XXVIII · mea culpa, mea maxima culpa

4 dez

Afasto-me do relógio de madeira marchetada e dou trégua aos ponteiros exauridos. Chegamos ao futuro, cara leitora. O presente virou passado e eu preciso fazer minha confissão.
Admito ter cometido pecados durante a produção desta narrativa, e, fingindo não ser o principal responsável pela existência do leitor, peço, cabisbaixo (uma encenação barata), seu perdão por todas as faltas perpetradas aqui. Não foram poucas.
Você, leitor, foi obrigado, amiúde, a quebrar a cabeça para acompanhar as rápidas passagens nas muitas estripulias com o calendário. O estilo enviesado talvez seja resultado das viagens pelo tempo na nave de Hajykapadtydg; durante anos senti-me inapto a lembrar de tudo numa linha temporal contínua.
Alterei os nomes dos personagens. Todos os sobrenomes, pelo menos. Inclusive o meu! Não é verdade que tenha ficado preocupado com o direito de anonimato de meus vizinhos no Tueris Fustado. Gastei muito tempo roendo os cantos das unhas, pensando numa maneira de evitar que os fantasmas do passado, e mesmo os vivos, resolvessem bater à porta, reclamando de seu envolvimento involuntário nesta narrativa. Muitos dos prenomes foram mantidos. Ainda há chances, poucas, é claro, de que algum familiar reconheça essa ou aquela pessoa real nas personagens retratadas aqui e venham reclamar participação nos lucros (isso realmente existe em literatura produzida no Brasil?) ou uma retratação pública. Porém o autor acredita ter conseguido ser fiel aos fatos sem comprometer qualquer dos envolvidos neles.
Menti quanto aos extraterestres também. Há certos preconceitos a serem derrubados aqui. Safados rigelianos são. Acredito que Klpytdy e Tajkdy sabiam, todo o tempo, o que estavam fazendo quando me levaram numa corrida maluca, aqueles… Aqueles flatulentos! É preciso muito cuidado com os acertos feitos com moradores de outros planetas. Não é verdade que os ETs são todos amistosos ou bem intencionados. Os ursamajori, por exemplo, são definitivamente canalhas. Para os rigelianos, tocar as pontas dos dedos é mais sério do que assinar o nome num papel. Nunca, sob nenhuma hipótese, aperte a mão de um centauri: é um convite a troca de energias, como numa relação sexual; para eles não há qualquer problema nisso, mas não é nada agradável, para nós, pobres terrestres, ter que limpar esperma da cueca e das calças, além de ter que fazer uma força descomunal para manter as pernas sem tremer (às mulheres talvez isso não incomode tanto). Para viciados em livros, sempre me pareceu estranho que o que é falado nem sempre vale para esses seres. A palavra é bem menos importante que o toque físico. Lembrem-se do roubo do sanduíche de Marlise e das pizzas apropriadas indebitamente por Tajkdy! As promessas de me levar em passeios pela galáxia nunca foram cumpridas… Aqueles safados! Seria inteligente não confiar totalmente nos extraterrestres.
Quantas desventuras e atropelos desde o primeiro parágrafo e a derradeira palavra deste manuscrito: familiares teimaram em adoecer e falecer, empregos foram perdidos e algumas crises de criatividade confundiram-se com episódios depressivos.
Sei, sei. Sou um pecador capital. Acho que até hoje não perdoei minha mãe completamente, carregado de rancores (ira). Economizei (avareza) muito amor desnecessariamente; meus casamentos falidos são provas incontestes de que jamais me entreguei completamente, traindo os amores que me eram dedicados. Troquei beijos sensacionais e fluidos corporais (luxúria) com garotas que se satisfazem sendo vedetes orkutianas e estrelas de fotologs e blogs e bligs pela Web afora. Não é fácil escapar da armadilha de encher o prato (gula) com os muitos petiscos disponíveis no buffet da vida exposto nas páginas do Facebook. Tirei a vida de um semelhante; divulgo aqui o delito e pretendo permanecer incólume, me comprazendo (orgulho) com o fato de escapar à lei. As muitas repetições (preguiça) em vários capítulos poderiam ter sido evitadas? Adoraria escrever como James Joyce e vender como Paulo Coelho (pura e genuína inveja).
Como acreditar num tal pecador contumaz?
Nunca menti sozinho. Inadvertidamente, Neneca, Kaká, Amanda, Anastácia, Maleco, Davizinho e Biel foram meus cúmplices diretos.
Pare agora, neste instante, e olhe-se no espelho. Que mentiras você esconde de si mesmo? Quais verdades estão sendo sufocadas neste momento? As verdades costumam ser muito cruéis e as mentiras mais fáceis de engolir.
Admitamos: Renée precisava morrer!
Renée precisava morrer porque fazia parte de uma história escrita em que ele morria! Se ele não morresse, a história teria ficado suspensa, a obra ficaria sem ser lida até o final, a razão de ser da narrativa não faria qualquer sentido.
Ah! Mas bem mais que isso!
Renée precisava morrer porque ele tinha coragem de dizer o que todos desejavam (mas calavam), porque ele cuspia as mentiras que eram sufocadas nos momentos mais íntimos. Renée desmascarava a todos sem piedade e expunha o que de mais mesquinho havia em cada um de seus vizinhos.
Ele era a prova viva de que barreiras podem ser quebradas, limites podem ser ultrapassados. Que nossa medíocre hipocrisia denuncia nossa pequenez moral.
Como pode um homem ousar revogar a lei divina de nossa escravidão? Como duvidar da sabedoria de Deus ou da Natureza em escolher um sexo para cada indivíduo? Renée Druon era a prova inconteste de que podemos ser donos de nossos próprios destinos; algo contrário à teoria defendida por mim desde o início!
Um homem assim não poderia continuar vivo. Em toda a História, muita gente morreu porque ousou questionar a moral vigente, porque decidiu denunciar a mediocridade em que viviam seus conterrâneos e contemporâneos.
Era a mistura ao mesmo tempo mágica (pois que truque, falsidade, enganação) e dolorosa (pois que incômoda, completa e inequívoca) explicitada na amizade de Biel e Davizinho – atente para o paralelo do encantamento da beleza radiante de Biel (Renée ofuscava a todos por sua coragem e sua ousadia) e a feiúra do pequeno judeu (Renée era uma caricatura canhestra de mulher afetada, dondoca fútil, manequim de estilista enlouquecido).
Quase todos os meus personagens tinham razões para querer Renée morto. Cada um com sua mentira.
O próprio Renée queria acreditar-se o salvador do mundo, o cavaleiro da justiça e da moral, um Jesus extemporâneo e apaixonado que se entregou ao carrasco em sacrifício.
Eis as mentiras expostas, jogadas na mesa como cartas que se podem esconder nas mangas. Todo o resto, meu caro leitor, é a mais pura verdade.
Assumo toda a culpa por trazer, dos subterrâneos, a memória do Tueris Fustado, seus moradores e suas histórias que não devem ser esquecidas.
Este livro se encerra e passa a ser o passado em sua estante, num sebo qualquer ou a se desfazer num aterro sanitário. Ele chega ao fim sem a resposta exigida pela última questão.
Por que você queria Renée morto?

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: