azia e má digestão?

24 dez

Este texto foi originalmente publicado no portal do Estadão Online, lá pelos idos de 1997, como parte de crônicas que eu chamava de Papo-furado, sempre falando sobre o universo dos quadrinhos e ilustrações. Com a chegada do novo ano, rearrumando as tranqueiras e velharias, me deparei com alguns textos que acredito ainda serem de alguma pertinência.

Prato-feito

Existe um grande monstro. Solta fogo pela boca. Suas garras são poderosas, talões capazes de cortar um ser humano ao meio. Seu brado retumbante pode gelar o sangue do mais corajoso dos mortais.
Existe um grande herói. Um ser gigantesco, capaz das mais incríveis proezas. Suas mãos poderosas são capazes de mover o mundo e afagar com extrema delicadeza. Sua voz gentil pode amolecer o mais endurecido dos corações.
Fazer parte do mundo das Histórias em Quadrinhos é estar sob os olhares desta entidade meio herói, meio monstro.
Existe a indústria das HQs, essa coisa feita de editores, agentes e artistas, eternamente em movimento para levar ao público a melhor opção para investir seu suado dinheirinho. Existem os sonhos, os ideais, a procura da obra perfeita, do aplauso sincero e a eterna busca da fama e da fortuna. Existem os fracassos, os encalhes, os prejuízos, as críticas maldosas, o esquecimento e a miséria.
Existe o mercado das HQs, essa massa que paga para que as engrenagens da indústria continuem azeitadas e sua cota de sonho e de ideias continue a encher suas vidas através do comum, do bizarro e do fantástico, lidando com as alegrias dos títulos pontuais e as frustrações das séries canceladas.
Numa e noutra instância, mitos são erguidos, aos apupos, e derrubados, sob pás de cal.
Num dia, o herói mata o monstro. No outro, o monstro devora o herói.

Gastrite

É isso o que espera aqueles que pretendem embrenhar-se nesse universo, fazer parte das engrenagens dessa máquina quase humana.
O valor do trabalhador, agora, mais do que nunca, é medido por sua capacidade de produzir. E produzir de maneira satisfatória. As mass media correm atrás do dinheiro e contra o tempo. Essa corrida maluca impõe um comportamento, via de regra, mecânico, desumano.
O gibi na banca é apenas a ponta do iceberg, ou melhor, o sorriso do herói. O monstro prefere alimentar-se das almas daqueles diretamente envolvidos na produção dos gibis; editores, agentes e artistas vão se matando (trabalhando feito camelos e distribuindo socos e palavrões entre si) pra manter o herói sorrindo e o monstro de boca fechada.
O público consome, não só o produto do trabalho, mas também, a mítica transformação do sapo em príncipe: os editores ditam moda, os agentes ficam milionários e os artistas viram deuses. A ilusão é perfeita, mas o truque é barato.
O público consome o mito: respira, toca, esfrega, manuseia, aplaude, vaia, xinga, exaure e esquece. O público é também meio herói, meio monstro.
Quantos “quadrinhólatras” são capazes de lembrar de Töpfer, Agostini, Pfeininger, Outcault, McCay, Fredericks, Segar, Foster, Raymond, Colin, Colonese, Shimamoto, Seto, Aizen e tantos outros nomes das HQs mundiais? Lees, McFarlaines, Moores, Gaimans, Chaikins, Millers, Madureiras, Cruzes, Coutinhos, Bás e Moons, Manaras e Portelas, como os mestres, compraram bilhetes de um trem que pode trilhar caminhos distintos; um leva ao Olimpo, onde o herói governa manso e os afaga com carinho; o outro leva à caverna escura onde habita o monstro faminto, repleta de galerias onde os esquecidos se acotovelam, esperando, sem pressa, a hora da refeição da besta.

Antiácidos e digestivos

Que não sejam a fama e a fortuna os principais motivadores daqueles que sonham comprar um bilhete nesse trem. No comboio, há burocratas desalmados, mentirosos renitentes, investidores gananciosos, torturadores sádicos e cleptomaníacos incuráveis. Há, também, ingênuos talentosos, incentivadores isentos, críticos ubíquos, desbravadores destemidos, inventores incansáveis e sonhadores persistentes. Todos importantes na manutenção da existência do monstro e do herói.
Que sejam esses últimos a inspirar mais profundamente os que invadem a estação. Que seja o sonho de transformar a realidade e o pedaço de mundo de cada leitor o fio condutor de sua viagem.
Existe um grande monstro e existe um grande herói. Duas das tantas faces da criatura que costumamos chamar de universo dos quadrinhos.
Que o sonho seja a razão para manter o herói sorrindo, mas se for a sorte de alguns virar banquete do monstro, que o alívio seja a certeza de que os nomes dos sonhadores podem ser esquecidos, seus sonhos, no entanto, enquanto existirem o herói e o monstro, permanecerão.

(Este texto é dedicado aos sonhadores, lembrados e esquecidos, e ao monstro/herói que existe em cada um de nós)

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: