Arquivo | abril, 2013

Um querer

16 abr

um querer
2013

do que ignora não se deve desejar
o verbo parvo que emocione a alma—
o afeto porém não reconhece diploma
e independe da língua que se escreve

do que tolice espalha não se creem
as asneiras que se desejam loas—
o afeto não almeja os louros
e escarnece da testa envaidecida

de um louco não se aceitam beijos
que joga aos ventos sem destino certo—
o afeto ignora o justo,
o ético e o apropriado

amo o tolo que me beija
entrego-me ao néscio que me emociona
comprazo-me com o ósculo errante
que me acerta, ignorante e pronto

não entenderei das coisas dos mundos
nem perceberei os óbvios que ululam
mas amarei o que não entendo de todo
e me entregarei ao desconhecido ignoto

sem rimas ou metros
sem regras ou medos
apenas, assim, um querer—
um querer

vírgulas no final da linha

15 abr

vírgulas no final da linha
2012

O grito encheu a noite
E o açoite da verdade estalou
nas faces dos que apenas olham,
Ninguém foi em socorro!
Do morro, o pedido escapou
às telas dos noticiosos manipulados,
Chorou-se pelos pais assassinados
desencarnados vez e vez e vez e mais
em fotos nos jornais,
Assinaram o manifesto no facebook
sem perceber o truque que mantem a construção
de belo monte em dia,
Assassinaram o índio na parada
e a garotada nem foi presa
Ganhou de presente um passado passado a limpo,
Precisamos desaprender a ouvir os mortos
que por tortos caminhos apontam
seus algozes, seus assassinos,

nossos vizinhos(!),

Não ajudamos a moça estuprada
na madrugada na rua ao lado
do edifício em que habitamos a salvo,
Não fizemos passeata pelos expulsos
Não cortamos os pulsos pelas crianças deixadas
sem moradia do pinheirinho,
Não gritamos contra a moça parricida
que estarrecida não entendia porque
tanto estardalhaço,
Não subscrevemos o documento
Levado pelo vento do esquecimento
que matou os bichos, os índios e os brios,
Não guardamos a cara dos incendiários
os ruis, os zés e mários que se divertiram
com a fogueira viva,
Precisamos desaprender a ouvir o fantasma
das TVs de plasma que plasmam a sina
dos que só olham e nada fazem,

nossos vizinhos(?),