Arquivo | janeiro, 2013

John Milton’s Travelling Impressions

15 jan

In his time, John Milton (1608-1674) spoke of liberty and freedom of thought and expression. Admired by Alexander Pope (1688-1744) and considered the greatest English poet by none but William Blake (1757-1827), he inspired many to embrace a writing career and humanist thoughts. Born in England in the last century (about the mid 1950s) but living in Brazil, teaching English Literature at USP, another John Milton keeps records of his travelling adventures, perhaps in search o his own Paradise Lost, making us think of  how vast our world is and how deep its contrasts. Take a time to read his considerations on the realities he found on the other side of the globe and ponder on how much we don’t know what we don’t know. This first text is about Taiwan. Worth reading and following.

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Dentro e fora

14 jan

— Vem pra dentro, João!

João não se deu ao trabalho de olhar na direção da voz gasguita. O quintal, dentro do terreno, fora da casa, era um pequeno pedaço do mundo tão perigoso quanto o mundo todo, para a tia.

— Vem pra dentro, menino, que vai chover!

Meio coberto de concreto, meio areal desprezado, o terreno dos fundos do casarão refletia o descuido dos locatários e dos muitos inquilinos que ali habitaram, ocupando espaço no mundo que se reduzia, uma miniatura esconsa de um universo esquecido. No quintal, os vasos de flores exuberantes, sobre o cimentado, moviam-se sob o carinho da brisa, saudando o matagal que cobria parte do areal e devolvia o cumprimento, ciciando discursos cujos significados escapavam a quase todos os adultos.

O descuido dava testemunho da falta de recursos, de tempo, de atenção e de interesse em transformar o quintal em algo salubre. Um lugar de segredos sussurrados, de sombras projetadas por coisas invisíveis, de ameaças mais assustadoras do que as apresentadas nos programas da TV.

— João?!

Era um lugar feio de dia e arrepiante à noite. O nó na garganta mantinha-se apertado enquanto o sobrinho parecia se divertir, gritando como endemoniado, inventando singrar os sete mares na banheira abandonada cujos pés tinham artelhos semelhantes aos dos cachorros desanimados que, como ela, olhavam João de longe sem ousar sair da área concretada. Um dia, se o dono permitisse, cimentava tudo. Até lá, a geladeira tombada que já não tinha porta também era usada como nave que o levava, sem sair do lugar a mundos imaginários que resvalavam nos mundos que a tia previa, os pelos na nuca empertigados, soturnos e lamurientos. Enquanto o sobrinho gritava, atravessando o matagal, contra inimigos de vento em florestas inventadas de continentes distantes com povos com nomes impronunciáveis, ela sabia os nomes dos seres malvados que se disfarçavam para parecer bonzinhos sob o sol, mas que se manifestavam quimeras desnaturadas, projetos de pura maldade, arautos do grande inimigo. Os cães participavam das brincadeiras pelas áreas calçadas que João batizava com nomes pomposos que soavam estrangeiros, onde ela sabia que o sobrinho jamais estivera antes.

O areal, quando seco, servia de passagem para ratos, gatos, camundongos, gambás, borboletas, mariposas e sabiás. Quando chovia, virava um lamaçal prenhe de girinos, rãs, sapos e lagartos que se fartavam com os insetos que rodopiavam em nuvens caóticas e barulhentas.

— Menino! Vem pra dentro, já!

Era sempre assim: a chuva não esperava que as gentes se protegessem para derramar-se sobre a cidade. Como de costume, dedicava uma boa porção de suas águas sobre o descampado do quintal da casa da tia de João, despejando-se desavergonhada, criando riachos, lagos e charcos. A tia ficava desesperada ao ouvir João estalando a língua, articulando barulhos estranhos à sua língua materna, batizando porções de lama e córregos que se alimentavam das águas que escorriam do telhado, paredes e cimentados, sem limpar as manchas e mazelas da casa saturada pelas desventuras de quem a habitara e as desesperanças de quem a ocupava sem concretude.

Três dias chovendo forte, sob um calor infernal. Os pingos da chuva tocavam o mundo com estalos irritantes, fazendo roupas grudarem na pele, madeixas desalinhadas colarem-se às testas, porções de lama, pedaços de folhas, restos de cadáveres de insetos que escapavam à sanha dos batráquios vorazes colecionarem-se à barra das calças, ao dorso dos calçados. A alma inquieta captava cada vibração agourenta, cada resto de vida desperdiçada e incomodava-se da participação do sobrinho àquele festival macabro.

— João!

Ouvia a própria voz abafada, encoberta pela música da torrente que o mundo acolhia sem pudor. Os afazeres diários a mantinha ocupada, mas o coração saltitava com a despreocupação da criança em proteger-se da chuva, do quintal e seus seres malfazejos. Sabia que João sentia-se pouco à vontade, apesar de todos os esforços em integrá-lo ao seu mundo. Não era sua casa. Era enviado à parenta quando os pais viajavam. Mesmo sem querer, quando em vez raciocinava que o terreno baldio era a perfeita moldura àquele menino abandonado, o cenário preciso em que o humano é engolido pelo mundo, sem possibilidade de fuga, mastigado pela frieza da realidade, pela civilidade recheada de violência disfarçada e dor explícita. Lamentava que o sobrinho preferisse o areal, onde reinventava a vida e imaginava amigos sob a inspiração dos inimigos da fé.

— Vem, menino!

Desta vez, João olhou para a porta da cozinha que dava para o quintal. Sinalizou com a mão, chamando-o com cuidado para não demonstrar sua angústia. Sinalizou mais uma vez e engoliu em seco. Sentiu o aroma do cozido e acorreu à cozinha para salvar o jantar. Apenas os cachorros permaneceram sob o umbral da porta, no limiar entre os mundos improváveis e a casa possível. Os bichos estavam excitados, à porta aberta, meio protegidos da chuva torrencial, arfando e ganindo, talvez prevendo algum desfecho desditoso para o garoto que chafurdava na lama. O pensamento ocorreu à tia como um lampejo, um raio que se bandeou para a rua lateral, do outro lado do muro, do outro lado do mundo. Nem os cães conseguiram escutar o sussurro que se realizou em coro ao trovão que fez a terra toda tremer.

— Creindeuspai…

Benzeu-se com o sinal da cruz sobre o colo e correu para a área de serviço que separava a cozinha do mundo de fora, onde os cachorros ganiam lamentosos. Gritou mais para o mundo do que para João, que não conseguia ver em qualquer lugar no quintal.

— Vem pra dentro, João!

Desceu os três degraus e chapinhou na água que escorria sobre o cimentado, engolindo em seco, as gotas da chuva encobrindo-lhe a lágrima sincera que manifestava a dor em seu peito. Os cães permaneceram sob a porta, enquanto a tia mapeava o lamaçal que dançava sob a chuva e não conseguia achar o sobrinho.

Chegou à banheira e encontrou o corpo cério, os olhos frios devolvendo um olhar sem vida. Tocou os dedos das mãos e a temperatura ampliou o desconforto.

Carregou o sobrinho nos braços, sob a chuva e olhou para a porta da casa que entendia como segura. Os cães a olharam de volta, ansiosos. O retrato concreto convidava ao conforto da realidade. Ali, sob a torrente, envolta nos mundos que habitavam o mundo, imaginou uma criança sob o umbral da porta aberta, acenando e gritando seu nome.

mais um romance · desta vez em inglês

12 jan

não é de agora que eu escrevo em inglês. acredito que consiga me fazer entender tanto na língua britânica quanto no nosso bom e velho “brasileiro”.
cadastrei-me num site de literatura chamado wattpad e resolvi disponibilizar o primeiro romance que escrevi, lá pelos idos de dois mil e bolinhas. curiosamente, tive dois romances publicados no brasil, um solo (tueris, que eu postei integralmente aqui e está disponível em papel e como e-book na amazon) e um feito a oito mãos, a tríade (razão de meu primeiro post no wordpress), ambos publicados pela terracota. tava mais do que na hora de desengavetar minha ficção-científica.
curioso? curiosa? vai lá no wattpad e dá uma bizoiada. é grátis, mas é em inglês.

lunatics

depois, com tempo, arranjo jeito de postá-lo aqui, em português. quem sabe? estou envolvido em vários projetos literários, quandrinhísticos, etceterísticos… aos poucos, vou divulgando tudo por aqui e pela malha da internet.