XXIII · erpmes, opmet o moc odnacnirb

25 nov

Gelson Utinga abriu os olhos estranhando o silêncio.
As férias garantiam a possibilidade de varar madrugadas durante a leitura de um romance policial instigante ou a biografia presumida de uma personagem histórica sem que Marlise o censurasse duramente. Era um leitor incansável. Não resistia em derramar os olhos sobre fórmulas resumidas em rótulos de produtos alimentares, de limpeza ou higiene. Em casa alheia, não se furtava à leitura atenta de qualquer texto ao seu alcance ou à tentativa em decifrar cada termo a povoar as bulas dos medicamentos espalhados sobre os balcões e prateleiras dos banheiros, enquanto aliviava a bexiga. Sequer lhe escapavam quaisquer anotações em papeletes largados sobre escrivaninhas, mesas ou aparadores; indiscretamente curioso, absorvia, sem distinção ou preferência, alfarrábios antiquíssimos, anotações personalíssimas, dados sigilosos e listas de compras sem qualquer importância.
Consumira os recortes mórbidos de Lourival Pontes em porções, como capítulos de um folhetim sensacionalista, a cada rápida visita ao lar do síndico, na incumbência de garoto de recados; lia metade de um recorte ao trazer um documento assinado por sua mãe, a outra metade ao apanhar uma comunicação do velho colecionador à designer desempregada.
Afastou o livro que desabara sobre o peito: um romance presenteado pelos amigos rigelianos, trazido de um tempo futuro – Gelson antecipava-se às gerações vindouras e saboreava com prazer redobrado cada parágrafo da aventura redigida por J.K. Rowling.
Piscando muito, verificou o horário no relógio da estante.
Os pentelhos surgiram em sua vida acompanhados de comichões enervantes. Coçava, sem se dar conta, os pêlos da cabeça e da região pubiana antes de despertar completamente.
Caminhou até a sala, vestido apenas com a slip branca e uma camiseta amarela desbotada com o rosto gravado de Ernesto Guevara. Achou a mãe jogada no sofá de couro tingido de branco, ressonando de leve. Havia uma taça com vinho tinto pela metade sobre a mesa de centro. A garrafa, vazia, estava deitada sobre o tapete, também branco, desses que parecem um jardim de grama japonesa.
Não lembrava qual mão usara para coçar as partes baixas. Cheirou as duas. Elegeu a esquerda para cutucar a mãe.
– Não era hoje a entrevista, Marlise?
Sem abrir os olhos, a designer pareceu saborear os fluidos acumulados na cavidade bucal antes de articular a pergunta numa voz pastosa que alcançou Gelson no bonde em que também viajava um bafo etílico de respeito.
– Que horas… São?
Gelson pôs a mão em cuia à frente da própria boca e soprou. Fez uma careta: tampouco seu hálito era agradável. Marlise tentou ser incisiva.
– Que horas?
¬– Cinco pras dez.
Pulou do sofá como uma possessa sem emitir qualquer som. Gelson assustou-se com a atitude da mãe e quase perdeu o equilíbrio. Seguiu Marlise até a porta da suíte. A mãe dirigiu-se ao banheiro e Gelson continuou até a cozinha. Enquanto Marlise preparava-se para o compromisso ajustado a duras penas (ouvira injunções desagradáveis e engolira muitos sapos para ter o nome adicionado a uma lista lendária), Gelson prepararia o desjejum. Voltando a coçar os pentelhos, demorou alguns segundos para decidir por onde começar.
Não queria crer, mas a voz esganiçada de Renée Druon reverberou pelas paredes do edifício; reconhecia o timbre do travesti, mas não conseguia entender as palavras, como se fosse um lamento fantasmagórico, uma memória embaçada, um sussurro malfazejo. Balançou a cabeça para espantar aquela assombração auditiva e iniciou um ritual infrequente, porém não raro.
Marlise penetrou a cozinha no exato momento em que o café, os pães e os ovos estavam prontos. Havia queijo prato, bolacha, manteiga e leite, além de geleia de morango e requeijão fundido. Beijou o filho na testa e sentou-se à mesa, deixando uma pesada pasta portifólio de couro preto sobre a cadeira do lado. Depois de engolir o farnel com um afã que fez Gelson acreditar que não faria diferença se tivesse preparado tudo com papel, cola e tinta, Marlise agarrou o portifólio e levantou-se, esbaforida.
– Deixa tudo aí que eu lavo depois, tá bom?
Mais um beijo na testa, desta vez sabendo a ovo e café. Marlise saiu pela porta da cozinha, deixando Gelson ainda mastigando um pedaço de bolacha de água e sal coberta com Polenghinho, grunhindo algo em resposta, sem esperanças de que a mãe o ouvisse.
O ovo não estava nada mal. Terminou o café, guardou na geladeira tudo o que precisava de refrigeração, limpou a mesa sem deixar uma migalha de pão ou bolacha, um pingo sequer de café ou leite, lavou toda a louça e voltou para o quarto, caminhando lentamente. O relógio marcava 10:17h. Tinha ainda treze minutos até que Klpytdy e Tajkdy chegassem para levá-lo. Aquele era o dia.
Foi até seu banheiro, tirou as poucas peças de roupa que vestia, enfiou-se sob o chuveiro e abriu a torneira. O jato de água gelada atingiu-o rudemente, apagando qualquer sinal de torpor completa e imediatamente. Não levou mais que oito minutos para ter todas as partes do corpo cascavilhadas e ensaboadas. Mais água para tirar o excesso de espuma e estava terminado o banho.
Jogou a camiseta com o Che e a cueca no cesto de roupa suja e aprontou-se em pouquíssimo tempo. Sentou-se no sofá da sala e esperou. Lembrou de como custara a convencer seus amigos a fazer aquele passeio, a levá-lo numa viagem através do espaço e do tempo. Verificou o relógio de pulso, falando para si mesmo.
– Parece que hoje é o dia dos atrasos…
As duas criaturinhas pularam do telhado para a varanda e balançaram os braços no cumprimento habitual. O autor não pretende transformar esta narrativa numa coleção de notas de rodapé, portanto poupará você do trabalho de procurar pela tradução da conversa feita em rigeliano – toda frase na língua dos viajantes do tempo será, então, redigida em itálico.
Klpytdy sorriu daquele seu jeito sem jeito.
– Se vamos, não há razão para mais demora.
Gelson carregou nas tintas, com os parcos conhecimentos da língua, tentou deixar clara toda irritação.
– Não eu fui-me a atrasar, sim vocês!
Tajkdy, sempre de melhor humor, deixou escapar uma risada que soava como os arrulhos de um casal de periquitos, deixando Gelson na dúvida se ria da situação ou de sua prosódia.
Klpytdy cutucou o ouvido, educadamente, e ensaiou uma desculpa corroborada pelos movimentos circulares dos ombros de Tajkdy.
– Tivemos problemas no transconversor de empuxo, chegamos meia hora atrás e achamos nós já aqui. Durante tentativa de correção de momentum, escorregamos para mais adiante no tempo e nos deparamos com a nave ainda aqui.
Com um movimento rápido da mão, Gelson escancarou a porta da varanda e torceu o nariz num convite explícito para que os amigos entrassem na sala. Tajkdy sorriu abertamente e comentou, sarcástico.
– Pensei que não nos convidaria…
Fazendo um esforço para entender a situação apresentada pelo amigo de outra galáxia, Gelson imaginou o terraço do Tueris abarrotado de cópias da navezinha rigeliana e relaxou a pressão nos músculos da testa.
– Acertamos a hora na terceira tentativa.
Gelson olhou o relógio de pulso e rebateu.
– Acertaram quase de erro. Atraso um de quinze minutos! Conversa não fica a viagem que precisa!
Com uma inclinação leve da cabeça, Tajkdy parecia um cachorro que olha o dono sem entender seu desejo.
– Quer que saiamos agora para o passeio?
Gelson o olhou sério, arqueando as sobrancelhas.
– O que foi eu falei não isso?
Klpytdy explicitou sua censura ao piscou os olhos rapidamente.
– Não, com certeza!
Tente imaginar como os papos amigáveis entre o garoto terrestre e seus amigos rigelianos se desenrolavam. Entre frases arrevesadas, Gelson cortou um dobrado para convencer Klpytdy e Tajkdy a levá-lo num passeio para o futuro.
Subiram pelas escadas até o grande terraço no teto do edifício, onde estava a navezinha e Gelson chegou a duvidar que estivesse para fazer a coisa certa. A dúvida se ampliou com o comentário de Tajkdy.
– Vai sentir frio.
A nave tinha uns dois metros e meio de diâmetro, no máximo três. Entrar na pequena bólide extraterrestre não foi muito complicado. O problema ficou claro quando estava lá dentro: havia apenas duas cadeiras próprias para uso de nascidos em Rigel. Se Gelson tentasse sentar numa delas, ficaria com meia bunda para fora. Ocupar a área de navegação era impossível, já que os pilotos precisavam fazer suas cadeiras deslizarem pelo convés, de um instrumento a outro.
Restou-lhe o compartimento de carga.
– Sufocado eu morrer aqui vou! Caralho, vou perder o melhor da viagem!
A expressão séria de Klpytdy, enquanto fechava o compartimento em que teria que viajar em pose fetal, tranquilizou-o quanto ao seu bem-estar, mas não foi de grande ajuda quanto a ficar chateado por perder a vista.
– Não, com certeza! Jal-ysy ficará seguro!
Os motores da nave foram acionados. Gelson preparou-se para prender a respiração. Sentiu um leve estalar do ar e engoliu em seco para que a pressão nos ouvidos diminuísse. Um frio agudo percorreu seus ossos. Ouviu o clique da porta do compartimento e preparou-se para ouvir o pior. O rosto sorridente de Tajkdy surgiu na fresta da porta entreaberta.
– Problema algum surgiu?
O sorriso do extraterrestre ampliou-se.
– Sem problemas! Chegamos!
Gelson franziu a testa e esticou-se para fora do compartimento de carga, incrédulo. Olhou o relógio. Cinco segundos haviam se passado.
Enquanto ouvia os motores serem desligados, desceu da navezinha, esfregou os braços para esquentá-los e, com um nó na garganta, caminhou para as escadas que o levariam aos andares de baixo, pedindo aos amigos, com sua sintaxe atravessada, para que o esperassem ali.
A ideia original tinha sido apanhar o livrinho de anotações de Renée Druon. Era necessário garantir que o caderninho fosse parar no passado (como havia já estado!). Foi no caderninho que ele descobrira a informação que usaria para chantagear Renée e deixar a vida de Neneca continuar seu rumo desgovernado. Se era assim que a amiga queria, faria de tudo para impedir Renée de denunciar Manoel e Neneca. Não tinha escolha. Precisava apanhar o livrinho para que o contínuo espaço-temporal não fosse rompido!
Correu feito um desesperado, mas estancou de chofre, ao perceber o horário no relógio do andar. Estava adiantado! Muito adiantado! Não poderia pegar o livrinho naquela hora! Bem que estranhara haver tanta luz. Deveria ter desconfiado lá no terraço.
Parado no meio da escada, ouviu uma porta sendo aberta.
Espiou para o andar inferior e reconheceu o amigo. Mas também conseguiu saber que Oscar Delgado estava passando por algum apuro. Falou mais alto para poder ser ouvido sem dificuldades.
– Tudo bem, Oscar?
A expressão de Oscar era preocupante. Pensou em Klpytdy e Tajkdy na nave logo acima e pensou em seu atraso e no erro da hora da chegada – eles bem que mereciam tomar um chá de cadeira rigeliana. Abriu seu melhor sorriso. A frase de Oscar soou destituída de qualquer ânimo. Acabara de passar por um de seus blecautes.
– Tudo bem, Gelson?
Não economizou em cutucar a ferida do amigo.
– Há quanto tempo você não visita sua mãe?
Gelson desceu para encontrá-lo no patamar do terceiro andar e espantou-se que Oscar não o estava esperando, mas também descia. Talvez pensasse que estaria saindo também.
– Desculpa, não queria ter sido grosseiro. Mas você tá com uma cara horrível… E faz tempo que você não fala de sua mãe ou de seu irmão.
Alcançou o amigo e surpreendeu-se com a secura de Oscar.
– Perciso cumê alguma coisa. Geladêra tá senada.
Gelson agarrou seu braço esquerdo.
– Olha, eu posso preparar uns sanduíches lá em casa. Que acha?
Rapidamente, Oscar voltou-se para ele. Conseguira chamar sua atenção. Mas aí a porta do apartamento 32 foi aberta com estardalhaço.
Oscar e Gelson voltaram-se para Renée Druon, um sol num tom amarelo bastante desafinado. Os amigos voltaram a se olhar. Mas a voz de Renée saiu carregada de maldade.
– Como está Marlise, Gelsinho?
Gelson respirou fundo. O que ele queria? Esboçou um largo sorriso e respondeu da maneira mais agradável possível.
– Bem, obrigado.
O sarcasmo foi redirecionado a Oscar. Nunca ouvira Renée tão viperino.
– Ela não está em casa agora, está?
Hanna Arruda gritou no segundo andar.
– Sem correr, Davizinho, sem correr!
