XXV · joguinho de múltipla escolha

30 nov

Na última página de seu “Postille a ‘Il Nome Della Rosa’”, de 1984, Umberto Eco afirmava que ninguém havia escrito “[…] um livro no qual o assassino é o leitor”.
Assumi o papel de criador dos personagens desta obra tanto quanto de sua existência, meu leitor. Transbordando de parvoíce, acredito ter criado um multiverso de realidades em que você, leitora, não passa de mais um personagem.
E pretendo preencher a lacuna literária preconizada pelo grupo francês Oulipo e do criador de Adso de Melk, dividindo a culpa de um homicídio com você!
Mas há escolhas, não duvide!
Você tem mais uma chance de provar que estou equivocado. Com sua própria vontade, você pode ratificar o total controle da vida que lhe cabe. Largue este texto já; não siga adiante!
Volte um pouco os ponteiros do relógio e deixe Renée ficar vivo em sua varanda esperando pela visita de um vizinho.
Pare a leitura aqui e ganhe a chance de imaginar os finais felizes possíveis de todas as histórias aqui narradas, inclusive a de Renée e seu cão antipático encolhido sobre o tapete do banheiro. Salpique umas tantas gotas de um aroma romântico e imagine um caso tórrido entre o travesti e seu vizinho bancário.
Se um romance não parece apetitoso, seja cruel então, reafirme sua vida sem a intervenção de um autor amalucado e assuma o papel de criador, inventando um final fatal, sem dúvida, mas de morte por causas naturais, no máximo, impingindo um assassinato a um vírus que não usa qualquer valor moral para extinguir a vida de seu hospedeiro.
Banque o escritor (venha cá, sente aqui à frente de meu computador, assuma o teclado) e escolha o assassino dentre os muitos candidatos moradores do Tueris. Quais os mais capazes? Quem com o melhor motivo?
Invente um final nunca dantes imaginado. Não me deixe indicar um caminho, induzi-lo a cometer um pecado, um erro ou um crime.
Seja bastante cruel e faça Romildo Rotti entender o sentido sexual do discurso do travesti, desistir de qualquer contato com ele, retornando ao apartamento, deixando Renée solitário, sofrendo a amargura de uma espera sem propósito.
Deixe que cada um viva sua vida para além das páginas desta obra ensandecida. Mas não leia adiante!
O aviso foi dado! O alarma disparou!
Perigo! Perigo!
Ao começar a leitura do próximo capítulo, você, leitor atento, você, leitora voraz, estará assumindo parte da culpa por uma morte que ainda não aconteceu.
E o autor terá conseguido cumprir sua missão de transformar o leitor em assassino.

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