XXVI · famulus mundi

1 dez

Então foi essa a sua escolha? Matar Renée Druon?
Infelizmente, você não era o único a desejar a morte do dono de Mustache.
O autor adoraria imputar a culpa do assassinato a Romildo Rotti, completamente imbuído em livrar-se da ameaça do travesti intrometido, porém nosso desonesto bancário de múltiplas identidades chegou ao apartamento de Renée momentos depois de sua queda. Procurou por sua vítima e não o achou. No corredor, foi recebido pelo cachorro antipático. Os latidos estridentes o deixaram maluco. Não cometeu canicídio por pouco. As luzes vermelhas e azuis que piscavam em frente ao edifício o fizeram debruçar-se na varanda, por curiosidade.
Azar. Foi visto, reconhecido e preso em flagrante. Uma investigação sumária desmascarou seus engodos e consubstanciou o motivo do crime. Os policiais divertiram-se com a garrafa de Riesling na geladeira de Renée e dividiram a pequena fortuna encontrada no paletó do suposto assassino; disso ninguém ficou sabendo oficialmente.
O caso virou manchete de jornal. O Diário Popular chegou a aventar um romance entre os dois, marinando a notícia com toques de crime passional. Dois dias depois do assunto vir a público, não se conseguia mais achar qualquer sinal das contas frias em que Romildo espalhara, com diligência, a fortuna roubada dos mafiosos de sua terra natal.
Romildo Rotti, alías, Santino Branco, aliás, Armando Cabidela, na verdade, André Madeira, era um artista da fantasia que não resistiu à dureza da realidade, um domador de um circo em que as feras levaram a melhor. Seu cadáver foi encontrado oscilando sobre um banquinho cinco centímetros mais baixo que a distância entre seus pés e o chão, a língua roxa de fora da boca, como se tivesse usado os lençóis para se enforcar. Fora estrangulado, isso sim. Os policiais não precisaram divulgar o resultado da investigação (não foi feita investigação alguma – já não era carnaval, mas sempre se arranjava um feriado para adiar as coisas mais urgentes). Todos sabiam que um tentáculo de um monstro goiano enveredara-se nos meandros da lei, suicidando André, em sua cela, dois dias antes do seu julgamento. As fofocas apimentadas à guisa de rapport social foram ampliando os defeitos de André Madeira. Aventou-se que ele também teria dado cabo de Oscar Delgado, o que se provou insustentável.
Do que se sabe, as últimas pessoas a ver Oscar vivo foram Marlise Utinga e seu filho Gelson, pouco tempo antes da morte de Renée. Oscar deve ter decidido procurar um universo mais amigável, voltar ao seu próprio mundo, talvez, para rever a mãe.
A garotada conseguiu manter os parentes em casa, mas ninguém precisou usar de qualquer álibi.
Quem matou Renée Druon escapou da justiça dos homens e não acredita numa justiça divina. Se aqui se faz e aqui se paga, a culpa está dividida entre a mão que o empurrou para uma morte certa e a outra que virou a página.
O tempo virou.
O dia estava ensolarado e quente. A tempestade se iniciou pouco antes da queda de Renée. Era tarde. Chegaram com as luzes do dia dando lugar aos postes, luminosos e néons. Gelson pôs os pés no piso do terraço e voltou-se para Tajkdy, no limiar da plataforma.
– Quando outra vez nos vemos?
O rigeliano sorriu.
– Vê?
Tajkdy apontou para a outra nave estacionada logo atrás.
– Ainda estamos aqui!
Não conseguia ver o outro amigo, o mau humorado, mas gritou, tentando vencer o barulho da chuva que engrossava.
– Obrigado, Klpytdy! Obrigado, Tajkdy!
A plataforma se fechou enquanto as últimas palavras atingiram seus tímpanos. O significado demorou mais para ser apreendido.
– Esperamos que tenha conseguido o que queria.
O que queria? Viajara pelo tempo, mas não conseguira ver a Terra do espaço. Perdera muita coisa naquela aventura maluca. O que poderia ter ganhado?
E ainda não tinha o livrinho. A nave levantou voo e pairou por um segundo à sua frente, antes de desaparecer. A outra nave permaneceu. Sorriu um sorriso mortiço que se apagou quando os telefones dispararam a tocar.
Correu como um desesperado e quase esbarrou em si mesmo e nos amigos de quem acabara de se despedir. Desceu as escadas, mas percebera a cara de bobo de seu eu passado. Voltou a cabeça e apontou o terraço, imperativo. Deu as costas e desatou a chorar enquanto descia as escadas. O telefone de Romildo gritava desesperado.
Estancou à porta de Renée. Franziu a testa. Estava entreaberta. Empurrou-a, enxugando as lágrimas com a outra mão. Viu o livrinho sobre o sofá e entrou no apartamento.
Estava com a mão sobre o volume cor de vinho quando ouviu a voz do travesti quebrando o clima da música de Billie Holiday. Assustou-se. Não percebera Renée na varanda.
– Eu sabia que isso aconteceria, mais cedo ou mais tarde.
Estancou no meio da sala, o coração querendo sair pela boca e os pensamentos em polvorosa. Não conseguia atinar para nada. Não poderia ser visto. Mas claro que poderia ser visto, afinal não pretendia chantagear o traveco?
Deveria ter agarrado o livrinho e saído de lá, correndo, mas permaneceu. Quando, exatamente, durante as viagens pelo tempo, passou a cogitar numa solução mais definitiva? Não sabia. Mas o roubo do caderno de anotações lhe pareceu, naquele momento, insuficiente.
Ainda podia correr dali e retomar sua vida, mas lembrou-se do último encontro, a última estação daquela paixão tresloucada. Viu-se com os olhos alterados, a alma mudada espalhando-se para fora dos espelhos que a refletiam. Como poderia evitar tudo aquilo? A voz de Renée provocou novo arrepio, pois parecia responder sua questão.
– Era inevitável…
Naquele momento, o destino ganhou vontade própria. Gelson caminhou até o homem na varanda, as lágrimas escorrendo-lhe pelas faces, alheio a tudo o mais.
Renée voltou-se com um sorriso de prazer.
O sorriso apagou qualquer dúvida que Gelson pudesse ter. Sua vontade somava-se às do leitor e do autor. Os olhos se encontraram, por um breve momento. Era mais alto que o travesti. Usou de toda a força de seu corpo adolescente e empurrou Renée para a chuva, para baixo, à calçada, à morte. O corpo fez um giro sobre a balaustrada da varanda e projetou-se no espaço vazio.
Renée Druon não gritou; talvez tivesse percebido que uma vontade coletiva exigia seu sacrifício.
Ao ouvir o som abafado da queda do corpo sobre a calçada, Gelson correu como quem corre do diabo. Apanhou o livro e deixou o apartamento do travesti. Subiu as escadas no momento em que Romildo Rotti destrancava sua porta.
No quarto andar, Gelson dobrou à esquerda e ouviu os barulhos de seu apartamento. Marlise estava na cozinha. Tanto melhor. Entraria pela sala. Tentou fazer o mínimo de barulho, à toa. A chuva ribombava sobre o mundo, o perfeito cenário da consumação da paixão.
Lembrou-se que trancara o quarto por dentro. Foi até a varanda e não olhou para baixo, não procurou o corpo de Renée. Pulou a janela para dentro do quarto e jogou-se na cama, respirando curto, o coração disparado, agarrado ao livreto de capa de couro vinho cujo conteúdo já era seu conhecido.
Perguntava-se se permitiria que Anastácia o segurasse pelo braço para prever aquela morte. Será que teria chegado até o final se soubesse que terminaria o dia como assassino?
Atentou para as luzes vermelhas e azuis que se projetavam sobre o teto de seu quarto. Pela primeira vez temeu por sua segurança. Reviu seu plano maluco como um tecido esgarçado e tremeu por perceber todos os buracos nele. Precisava livrar-se daquele livro, urgente.
Ouviu o barulho da fechadura da porta da sala e postou-se à janela, à espera de mais um encontro com um eu passado. Seria o último encontro consigo mesmo. A última oportunidade de ver-se sem espelhos.
O garoto que se apresentou à sua janela não demostrava qualquer surpresa. Conseguiu segurar o choro iminente e falou com voz firme.
– Você precisa voltar pra noite de anteontem e deixar isso com nossa versão passada.
Sem dizer palavra, o garoto apanhou o livrinho e saiu do apartamento, criando um paradoxo interessante: o livro fora a razão daquela série de viagens no tempo, apenas para deixar de ter importância no final.
Se tivesse raciocinado melhor, Gelson teria lembrado que o livro existiu, por dois dias, simultaneamente em poder de Renée e em seu quarto. A versão que ele entregou a seu eu passado voltou para uma sua versão anterior, dois dias antes, e, portanto, deveria ter ficado histérico. Se a polícia não tivesse visto André Madeira (na pele de Romildo Rotti) na varanda de Renée Druon, Gelson teria uma prova circunstancial de seu envolvimento com a morte do travesti.
Dois dias depois, achou o livrinho em meio à sua bagunça e o guardou até a idade madura; uma leitura interessante, sem dúvida.
O dia 19 de fevereiro de 1982, para Gelson Utinga, passou correndo, de salto em salto, entre o passado e o futuro. Foi o dia em que perdeu Oscar Delgado (o amigo desapareceu como fumaça. A polícia deu o caso por encerrado – insolúvel – quatro meses depois. A dor de Gelson durou muito mais). O último dia em que viu seus amigos Klpytdy e Tajkdy de Hajykapadtydg, em Rigel (provavelmente superiores rigelianos descobriram suas estrepolias com o tempo e os probiram de voltar à Terra). Foi também o dia em que perdeu a inocência.
Muita coisa mudou naquele dia.
Trezentos e oito anos antes, a cidade de Nova Amsterdã mudava drasticamente; holandeses e ingleses assinavam o Tratado de Westminster. A cidade passava a ser dos britânicos e ganhava novo nome: Nova Iorque. O apartamento 32 do Tueris era ocupado por André Barnavi, o travesti que mudara seu nome para Renée Druon. A varanda do terraço de Renée dava para a Rua Tenente Fustado e não era guarnecida por grades até o teto. O gradil original era baixo; qualquer pessoa desavisada poderia cair de lá e despencar sobre a calçada quase vinte metros abaixo.
Durante todo o dia, Renée fora ameaçado de morte por acontecimentos comezinhos. Escapou de todas as ameças para morrer em consequência do empurrão de um garoto perdido no tempo e no espaço.
No dia do tricentésimo oitavo aniversário da cidade cruzada pela Broadway, Renée Druon caiu da varanda do apartamento 32 do edifício Tueris Fustado, na cidade cortada pelo Tamanduateí. “Morreu na contramão atrapalhando o sábado”.
Sob forte chuva, muitos moradores do Tueris acorreram ao local onde o corpo de Renée estatelou-se. Havia várias viaturas da força policial chamada por um dono de pizzaria que se sentira lesado. Qual não foi a surpresa dos policiais ao encontrar um morto fresquinho à calçada e, de bandeja, pegar o assassino com a boca na botija.
Mesmo com tamanho barulho e comoção, o menino que sabia contar histórias pegou no sono, ao som de Supertramp, exausto, por carregar nos ombros os desejos do mundo.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: