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azia e má digestão?

24 dez

Este texto foi originalmente publicado no portal do Estadão Online, lá pelos idos de 1997, como parte de crônicas que eu chamava de Papo-furado, sempre falando sobre o universo dos quadrinhos e ilustrações. Com a chegada do novo ano, rearrumando as tranqueiras e velharias, me deparei com alguns textos que acredito ainda serem de alguma pertinência.

Prato-feito

Existe um grande monstro. Solta fogo pela boca. Suas garras são poderosas, talões capazes de cortar um ser humano ao meio. Seu brado retumbante pode gelar o sangue do mais corajoso dos mortais.
Existe um grande herói. Um ser gigantesco, capaz das mais incríveis proezas. Suas mãos poderosas são capazes de mover o mundo e afagar com extrema delicadeza. Sua voz gentil pode amolecer o mais endurecido dos corações.
Fazer parte do mundo das Histórias em Quadrinhos é estar sob os olhares desta entidade meio herói, meio monstro.
Existe a indústria das HQs, essa coisa feita de editores, agentes e artistas, eternamente em movimento para levar ao público a melhor opção para investir seu suado dinheirinho. Existem os sonhos, os ideais, a procura da obra perfeita, do aplauso sincero e a eterna busca da fama e da fortuna. Existem os fracassos, os encalhes, os prejuízos, as críticas maldosas, o esquecimento e a miséria.
Existe o mercado das HQs, essa massa que paga para que as engrenagens da indústria continuem azeitadas e sua cota de sonho e de ideias continue a encher suas vidas através do comum, do bizarro e do fantástico, lidando com as alegrias dos títulos pontuais e as frustrações das séries canceladas.
Numa e noutra instância, mitos são erguidos, aos apupos, e derrubados, sob pás de cal.
Num dia, o herói mata o monstro. No outro, o monstro devora o herói.

Gastrite

É isso o que espera aqueles que pretendem embrenhar-se nesse universo, fazer parte das engrenagens dessa máquina quase humana.
O valor do trabalhador, agora, mais do que nunca, é medido por sua capacidade de produzir. E produzir de maneira satisfatória. As mass media correm atrás do dinheiro e contra o tempo. Essa corrida maluca impõe um comportamento, via de regra, mecânico, desumano.
O gibi na banca é apenas a ponta do iceberg, ou melhor, o sorriso do herói. O monstro prefere alimentar-se das almas daqueles diretamente envolvidos na produção dos gibis; editores, agentes e artistas vão se matando (trabalhando feito camelos e distribuindo socos e palavrões entre si) pra manter o herói sorrindo e o monstro de boca fechada.
O público consome, não só o produto do trabalho, mas também, a mítica transformação do sapo em príncipe: os editores ditam moda, os agentes ficam milionários e os artistas viram deuses. A ilusão é perfeita, mas o truque é barato.
O público consome o mito: respira, toca, esfrega, manuseia, aplaude, vaia, xinga, exaure e esquece. O público é também meio herói, meio monstro.
Quantos “quadrinhólatras” são capazes de lembrar de Töpfer, Agostini, Pfeininger, Outcault, McCay, Fredericks, Segar, Foster, Raymond, Colin, Colonese, Shimamoto, Seto, Aizen e tantos outros nomes das HQs mundiais? Lees, McFarlaines, Moores, Gaimans, Chaikins, Millers, Madureiras, Cruzes, Coutinhos, Bás e Moons, Manaras e Portelas, como os mestres, compraram bilhetes de um trem que pode trilhar caminhos distintos; um leva ao Olimpo, onde o herói governa manso e os afaga com carinho; o outro leva à caverna escura onde habita o monstro faminto, repleta de galerias onde os esquecidos se acotovelam, esperando, sem pressa, a hora da refeição da besta.

Antiácidos e digestivos

Que não sejam a fama e a fortuna os principais motivadores daqueles que sonham comprar um bilhete nesse trem. No comboio, há burocratas desalmados, mentirosos renitentes, investidores gananciosos, torturadores sádicos e cleptomaníacos incuráveis. Há, também, ingênuos talentosos, incentivadores isentos, críticos ubíquos, desbravadores destemidos, inventores incansáveis e sonhadores persistentes. Todos importantes na manutenção da existência do monstro e do herói.
Que sejam esses últimos a inspirar mais profundamente os que invadem a estação. Que seja o sonho de transformar a realidade e o pedaço de mundo de cada leitor o fio condutor de sua viagem.
Existe um grande monstro e existe um grande herói. Duas das tantas faces da criatura que costumamos chamar de universo dos quadrinhos.
Que o sonho seja a razão para manter o herói sorrindo, mas se for a sorte de alguns virar banquete do monstro, que o alívio seja a certeza de que os nomes dos sonhadores podem ser esquecidos, seus sonhos, no entanto, enquanto existirem o herói e o monstro, permanecerão.

(Este texto é dedicado aos sonhadores, lembrados e esquecidos, e ao monstro/herói que existe em cada um de nós)

xxix · o final, afinal

5 dez

Embora não apenas isto, esta obra é uma confissão. E deixa evidente que o sonho de tornar-se escritor foi consumado. O autor conseguiu ver muitos de seus sonhos virarem realidade.
As viagens dos astronautas e das naves sem tripulação encheram a Internet de imagens do planeta azul que saciaram metade da vontade do autor de ver a Terra do espaço.
Tudo tem um fim: É chegada a hora de preparar as despedidas e matar o pouco que sobra do seu tempo emprestado. Logo ali, a última letrinha, o ponto final definitivo prometido. Ao fechar este livro, você, caro leitor, dileta leitora, também chegará ao fim. Essa manifestação de sua existência simplesmente cessará. Com seu desaparecimento, o autor terá completado o derradeiro assassinato, a mais importante tarefa, a mais difícil das missões, o sonho mais almejado.
Hmm… Pensando bem: resta ainda ganhar o Nobel de Literatura.
Não falei que a presunção era sem limites?

XXVIII · mea culpa, mea maxima culpa

4 dez

Afasto-me do relógio de madeira marchetada e dou trégua aos ponteiros exauridos. Chegamos ao futuro, cara leitora. O presente virou passado e eu preciso fazer minha confissão.
Admito ter cometido pecados durante a produção desta narrativa, e, fingindo não ser o principal responsável pela existência do leitor, peço, cabisbaixo (uma encenação barata), seu perdão por todas as faltas perpetradas aqui. Não foram poucas.
Você, leitor, foi obrigado, amiúde, a quebrar a cabeça para acompanhar as rápidas passagens nas muitas estripulias com o calendário. O estilo enviesado talvez seja resultado das viagens pelo tempo na nave de Hajykapadtydg; durante anos senti-me inapto a lembrar de tudo numa linha temporal contínua.
Alterei os nomes dos personagens. Todos os sobrenomes, pelo menos. Inclusive o meu! Não é verdade que tenha ficado preocupado com o direito de anonimato de meus vizinhos no Tueris Fustado. Gastei muito tempo roendo os cantos das unhas, pensando numa maneira de evitar que os fantasmas do passado, e mesmo os vivos, resolvessem bater à porta, reclamando de seu envolvimento involuntário nesta narrativa. Muitos dos prenomes foram mantidos. Ainda há chances, poucas, é claro, de que algum familiar reconheça essa ou aquela pessoa real nas personagens retratadas aqui e venham reclamar participação nos lucros (isso realmente existe em literatura produzida no Brasil?) ou uma retratação pública. Porém o autor acredita ter conseguido ser fiel aos fatos sem comprometer qualquer dos envolvidos neles.
Menti quanto aos extraterestres também. Há certos preconceitos a serem derrubados aqui. Safados rigelianos são. Acredito que Klpytdy e Tajkdy sabiam, todo o tempo, o que estavam fazendo quando me levaram numa corrida maluca, aqueles… Aqueles flatulentos! É preciso muito cuidado com os acertos feitos com moradores de outros planetas. Não é verdade que os ETs são todos amistosos ou bem intencionados. Os ursamajori, por exemplo, são definitivamente canalhas. Para os rigelianos, tocar as pontas dos dedos é mais sério do que assinar o nome num papel. Nunca, sob nenhuma hipótese, aperte a mão de um centauri: é um convite a troca de energias, como numa relação sexual; para eles não há qualquer problema nisso, mas não é nada agradável, para nós, pobres terrestres, ter que limpar esperma da cueca e das calças, além de ter que fazer uma força descomunal para manter as pernas sem tremer (às mulheres talvez isso não incomode tanto). Para viciados em livros, sempre me pareceu estranho que o que é falado nem sempre vale para esses seres. A palavra é bem menos importante que o toque físico. Lembrem-se do roubo do sanduíche de Marlise e das pizzas apropriadas indebitamente por Tajkdy! As promessas de me levar em passeios pela galáxia nunca foram cumpridas… Aqueles safados! Seria inteligente não confiar totalmente nos extraterrestres.
Quantas desventuras e atropelos desde o primeiro parágrafo e a derradeira palavra deste manuscrito: familiares teimaram em adoecer e falecer, empregos foram perdidos e algumas crises de criatividade confundiram-se com episódios depressivos.
Sei, sei. Sou um pecador capital. Acho que até hoje não perdoei minha mãe completamente, carregado de rancores (ira). Economizei (avareza) muito amor desnecessariamente; meus casamentos falidos são provas incontestes de que jamais me entreguei completamente, traindo os amores que me eram dedicados. Troquei beijos sensacionais e fluidos corporais (luxúria) com garotas que se satisfazem sendo vedetes orkutianas e estrelas de fotologs e blogs e bligs pela Web afora. Não é fácil escapar da armadilha de encher o prato (gula) com os muitos petiscos disponíveis no buffet da vida exposto nas páginas do Facebook. Tirei a vida de um semelhante; divulgo aqui o delito e pretendo permanecer incólume, me comprazendo (orgulho) com o fato de escapar à lei. As muitas repetições (preguiça) em vários capítulos poderiam ter sido evitadas? Adoraria escrever como James Joyce e vender como Paulo Coelho (pura e genuína inveja).
Como acreditar num tal pecador contumaz?
Nunca menti sozinho. Inadvertidamente, Neneca, Kaká, Amanda, Anastácia, Maleco, Davizinho e Biel foram meus cúmplices diretos.
Pare agora, neste instante, e olhe-se no espelho. Que mentiras você esconde de si mesmo? Quais verdades estão sendo sufocadas neste momento? As verdades costumam ser muito cruéis e as mentiras mais fáceis de engolir.
Admitamos: Renée precisava morrer!
Renée precisava morrer porque fazia parte de uma história escrita em que ele morria! Se ele não morresse, a história teria ficado suspensa, a obra ficaria sem ser lida até o final, a razão de ser da narrativa não faria qualquer sentido.
Ah! Mas bem mais que isso!
Renée precisava morrer porque ele tinha coragem de dizer o que todos desejavam (mas calavam), porque ele cuspia as mentiras que eram sufocadas nos momentos mais íntimos. Renée desmascarava a todos sem piedade e expunha o que de mais mesquinho havia em cada um de seus vizinhos.
Ele era a prova viva de que barreiras podem ser quebradas, limites podem ser ultrapassados. Que nossa medíocre hipocrisia denuncia nossa pequenez moral.
Como pode um homem ousar revogar a lei divina de nossa escravidão? Como duvidar da sabedoria de Deus ou da Natureza em escolher um sexo para cada indivíduo? Renée Druon era a prova inconteste de que podemos ser donos de nossos próprios destinos; algo contrário à teoria defendida por mim desde o início!
Um homem assim não poderia continuar vivo. Em toda a História, muita gente morreu porque ousou questionar a moral vigente, porque decidiu denunciar a mediocridade em que viviam seus conterrâneos e contemporâneos.
Era a mistura ao mesmo tempo mágica (pois que truque, falsidade, enganação) e dolorosa (pois que incômoda, completa e inequívoca) explicitada na amizade de Biel e Davizinho – atente para o paralelo do encantamento da beleza radiante de Biel (Renée ofuscava a todos por sua coragem e sua ousadia) e a feiúra do pequeno judeu (Renée era uma caricatura canhestra de mulher afetada, dondoca fútil, manequim de estilista enlouquecido).
Quase todos os meus personagens tinham razões para querer Renée morto. Cada um com sua mentira.
O próprio Renée queria acreditar-se o salvador do mundo, o cavaleiro da justiça e da moral, um Jesus extemporâneo e apaixonado que se entregou ao carrasco em sacrifício.
Eis as mentiras expostas, jogadas na mesa como cartas que se podem esconder nas mangas. Todo o resto, meu caro leitor, é a mais pura verdade.
Assumo toda a culpa por trazer, dos subterrâneos, a memória do Tueris Fustado, seus moradores e suas histórias que não devem ser esquecidas.
Este livro se encerra e passa a ser o passado em sua estante, num sebo qualquer ou a se desfazer num aterro sanitário. Ele chega ao fim sem a resposta exigida pela última questão.
Por que você queria Renée morto?

