Arquivo | dezembro, 2011

azia e má digestão?

24 dez

Este texto foi originalmente publicado no portal do Estadão Online, lá pelos idos de 1997, como parte de crônicas que eu chamava de Papo-furado, sempre falando sobre o universo dos quadrinhos e ilustrações. Com a chegada do novo ano, rearrumando as tranqueiras e velharias, me deparei com alguns textos que acredito ainda serem de alguma pertinência.

Prato-feito

Existe um grande monstro. Solta fogo pela boca. Suas garras são poderosas, talões capazes de cortar um ser humano ao meio. Seu brado retumbante pode gelar o sangue do mais corajoso dos mortais.
Existe um grande herói. Um ser gigantesco, capaz das mais incríveis proezas. Suas mãos poderosas são capazes de mover o mundo e afagar com extrema delicadeza. Sua voz gentil pode amolecer o mais endurecido dos corações.
Fazer parte do mundo das Histórias em Quadrinhos é estar sob os olhares desta entidade meio herói, meio monstro.
Existe a indústria das HQs, essa coisa feita de editores, agentes e artistas, eternamente em movimento para levar ao público a melhor opção para investir seu suado dinheirinho. Existem os sonhos, os ideais, a procura da obra perfeita, do aplauso sincero e a eterna busca da fama e da fortuna. Existem os fracassos, os encalhes, os prejuízos, as críticas maldosas, o esquecimento e a miséria.
Existe o mercado das HQs, essa massa que paga para que as engrenagens da indústria continuem azeitadas e sua cota de sonho e de ideias continue a encher suas vidas através do comum, do bizarro e do fantástico, lidando com as alegrias dos títulos pontuais e as frustrações das séries canceladas.
Numa e noutra instância, mitos são erguidos, aos apupos, e derrubados, sob pás de cal.
Num dia, o herói mata o monstro. No outro, o monstro devora o herói.

Gastrite

É isso o que espera aqueles que pretendem embrenhar-se nesse universo, fazer parte das engrenagens dessa máquina quase humana.
O valor do trabalhador, agora, mais do que nunca, é medido por sua capacidade de produzir. E produzir de maneira satisfatória. As mass media correm atrás do dinheiro e contra o tempo. Essa corrida maluca impõe um comportamento, via de regra, mecânico, desumano.
O gibi na banca é apenas a ponta do iceberg, ou melhor, o sorriso do herói. O monstro prefere alimentar-se das almas daqueles diretamente envolvidos na produção dos gibis; editores, agentes e artistas vão se matando (trabalhando feito camelos e distribuindo socos e palavrões entre si) pra manter o herói sorrindo e o monstro de boca fechada.
O público consome, não só o produto do trabalho, mas também, a mítica transformação do sapo em príncipe: os editores ditam moda, os agentes ficam milionários e os artistas viram deuses. A ilusão é perfeita, mas o truque é barato.
O público consome o mito: respira, toca, esfrega, manuseia, aplaude, vaia, xinga, exaure e esquece. O público é também meio herói, meio monstro.
Quantos “quadrinhólatras” são capazes de lembrar de Töpfer, Agostini, Pfeininger, Outcault, McCay, Fredericks, Segar, Foster, Raymond, Colin, Colonese, Shimamoto, Seto, Aizen e tantos outros nomes das HQs mundiais? Lees, McFarlaines, Moores, Gaimans, Chaikins, Millers, Madureiras, Cruzes, Coutinhos, Bás e Moons, Manaras e Portelas, como os mestres, compraram bilhetes de um trem que pode trilhar caminhos distintos; um leva ao Olimpo, onde o herói governa manso e os afaga com carinho; o outro leva à caverna escura onde habita o monstro faminto, repleta de galerias onde os esquecidos se acotovelam, esperando, sem pressa, a hora da refeição da besta.

Antiácidos e digestivos

Que não sejam a fama e a fortuna os principais motivadores daqueles que sonham comprar um bilhete nesse trem. No comboio, há burocratas desalmados, mentirosos renitentes, investidores gananciosos, torturadores sádicos e cleptomaníacos incuráveis. Há, também, ingênuos talentosos, incentivadores isentos, críticos ubíquos, desbravadores destemidos, inventores incansáveis e sonhadores persistentes. Todos importantes na manutenção da existência do monstro e do herói.
Que sejam esses últimos a inspirar mais profundamente os que invadem a estação. Que seja o sonho de transformar a realidade e o pedaço de mundo de cada leitor o fio condutor de sua viagem.
Existe um grande monstro e existe um grande herói. Duas das tantas faces da criatura que costumamos chamar de universo dos quadrinhos.
Que o sonho seja a razão para manter o herói sorrindo, mas se for a sorte de alguns virar banquete do monstro, que o alívio seja a certeza de que os nomes dos sonhadores podem ser esquecidos, seus sonhos, no entanto, enquanto existirem o herói e o monstro, permanecerão.

(Este texto é dedicado aos sonhadores, lembrados e esquecidos, e ao monstro/herói que existe em cada um de nós)

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lançamento tueris · primeiras informações

20 dez

pois é. você que acompanhou as aventuras dos moradores do tueris aqui (vai lá nos posts antigos, o livro tá na íntegra por aqui), vai poder guardar em sua estante o livro impresso. a terracota vai publicar o romance e o lançamento acontecerá duas semanas antes de meu aniversário.
algumas curiosidades quanto à data: nasci no dia 25 de fevereiro de 1963, quase 49 anos atrás. as aventuras do tueris acontecem em fevereiro de 1982, pouco antes da copa do mundo, e o lançamento do livro vai ser feito no dia 11 de fevereiro de 2012.
quero você lá. tueris no papel; não perca!

exercício de paixão

9 dez

vinte e seis anos atrás (tenho coisa mais antiga ainda, creia-me), escrevia poemas de tudo que é tipo, forma e cor: rimados e sem rima, com ritmos ligeiros e de pé quebrado. eram poemetos mais tolos do que os que escrevo agora, mas muito mais livres e, talvez, sinceros…

És puro verso que na veia escorre,
Um deus-sorriso que me arde a alma.
Na noite eterna que me esconde a vida,
Lamento a falta de um contato lento;
A voz que escuto não pertence ao vento,
Nem às paredes, a chance perdida.
Tampouco é minha essa cama calma.
Na tua ausência minha vida morre.

um dia cheio dos bons

8 dez

acordei cedo (demais), para dar os últimos toques num ensaio acadêmico que urgia ser entregue pela manhã. entre bocejos e goles de café, o texto escrito em inglês ficou pronto. a impressora, velha cansada de guerra, tendendo a dar engasgadas que elidem linhas inteiras resolveu ser condescendente e realizar seu mister a contento. os bocejos aconpanharam-se de risos tímidos. o café da manhã foi preparado com esmero por minha mãe. saí de casa um tanto atrasado, mas foi chegar ao ponto e o ônibus chegou de imediato. o trajeto foi feito estranhamente rápido. o ensaio, entregue devidamente. almocei bem acompanhado. o peixe vingou-se um pouco em mim, perfurando a gengiva com dois restinhos de costelas afiadas. a tarde abafada emprestou tons acinzentados às nuvens agitadas. a reunião com meu orientador demorou a começar: enquanto esperávamos, pedro e eu, jogamos sinuca na mesinha do centro acadêmico da letras. jogo interrompido pelo professor doutor livre docente que também é amigo e muito querido. reunião promissora e carona até o metrô. surpresa maravilhosa ao chegar em casa: presente de natal de babar enviado pelo gustavo duarte (você é o cara!). cuscuz seco por ceia e lá fomos nós, eu e meu sono, dar aula de inglês. duas aulas que correram muito bem. de volta pra casa, baixei “rio“, o novo cd do keith jarrett. o danado me emocionou até as lágrimas – a obra gravada no teatro municipal do rio, totalmente de improviso, tem até laivos de baião!!!! o dia que parecia não querer acabar terminou lotado de bom tamanho! um bocejo a mais, um viva e a promessa de uma noite pra lá de restauradora…

ca-bô! e agora?

