XXII · eu vejo gente morta (apto 13)

23 nov

“Está trancado, perdido em seus rancores, multiplicando as dores de uma existência impalpável”.
Os fumos do asfalto chegavam aliados aos olores das buganvílias e ipês. A cidade exalava seus cheiros sob a massagem da tempestade. Vez em quando um relâmpago piscava, arrotava como barítono recém-acordado e emprestava azoto para ser somado aos perfumes da noite.
– Isso também não te incomoda, Zeferino?
Os olhos fitavam a forma fantasmagórica que se apresentava mais definida que as auras dos vivos, embora fosse sentida como uma brisa gélida. Incapaz de ver com os olhos da cara, Julieta Helena de Guimarães e Bentes via auras com os olhos da alma.
“Lamentações são tão tipicamente humanas. De que me valeria lamentar o que sou? Ou o que fui? A chuva apenas parece chorar, Julieta. Vivi um tempo querendo esquecer, mas a morte me trouxe a tranquilidade das lembranças desapaixonadas”.
A risada seca e rouca da velha cega espalhou-se pela sala iluminada apenas pelas luzes de fora do apartamento (o que luzes poderiam mudar na realidade de uma velha cega recebendo a visita de um amigo etéreo?).
“Não faça pouco. Não minto. Quando ainda tinha carne tais sensações me eram caras, admito, blasfemei contra o universo e todos os deuses. Sequer consigo achar graça nisso, agora”.
A voz não era falada por boca concreta, ouvia-se através de uma barreira esgazeada, um filtro que a deixava abafada, profunda. Não tinha origem de fácil localização. Soava existir antes e depois, percebida no momento presente como uma recordação de palavras anciãs ou um presságio de uma frase ainda por se fazer ouvir.
– Não censure o garoto, Zeferino. A maioria das feridas cura mais rápido na pele que no espírito.
Com mãos hábeis, Julieta apanhou o isqueiro descartável, o rolinho de tabaco da caixa de Hollywood e o acendeu. O rosto que servia de tela para as cores das luzes das viaturas policiais, ganhou, por instantes, laranjas emprestadas da chama do isqueiro.
Puxou com vontade, usando toda a força de seu diafragma de fibras cansadas, enchendo os brônquios friáveis com o calor do cigarro.
Havia muitas viaturas. As guias da Tenente Fustado e da Andrômeda tinham a oportunidade de relembrar a noite da morte de Felipe Dias. Já não enxergava a velha Julieta, então. O espetáculo lhe era indiferente.
A fumaça expelida bailou no ar e Julieta imaginou-a ganhar as formas de sua visita.
– Então foi cumprida a desgraça?
A mudança na pressão à sua volta a fez virar os olhos na nova posição da massa de ar gelada que se mostrava como um senhor elegante que podia ter a idade do mundo.
“Não aconteceu desgraça alguma. Apenas mais um fato…”
– Um fato que você não queria ver realizado. Que história foi aquela de tentar Oscar impedir Gelson de sair de casa?
“O menino é cheio de truques. Tentei facilitar a vida do jovem, porém ele sabe como se cuidar. Tenho muito pouco a ver com os vivos, Julieta”.
A massa de ar tremeu, um boneco de molas liberado de uma caixinha de surpresas.
– Por que o riso?
“Não pretendia ofendê-la, minha velha”.
Novo trago, nova fumaça dançarina, mais um pigarro.
– Não. Estou ainda muito viva, Zeferino, e não me ofendi, tranquilize-se. Porém seu comportamento com a moça de aura manchada à tarde não foi nada educado.
“Meu trabalho ainda não está encerrado. E ela vibrava numa frequência nada agradável”.
– Preocupo-me com seu exibicionismo. Não bastava o pedaço de frango dentro do forno? Desnecessário se mostrar para Adriana…
“Ela reagiu bem. Quase tão bem quanto à grosseria de Virgínia”.
– Virgínia? Que belo nome.
A expressão no rosto vincado de Julieta não se alterou durante a liberação da flatulência ruidosa. A dança da brisa gelada pareceu acompanhar a emissão da baforada. Estava gargalhando dessa vez. As vozes dos policiais à frente de seu apartamento confundiam-se à estática dos rádios de bordo.
– Esses gases desgraçados acometem-me desde criança. Na idade adulta, causavam dores atrozes quando os segurava. Nunca foram tão barulhentos como agora, no entanto. Ainda não recolheram?
“Pára de reclamar, mulher! Deixa que as rapinas saboreiem o espetáculo”.
Novo peido, nova tragada, novo deslocamento da brisa.
Julieta soltou a fumaça devagar, saboreando o espetáculo que lhe cabia. O quanto aprendera durante as muitas décadas que se desenrolaram como tapete sob seus pés!
Não fora sempre uma mulher tranquila. Nem cega.
Houve um tempo no qual Julieta Helena carregava um corpo pueril e os sobrenomes de França Guimarães, apenas mais uma das doze filhas de seu Nonô e dona Aurélia. Não que carecesse de amor ou atenção, apenas dividia aqueles bens com onze irmãs, duas primas e uma criada que a mãe considerava parte da família.
Tanta mulher junta, vez ou outra, transformava-se numa confusão que deixava o velho Nonô de cabelos em pé; a farta cabeleira ganhou matizes de cinza aos trinta e branquejou totalmente aos quarenta. O pai nunca deixou faltar nada, cumprindo, com superávit, seus deveres de provedor.
Nunca economizava na distribuição de cascudos e afagos, tratando quase todas as suas fêmeas com igual deferência. Era humano, portanto desenvolvera preferências. Eunice, a quinta filha, a mais encapetada, tinha cadeira cativa no melhor camarote no coração do pai.
E abusou dos privilégios. Sem usar da esperteza que lhe imputavam, criou um clima ruim à sua volta; as irmãs se uniam para fazê-la sofrer humilhações públicas.
Julieta cresceu uma menina de beleza medíocre, dada a achaques e pantins constantes, de inteligência mediana, siderada e indiscretamente curiosa. Descobriu os prazeres do tabagismo aos nove. Menstruou aos onze e amasiou-se aos quinze com um caixeiro de bigodinho encerado, corpo bem distribuído e um pênis monstruoso que não sabia usar para dar prazer à moça mais interessada em sair de casa que rolar os olhos enquanto era penetrada.
Geraram três filhas. Julieta parecia perpetuar os genes da mãe, uma abelha-rainha incapaz de parir machos. Antes que o lar se transformasse em colméia, abandonou o marido e as filhas.
Encheu as estradas de pegadas e a cama de amantes. Muitos homens a fizeram gozar, mas o coração foi endurecendo e as economias minguando.
Voltou à capital paulistana e procurou o pai de suas filhas. Achou-o casado de papel passado com uma costureira pernambucana, que rodou a baiana e a expulsou, sob socos e pontapés, da mansão da Rua Novo Horizonte, sob os olhares constrangidos da filha mais nova, Maria Amélia, uma bela mocinha de casamento marcado.
Estava noiva de Humberto Limeira, um rapaz distraído que trabalhava como motorneiro no bonde que levava até o município vizinho de Santo Amaro. Naquele dia, voltaria para casa chocado por ter atropelado e matado uma garota apressada que cruzara o seu caminho.
Ferida na perna, no ombro e na alma, Julieta ficou dando voltas na rua em ferradura, matutando as opções que lhe sobravam. Jogar-se na Rua Bahia, para virar cadáver, lá embaixo, e jogar vergonha sobre a família Julião e Leite? Inspirar-se no formato da rua e usar de grosseria equina, gritando insultos a plenos pulmões, até que toda a vizinhança tivesse ouvido os axincalhes e vitupérios, até que o rubor na cara da filha se aproximasse de roxo de fim de tarde?
Vingança era um prato para ser comido frio.
Manquitolou até a grande avenida de casas de vastos jardins e ali em frente ao São Luís, as roupas rotas e as faces inundadas, fez uma jura, enquanto deixava escapar flatulências ruidosas.
Trabalhou em casa de família, ajeitou os dentes e guardou dinheiro. Com um investimento inicial irrisório, abriu uma doceria e amealhou uma pequena fortuna. Conheceu o rico, velho e viúvo juiz Ercílio Moreyra e Bentes. Com ele, contraiu núpcias. A festa foi o assunto da nata da sociedade por semanas.
Vendeu a doceria e engordou a já rotunda fortuna familiar.
Dez anos depois de ser expulsa a porretadas da casa de seu ex-companheiro, acreditou estar pronta para cumprir com a jura, saborear sua vingança. No dia 11 de fevereiro de 1932, enquanto o papa Pio XI recebia Mussolini, com pompa e circunstância, no Vaticano, Julieta Helena pediu ao motorista que a levasse até a mansão que pretendia comprar. À compra seguiria a expulsão de seus ocupantes, sem dó, nem piedade.
À porta da mansão, foi atendida por uma senhora distinta, de olhos castanhos e voz macia, que a comunicou do falecimento de toda a família Julião e Leite, num acidente automobilístico, na estrada para Santos, um par de anos antes.
A tontura acometeu-a ali mesmo, no vestíbulo da mansão que já não tinha razão para comprar. Foi levada às pressas à Santa Casa de Misericórdia, onde os médicos atestaram que não corria risco de morte, mas rodavam feito baratas tontas, incapazes de nomear o mal que cegara uma dama tão distinta.
Oito anos depois, senhora de seus domínios, por onde caminhava com desembaraço, usando apenas uma bela bengala de castão prateado, estranhou que o marido se dirigisse a ela e, em meio à total escuridão que a engolfava, sua silhueta pudesse ser vislumbrada.
“Isto é apenas o começo, senhora dona Julieta Helena”.
O marido teve um enterro digno no jazigo da família e seu espírito jamais voltou a contatá-la.
De impulso, vendeu todas as propriedades e guardou o dinheiro em papéis. Comprou a unidade 13 do Tueris Fustado, onde o dom de ver as auras e falar com gente morta foi apurado.
Vamos lá. Os dedos voltam a mexer nos ponteiros e aqui estamos nós de volta ao presente: a noite da sexta-feira 19.
– Sabe, Zeferino? Quando ouvi a frase do Cilinho, acreditei que ele falava de mim. Hoje, vejo que era sobre si mesmo o comentário.
A figura moveu-se e um arrepio percorreu a pele do braço esquerdo.
“Cada dia é um novo começo. Em qualquer realidade”.
Entendeu que o cigarro chegava ao fim, o calor nos nós dos dedos beirava o insuportável. Ainda insatisfeita, acendeu outro na brasa do moribundo.
– Mesmo para alguém como Felipe?
“Estabelecer quem é merecedor de benesses ou castigos não é papel de quem ainda não desencarnou”.
– Seu papel, então?
“Tampouco”.
A sala pareceu ser varrida por um tufão. A brisa aproximou-se de Julieta e a velha resistiu ao frio sem pedir que a visita se afastasse.
“Eu também quis morrer, me matar. Meus atos de heroísmo não passaram de atitudes desesperadas de alguém intentando levar um balaço no meio da testa. Depois de matar os alemães na casamata, entendi o contrasenso de uma guerra. No dia seguinte, escondi-me numa toca de coelho na encosta. Deculpe-me, muito frio?”.
Julieta apenas balançou a cabeça afirmativamente, dando um belo trago no cigarro de filtro amarelo. A brisa afastou-se automaticamente.
“Fugi à noite, em meio aos mortos. Refiz minha vida no berço da cultura latina. Nada glamuroso. Trabalho duro, arando a terra, carregando água e tangendo gado. Uma vida tranquila numa Itália necessitada de reconstrução”.