XXVII · para o vento não levar

2 dez

Recentemente construíram a nova central de um desses sindicatos de trabalhadores da área alimentícia no bairro da Bela Vista. Por ser amigo do filho de um rico empresário dono de inúmeras panificadoras, fui convidado à inauguração.
Apanhado em casa pelo tal amigo, não atinei para o endereço familiar. O choque foi inevitável ao reconhecer o local onde um dia se assentavam as estruturas do edifício Tueris Fustado.
Os frisos dèco deram lugar a esquadrias de alumínio anodizado. As colunas de adobes maciços foram substituídas por vergões de aço e papa endurecida de concreto aditivado. A fachada espelhada, inteiramente coberta por anódinas placas azuladas de vidro temperado, provocou uma pontada lancinante no peito do escritor.
Para onde tinham ido todos? O que fora feito do velho coronel, do assassino serial e do travesti assassinado? Estariam ainda a vagar pelos andares acarpetados, repletos de células fotelétricas e saídas do frio do ar-condicionado central? Iriam atanazar o cotidiano dos trabalhadores do sindicato, alterando números, aqui e acolá, em relatórios importantes e mal arrumados documentos digitais de apresentações de Power Point?
Uma tontura incontrolável exigiu uma cadeira amiga num canto ainda cheirando a tinta acrílica de secagem rápida.
Não havia mais nada a lembrar o Tueris e seus assassinos. Para o edifício que fora zelado por Hélvio, o profeta do fim do mundo, o fim havia chegado.
Um filete de suor escorreu pela testa, fazendo contraponto ao que descia pelas costas, passando por cada saliência da coluna e marcando a camisa, 30% algodão, 70% viscose, que não devia ser passada a seco.
A decisão de escrever este registro foi tomada naquele canto da nova edificação envidraçada, caro leitor. Uma decisão engolida a seco e com as mãos tremendo.

XXVI · famulus mundi

1 dez

Então foi essa a sua escolha? Matar Renée Druon?
Infelizmente, você não era o único a desejar a morte do dono de Mustache.
O autor adoraria imputar a culpa do assassinato a Romildo Rotti, completamente imbuído em livrar-se da ameaça do travesti intrometido, porém nosso desonesto bancário de múltiplas identidades chegou ao apartamento de Renée momentos depois de sua queda. Procurou por sua vítima e não o achou. No corredor, foi recebido pelo cachorro antipático. Os latidos estridentes o deixaram maluco. Não cometeu canicídio por pouco. As luzes vermelhas e azuis que piscavam em frente ao edifício o fizeram debruçar-se na varanda, por curiosidade.
Azar. Foi visto, reconhecido e preso em flagrante. Uma investigação sumária desmascarou seus engodos e consubstanciou o motivo do crime. Os policiais divertiram-se com a garrafa de Riesling na geladeira de Renée e dividiram a pequena fortuna encontrada no paletó do suposto assassino; disso ninguém ficou sabendo oficialmente.
O caso virou manchete de jornal. O Diário Popular chegou a aventar um romance entre os dois, marinando a notícia com toques de crime passional. Dois dias depois do assunto vir a público, não se conseguia mais achar qualquer sinal das contas frias em que Romildo espalhara, com diligência, a fortuna roubada dos mafiosos de sua terra natal.
Romildo Rotti, alías, Santino Branco, aliás, Armando Cabidela, na verdade, André Madeira, era um artista da fantasia que não resistiu à dureza da realidade, um domador de um circo em que as feras levaram a melhor. Seu cadáver foi encontrado oscilando sobre um banquinho cinco centímetros mais baixo que a distância entre seus pés e o chão, a língua roxa de fora da boca, como se tivesse usado os lençóis para se enforcar. Fora estrangulado, isso sim. Os policiais não precisaram divulgar o resultado da investigação (não foi feita investigação alguma – já não era carnaval, mas sempre se arranjava um feriado para adiar as coisas mais urgentes). Todos sabiam que um tentáculo de um monstro goiano enveredara-se nos meandros da lei, suicidando André, em sua cela, dois dias antes do seu julgamento. As fofocas apimentadas à guisa de rapport social foram ampliando os defeitos de André Madeira. Aventou-se que ele também teria dado cabo de Oscar Delgado, o que se provou insustentável.
Do que se sabe, as últimas pessoas a ver Oscar vivo foram Marlise Utinga e seu filho Gelson, pouco tempo antes da morte de Renée. Oscar deve ter decidido procurar um universo mais amigável, voltar ao seu próprio mundo, talvez, para rever a mãe.
A garotada conseguiu manter os parentes em casa, mas ninguém precisou usar de qualquer álibi.
Quem matou Renée Druon escapou da justiça dos homens e não acredita numa justiça divina. Se aqui se faz e aqui se paga, a culpa está dividida entre a mão que o empurrou para uma morte certa e a outra que virou a página.
O tempo virou.
O dia estava ensolarado e quente. A tempestade se iniciou pouco antes da queda de Renée. Era tarde. Chegaram com as luzes do dia dando lugar aos postes, luminosos e néons. Gelson pôs os pés no piso do terraço e voltou-se para Tajkdy, no limiar da plataforma.
– Quando outra vez nos vemos?
O rigeliano sorriu.
– Vê?
Tajkdy apontou para a outra nave estacionada logo atrás.
– Ainda estamos aqui!
Não conseguia ver o outro amigo, o mau humorado, mas gritou, tentando vencer o barulho da chuva que engrossava.
– Obrigado, Klpytdy! Obrigado, Tajkdy!
A plataforma se fechou enquanto as últimas palavras atingiram seus tímpanos. O significado demorou mais para ser apreendido.
– Esperamos que tenha conseguido o que queria.
O que queria? Viajara pelo tempo, mas não conseguira ver a Terra do espaço. Perdera muita coisa naquela aventura maluca. O que poderia ter ganhado?
E ainda não tinha o livrinho. A nave levantou voo e pairou por um segundo à sua frente, antes de desaparecer. A outra nave permaneceu. Sorriu um sorriso mortiço que se apagou quando os telefones dispararam a tocar.