Quase chamou pelos amigos, queria saber como andavam os preparativos, mas havia mais a fazer naquele momento.
– Assim não vale, Biel!
Ouviu a voz de davizinho e largou o braço de Oscar. Respondeu ao travesti com vontade de enforcá-lo.
– Ela vai voltar às quatro… Acho.
Não viu o biquinho que Renée ensaiou para Oscar.
– Bastante tempo…
Gelson percebeu que o amigo surdo se preparava para descer e resolveu tranquilizá-lo com um sorriso e um sinal para que o seguisse até o 41. Não entendeu o que aconteceu. Oscar parecia decidido a ir embora, mas parou, olhando a porta do ex-apartamento de Felipe Dias. Deu meia-volta e subiu os degraus. Gelson ficou feliz. Desafiar Renée era um exercício interessante naquele momento.
Os dois chegaram à porta da cozinha do 41, ainda ouvindo o travesti descer as escadas sobre seus saltos agulha. Gelson destrancou a porta e deixou Oscar entrar. Indicou uma das cadeiras da mesa da cozinha e encaminhou-se para o banheiro. Precisava passar água no rosto.
Tomou um susto dos diabos ao ser jogado contra a parede do estar íntimo. O susto transformou-se em terror ao reconhecer o próprio rosto por trás do indicador sobre os lábios apertados num biquinho.
O seu eu atacante o liberou. Não sabia o que fazer. Ajeitou os óculos sobre o nariz e foi puxado para a sala de estar.
O outro Gelson abriu a porta de entrada e sussurrou.
– Klpytdy e Tajkdy são uns atrapalhados mesmo! Você precisa sair daqui agora. Eu cuido de Oscar. Você precisa voltar mais tarde!
Saiu do apartamento, com cara de bobo e a porta foi fechada atrás de si. Lembrou do comentário de Klpytdy e balançou a cabeça, não acreditando na sua falta de sorte. Arranjara um par de patetas para ajudá-lo num plano que parecera perfeito. Já tinha a informação que precisava para encostar Renée na parede, mas precisava ir até o futuro para pegar o caderninho que garantiria no passado que saberia da informação. E tudo estava começando bem mal.
A porta foi escancarada às suas costas, fazendo-o pular de susto. O outro Gelson o cutucou no ombro. Voltou-se irritado.
– O que é, agora?
A expressão divertida em seu próprio rosto, estampada naquele que não era ele (mas que o era, assim mesmo) o deixou mais irritado ainda.
– Calma! Fale baixo! Tire isso!
Olhou para a mão que seu eu futuro lhe estendia, apontando o seu relógio de pulso. Não atinou para o significado daquilo.
– No seu pulso ele é inútil.
Completou a frase, como se fosse a mesma pessoa (afinal, era mesmo).
– Vou deixar no terraço. Pra saber se aqueles malucos acertaram o horário!
Conseguiu refrear o impulso de agradecer à sua cópia. A porta havia sido fechada outra vez, de qualquer jeito. Sorriu, entre divertido e preocupado. Subiu as escadas com cuidado. A porta do apartamento de Merlin Mário Lemague havia sido aberta.
– Muito louco esse bagulho!
– Só!
Não era o vizinho, mas seus amigos da banda.
– Onde é mesmo?
– Ali, caralho! Tá vendo? Lixo tem cara de lixo em qualquer lugar, meu!
Alcançou o terraço, tirou o relógio do pulso e o deixou no parapeito do janelão. Tajkdy sorriu e balançou os braços, mas desistiu ao ver a expressão carrancuda de Gelson.
– O que aconteceu?
– Erro vocês hora antes!
O pequeno rigeliano voltou os olhos para o companheiro.
– Eu falei, Klpytdy, eu falei!
Gelson embarafustou-se no interior da nave e não esperou que abrissem o compartimento para enfiar-se nele.
– Embora daqui sairmos! E não vista Terra de longe verei! Chegar casa preciso hora saída.
Tinha a reunião com a garotada. O rosto de Tajkdy parecia constrangido enquanto fechava o compartimento.
– Vocês confusão muita antes fizeram!
O rigeliano não respondeu. A pressão no ouvido se repetiu, assim como o frio quase congelante, e o rosto surgiu logo depois. Gelson pulou de dentro do “porta-malas” da nave, desceu esbaforido e verificou o relógio que ficara no janelão. Agora estavam atrasados!
Voltaram ao passado, mas chegaram quase uma hora mais tarde. Correu feito um endemoniado, só faltava a turma ter-se dispersado sem que seu plano recebesse o aval de todos.
Estava para alcançar o segundo andar do edifício quando cruzou com Adriana Buendía Marquez, a mãe de Biel a quem chamava de tia. Sem diminuir o passo, a cumprimentou.
– Bom dia, Tia Adriana!
Nem percebeu que Adriana o seguia com os olhos cujas sobrancelhas se multiplicavam, na testa, em três vincos profundos.
Alcançou o segundo andar e de lá, pulando os degraus de quatro em quatro, chegou ao térreo. Renée Druon o deixou completamente sem graça, chegando da rua, vestido quase como homem. Dona Julieta havia abandonado seu posto para fazer alguma coisa em seu apartamento (Xixi?). O olhar do travesti estava carregado. E Gelson não sabia dizer do quê. Sua maldade no encontro com Oscar o deixara um tanto aparvalhado. O pior é que o encontro já acontecera para ele Gelson, mas não para Renée.
Não poderia esquecer que estava viajando no tempo, numa aventura amalucada, à mercê dos guias rigelianos atrapalhados que não conseguiam controlar a própria nave e ficavam jogando-o para frente e para trás, num labirinto de passados e futuros entrelaçados. Tinha que manter a cabeça no lugar sem perder a noção do que era agora, antes e depois.
Gelson resolveu reassumir o ar de desafio do encontro anterior (que só aconteceria algumas horas mais tarde) e não conseguiu evitar arregalar os olhos ao ver a expressão misteriosa do travesti transformar-se numa gargalhada quase histérica. Era preciso tomar cuidado com aquele homem. Ele parecia louco. Renée atravessou o hall e subiu as escadas sem voltar a cabeça pra encarar Gelson, que o encarava imóvel.
Já havia sentido os olhos do travesti pousarem pesadamente sobre si e acreditara que eram olhares de desejo, um desejo que o repugnava, mas que não o deixava preocupado.
Aquele olhar tinha sido algo bastante diferente: Renée Druon o olhara com olhos de assassino. E Gelson não estava preparado para isso.
Dona Julieta voltava em seus passinhos de pinguim. Sua voz cavernosa o atingiu profundamente, como o fio de um machado que chega à nervura que equilibrava o tronco, algo quebrou por dentro, como o estalo que antecede a queda de uma grande árvore. Gelson ouviu as palavras, com clareza, mas pareciam vir acompanhadas de um berro ancestral, um aviso, um alarme.
– É muito perigoso brincar com certas coisas, Gelsinho!
Completamente desnorteado, saiu do edifício.
Na calçada, uma mulher gorda com sotaque estranho o interpelou.
– Por fabor! Save onde fica o Tuerir Furtado?
Gelson a olhou com desconfiança e apontou para o letreiro acima da entrada do edifício em que morava. A mulher pestanejou, desconsertada, e agradeceu em puro castelhano.
– Muchas gracias!
Dobrou a esquina e tomou novo susto. Lá estava ele mesmo, à frente da garotada. Estancou e percebeu que seu outro eu gesticulava para que voltasse ao edifício. Franziu a testa. Pelo menos a reunião acontecera. Seriam os erros de Klpytdy e Tajkdy parte de um roteiro pré-programado que culminaria no livrinho de memórias de Renée Druon ter chegado a suas mãos na noite anterior?
Cruzou o hall de entrada e passou por dona Julieta, a moça gorda e Hélvio. O pai de Maleco, sempre simpático, o interpelou.
– Nossa, Gelson… Até parece que o mundo… Acabou…
Subiu as escadas sem responder, lamentando parecer mal educado. Chegou ao terraço e não se deu ao trabalho de fazer cara feia para os rigelianos. Apenas comentou, ausente.
– Errada hora… Uma mais vez…
Entrou na nave e saiu cinco segundos depois, esfregando os braços para esquentar-se. Estava escuro e havia outra nave lá, preparando-se para decolar. O espetáculo não passou de um grande clarão fugaz; num momento, lá estava ela, brilhando e zumbindo levemente, no instante seguinte, apenas a noite com poucas estrelas, uma chuva de gotas grossas a ensopar as roupas. Gelson e seus amigos estavam cruzando com cópias suas em momentos diferentes. Quase sorriu. Ao tentar manter o equilíbrio espaço-temporal, estavam causando a maior confusão na linha cronológica.
Desceu as escadas do terraço até o quarto andar e já não se surpreendeu com outro de seus eus futuros segurando o livrinho de capa de couro vinho.
– Você precisa voltar pra noite de anteontem e deixar isso com nossa versão passada.
Já nem ousava questionar a ordem. Estava perdendo o rumo da própria vida, a noção de tempo e de si mesmo.
Olhou nos olhos através das lentes dos óculos e percebeu que a testa estava perolada por gotas grossas de chuva ou de suor. Havia algo diferente naquela voz, a sua voz. Aquela versão parecia ter envelhecido uns duzentos anos, porém as roupas eram as mesmas que ele estava usando. Não queria pensar em que outras confusões se envolveria antes do dia acabar. Simplesmente apanhou o caderninho e voltou para a nave. Parou em frente a Tajkdy e falou sério, estruturando a frase da melhor maneira possível.
– Confusão vocês fizeram muita! Agora ajudar resolver vão! Ontem antes preciso ir, noite! Agora!
Quinze segundos depois Gelson estava de volta à noite do dia 18 de fevereiro de 1982, tiritando de frio, embora a temperatura estivesse acima dos 22. Foi até o apartamento, usou sua chave para abrir a porta, entrou em casa e deixou o caderninho sobre o balcão do banheiro. Estava para sair (conseguia ouvir a si mesmo lendo em voz alta no quarto) quando se lembrou que descobrira o caderninho com um bilhete.
De uma prateleira da biblioteca, apanhou uma folha de sulfite e um dos lápis de Marlise e anotou.
“Leia com certa urgência. Klpytdy e Tajkdy virão hoje. Convença-os a levá-lo ao futuro para roubar este mesmo caderno das mãos de Renée, depois de amanhã, 11 da manhã. E mantenha a calma. Tudo vai dar certo”.
Estava satisfeito. Tudo acontecera sem grandes atropelos. O livro estava entregue. Já poderia voltar para casa. Saiu do apartamento sem que ninguém o tivesse visto. Riu por lembrar que ele era o único em casa naquela noite; Marlise havia saído com umas amigas. A bebedeira solitária aconteceria uma noite depois.
Voltou ao terraço, cansado, mas feliz.
– Para casa!
A viagem foi rápida, como sempre e Gelson resolveu que os amigos mereciam um descanso, como ele. E um prêmio.
– Alguma coisa vamos comer.
Tajkdy chegou à beirada do terraço, olhando para a entrada do edifício quatro andares abaixo, atraído pelo aroma de massa, queijo, tomate e manjericão.
Havia um pacote com três pizzas embaladas aparentemente abandonadas à entrada do edifício. Usando de sua rapidez absurda, o rigeliano foi até a entrada e voltou, carregando as pizzas que haviam sido encomendadas por Merlin Lemague e seus amigos.
A entrega não havia sido abandonada, já sabemos. O coitado do entregador precisava urgentemente urinar. Deixou a encomenda sobre os degraus e afastou-se uns dois metros para regar a grama do jardim lateral logo abaixo da varanda do síndico do edifício. A luz da entrada tinha queimado há quatro noites. O rigeliano não viu o entregador, nem o entregador, o rigeliano.
Sem pizzas a entregar, voltou à pizzaria do João e falou que havia sido roubado. A conversa telefônica entre o dono da pizzaria e Merlin Lemague não deixou ninguém feliz. E resultou na chegada de policiais relatada num capítulo adiante.
Os três viajantes do tempo foram até o quarto de Gelson e fizeram uma festa barulhenta, saboreando os pedaços de pizza e a vitória pelo passeio bem-sucedido.
A pancada na porta funcionou como botão de desliga; os três calaram-se de imediato. O solo de saxofone de Anthony Helliwell preencheu o silêncio de Marlise, de Gelson e seus amigos, por alguns segundos. O adolescente cansado tinha esperança de que a mãe desisitisse, mas a maçaneta foi forçada. A pancada com a mão espalmada foi suficiente para deixar claro que Marlise não o deixaria em paz. A frase gritada soou redundante.
– Gelson! Abra essa porta!
Gelson orientou os amigos para saírem pela janela que dava para a varanda e esperar por ele. Apanhou o livro de Harry Potter, diminuiu o volume do som e abriu a porta, numa fresta. Tentou imprimir uma expressão de surpresa ao rosto afogueado.
– Mais alguma coisa, manhê?
Marlise estava séria.
– Quem está com você aí?
Gelson escancarou a porta e fez um movimento amplo com a mão que carregava o livro e sorrindo, maroto.
– Ficou louca? Eu tô sozinho. Pode entrar. A casa é sua.
O ohar de desconfiança da mãe fez Gelson arquear as sobrancelhas. Marlise inclinou-se para aproximar a mão das pizzas e Gelson sentiu novo arrepio.
– Quem trouxe isso? Você comeu tudo isso sozinho?
Gelson ergueu as sobrancelhas e levantou as mãos, como quem se entrega às garras da justiça, e sorriu.
– Tá bom. Você me pegou!
– O que você anda aprontando, Gelson?
Gelson jogou as cartas na mesa.
– É que eu tô recebendo uns amigos de Rigel. Eles trouxeram as pizzas.
Marlise fez um muxoxo e inspecionou o quarto, qual perdigueiro.
– Muito engraçado! Esse livro é de ficção-científica?
Gelson tentou esconder a obra. Errara ao escolher aquele livro que só seria publicado muitos anos no futuro. Engoliu em seco e deixou que um fio de voz escapasse da garganta.
– Sobre uma escola de bruxos…
– Então mudamos de gênero? Como você consegue ler com esse barulho todo? Eu ficaria maluca! A leitura é como um ritual religioso, Gelson. Exige concentração.
Olhando a mãe sobre as lentes, Gelson disparou, querendo mudar o foco da conversa.
– Você sempre fica nervosa assim quando está menstruada.
– E você não ajuda nada com o barulho que tá fazendo!
Com um suspiro inaudível, Gelson tranquilizou-se quando a mãe lhe deu as costas, decidida a abandonar o quarto, porém parou de repente e voltou à carga.
– Não minta pra mim, tá bom? Você tá envolvido com drogas?
Gelson foi rápido.
– Como o Abba e Barry Manilow? Nem de brincadeira!
Marlise sorriu.
– Vai à merda, Gelson. E dê um jeito nesse quarto que tá uma bagunça insuportável. Vou receber um editor importante, mais à noite, e não quero ver isso assim. E não tranque essa porta!
A indignação bailou na expressão do garoto.
– O apartamento é enorme! Pra que você tem que mostrar o meu quarto prum estranho?
Marlise afastou-se, fuzilando-o com o olhar.
Gelson relaxou. Procurou pelos pequenos amigos na varanda, mas não estavam lá. Marlise não deveria encontrar os visitantes de Hajykapadtydg! Havia um fedor de carne podre vindo da sala.
Não demorou nem um segundo para que os rigelianos saíssem para a varanda. Gelson trancou o quarto e saiu pela janela para juntar-se aos amigos, enquanto Marlise procurava por seu sanduíche desaparecido.
Os telefones do edifício dispararam a tocar. E o alarme em seu cérebro disparou junto.
Tinha pretendido levar os amigos até o terraço para se despedir. “Estúpido!”, pensou. Havia ainda muito a fazer. E acabara de perder uma oportunidade de ouro. Não fora ao encontro com a meninada! Não conversara com Oscar. Nem tirara o livro do apartamento de Renée. O contínuo espaço-temporal estava aberto, incompleto. Outra de suas versões cruzou correndo, vindo do terraço que tantas vezes, naquele dia, servira de aeroporto de nave rigeliana. Antes de disparar escada abaixo, seu outro eu apontou o terraço, deixando claro que deveria sair com seus amigos, partir de volta ao passado.
Estava estupefato.
Os telefones foram calando, um a um. Parou em frente à nave que rebrilhava sob os pingos da chuva. Klpytdy e Tajkdy subiram na nave. O rigeliano mais simpático o esperou com a plataforma abaixada.
Estava em dúvida se levava aquela loucura adiante. Se tivesse olhado para a direita, para os lados da Tenente Fustado, talvez pudesse perceber seu amigo Oscar Delgado cambaleando perigosamente à beira do telhado acima do apartamento de Renée Druon, e aí, sim, desisitiria de tudo para tentar evitar que ele se jogasse lá embaixo.
Mas não olhou. Ao contrário, virou-se à esquerda.
Sob a chuva que engrossava, verificou o relógio que esquecera sob o janelão e apurou os ouvidos, parecia-lhe ter escutado um baque surdo. Sem saber o que era o barulho, explicou sua necessidade da melhor maneira aos amigos de Rigel, subiu na nave e partiu com Klpytdy e Tajkdy de volta ao passado.
A nave pousou ao lado da outra. Tajkdy estava excitado.
– Está vendo, seu burro, chegamos num momento em que já estávamos!
Gelson desceu da nave.
– Esperem aqui! Demoro!
Seu relógio não estava lá! Ficou preocupado. Daí resolveu olhar as horas no relógio do andar do edifício. E sorriu ao ouvir as vozes no andar de baixo. Tinha razão. Esse era o momento de seu primeiro encontro consigo mesmo.
Foi direto para o 41, ouvindo seu eu passado, Oscar e Renée, discutindo no terceiro andar. Entrou em casa com muito cuidado e esperou que os dois entrassem pela porta da cozinha. Já sabia que sentiria vontade de passar água no rosto. Era a hora apropriada para mandá-lo de volta.
Agarrou-o pelo braço e tapou-lhe a boca; os olhos pareciam querer pular das órbitas, como o cachorro de Renée. Não deveria, mas estava começando a se divertir com aquilo. Sinalizou para que ele ficasse calado, com um biquinho nos lábios e o indicador sobre ele. Soltou a si mesmo. Havia algo naquele toque que o incomodava, como se ambos não fossem sólidos o bastante. Viu-se ajeitando os óculos sobre o nariz e puxou-se para a sala. Abriu a porta de entrada e sussurrou.
– Klpytdy e Tajkdy são uns atrapalhados mesmo! Você precisa sair daqui agora. Eu cuido de Oscar. Você precisa voltar mais tarde!
Fechou a porta sabendo que tudo daria certo. Já vivera aquilo naquele dia. Daí lembrou-se do relógio. Escancarou a porta de sopetão, assustando ele mesmo, de costas, dando um pulinho ridículo. Cutucou-se no ombro. E lembrou-se de como isso o irritara.
– O que é, agora?
Não pôde deixar de rir.
– Calma! Fale baixo! Tire isso!
Apontou o relógio no pulso de seu outro eu.
– No seu pulso ele é inútil.
Sentiu-se orgulhoso de si quando sua frase foi completada como se o outro pudesse ler sua mente.
– Vou deixar no terraço. Pra saber se aqueles malucos acertaram o horário!
Fechou a porta e foi, sorridente, até a cozinha preparar uns sanduíches para Oscar Delgado que o esperava esfaimado, ansioso por comida. Gelson foi rápido na preparação de belos sanduíches de presunto, queijo e orégano para o amigo. Não aguentava mais comer nada e o cheiro do orégano o lembrava das pizzas que Tajkdy roubara de algum vizinho.
– Bom, muito bom!
Enquanto comia, Oscar pontuava o prazer por saborear aqueles sanduíches fartos, desfiava o rosário de suas ausências e reafirmava o medo que sentia em perder-se numa dimensão qualquer, sem ter como voltar para esta realidade ou a sua própria.
Com uma piscada, Gelson desviou os olhos. Parecia não ter prestado atenção aos medos de Oscar; sentia uma pontinha de inveja. Raciocinava que o amigo podia viajar entre mundos, através de espelhos, sem precisar da ajuda de equipamento passível de falhas, como o de seus amalucados amigos extreaterrestres.
A campainha da cozinha tocou. Gelson atendeu a porta e deu de cara com Adriana Marquez. A vizinha parecia não saber o que dizer. Um cheiro delicioso de frango tinha tomado a região do óculo central do Tueris. Gelson sorriu.
– Marlise não está, tia Adriana. Foi resolver umas coisas de trabalho. Quer alguma coisa?
Soou como uma viciada em plena síndrome de abstinência.
– Coca-Cola…
– Quer entrar?
Não conseguiu entender a resposta de Adriana, mas escancarou a porta, assim mesmo. Oscar a cumprimentou com um movimento leve da cabeça.
Rápido como quem rouba, Gelson apanhou uma garrafa de Coca da geladeira e a ofereceu a Adriana. A mãe de Biel despediu-se de Oscar (achara-o grosseiro com a boca cheia de um bocado do sanduíche que não largara) com um aceno de mão. Antes de Gelson fechar a porta, porém, deu meia-volta.
– Diga a Marlise que eu devolvo mais tarde, tá bom?
– Tá bom.
Havia alguma coisa no ar. Gelson acreditou que tinha relação com seu encontro nas escadas. Para evitar que qualquer conversa pudesse resvalar para aquele encontro, resolveu falar do segredo que todos conheciam.
– O que a senhora acha do caso do Manoel e da Neneca?
Adriana fez uma careta.
– Gelsinho, isso não é coisa pra se comentar…
A frase o deixou irritado. Controlou sua raiva e usou de todo o seu charme para quebrar as resistências da mulher que chamava de tia.
– Com uma criança? Tia Adriana, eu tenho dezesseis completados faz duas semanas. Por que não posso comentar sobre um problema de uma amiga com uma mulher que considero uma segunda mãe?
Percebeu que Adriana enrubescia e vibrou com sua vitória.
– O que a senhora faria se estivesse no lugar de Samanta?
As mudanças na expressão de Adriana Marquez eram loquazes. A mulher à sua frente estava numa conferência com várias versões de si mesma, debatendo cada argumento. A frase surpreendeu Gelson de uma maneira que ele não admitiria depois.
– Arranjaria um modo de manter Renée calado.
Sorriu, sincero.
– Obrigado, Tia Adriana.
Fechou a porta, pensando no que acabara de ouvir. Tinha razão ao seguir com o plano do roubo do caderninho. Esqueceu-se por um tempo daquela questão. Lembrou-se dos amigos de Hajykapadtydg.
– Oscar, preciso dar uma saidinha e volto já, tá bom?
Oscar assentiu com a cabeça, veemente. Gelson saiu do apartamento e cruzou o hall do andar. Subiu os cinco degraus até o terraço e bateu com o nó dos dedos sobre a estrutura do metal semi-opaco usado na construção da nave rigeliana. A plataforma foi baixada e Tajkdy saiu acompanhado de um fedor insuportável de carniça. Gelson protegeu o nariz lacrimejando. O que acontecera com os rigelianos?
– Que isso aconteceu?
O rosto constrangido do amigo era cômico.
– Algo que comemos não nos fez bem.
Então os rigelianos também enfrentavam problemas de ordem intestinal! Gelson foi sucinto e Tajkdy balançou os ombros para deixar claro que havia entendido.
– Demoro assaz!
Gelson voltou ao apartamento e Oscar estava arrotando. Não gostava de ver Oscar preocupado – sabia de suas tendências suicidas e não queria perder o amigo, um dos poucos com quem podia conversar sobre seus amigos de Rigel (mas não pretendia apresentá-los, de maneira alguma! Talvez por ciúme, mas, mais provavelmente, por saber que aquele trio não aprontaria coisas boas pelos confins do universo).
Oscar apontou a própria barriga e sorriu.
– Dar um tempo pra coisa abaixar, né?!
Ato reflexo, Gelson tentou ver as horas em seu relógio de pulso, mas estava sem ele. Procurou pelo relógio da cozinha e estranhou que não estivesse na parede. A conversa descambou para o fantasma de Felipe e Oscar pareceu mais animado ainda. O tempo correu como é comum quando estamos nos divertindo. A pressão do ar mudou. E a conversa mudou para os visitantes de Rigel.
– É ôsh quelesh vêm? Vofê divia ifcrevê eshash ishtóra…
Gelson coçou a cabeça e esboçou um sorriso desbotado. Pretendia virar escritor, sim, mas naquele momento, havia coisas mais práticas a serem feitas. Oscar parecia ser um poço sem fundo; tinha comido oito sanduíches e não dava sinal de estar saciado. Tentou imprimir verdade à fala falsa. Deixara os rigelianos esperando por ele.
– Devem chegar daqui à uma hora, mais ou menos. E costumam ser pontuais, os safados.
Foi falar em pontualidade e Marlise entrou pela porta da cozinha, carregada de pacotes e uma expressão irritada. Gelson tinha razão quanto aos atrasos do dia. Marlise chegara atrasada na reunião marcada e gastara a oportunidade rara. Mas tivera outros encontros depois. Pelo menos um a deixou feliz: encontrara com Josué Prado, editor de uma série de revistas populares e uma paquera antiga. Tomaram café e marcaram um jantar. Outro, a deixara bastante irritada: Renée Druon fizera insinuações preocupantes. Seu olhar caiu sobre Oscar como um cutelo.
– Vocês estão aí há muito tempo?
A lembrança dos comentários maldosos de Renée fez Gelson piscar os olhos, incrédulo. Entendeu que a mãe encontrara-se com o travesti e aquele desgraçado a havia envenenado. O que não conseguia aceitar era sua mãe dar ouvidos às futricas de Renée. Mentiu, propositalmente.
– Oscar chegou quase inda agora.
Marlise depositou as sacolas que carregava sobre o tampo do balcão e encostou-se à borda, cruzando os braços logo abaixo das tetas não muito fartas, porém ainda firmes.
– Essa amizade de vocês é muito estranha, sabiam?
Gelson ficou estupefato. Nunca imaginou que Marlise fosse dessas pessoas que avaliam as relações alheias pelas fofocas que outros fazem. O golpe fatal saiu num tom sibilante.
– Você tem mais de vinte e cinco, Oscar. Gelson tem só dezesseis. As pessoas ficam falando…
Gelson engoliu em seco.
– Seria bom que você saísse agora e não voltasse, Oscar.
Oscar levantou-se, sem olhar para Gelson. Marlise trancou a porta depois da passagem do surdo capaz de viajar através de espelhos e percebeu que o filho a olhava com desprezo.
– Você tem que entender…
Gelson não deu tempo para que a frase fosse continuada. Foi até o quarto, bufando de raiva. Jamais pensara poder sentir tanta raiva da própria mãe. Estava indignado. Trancou-se no quarto, pulou a janela para a varanda e saiu para o terraço. Tajkdy o interpelou, sorridente.
– Esperamos muito. Está gostando da aventura?
Gelson enfiou-se pela plataforma. Klpytdy devia ter peidado outra vez, o mau cheiro empestiava a cabine da nave. Suas palavras soaram amargas. Os olhos lacrimejando (mais pela indignação que pela fedentina).
– Adorando! Duas viagens mais!
Klpytdy estava pálido, mas sua frase soou clara e calma.
– Para onde agora?
Gelson falou em português.
– Onze e meia. Em ponto. Por favor!
A tradução de Tajkdy fez Klpytdy ficar sério.
– Ele falou às onze horas e trinta minutos locais.
– Eu entendi! Só não entendi porquê estamos fazendo isso.
– Nós erramos no começo, ele tem alguma razão…
Poucos segundos, um frio cortante. A porta do compartimento foi aberta e Gelson pulou para fora da nave. O cair da tarde fora substituído pelo sol quase a pino.
Voltou-se para os amigos e não tentou falar na língua rigeliana.
– Dêem uma volta por aí. Tem muitas cópias de todos nós viajando por este dia. Minha cabeça está rodando e é melhor vocês não estarem aqui por um tempo. Voltem em uma hora. E não se atrasem!
Sem se preocupar em quem o via, desceu as escadas até a rua. Dobrou a esquina e viu as gêmeas, Biel, Maleco, Davizinho e Neneca à espera, em frente ao terreno baldio. Atravessou a rua sem perceber que quase cruzara com Hanna Arruda aos prantos. Caminhou até os amigos, resoluto. Neneca, amedrontada, parecia querer enfiar a cabeça em algum buraco no chão, enfiando-a nos ombros, os olhos fixos nos pés de Maleco. Amanda estava ao lado de Neneca, uma mão sobre seu ombro esquerdo – parecia o único apoio a impedir que a filha de Samanta desmontasse. Biel tentava antever os mínimos peitos de Anastácia através da blusa de algodão. Anastácia, com sua expressão de eterno enfado, chutava alguma coisa invisível suspensa no ar e não se incomodava aos olhares lascivos de Biel. Davizinho parecia ausente, certamente envolvido em seus cálculos amalucados. Maleco fez um biquinho, sério, e disparou sem deixá-lo respirar.
– Não é dar muito na cara essa reunião aqui?
Nem o olhou, mas a resposta lhe foi endereçada.
– Agora se pode ficar nas ruas em grupo sem medo de ser preso por subversão. O AI5 já não dá medo em ninguém.
Maleco fez uma careta.
– Sério que você acredita nisso?
Ignorando o negrinho simpático que queria discutir sua autoridade, apontou o dedo para Neneca.
– Tem certeza de que é melhor que tudo fique como está?
Neneca ameaçou chorar, os olhos marejando.
– Neneca! Sem choro!
Amanda encarou Gelson com faíscas nos olhos. Ele a ignorou. Não estava com muita paciência para aquele drama todo. Biel desviou o olhar para oeste e Gelson resolveu que seria hora de aliviar a pressão naquela guerra silenciosa entre ele e Neneca. O velho inventor caminhava devagar em sua direção, carregando uma sacola plástica cheia de pequenos pacotes. Uma menina loirinha entrou na tinturaria e o velho Manuel acenou com a sacola, ainda uns trinta metros adiante.
– Nosso experimento!
Manuel Ktir aproximou-se e todos ficaram quietos. Biel adiantou-se, sorrindo pouco à vontade.
– Subo daqui uns dez minutos, seu Manuel!
O velho sorriu e afagou os cabelos lisos do menino de sangue de monarcas.
– Tá bom. Enquanto isso, vou preparando tudo.
O velho deu as costas e a meninada voltou a falar sem se preocupar se o velho realmente dobrara a esquina. Gelson vomitou as palavras com uma segurança que o deixou impressionado.
– Temos um problema pra resolver. Eu tenho como fazer isso. E cada um de vocês tem um papel importante no plano. Mas preciso saber se você realmente quer que as coisas continuem como estão, Neneca!
Amanda apertou o ombro da amiga. Neneca, um pouco mais alta, encarou Gelson e os dois ficaram parados, se encarando. Gelson sentiu um nó na garganta, uma pressão no peito.
Nenhum dos garotos pareceu perceber a passagem de Adriana Marquez.
Uma lufada gelada de vento anunciou uma chuva futura e Gelson sentiu os pêlos de seu pescoço eriçarem-se. O arrepio subiu até a nuca e se espalhou pelos ombros, chegando aos braços. Sentiu que uma sombra estendia a mão sobre seu coração. Estava com ódio, um tipo de ódio que se espalha pelas fibras do ser como CFC se espalhava pela tubulação de uma geladeira, congelando tudo.
Pouco depois de Adriana, foi a vez de Renée Druon atravessar a calçada oposta a da tinturaria. Os participantes da reunião a céu aberto o encararam, sérios. Gelson estava com uma expressão malévola, o espírito abatido pelo ressentimento em relação a Marlise e a lembrança do olhar assassino de Renée (que só aconteceria, na verdade, alguns segundos depois!).
Rápido, Gelson voltou-se para os amigos e os inquiriu com firmeza. Podia voltar tudo para trás, não apanhar o caderninho e não saber como impedir Renée, deixá-lo denunciar o safado do padeiro e deixar Samanta perder a guarda dos filhos.
– Vou cometer um crime! Ele é antipático, mas isso não o faz a vítima perfeita de roubo. Pense bem, Neneca. A coisa pode acabar aqui e agora. O que você quer?
Todas as atenções se voltaram para Neneca. Gelson, no entanto, não desgrudou os olhos da esquina do Tueris. De repente, lá estava ele, uma cópia de si mesmo com cara de bobo.
Fez-lhe sinais para voltar ao edifício.
Tomou um grande susto quando ouviu Kaká falar ao seu ouvido.
– Num sei como cê faz isso, mas é foda!
Gelson virou-se para o irmão de Neneca que se aproximara sem que tivesse percebido. Os lagartos vinham se arrastando pela calçada e já havia muitas rãs coachando baixinho ao pé do muro do terreno baldio. Os olhos de Kaká ainda estavam grudados na esquina. Tentou reassumir o controle, deixando de fitar um sapinho vermelho de bochechas elásticas e coachar de barítono.
– Do que você tá falando, Kaká?
O sorriso do menino de 12 anos tinha uma circunspecção de gente madura.
– Já vi muita coisa nesse prédio, Gelson. E sei guardar segredo de quase tudo o que vejo. O seu, por exemplo.
Gelson estava precisando redirecionar o ódio que o comia por dentro. Kaká estava se apresentando como um candidato sério a alvo. Kaká aproximou-se e sussurrou.
– Seu segredo e dos anõezinhos tá seguro.
Era curioso Kaká saber da existência de Klpytdy e Tajkdy e não relacioná-los à sua capacidade de estar em dois lugares ao mesmo tempo. Afinal, o menino dos anfíbios não era tão maduro assim. Não mudou sua expressão e resolveu ignorar o garotinho vestido apenas com uma bermuda que, antes de virar sua possessão, já fora lavada mais frequentemente.
– Não tenho todo o tempo do mundo!
Mentia, mas não sabia como desviar o assunto perigoso que Kaká tinha trazido à baila. Neneca voltou a chorar. Afinal, a decisão não era fácil, todos sabiam disso. Numa reunião anterior, tinham discutido todas as saídas possíveis. Apenas dois dias atrás, Gelson tinha surgido com a sugestão que agora precisava ser aprovada ou descartada de vez.
– Neneca…
O grito o deixou tenso, mas nada surpreso. Neneca explodiu em fúria, as lágrimas como riachos, cuspindo a cada palavra, cada respiração.
– Eu quero que esse filho da puta morra!
E Gelson não sabia se ela falava de Renée ou de Manoel.
– Eu quero que ele morra!
Amanda abraçou Neneca, sussurrando alguma coisa que a tranquilizou. Anastácia fez uma careta e Biel sorriu, nervoso. Davizinho enfiou um dos dedos na boca e parecia que pretendia operar uma falangectomia sem anestésicos. Detestava sapos. Kaká olhava para a cena, quieto, calado. Gelson pensou, “como uma tumba”. O terreno baldio à sua frente ganhou ares de cemitério, tal a profusão de lagartos e batráquios. As coisas com Kaká estavam piorando a olhos vistos. Se o sol não estivesse a pino, quantas mais dessas criaturas se aproximariam, sem cerimônia?
– Hoje, a partir das seis, vocês devem fazer de tudo pra que ninguém saia dos apartamentos!
Maleco, que permecera com as mãos nos bolsos da calça, ergueu o braço esquerdo e coçou a orelha.
– E como vamos impedir que o velho Manuel saia?
Foi a vez de Biel.
– Ele vai jantar com a gente.
– E Merlin e a banda torta dele? E Jucélia? E todos os outros moradores que não tem filhos?
O olhar de Gelson deve ter tocado um nervo exposto.
– Eu já pensei num álibi perfeito, Ismael.
Maleco o olhou com a testa franzida.
– Álibi? Você vai roubar um caderno, Gelson, não vai cometer assassinato!
Sem prestar atenção ao comentário de Maleco, Gelson apontou para Biel e Davizinho e foi enumerando com os dedos.
– Não esqueçam de entregar a lista de telefones pro Juca, tá bom? Ele vai ligar pra Jucélia, pro síndico, pro Merlin oferecendo assinaturas de revistas que ele vende na venda dele. Ele tem cinco linhas de telefone e os funcionários vão ajudar. O Oscar ficou de ligar pra Dona Julieta, Valéria e Romildo, oferecendo entradas pro show.
Biel caiu na gargalhada.
– Hahahaha! Fico imaginando a velha Julieta no La Valeta!
Todos riram, até mesmo Neneca. Aproveitando que o clima tinha ficado mais leve, Gelson arqueou as sobrancelhas para ela, perguntando-a em silêncio. Neneca ficou séria e respondeu com uma só palavra.
– Faça.
Gelson voltou-se para todos.
– Então estamos combinados! Conto com cada um de vocês! Não se preocupem com os outros moradores.
A garotada começou a se dispersar. Kaká seguiu Gelson até o Tueris. Os dois andaram num passo mais acelerado, afastando-se do grupo, capitaneando aquela procissão de sapos e lagartos multicoloridos.
– Num sei por que cê guarda segredo disso.
A pergunta não tinha soado com sarcasmo. Gelson olhou para o irmão da amante do padeiro. Kaká continuou.
– Olha, o Biel mija azul, o Maleco fala umas duzentas línguas, é só tocar o braço de alguém que a Amanda revê o passado e a Anastácia prevê o futuro. Eu num consigo me livrar desses bichos. E ninguém no Tueris é normal de verdade. Você tá lá em cima com o Oscar agora. Por que esconder que cê pode se multiplicar?
Entraram no átrio do jardim central do edifício e Gelson deixzou claro que preferia subir só.
– A gente conversa sobre isso outro dia, Kaká.
Subiu, sentindo os olhos do garoto grudados em suas costas. Só uma coisa o incomodava, naquele momento: muita gente envolvida.
Antes de dar a volta no primeiro patamar de escadas, Gelson fez uma piadinha, mas não riu dela.
– Você precisa fazer mais pipas.
Alcançou o quarto andar e lembrou da conversa com Oscar, talvez a última. Sentiu-se tentado a mudar toda a história. Tinha meios para isso. Deveria?
Klpytdy estava com uma coloração azulada e um mau humor dos diabos. Tajkdy, costumeiramente mais simpático, recebeu-o com um sorriso.
– Podemos ir agora?
– Não! Ainda uma viagem. A última.
O pequeno rigeliano assentiu, um tanto desolado. Gelson entrou na nave que ainda rescindia a carne podre, deu as coordenadas e enfiou-se no compartimento de carga, pensando no destino e como os registros históricos e lendas e mitos descreviam centenas de milhares de homens tentando modificá-lo.
Tajkdy fechou a porta do compartimento e os motores zuniram. O frio percorreu seu corpo tão rápido quanto o pensamento de que fazia parte de uma tragédia, mais uma peça num jogo com todos os movimentos gravados num livro à frente de uma divindade tirânica ou um personagem basbaque incapaz de fugir de sua própria sina em controlar o começo e o fim de todas as coisas.
Gelson estava tonto.

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