XX · o que as vozes contam

20 nov

– Nunca vi tanto sangue, Oscar!
– E as coisa dele?
Estava quente, o ar pesado antecipando uma chuvarada, carregado de eletricidade. Gelson fez uma careta, ajeitando os óculos que teimavam em escorregar até a ponta do nariz.
– Dizem que tá tudo ainda no apartamento.
Oscar deu uma bela mordida no oitavo sanduíche, aquele de presunto e queijo, que Gelson havia preparado com esmero e balançou a cabeça. Os olhos arregalados de Gelson provocaram um arrepio na nuca de Oscar. Não gostava de passar em frente ao apartamento 35.
– Eles tiraram tudo, mas o apartamento é assombrado. O fantasma de Felipe trouxe tudo de volta!
– Vofê xá fiu?
Os olhos de Gelson apertaram-se numa expressão que combinava uma encenação de raiva mal ensaiada e riso genuíno.
– Você não acredita em mim?
Oscar fez um gesto com a mão e tentou falar. Bocados do sanduíche quiseram escapar da boca. Enquanto ajeitava o começo de desastre, Oscar pensava consigo mesmo que um homem capaz de viajar através de espelhos não podia se dar o luxo de duvidar da existência de fantasmas ou de visitantes de outros mundos como os amigos extraterrestres de Gelson. Quase dono da situação, Oscar arriscou usar de sua gasta prosódia piorada pela comida em sua boca.
– É ôsh quelesh vêm? Vofê divia ifcrevê eshash ishtóra…
Gelson coçou a cabeça e esboçou um sorriso desbotado. De todos os sonhos que nutria, desde dar voltas em torno da Terra, numa nave toda de vidro, para ver do alto cada detalhe da geografia terrestre, tentando reconhecer esse ou aquele local que sabia apenas de atlas escolares, até virar ator de telenovela para dar ardentes beijos de língua nas beldades hollywoodianas, Gelson queria virar escritor famoso e ganhar o Nobel de Literatura.
– Devem chegar daqui à uma hora, mais ou menos. E costumam ser pontuais… Os safados.
Pareceu ensaiado. Marlise abriu a porta da cozinha ao mesmo tempo em que Gelson expeliu o último fonema de sua frase sobre os amigos de outra galáxia. Estava ofegante e com cara de poucos amigos. Olhou para Oscar e demonstrou grosseiramente não estar feliz por vê-lo ali. Gelson acreditou ser pelo consumo dos víveres conseguidos, nos últimos tempos, com dificuldades, e sentiu-se mal por sua mãe e por seu amigo.
– Vocês estão aí há muito tempo?
Gelson percebeu que a preocupação da mãe recaía em Oscar estar comendo algo mais do que sua comida.
– Oscar chegou quase inda agora.
Marlise depositou as sacolas que carregava sobre o tampo do balcão e encostou-se à borda, cruzando os braços logo abaixo das tetas não muito fartas, porém ainda firmes.
– Essa amizade de vocês é muito estranha, sabiam?
Gelson não acreditara que a mãe fosse tão diretamente ao ponto. Oscar parou de mastigar, o bolo de comida ganhando um volume insuportável na cavidade bucal, querendo sumir ou morrer ali mesmo, fulminado por um raio.
– Você tem mais de vinte e cinco, Oscar. Gelson tem só dezesseis. As pessoas ficam falando…
Os dois amigos lembraram das palavras de Renée. Gelson engoliu em seco. Oscar forçou o bolo alimentar goela abaixo, rasgando dolorosamente a garganta com os pedaços mal mastigados e ainda parrudos do sanduíche. Seria muito feio cuspir ou tossir naquele momento. Morrer não era problema, comportar-se grosseiramente seria imperdoável.
Num mundo paralelo, a situação nunca teria acontecido. Num terceiro planeta Terra, os pedaços do sanduíche teriam sido impulsionados até metade do caminho entre Oscar e os pés de Marlise. Numa outra dimensão distinta, Oscar seria a designer desempregada, Marlise seria o filho adolescente, e Gelson estaria engasgado com o sanduíche nas mãos do homem que podia viajar entre mundos através de espelhos.
Em qualquer das dimensões possíveis, os amigos não precisaram falar qualquer coisa para entenderam que sua amizade estava encerrada oficialmente. Oscar ficou imaginando mortes atrozes a serem infligidas ao travesti linguarudo, pois nada o demoveria de acreditar ter sido ele a provocar a mãe do garoto que preparava sanduíches muito saborosos.
Oscar conhecia mundos inimagináveis até mesmo aos mais criativos escrevinhadores. E outras tantas dimensões escalafobéticas que inspiraram e inspirariam contadores de histórias em nosso mundo. Mas não tinha certeza de qual poderia fazer uso para infligir castigos àquela caricatura de mulher.
Levaria Renée para visitar os espectros de Citagazze num tempo anterior ao sacrifício de Lyra, e o abandonaria por lá, à própria sorte?
Ou, como quem não queria nada, o empurraria para um dos abismos do quarto círculo do inferno daquele escritor italiano?
Ou ainda o levaria à original floresta bretã para duelar com os verdadeiros Cavaleiros-Que-Dizem-Ni?
Sentiu aquela coceira na barriga, perto do umbigo, anunciando que estava para ter um de seus lapsos de memória.
– Seria bom que você saísse agora e não voltasse, Oscar.
Sem precisar ouvir mais nada (e ouvir não era mesmo o forte de nosso amigo), Oscar Delgado levantou-se e caminhou para a porta da saída, com dignidade, sem olhar para trás, sem dizer adeus, nem obrigado. Tinha apenas um último favor a fazer pelo amigo que perdia.
Por que dera ouvidos à voz que o aconselhara a permanecer com Gelson? O que queriam esses fantasmas desgraçados com suas mentiras malfazejas? Por que obrigá-lo a passar por mais aquela situação vexatória num mundo que não era o seu?
Seriam as vozes de invejosas criaturas demoníacas a jogar com os sentimentos dos humanos? Ou seriam de manifestações angelicais cumprindo os desígnios de um deus ciente do começo, do meio e do fim?
Como a maioria dos pobres mortais diante dos assuntos mais embaraçosos, não conseguiu respostas a qualquer de suas questões. Ouviu a porta sendo trancada às suas costas e o mundo virou uma só escuridão, um breu sem fim e sem medida.
Lá fora o dia esvaía-se, escorrendo rapidamente, a luz esmaecendo como água sugada pelo ralo voraz da noite, prenunciando postes se acendendo, pessoas voltando para casa depois de um dia de labuta, mesas sendo postas para o congraçamento da ceia restauradora, corpos se aconchegando nos braços do ser amado.
Na cabeça de Oscar, um grande poço. Vazio, escuro, sem fundo. Uma queda num abismo sem fim.
Voltou a si apenas para descobrir estar com o pé direito a poucos centímetros do beiral do telhado do Tueris, exatamente acima do apartamento de Renée Druon.
A boca da noite cuidara de engolir cada fiapo de luz do sol; o dia havia sido consumido, transformado em História, em memória, em pretérito.
Oscar, roubado de uma porção de seu passado, assustou-se e deu dois passos para trás, cambaleando e balançando os braços em busca do equilíbrio perdido. Uma telha partiu-se sob o peso de seus setenta e oito quilos e projetou-se em queda livre até alcançar o gramado seco do jardim da Coronel Fustado.
A chuva castigava sua pele. O coração disparou. Os ouvidos ficaram mais surdos aos barulhos do mundo de fora; ouviam apenas os batimentos apressados e seus pensamentos desordenados.
Sob a cadência do coração possante, o suicida inconstante entendeu que não era hora de se jogar. Carecia, ainda, antes do último suspiro, fazer o serviço para o amigo e visitar a família em seu próprio mundo, em sua realidade.
Precisaria atravessar muitos espelhos e mundos, até lá e de volta, para fazer cumprir seu destino derradeiro. Não pereceria naquele instante. Se alguém merecia morrer era o morador do apartamento logo abaixo.
Com cuidado, pisando macio para não quebrar mais telhas, Oscar voltou à segurança do quarto andar do edifício e alcançou o lance de escadas, batendo sobre a roupa tentando livrar-se da água que se acumulava na trama dos tecidos. Estava atrasado e não podia deixar de cumprir sua promessa. Correu até seu apartamento e ligou para os números no papelete.
Vários telefones começaram a tocar no edifício.
Estava ainda sob o efeito alarmante de tantas campainhas tocando simultaneamente, quando caiu em si. Acabara de cruzar com a pequena nave dos rigelianos estacionada no terraço do Tueris. Ligou para um número. Para outro. Sem resultado, também. Dona Julieta estaria fora? E o que teria sido feito de Valéria? Romildo não atendia. Insistiu.
Depois do vigésimo toque, desistiu, acreditando ter falhado com Gelson. Também perdera uma grande oportunidade de conhecer os rigelianos. Malditas ausências. Maldito travesti. Da varanda, através do janelão da sala, percebeu o clarão provocado pela decolagem da pequena nave que levava Klpytdy, Tajkdy e Gelson para algum momento no passado.
Olhou o relógio de pulso e estacou de chofre, na dúvida: deveria ir trabalhar e deixar as coisas tomarem seu rumo natural ou fazer uma visita de surpresa ao travesti cuja língua solta envenenara a mãe de seu amigo?

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