6 dez

Hehehe! Pois é, acabou-se o Tueris. Espero que vc tenha gostado. Não leu ainda? Copia tudo e lê na ordem certa (a numeração dos capítulos deveria ajudar nisso). Em breve, tenho mais novidades em relação ao romance e uma provável publicação!
Agora me deparo com um problema: o que fazer pra manter vc vindo aqui?
Vou ter que pensar uma maneira de postar meu outro romance, o Morte Em Marte. Só não sei ainda como… Ele é muito maior (680 páginas) do que o Tueris (com 170 páginas).
Até lá vou ter que postar algo que vc goste, né? Poesia pode? Mais contos, ou crônicas? Falaí!

xxix · o final, afinal

5 dez

Embora não apenas isto, esta obra é uma confissão. E deixa evidente que o sonho de tornar-se escritor foi consumado. O autor conseguiu ver muitos de seus sonhos virarem realidade.
As viagens dos astronautas e das naves sem tripulação encheram a Internet de imagens do planeta azul que saciaram metade da vontade do autor de ver a Terra do espaço.
Tudo tem um fim: É chegada a hora de preparar as despedidas e matar o pouco que sobra do seu tempo emprestado. Logo ali, a última letrinha, o ponto final definitivo prometido. Ao fechar este livro, você, caro leitor, dileta leitora, também chegará ao fim. Essa manifestação de sua existência simplesmente cessará. Com seu desaparecimento, o autor terá completado o derradeiro assassinato, a mais importante tarefa, a mais difícil das missões, o sonho mais almejado.
Hmm… Pensando bem: resta ainda ganhar o Nobel de Literatura.
Não falei que a presunção era sem limites?

XXVIII · mea culpa, mea maxima culpa

4 dez

Afasto-me do relógio de madeira marchetada e dou trégua aos ponteiros exauridos. Chegamos ao futuro, cara leitora. O presente virou passado e eu preciso fazer minha confissão.
Admito ter cometido pecados durante a produção desta narrativa, e, fingindo não ser o principal responsável pela existência do leitor, peço, cabisbaixo (uma encenação barata), seu perdão por todas as faltas perpetradas aqui. Não foram poucas.
Você, leitor, foi obrigado, amiúde, a quebrar a cabeça para acompanhar as rápidas passagens nas muitas estripulias com o calendário. O estilo enviesado talvez seja resultado das viagens pelo tempo na nave de Hajykapadtydg; durante anos senti-me inapto a lembrar de tudo numa linha temporal contínua.
Alterei os nomes dos personagens. Todos os sobrenomes, pelo menos. Inclusive o meu! Não é verdade que tenha ficado preocupado com o direito de anonimato de meus vizinhos no Tueris Fustado. Gastei muito tempo roendo os cantos das unhas, pensando numa maneira de evitar que os fantasmas do passado, e mesmo os vivos, resolvessem bater à porta, reclamando de seu envolvimento involuntário nesta narrativa. Muitos dos prenomes foram mantidos. Ainda há chances, poucas, é claro, de que algum familiar reconheça essa ou aquela pessoa real nas personagens retratadas aqui e venham reclamar participação nos lucros (isso realmente existe em literatura produzida no Brasil?) ou uma retratação pública. Porém o autor acredita ter conseguido ser fiel aos fatos sem comprometer qualquer dos envolvidos neles.
Menti quanto aos extraterestres também. Há certos preconceitos a serem derrubados aqui. Safados rigelianos são. Acredito que Klpytdy e Tajkdy sabiam, todo o tempo, o que estavam fazendo quando me levaram numa corrida maluca, aqueles… Aqueles flatulentos! É preciso muito cuidado com os acertos feitos com moradores de outros planetas. Não é verdade que os ETs são todos amistosos ou bem intencionados. Os ursamajori, por exemplo, são definitivamente canalhas. Para os rigelianos, tocar as pontas dos dedos é mais sério do que assinar o nome num papel. Nunca, sob nenhuma hipótese, aperte a mão de um centauri: é um convite a troca de energias, como numa relação sexual; para eles não há qualquer problema nisso, mas não é nada agradável, para nós, pobres terrestres, ter que limpar esperma da cueca e das calças, além de ter que fazer uma força descomunal para manter as pernas sem tremer (às mulheres talvez isso não incomode tanto). Para viciados em livros, sempre me pareceu estranho que o que é falado nem sempre vale para esses seres. A palavra é bem menos importante que o toque físico. Lembrem-se do roubo do sanduíche de Marlise e das pizzas apropriadas indebitamente por Tajkdy! As promessas de me levar em passeios pela galáxia nunca foram cumpridas… Aqueles safados! Seria inteligente não confiar totalmente nos extraterrestres.
Quantas desventuras e atropelos desde o primeiro parágrafo e a derradeira palavra deste manuscrito: familiares teimaram em adoecer e falecer, empregos foram perdidos e algumas crises de criatividade confundiram-se com episódios depressivos.
Sei, sei. Sou um pecador capital. Acho que até hoje não perdoei minha mãe completamente, carregado de rancores (ira). Economizei (avareza) muito amor desnecessariamente; meus casamentos falidos são provas incontestes de que jamais me entreguei completamente, traindo os amores que me eram dedicados. Troquei beijos sensacionais e fluidos corporais (luxúria) com garotas que se satisfazem sendo vedetes orkutianas e estrelas de fotologs e blogs e bligs pela Web afora. Não é fácil escapar da armadilha de encher o prato (gula) com os muitos petiscos disponíveis no buffet da vida exposto nas páginas do Facebook. Tirei a vida de um semelhante; divulgo aqui o delito e pretendo permanecer incólume, me comprazendo (orgulho) com o fato de escapar à lei. As muitas repetições (preguiça) em vários capítulos poderiam ter sido evitadas? Adoraria escrever como James Joyce e vender como Paulo Coelho (pura e genuína inveja).
Como acreditar num tal pecador contumaz?
Nunca menti sozinho. Inadvertidamente, Neneca, Kaká, Amanda, Anastácia, Maleco, Davizinho e Biel foram meus cúmplices diretos.
Pare agora, neste instante, e olhe-se no espelho. Que mentiras você esconde de si mesmo? Quais verdades estão sendo sufocadas neste momento? As verdades costumam ser muito cruéis e as mentiras mais fáceis de engolir.
Admitamos: Renée precisava morrer!
Renée precisava morrer porque fazia parte de uma história escrita em que ele morria! Se ele não morresse, a história teria ficado suspensa, a obra ficaria sem ser lida até o final, a razão de ser da narrativa não faria qualquer sentido.
Ah! Mas bem mais que isso!
Renée precisava morrer porque ele tinha coragem de dizer o que todos desejavam (mas calavam), porque ele cuspia as mentiras que eram sufocadas nos momentos mais íntimos. Renée desmascarava a todos sem piedade e expunha o que de mais mesquinho havia em cada um de seus vizinhos.
Ele era a prova viva de que barreiras podem ser quebradas, limites podem ser ultrapassados. Que nossa medíocre hipocrisia denuncia nossa pequenez moral.
Como pode um homem ousar revogar a lei divina de nossa escravidão? Como duvidar da sabedoria de Deus ou da Natureza em escolher um sexo para cada indivíduo? Renée Druon era a prova inconteste de que podemos ser donos de nossos próprios destinos; algo contrário à teoria defendida por mim desde o início!
Um homem assim não poderia continuar vivo. Em toda a História, muita gente morreu porque ousou questionar a moral vigente, porque decidiu denunciar a mediocridade em que viviam seus conterrâneos e contemporâneos.
Era a mistura ao mesmo tempo mágica (pois que truque, falsidade, enganação) e dolorosa (pois que incômoda, completa e inequívoca) explicitada na amizade de Biel e Davizinho – atente para o paralelo do encantamento da beleza radiante de Biel (Renée ofuscava a todos por sua coragem e sua ousadia) e a feiúra do pequeno judeu (Renée era uma caricatura canhestra de mulher afetada, dondoca fútil, manequim de estilista enlouquecido).
Quase todos os meus personagens tinham razões para querer Renée morto. Cada um com sua mentira.
O próprio Renée queria acreditar-se o salvador do mundo, o cavaleiro da justiça e da moral, um Jesus extemporâneo e apaixonado que se entregou ao carrasco em sacrifício.
Eis as mentiras expostas, jogadas na mesa como cartas que se podem esconder nas mangas. Todo o resto, meu caro leitor, é a mais pura verdade.
Assumo toda a culpa por trazer, dos subterrâneos, a memória do Tueris Fustado, seus moradores e suas histórias que não devem ser esquecidas.
Este livro se encerra e passa a ser o passado em sua estante, num sebo qualquer ou a se desfazer num aterro sanitário. Ele chega ao fim sem a resposta exigida pela última questão.
Por que você queria Renée morto?