Uma sirene escandalosa transformou tudo em dor compactada, uma pressão nos tímpanos amenizada com o afastamento do veículo vermelho.
“A morte veio indesejada. A guerra chegara ao fim, mas não os conflitos internos. Iniciaram-se os fuzilamentos e as desforras. Tomei uma bala na testa, de ex-balilla, ex-soldado fascista. Discussão em boteco. Uma batalha extemporânea num país perdido entre a guerra e a paz. Adeus amante, adeus morros verdejantes, adeus Piemonte, adeus vida”.
– Você está saudosista, Zeferino. Quase poético. Espero que mantenha este humor até o dia de me ajudar.
A gargalhada chegou-lhe como pequenas ondas, leves sopros gelados em intervalos curtíssimos.
“Ainda muitas águas a passar sob esta velha ponte”.
Julieta deu uma derradeira tragada no cigarro e bocejou.
– Espero que não sejam tantas assim.
“Julieta! Deseja a morte tanto assim?”
– Não quero viver mais do que o necessário.
“Como se traduz isso em anos?”
O silêncio da velha demorou pouco, mas as palavras não vieram como resposta à brisa gelada.
– Ao contrário de você, os vivos precisam dormir, Zeferino. Seria gentil…
A brisa se desfez, espalhando-se sobre as paredes do quarto, dissipando-se ao atravessá-las. Nesses momentos, Julieta era capaz de perceber as dimensões do ambiente que a rodeava.
A voz era apenas um sussurro numa montanha ao longe.
“Boa noite, minha querida”.
Julieta Helena de Guimarães e Bentes fechou os olhos e riu. Sempre tão cortez; um verdadeiro cavalheiro à moda antiga. Levantou-se da cadeira de balanço e caminhou até o quarto, no escuro, sem esbarrar em qualquer dos muitos móveis que se amontoavam no apartamento necessitado de pintura.
Esticou os lençóis e deitou-se em sua cama. Preparando-se para dormir.
Fora uma criança egoísta, uma jovem egoísta e uma mulher egoísta. Os olhos eram sãos, mas estava cega pela ideia de que o universo a usava como umbigo. A velhice a alcançou mudada. Os olhos tinham-se tornado insensíveis às miragens do mundo visível.
Julieta Helena, enfim, aprendeu a ver.
Ajeitou-se na cama e soltou uma série de peidos barulhentos e fedidos. Era apenas humana. Mais uma moradora de um edifício assombrado pelo espírito de um suicida e de seu construtor preocupado em servir de ponte entre o mundo dos vivos e os mundos dos desencarnados.
Tabagista desbragada de voz rouca e rasgada. Uma cega que adorava olhar as cores fluidas que emanavam das plantas do jardim central do edifício e as fluorescências das pessoas que por ali passavam cotidianamente.
Uma espectadora dos erros e acertos alheios, sem possibilidade de alterar os caminhos traçados por cada alma viva, encantada pelo espetáculo que se descortinava diante de seus olhos cegos, pequenas surpresas a iluminar a escuridão em que vivia.
O suave olor de rosas invadiu seu quarto. Lembrou-se de Jucélia e sorriu.
As vozes de quem estava na calçada da Andrômeda somaram-se ao coaxar dos batráquios acampados em torno de Kaká e funcionaram como acalanto a embalar seu sono.
Poucos minutos depois de deitar, roncava baixinho. Não era mais a menininha que aprontava com a irmã, nem a moça que fugiu com um rapaz bem-dotado, nem a jovem que abandonou as filhas, nem a mulher que não conseguiu ter sua vingança.
Mudara absurdamente, transformada, como o mundo. Aprendera muita coisa. Principalmente a ver. Tornara-se mais sábia? Duvidava, seriamente.
Era apenas mais uma velha peidorreira repondo as energias para enfrentar os desafios de um novo amanhã. Até que o fim chegasse, era tudo apenas um outro começo.

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