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Dentro e fora

14 jan

— Vem pra dentro, João!

João não se deu ao trabalho de olhar na direção da voz gasguita. O quintal, dentro do terreno, fora da casa, era um pequeno pedaço do mundo tão perigoso quanto o mundo todo, para a tia.

— Vem pra dentro, menino, que vai chover!

Meio coberto de concreto, meio areal desprezado, o terreno dos fundos do casarão refletia o descuido dos locatários e dos muitos inquilinos que ali habitaram, ocupando espaço no mundo que se reduzia, uma miniatura esconsa de um universo esquecido. No quintal, os vasos de flores exuberantes, sobre o cimentado, moviam-se sob o carinho da brisa, saudando o matagal que cobria parte do areal e devolvia o cumprimento, ciciando discursos cujos significados escapavam a quase todos os adultos.

O descuido dava testemunho da falta de recursos, de tempo, de atenção e de interesse em transformar o quintal em algo salubre. Um lugar de segredos sussurrados, de sombras projetadas por coisas invisíveis, de ameaças mais assustadoras do que as apresentadas nos programas da TV.

— João?!

Era um lugar feio de dia e arrepiante à noite. O nó na garganta mantinha-se apertado enquanto o sobrinho parecia se divertir, gritando como endemoniado, inventando singrar os sete mares na banheira abandonada cujos pés tinham artelhos semelhantes aos dos cachorros desanimados que, como ela, olhavam João de longe sem ousar sair da área concretada. Um dia, se o dono permitisse, cimentava tudo. Até lá, a geladeira tombada que já não tinha porta também era usada como nave que o levava, sem sair do lugar a mundos imaginários que resvalavam nos mundos que a tia previa, os pelos na nuca empertigados, soturnos e lamurientos. Enquanto o sobrinho gritava, atravessando o matagal, contra inimigos de vento em florestas inventadas de continentes distantes com povos com nomes impronunciáveis, ela sabia os nomes dos seres malvados que se disfarçavam para parecer bonzinhos sob o sol, mas que se manifestavam quimeras desnaturadas, projetos de pura maldade, arautos do grande inimigo. Os cães participavam das brincadeiras pelas áreas calçadas que João batizava com nomes pomposos que soavam estrangeiros, onde ela sabia que o sobrinho jamais estivera antes.

O areal, quando seco, servia de passagem para ratos, gatos, camundongos, gambás, borboletas, mariposas e sabiás. Quando chovia, virava um lamaçal prenhe de girinos, rãs, sapos e lagartos que se fartavam com os insetos que rodopiavam em nuvens caóticas e barulhentas.

— Menino! Vem pra dentro, já!

Era sempre assim: a chuva não esperava que as gentes se protegessem para derramar-se sobre a cidade. Como de costume, dedicava uma boa porção de suas águas sobre o descampado do quintal da casa da tia de João, despejando-se desavergonhada, criando riachos, lagos e charcos. A tia ficava desesperada ao ouvir João estalando a língua, articulando barulhos estranhos à sua língua materna, batizando porções de lama e córregos que se alimentavam das águas que escorriam do telhado, paredes e cimentados, sem limpar as manchas e mazelas da casa saturada pelas desventuras de quem a habitara e as desesperanças de quem a ocupava sem concretude.

Três dias chovendo forte, sob um calor infernal. Os pingos da chuva tocavam o mundo com estalos irritantes, fazendo roupas grudarem na pele, madeixas desalinhadas colarem-se às testas, porções de lama, pedaços de folhas, restos de cadáveres de insetos que escapavam à sanha dos batráquios vorazes colecionarem-se à barra das calças, ao dorso dos calçados. A alma inquieta captava cada vibração agourenta, cada resto de vida desperdiçada e incomodava-se da participação do sobrinho àquele festival macabro.

— João!

Ouvia a própria voz abafada, encoberta pela música da torrente que o mundo acolhia sem pudor. Os afazeres diários a mantinha ocupada, mas o coração saltitava com a despreocupação da criança em proteger-se da chuva, do quintal e seus seres malfazejos. Sabia que João sentia-se pouco à vontade, apesar de todos os esforços em integrá-lo ao seu mundo. Não era sua casa. Era enviado à parenta quando os pais viajavam. Mesmo sem querer, quando em vez raciocinava que o terreno baldio era a perfeita moldura àquele menino abandonado, o cenário preciso em que o humano é engolido pelo mundo, sem possibilidade de fuga, mastigado pela frieza da realidade, pela civilidade recheada de violência disfarçada e dor explícita. Lamentava que o sobrinho preferisse o areal, onde reinventava a vida e imaginava amigos sob a inspiração dos inimigos da fé.

— Vem, menino!

Desta vez, João olhou para a porta da cozinha que dava para o quintal. Sinalizou com a mão, chamando-o com cuidado para não demonstrar sua angústia. Sinalizou mais uma vez e engoliu em seco. Sentiu o aroma do cozido e acorreu à cozinha para salvar o jantar. Apenas os cachorros permaneceram sob o umbral da porta, no limiar entre os mundos improváveis e a casa possível. Os bichos estavam excitados, à porta aberta, meio protegidos da chuva torrencial, arfando e ganindo, talvez prevendo algum desfecho desditoso para o garoto que chafurdava na lama. O pensamento ocorreu à tia como um lampejo, um raio que se bandeou para a rua lateral, do outro lado do muro, do outro lado do mundo. Nem os cães conseguiram escutar o sussurro que se realizou em coro ao trovão que fez a terra toda tremer.

— Creindeuspai…

Benzeu-se com o sinal da cruz sobre o colo e correu para a área de serviço que separava a cozinha do mundo de fora, onde os cachorros ganiam lamentosos. Gritou mais para o mundo do que para João, que não conseguia ver em qualquer lugar no quintal.

— Vem pra dentro, João!

Desceu os três degraus e chapinhou na água que escorria sobre o cimentado, engolindo em seco, as gotas da chuva encobrindo-lhe a lágrima sincera que manifestava a dor em seu peito. Os cães permaneceram sob a porta, enquanto a tia mapeava o lamaçal que dançava sob a chuva e não conseguia achar o sobrinho.

Chegou à banheira e encontrou o corpo cério, os olhos frios devolvendo um olhar sem vida. Tocou os dedos das mãos e a temperatura ampliou o desconforto.

Carregou o sobrinho nos braços, sob a chuva e olhou para a porta da casa que entendia como segura. Os cães a olharam de volta, ansiosos. O retrato concreto convidava ao conforto da realidade. Ali, sob a torrente, envolta nos mundos que habitavam o mundo, imaginou uma criança sob o umbral da porta aberta, acenando e gritando seu nome.

O matiz de suas penas

9 jul

se não tivesse acordado
dormiria quase a vida inteira
foi um passarinho safado
e sua algazarra zombeteira

Em pleno feriado, foi despertado por um grupo de maritacas animadas, fazendo uma reunião ensurdecedora, em frente à sua janela. Dividido entre um desejo assassino e o deslumbramento ufano, resolveu ir até o banheiro cumprir o ritual escatológico de todas as manhãs.
Foi à janela da sala e conseguiu vislumbrar as sombras esverdeadas que passavam céleres, cortando os raios de sol, amarfanhando-se entre as copas frondosas das árvores. Desistiu de tentar contá-las ao chegar no treze.
Abriu a janela e não teve tempo de se arrepender. O frio aceitou o convite e as maritacas revoaram para longe. Fechou a janela, célere, e voltou à cama.
Não se surpreendeu em não conseguir pregar o olho. Rolou sob as cobertas por quase uma hora. Desistiu e soltou um palavrão emplumado.
Verificou as mensagens em vários servidores e grupos sociais internéticos; numa mensagem, um cliente cancelava a reunião previamente marcada. Não tinha obrigaçoes a mantê-lo desperto. Voltou à janela e não viu as maritacas.
Espreguiçou-se, aliviado, antes de retornar à promessa de conforto e abandono no leito solitário. Gastou um par de minutos achando a posição certa e a mais perfeita arrumação de lençóis e edredons, travesseiros e cobertas.
Fechou os olhos e não acreditou nos ouvidos. Elas voltavam, trazendo reforço. Na falta de arma de fogo à disposição, imaginou-se atingindo, uma a uma, as criaturas que se divertiam com as suas penas.

De passagem

11 fev

Havia muitas nuvens no céu. Brancas. Nada que prenunciasse chuva.

Havia muita gente nas calçadas. Um vai-e-vem incessante de cabeças cabeludas, em ondas; aqui e acolá, uma careca luzidia que capturava os esquálidos braços do sol que atravessavam a barreira algodoada das nuvens modorrentas.

Ficou ali na praça pensando em como a multidão não tinha cara. As nuvens assumiam mais identidade em suas formas fugidias do que os rostos amuados que se misturavam nos passeios. O ritmo da procissão no céu era ralentado e apenas o fluxo de carros nas pistas das ruas que se cruzavam era mais intenso do que a caravana apressada da multidão de solitários.

Na mão, o envelope com o resultado dos exames apanhados há pouco no laboratório de análises. O céu nublado não dava sinais das constelações que alguns insistiam poder definir os destinos e no papel um dos signos anunciava um prognóstico funesto.

Nunca fumara, nem abusara de químicos maléficos. Nunca experimentara os carinhos lânguidos de amantes insaciáveis. Não consumira destilados ou fermentados a ponto de perder a consciência. Tinha dúvidas se lamentava tudo isso. O calendário não alcançara mais do que dois meses além das duas décadas e um ano de vida. A maioridade chegara solitária como os atores naquele espetáculo polimorfo da mutidão que passava.

A cidade parecia crescer como o acúmulo de células desesperadas que se multiplicavam em suas entranhas, atrapalhando o tráfego dos intestinos e cobrando um pedágio impossível de ser pago em vida.

Sentia dores leves pelo abdômen entumecido.

Quanto havia que ainda não experienciara, quanto sonho adiara por isso ou aquilo, razões indefinidas, medos impalpáveis, sustos antecipados. Quase sorriu ao lembrar do tanto que sacrificara para parecer normal; vestira-se a contento, cumprimentara o vizinho antipático, aquiescera aos comentários maldosos da avó bisbilhoteira, lera livros sem graça e sorrira de piadas mal compostas; não beijara a prima gostosa, nem comera a vizinha casada; não roubara fruta da feira ou bala da loja; evitara mentir e masturbar-se com frequência.

Saboreaou o novo sentimento e despediu-se de um azedume envelhecido num canto empoeirado de sua história.

Fora bom aluno, bom filho e cidadão.

O futuro parecia curto e mesquinho, e o passado, um longo e desnecessário desperdício.

Esperou que o vermelho desacelerasse os carros e atravessou a rua, misturando-se à multidão. Seguiu como hipnotizado até a avenida principal. Parou atrapalhando a parada.

Deitou-se em diagonal, em meio ao passeio, impedindo, como um câncer, o fluxo de pessoas com pressa. Pouco a pouco, curiosos se amontoaram para tentar intuir as razões do sujeito estirado, acotovelando-se para poder olhar para ele que queria apenas dividir com todos um pedaço de solidão e olhar deliciado para as nuvens que deslizavam tranquilas no céu.

Imitação barata

16 jan

Passou os dedos sobre os sulcos pouco fundos e pareceu satisfeito com o resultado. Fechou a lâmina do canivete e afastou-se um pouco, uns dois passos para trás. Lá estava a obra terminada. Gravados sobre a casca do tronco do oitizeiro, dois nomes separados por um coração estilizado, alinhados na vertical. Uma mensagem singela embora nada original: Theo ama Sophia. Se não fosse uma data especial, conectar-se-ia à Internet e enviaria theo ❤ sophia, poupando tempo, esforço e a árvore que escapara da serra elétrica que mandara a parentalha para fábricas de papel.
Como em outros momentos de sua curta existência, Theodoro de Lira acreditou estar sendo observado. Os olhos da vila daquele subúrbio distante? Imaginou um deus iracundo a censurar a mensagem escalavrada na dura pele enrugada da árvore ou um cronista sem muito talento recriando histórias há muito contadas (e bem melhor realizadas, em conteúdo e estilo). Theo olhou em volta, mas, na realidade, não havia qualquer vivente que o pudesse importunar naquele pedaço de seu mundo.
Com uma mão, guardou o canivete (uma cópia capenga de um Wenger suíço) num dos bolsos frontais de seus jeans, enquanto sacava, com a outra, seu telefone celular. Esticou o braço ao máximo, apontando o aparelhinho para si mesmo e à árvore decana. Fez pose. Sorriu. Acionou o disparador. Verificou na telinha da máquina, franziu a testa e assentiu. Com movimentos rápidos e precisos dos dedos de unhas comidas, salvou o instantâneo e o enviou para a amada.

No hall de entrada, conseguiu controlar o susto com o grito inesperado.
– Fifi! Seu namoradinho!
A voz esganiçada do irmão mais novo à porta foi dirigida a ele, em seguida; o menino imberbe analisava-o como quem não se decidisse entre vomitar ou escarrar.
– Vai lá. Ela tá na biblioteca.
Theo era um garoto de quinze anos de idade. Não era muito bonito. Nem pouco. Usava uma t-shirt cinza, folgada, com algo escrito em cirílico (que ele não tinha a mínima ideia do que significava), um par de jeans de um azul esquecido e os famigerados All Star roxos com buracos nas lonas e nas solas. Os hormônios hiperativos geravam miniaturas de vulcões pelo rosto de traços angulosos.
Atravessou o enorme apartamento como quem percorre o corredor da morte, antecipando uma sina indesejada. Falou um oi animado, mas foi recebido com frieza.
– Sentaí.
Tentou aproximar-se para dar um beijo, mas o gesto peremptório o demoveu. Aboletou-se numa das bergéres vermelhas e deixou que o incômodo virasse pergunta a queima-roupa.
– Recebeu a foto?
A resposta em forma de um menear desanimado piorou a sensação. Sophia não tinha reconhecido o parque para onde ele a levara para pedi-la em namoro. Fazia exatamente um mês que tinham iniciado oficialmente a relação atabalhoada. Planejara escarafunchar o oitizeiro com alguma antecedência, um mimo que acreditara poder agradar sua namorada fashionista.
Sophia, quase 16, usava peças de roupa de sua própria grife. A paixão impedia que Theo achasse que eram peças indevidas a qualquer ser humano. Os cabelos desgrenhados e tinturados de verde o agradavam de verdade. Sophia era bonita. Lindíssima, preferia Theo. Algo em sua expressão gélida embotava um tanto da beleza que o embriagava.
– O que significa?
– Hoje é o dia de nosso…
– Faz um mês, né?
– Você prestou atenção na fotografia?
Sophia desconfiou da prosódia do namorado. Com enfado, deixou de tentar combinar mentalmente tecidos e texturas para olhar, mais atentamente, a foto recebida. Desconfiou mais ainda ao reconhecer os sinais sulcados no tronco e como pareciam uma desprezível mensagem mística, um truque banal e barato.
– Theodoro…
O nome inteiro… Theo teve certeza de que algo estava muito errado. Sophia apanhou um livro de sobre a mesa com muitos desenhos que ela espalhara sobre os muitos cortes de diversos tecidos de estampas e cores discretíssimas, indistinguíveis para os olhos escuros do namorado. Era uma coletânea de contos de um daqueles escritores antigos que precisavam ser estudados para o vestibular. Sophia balançou o volume e arqueou as sobrancelhas. Estatelou-se sobre uma poltrona de couro bege e depositou a obra sobre as coxas protegidas por um tecido leve e tão negro como o esmalte brilhante sobre as unhas bem cuidadas.
– Conhece?
– É o cara das memórias do morto, né?
O belo sorriso voltou a iluminar o rosto de Sophia, enquanto ela folheava o livro em seu colo.
– Eu tentei achar um conto, mas esqueci o nome. Era uma coisa com um cara famoso, um músico. Terminei achando outro, muito bom, cantiga de esponsais.
Theo detestava corroborar a imagem de ignorante, mas não conseguiu se conter.
– Hem?
O riso irônico iniciou o processo de humilhação.
– Coisa de gente que pretende casar ou que acabou de casar. Uma canção nupcial. É o nome do conto do Machado em que um músico…
– Ué! E não era outra história que tinha um músico?
– Um autor pode escrever sobre vários músicos, Theodoro…
Ao perceber que Theo não pretendia retrucar, Sophia continuou.
– Esse homem velho, o Mestre Romão, era um maestro dos bons. Era carioca e regia uma orquestra numa paróquia lá no Rio. Todo mundo conhecia ele e achava ele fodástico.
Sophia fez uma pausa e olhou de soslaio para o namorado enquanto passeava com os dedos sobre as letrinhas impressas no livro que se insinuava entre suas coxas. Theo sabia que não tinha saída: teria que ouvir a história até o fim.
– O engraçado é que ele ficava transformado enquanto tava regendo aquela orquestra. Era acabar a apresentação e ele perdia o brilho.
Theo comentou à guisa de desafogar sua inquietação.
– Fazer o que a gente gosta deixa a gente feliz.
Sophia o olhou como se visse algo surpreendentemente novo. Perscrutou-o por poucos segundos e pareceu não achar algo que corroborasse aquela impressão fugidia. Baixou os olhos, lendo em voz alta.
– “Sobre uma cadeira, ao pé, alguns papéis de música; nenhuma dele… Ah! Se mestre Romão pudesse seria um grande compositor”. O cara tentava o quanto podia pra criar algo. Mas nada. Um dia, lá pelos 70 anos, ele ficou doente. O médico falou que ele tava bem, mas tinha que esquecer da música. Saca só: o porra do médico queria que o velho deixasse de pensar naquilo que ele mais amava. E é claro que o velho mandou o médico pra merda e resolveu que tinha que terminar de compor uma música que ele tinha começado no tempo que ainda era casado.
– O que aconteceu com a mulher?
– Morreu. Novinha. Esse mestre Romão queria fazer uma cantiga pro casamento deles, mas nunca terminou. Daí, depois da visita do médico, tinha certeza que tava pra morrer e resolveu terminar a tal música. Ele queria ser lembrado por aquela obra, sabe?
– Peraí, quem cuidava da casa?
Sophia suspirou.
– Ele tinha um escravo velho que cuidava de tudo.
– Escravo?
– Não tem importância, Theo.
– Claro que tem importância. Esse músico é um filho da p…
– Outros tempos, Theodoro! Se toca!
Theo sabia ser inútil discutir com Sophia. Deu de ombros e Sophia continuou.
– O cara não tinha inspiração. Tentava e tentava e não conseguia fazer nada que combinasse com o começo esboçado. Numa janela do lado de lá do quintal tinha um casal recém casado na janela, namorando. O velho ficou incomodado porque não conseguia fazer nada que prestasse. E ele queria ter algo pra ser lembrado. O velho ficou puto e rasgou as anotações antigas. Aí percebeu que a moça do casal lá do lado de lá começou a cantarolar uma melodia bonita que cabia direitinho como continuação da canção que ele tinha começado.
E ela voltou a ler.
– “O mestre ouviu-a com tristeza, abanou a cabeça, e à noite expirou”.
– O quê? Expirou?
– Passou do prazo. Morreu. Bateu as botas. Entendeu?
– Entendi.
– E então?
– Então o quê?
– O que achou, Theodoro?
– Acabou? A história acabou assim? Num tem mais nada?
– Tá vendo? Você não tem qualquer vontade de fazer alguma coisa especial. Você não tem sonhos, Theodoro. Você acha que o que sabe já tá bom demais. Eu quero saber sempre mais. Eu tenho muito a dizer.
Sophia fez uma pausa, desconfiou de sua gramaticalidade, mais uma vez, sem atentar se era influência do autor que admirava ou uma necessidade subconsciente de aumentar o hiato que a separava daquele moleque apaixonado. Não deu tempo para Theo reagir.
– Tenho muito pra fazer. Muitos planos. Eu vou ser alguém importante. Eu quero ser lembrada por alguma coisa que eu tenha feito. Veja quantas ideias eu já rabisquei pra minha próxima coleção. Vai ser um arraso!
– Do que é que você tá falando?
– Se eu deixar de fazer o que eu quero… Se eu não transformar minhas ideias em realidade, alguém vai fazer! Eu não quero chegar ao fim da vida e descobrir que eu podia ter feito alguma coisa pra virar gente de verdade. Eu não quero morrer como o velho Romão Pires!
– Não! Isso eu entendi!
Inspirado pela exasperação da namorada, Theo levantou-se e tentou se aproximar. Sophia reagiu rapidamente e repetiu o gesto imperativo, apontando a bergére.
– Sentaí!
Theo jogou-se sobre a poltrona e disparou, usando a boca e os braços para explicitar sua preocupação.
– Eu não consigo é saber o que isso tem a ver com a gente. Por que você tá assim distante?
Sophia voltou ao livro de contos. Theo choramingou.
– Sophia, você sabe que eu não gosto de livros…
A namorada o fuzilou com o olhar.
– Esta é uma das grandes diferenças entre nós, Theodoro. Eu não quero me transformar numa ilha, como você.
– Ilha?
– Este outro conto se chama habilidoso.
Ela voltou a ler diretamente do livro.
– “Paremos neste beco. Há aqui uma loja de trastes velhos, e duas dúzias de casas pequenas, formando tudo uma espécie de mundo insulado”.
– Mas que jeito esquisito de dizer as coisas. Boiei.
– Mundo insulado: uma ilha.
Theo odiou-se por ter feito papel de bobo mais uma vez e prometeu-se ficar calado até que aquela outra história terminasse. E tinha certeza de que seria tão sem graça como a primeira.
E Sophia foi lendo aquela história. O narrador levara Sophia a fazer parte da pequena multidão que se amontoava diante da loja de trastes para observar o dono em seu esforço em lambrecar uma tela com os pigmentos que, mesmo bem-intencionados, nada podiam fazer para transformar as pinceladas em matéria com alguma consequência. O narrador hábil forçava o namorado a ser uma das testemunhas da cena patética, mas era forte a teimosia do moço cheio de espinhas na cara que não nutria afetos por livros. Parte da magia da narrativa se perdeu em meio à raiva pulsante que se ampliava, abafando a voz de Sophia e dificultando a respiração de Theo. A história se desenrolava e o namorado se sentia cada vez mais estrangeiro naquele apartamento do tamanho do Maracanã, naquela biblioteca repleta de livros que ele preferia não respeitar. Theo escolhera não se deixar enganar por aquele mundo irreal, inalcançável, aquela coleção de sonhos e fantasias que apenas o poderiam descolar do chão, do mundo concreto em que a poesia poderia se manifestar apenas em gestos estudados e mimos anódinos sulcados em troncos de oitizeiros num parque anônimo num subúrbio da cidade.
Theo sentiu-se uma ilha e se odiou mais por isso. E odiou Sophia e a narrativa hipnotizante que falava daquele homem que desconhecia os fundamentos da arte, mas não se detinha em sua busca por reconhecimento.
Não eram todos os seres humanos necessitados de aplauso? Carentes de atenção? Sedentos de glória? Ao começar a se reconhecer em João Maria e sua postura contrária ao velho Romão, Theo passou a odiar o autor da obra.
– “Assim que, o círculo das ambições de João Maria foi-se estreitando, estreitando, estreitando, até ficar reduzido aos parentes e conhecidos”.
João Maria era habilidoso em esculpir figuras de barro e reproduzir ícones religiosos com as mais diversas paletas. Theo era habilidoso em reproduzir lugares-comuns nos relacionamentos que mantinha e nos afetos que nutria.
O desafeto pelos livros impregnou-se do ódio que o sufocava. Odiou-se porque sabia-se João Maria, ao final e ao cabo, satisfeito em ter uma plateia pífia de gente que não poderia, nunca, entender suas razões e qualquer resquício de real talento que a natureza pudesse ter reservado para si. Sentiu-se observado, olhou em volta e viu os olhos das lombadas de milhares de volumes acusando-o em uníssono à voz de Sophia, que proferia as últimas linhas do conto maldito.
– “Que este é o último e derradeiro horizonte das suas ambições: um beco e quatro meninos”.
Sophia e Theo ficaram se olhando por um tempo que pareceu muito e pesado. Sophia, acreditando-se melhor do que Theo, melhor do que João Maria, melhor do que Romão Pires, acostumada a uma vida de luxo e glamour, de brilho emprestado, via-se incapacitada em manter uma relação com alguém que, em pouco tempo, aprendera irremediavelmente a desprezar. Theo sentiu-se humilhado por ter sido desmascarado, mas, principalmente por entender que Sophia, presunçosa, não conseguia ver que havia pouco a distingui-la do velho Romão e sua falta de talento.
Theo levantou-se e Sophia repetiu o gesto para que ele voltasse a se sentar. Theo fixou os olhos faiscantes nos da garota que ele agora odiava e ergueu a mão direita, como se a estendesse num pedido, uma súplica desesperada. Rapidamente, dobrou todos os dedos sobre a palma da mão, deixando em riste apenas o dedo médio, explicitamente grosseiro. Deu as costas ao antigo alvo de seu afeto e caminhou, resoluto, odiando até um deus em quem não acreditava, através do corredor que o levava de volta à vida.

Não mais se importava se estava sendo observado, avaliado, julgado. Deus ou escritor de narrativa enviesada, ninguém conseguiria reaver a magia daquele que fora o seu refúgio secreto, o nascedouro de um sonho bom que agora o assombrava.
Parou em frente ao oitizeiro e teve dificuldade em reconhecer seu próprio trabalho naquela mensagem que mais parecia uma piada de mau gosto: Theo ama Sophia (com um coração em substituição ao verbo). Teve ganas de derrubar a árvore galhofeira. Era preciso destruir qualquer lembrança do afeto que azedara. Olhou a maquininha que fotografava, conectava-se à Internet, fazia as vezes de despertador, calculadora, cronômetro e relógio, e enviava mensagens em códigos quase risíveis. Lamentou que o celular também não funcionasse como desintegrador de matéria. Se assim fosse, a polpa não correria risco de virar papel e qualquer possível futuro registro de amores vãos seria mandado para um dos quintos do inferno cristão ou um buraco negro no outro lado do universo.
Coçou a nuca, desalentado. Acreditou ouvir alguém assobiando uma canção de amor piegas, uma balada pop ou um sertanejo-country cuja poesia reles que, como visgo insidioso, não largava da memória e falava de vingança. Aventou algo dramático como tomar veneno. Ou algo trágico como vazar os olhos.
Sem perceber, cantarolou a musiquinha ridícula. Estancou e sorriu. Sacou o canivete e liberou a lâmina afiada. Não havia nada melhor a fazer, mesmo.
Com diligência, escavou um grande xis sobre o coração. A mensagem agora era precisa: Theo não ama Sophia. E ficaria registrada para todo o tempo em que o sempre pudesse se perpetuar. Não era uma obra perfeita, sabia. Não precisava de qualquer plateia a corroborar sua habilidade em manipular a lâmina do canivete.
Regozijava-se em poder se revoltar contra o destino (esse deus mal-intencionado ou esse narrador incompetente) que fizera de sua vida curta uma comédia sem qualquer graça, uma sitcom arrítmica e sem frases bem redigidas.
Seria o dono de sua vida para além de qualquer limite possível. Encarnaria o próprio deus delirante e decretaria felicidade a qualquer custo, prazer a qualquer preço, sem precisar de mais ninguém.
Estava no século XXI. Quem, em plena época dos computadores, precisaria de um romance mal acabado? Quem, deveras, careceria de um drama emo pós-modernista?
Sua vingança estava completa, com uma negação escavada com gestos nervosos e apenas um canivete afiado. Segurou a pequena ferramenta, displicente, e a enfiou de volta ao bolso da calça surrada. O episódio estava acabado, mas a grande aventura estava apenas por começar.
Theo de Lira deixou o parque acreditando que jamais precisaria de um outro amor. Tinha certeza de que não mais precisaria de reconhecimento ou aplauso. Deu uma última olhada sobre a frase sulcada no oitizeiro.
Sorriu. Já não achava tão estranha a ideia de um dia precisar de Machado.