho e o pé escorregou para adiante. O corpo seguiu o impulso e não conseguiu vencer a lei da gravidade.
Caiu como uma bomba sobre os arbustos, estragando a sebe e marcando a testa com um corte reto, uns dois dedos acima da linha das sobrancelhas.
Naquela noite, depois da visita ao hospital onde ganhou onze pontos e um curativo que lhe cobria a fronte por completo, Jônata sonhou com ilhas paradisíacas, guerreiros de pele escura e mulheres de peitos fartos e sarongues que cobriam os genitais pudicamente, oferecendo frutas exóticas que sabiam a goma de mascar e cumbucas com doces assemelhados a pralines, achocolatados e marshmallows caramelados.
O dia começou com um susto. O grito de Kirsten o arrancou do sonho apenas para duvidar dos próprios olhos. O quarto de criança de família proletária americana transformara-se em cabana de alguma tribo desconhecida perdida numa das muitas ilhas dos mares do sul.
O carpete que cobria o piso fora substituído por areia fina e esbranquiçada, a cama era uma esteira de palha de palmeira, o guarda-roupa não mais existia e a parede era uma encosta vulcânica por onde escorria um fio de água que se acumulava ao pé da porta, onde plantas de folhas largas e flores de cores vibrantes eram usadas como puleiros por pequenos pássaros exuberantes de movimentos suaves e arrulhos delicados.
A vida da família jamais foi a mesma.
A cada sonho com terras distantes, nova trasnformação se operava nos ambientes da casa.
Em frente à edificação cujas paredes de madeira não deixavam antever os cenários tropicais encapsulados, no inverno de seu sexto aniversário, jurou para si mesmo, em meio à neve que lhe chegava aos joelhos, que não deixaria o ano de 1960 chegar para achá-lo ali, perdido entre aquelas cidades cortadas por auto-estradas e divididas pelo racismo.
Enquanto a batalha da Normandia era iniciada, Ênio bebia cerveja à beira-mar de uma ilhota rodeada de águas límpidas e repleta de belas nativas, em plena sala de estar. Kirsten tomava sol, na cozinha, enquanto preparava o almoço à base de peixes de escamas violetas e nadadeiras semelhantes à plumagem de flamingos.
Lá fora, o frio tinha sido substituído pelo sol gélido da primavera.
Enquanto crescia, Jônata ouvia falar dos testes nucleares nos intermináveis desertos de sua nação e dos bombardeios de Hiroshima e Nagazaki.
No seu décimo oitavo aniversário, Jônata abandonou o pai em meio ao turbilhão da nevasca das terras de Odin. Kirsten havia morrido picada por uma serpente minúscula, uns dois anos antes, depois que o filho sonhara estar na Amazônia. Ia para a América do Sul, para o Brasil, visitar ao vivo e em cores, as florestas com que sonhara. Com a sua saída, o interior da casa dos Correia, em Hillside, jamais deixaria de ser castigado pela neve. No número 55 da William Street seria sempre inverno.
O voo o levou até São Paulo. Antes de seguir rumo aos estados do norte do país, encantou-se com a beleza de Merinha, uma mulata de ancas largas e lábios róseos. O Norte poderia esperar um pouco mais.
No dia 4 de outubro de 1957, os russos lançavam o Sputinik I, primeiro satélite artificial a orbitar a Terra, e Jônata Correia assinava o contrato de compra do apartamento 12 do Tueris Fustado.
Merinha engraçou-se por um zagueiro da Portuguesa de Desportos e abandonou o gringo com cara de padeiro. Jônata não chegou a lamentar, a moça começava a ser um estorvo; uma vez conquistado, o prêmio perdia metade da graça. Precisava correr o mundo atrás de novos desafios. E assim foi. Fez fortuna com pepitas de ouro conseguidas com os Terena em troca de apitos plásticos. Seguiu para o Triângulo das Bermudas e ganhou fama de bucaneiro insaciável.
Atravessou o Panamá em lombo de jegue e ganhou o Pacífico e suas milhares de milhas repletas de ilhas onde se escondiam peças importantes do quebra-cabeça da História do homem. Peças que importavam a Jônata por seu valor de troca por dólares.
As impressões dos lugares por que passava geravam sonhos impresionantes que se transformavam em novos cenários socados entre as paredes do 12 no Tueris, para deleite de Elenora. Não a assustavam as caranguejeiras, as serpentes venenosas, nem as feras; mantinham-se à distância, observando-as, temendo sua presença naqueles cenários improváveis.
Na madrugada daquela sexta-feira, Jônata chegara a uma ilha de Sumatra onde descobrira um templo dedicado a uma entidade deídica que amava ser presenteada com artigos de prata maciça. E seus fiéis tinham gastado séculos preparando as melhores oferendas possíveis.
Gastara gordos minutos a calcular o quanto lucraria com aquelas oferendas. O transporte seria o mais complicado. Os guardiões do templo não seriam sério obstáculo. A coisa toda tinha causado tão forte impressão que estava sonhando sobre a questão.
Entrou no templo, resoluto, e alcançou a sala do tesouro. Havia colares, taças, pulseiras, incensários, escarradeiras, penicos, cachimbos, lanças, facas, machados, cocares, tiaras, anéis, cintas e sandálias confeccionadas com prata de pelo menos três tons distintos. Algumas peças tinham sido criadas como cruas manipulações do metal ainda quente, outras tinham sido trabalhadas com mais cuidado, encrustadas com pedras semipreciosas de extrema beleza. Tudo estava amontoado.
Não se preocupou com os guardas se aproximando. Virou-se com a pistola em punho, uma Taurus 38, e descarregou o tambor sobre os três guerreiros munidos de lanças inúteis contra balas de chumbo.
O susto ficou por conta da presença do seu vizinho do 32. Aquele travesti antipático que sempre o cumprimentava como se o quisesse desfrutar de sobremesa. O que estaria Renée Druon fazendo em seu sonho?
Ainda de arma em punho, mais reflexo que intenção, inquiriu o intruso.
“Como você chegou aqui?”
“Isso não é certo”.
Como ele podia ousar usar aquele tom?
“Esse tesouro pertence ao povo da ilha”.
Caiu na gargalhada.
“Sem mim, eles manteriam isso aqui guardado até o final dos tempos. Eu posso transformar isso em riqueza pra todos”.
O rosto de Renée transformou-se, num ricto de dor. Jônata compreendeu, naquela careta, a verdade de seus atos. Gritou furioso.
“Você não tem o direito de invadir o meu sonho e…”
Renée arregalou os olhos.
“Seu sonho? Você está em meu sonho!”
Não poderia ser. O sonho era dele, sim. O travesti era o invasor. E não tinha o direito de julgar seus atos. Quem era ele para dizer o que era certo ou não?
Era o dono do mundo. Desde a infância, sobre as copas dos olmos de sua casa. Ninguém poderia censurá-lo por qualquer coisa que fizesse com o mundo que lhe pertencia.
Desistindo de arrazoar com o caçador de tesouros, o travesti afastou-se, pretendendo sair do templo dessacralizado.
Ergueu a mão esquerda, consciente de que sua arma estava descarregada. Não precisava dela. Tinha o sonho. A testa coçou um pouco, exatamente sobre a cicatriz que atravessava a fronte em linha reta.
Os ramos das trepadeiras que se agarravam às paredes de pedra começaram a tremer. Apontou as costas do invasor e os galhos soltaram as estruturas da edificação e se lançaram sobre o travesti desavisado, pegando-o de surpresa.
Envolto por galhos que o apertavam com rapidez, a folhagem exuberante exalava um cheiro de chuva, de selva, de pedra. De morte.
De algum lugar distante, um latido esganiçado ecoou entre as paredes do templo. Uma vez. Duas. Três.
Num passe de mágica, um raio de sol penetrou entre as paredes e alcançou o exato ponto ocupado por Renée Druon. A luz tocou as pálpebras do travesti e o corpo desapareceu, em meio às folhas de tamanho exagerado, os galhos fazendo sanduíche de galhos sem recheio.
Jônata Correia acordou, suando. Relaxou no momento em que sentiu o toque delicado da pele de suas companheiras de tetas grandes.
Apanhou sua agenda e rabiscou com garranchos rápidos um recado para si mesmo. Devolveu a agenda para a mesa de cabeceira e mexeu-se na cama com um pouco mais de vigor. As garotas acordaram com um sorriso nas caras redondas de beleza exótica e pele escura.
Naquele momento, seu apartamento no Tueris esquecia-se do templo de pedra coberta de trepadeiras com folhas monstruosas para voltar a ser apenas um quarto de hotel em Palau.
Se Elenora tivesse chegado mais cedo poderia ter lido, sem entender, é óbvio, a mensagem no quadro de avisos.
“Weird. Dreamt of the damn tranny. Could’ve killed him”.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: