XXI · tatalares e facas afiadas (apto 35)

22 nov

Falar de um assassino é como falar de uma pessoa normal. Ele (ou ela) vive como todos os outros seres humanos comuns. Nasce filha única, querida, desejada, numa família pacata de classe-média, cresce primogênito numa mansão milionária em que todos o enchem de responsabilidades ou vive caçula de uma prole imensa num casebre com um cômodo, molestado pelo pai, espancado pelos três irmãos mais velhos e sem saber ler.
Um dia, como se quebrasse a casca de um ovo para fritá-lo no café da manhã, ele (ou ela) faz a vítima. Assim, sem mais nem menos.
Felipe Dias era o quinto filho de uma escadinha de sete que Seu Everaldo e Dona Bina fizeram em noites de pouca intimidade. Uá, pem, bum e a coisa estava acabada antes mesmo que Dona Bina pudesse começar a se arrepiar. Embora não fosse de família pobre, Felisbina Moreira não enfrentava os problemas que muita gente rica tem de superar para gerar filhos. Dona Bina era como as miseráveis e faveladas: sentia o odor inequívoco de esperma a uns dez metros e engravidava na hora.
E foi assim por longos sete anos desde o dia em que se amasiaram para viverem felizes para todo o sempre, amém. Felipe não tinha nascido ainda quando o casal resolveu oficializar a relação. Raldo e Bina casaram de papel passado no cartório da Praça João Mendes com as economias que conseguiram juntar para comprar a nova cozinha.
As panelas deram vez à papelada e as refeições continuaram sendo feitas em caçarolas com cabos moles e remendos enegrecidos sobre o fogão de duas bocas e o balcão de granito gasto e comido pelo tempo e os maus-tratos.
Quando Felipe completou cinco anos, várias panelas já não tinham cabo há muito.
Mas o garoto nunca passou fome. Havia sempre comida no prato e os pais eram o espelho da felicidade insossa de quem se ama com intensidade sem fazer demonstrações físicas do afeto. E assim era com os filhos.
Quando em vez, uma palmada dava um jeito de corrigir os desvios de comportamento da garotada cheia de energia. A Escola Técnica Carlos de Campos, no bairro da Luz, encaminhou quase todos os filhos do casal. Felipe era técnico em eletricidade.
Andou pendurando-se em postes e tomando choques de voltagens bastante altas por um longo tempo. Choques elétricos que talvez tenham mexido com a arrumação de seus neurônios, sabe-se lá…
Pacato, cordato, carinhoso, educado e sorridente, Felipe Dias não era bonito nem feio – simpático, assim o chamava Sandrinha, com quem perdeu a virgindade e um pouco da sanidade. Tiveram um caso tórrido que durou exatamente o tempo entre duas edições da Veja.
A descoberta de que Sandrinha passara a frequentar motéis com seu irmão Totonho causou grande comoção. A família ficou horrorizada com a desfaçatez da moça e a falta de coração do moço. Felipe apenas os olhou, piscando muito.
Embora Dona Bina frequentasse a missa todo domingo, ninguém imaginou que Felipe tivesse qualquer pendor religioso, porém ficou claro que ele mantinha uma relação mais do que íntima com o catolicismo.
Totonho sumiu um mês depois da grande confusão e seu paradeiro só foi descoberto oito anos depois, quando a polícia fez uma batida num galpão esquecido da antiga Light onde ainda funcionava um depósito de material e o cemitério dos restos mortais das vítimas de Felipe.
Eram todos homens jovens. E todos tinham tido alguma coisa com Sandrinha. Os ossos mais antigos eram de Totonho. Os especialistas descobriram que Felipe preparava pratos rápidos com o corpo dos rapazes e levava pedaços fartos de carne fresca para servir de mistura nas refeições da família. Durante oito anos, todos se refestelaram, deliciados, em carne humana sem o saber.
Mesmo depois de ter mudado para o apartamento 35 do Tueris, Felipe não deixava de fornecer a carne para as ocasiões, festivas ou não, da família do bairro do Bom Retiro.
No apartamento, centenas de bíblias com as páginas riscadas de hidrocor vermelho com a frase “aqui se faz, aqui se paga”. Em algumas páginas, marcas claras de que o jovem desequilibrado usava os livros em seções de sexo solitário.
Modus Operandi? Felipe atraía os rapazes com promessas de bebida e encontros com garotas fáceis. Ao chegar ao depósito abandonado, ele os degolava e esquartejava com um cutelo de aço inoxidável. Um dia, um funcionário da empresa o flagrou entrando no depósito com um dos rapazes e saindo, duas horas depois, sozinho.
A denúncia transformou-se em busca e em mandato de captura.
A polícia chegou com luzes piscando, e armas, e cães, mas não teve chance de pôr o equipamento em uso. Felipe deu um tiro na boca com uma espingarda calibre 22 que guardara como lembrança dos tempos do CPOR, na sala do apartamento que alugava por uma ninharia.
Aquela bala fez o serviço esperado. O cérebro de Felipe Dias espalhou-se sobre as paredes e os móveis da sala e não houve quem conseguisse lavar ou sobrepor as manchas com qualquer espécie de tinta conhecida na época.
O apartamento nunca mais foi alugado. Na verdade, a dona nunca quis ser identificada e não demonstrou interesse em deixar alguém ocupar a unidade 35 do Tueris.

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