Correu como um desesperado e quase esbarrou em si mesmo e nos amigos de quem acabara de se despedir. Desceu as escadas, mas percebera a cara de bobo de seu eu passado. Voltou a cabeça e apontou o terraço, imperativo. Deu as costas e desatou a chorar enquanto descia as escadas. O telefone de Romildo gritava desesperado.
Estancou à porta de Renée. Franziu a testa. Estava entreaberta. Empurrou-a, enxugando as lágrimas com a outra mão. Viu o livrinho sobre o sofá e entrou no apartamento.
Estava com a mão sobre o volume cor de vinho quando ouviu a voz do travesti quebrando o clima da música de Billie Holiday. Assustou-se. Não percebera Renée na varanda.
– Eu sabia que isso aconteceria, mais cedo ou mais tarde.
Estancou no meio da sala, o coração querendo sair pela boca e os pensamentos em polvorosa. Não conseguia atinar para nada. Não poderia ser visto. Mas claro que poderia ser visto, afinal não pretendia chantagear o traveco?
Deveria ter agarrado o livrinho e saído de lá, correndo, mas permaneceu. Quando, exatamente, durante as viagens pelo tempo, passou a cogitar numa solução mais definitiva? Não sabia. Mas o roubo do caderno de anotações lhe pareceu, naquele momento, insuficiente.
Ainda podia correr dali e retomar sua vida, mas lembrou-se do último encontro, a última estação daquela paixão tresloucada. Viu-se com os olhos alterados, a alma mudada espalhando-se para fora dos espelhos que a refletiam. Como poderia evitar tudo aquilo? A voz de Renée provocou novo arrepio, pois parecia responder sua questão.
– Era inevitável…
Naquele momento, o destino ganhou vontade própria. Gelson caminhou até o homem na varanda, as lágrimas escorrendo-lhe pelas faces, alheio a tudo o mais.
Renée voltou-se com um sorriso de prazer.
O sorriso apagou qualquer dúvida que Gelson pudesse ter. Sua vontade somava-se às do leitor e do autor. Os olhos se encontraram, por um breve momento. Era mais alto que o travesti. Usou de toda a força de seu corpo adolescente e empurrou Renée para a chuva, para baixo, à calçada, à morte. O corpo fez um giro sobre a balaustrada da varanda e projetou-se no espaço vazio.
Renée Druon não gritou; talvez tivesse percebido que uma vontade coletiva exigia seu sacrifício.
Ao ouvir o som abafado da queda do corpo sobre a calçada, Gelson correu como quem corre do diabo. Apanhou o livro e deixou o apartamento do travesti. Subiu as escadas no momento em que Romildo Rotti destrancava sua porta.
No quarto andar, Gelson dobrou à esquerda e ouviu os barulhos de seu apartamento. Marlise estava na cozinha. Tanto melhor. Entraria pela sala. Tentou fazer o mínimo de barulho, à toa. A chuva ribombava sobre o mundo, o perfeito cenário da consumação da paixão.
Lembrou-se que trancara o quarto por dentro. Foi até a varanda e não olhou para baixo, não procurou o corpo de Renée. Pulou a janela para dentro do quarto e jogou-se na cama, respirando curto, o coração disparado, agarrado ao livreto de capa de couro vinho cujo conteúdo já era seu conhecido.
Perguntava-se se permitiria que Anastácia o segurasse pelo braço para prever aquela morte. Será que teria chegado até o final se soubesse que terminaria o dia como assassino?
Atentou para as luzes vermelhas e azuis que se projetavam sobre o teto de seu quarto. Pela primeira vez temeu por sua segurança. Reviu seu plano maluco como um tecido esgarçado e tremeu por perceber todos os buracos nele. Precisava livrar-se daquele livro, urgente.
Ouviu o barulho da fechadura da porta da sala e postou-se à janela, à espera de mais um encontro com um eu passado. Seria o último encontro consigo mesmo. A última oportunidade de ver-se sem espelhos.
O garoto que se apresentou à sua janela não demostrava qualquer surpresa. Conseguiu segurar o choro iminente e falou com voz firme.
– Você precisa voltar pra noite de anteontem e deixar isso com nossa versão passada.
Sem dizer palavra, o garoto apanhou o livrinho e saiu do apartamento, criando um paradoxo interessante: o livro fora a razão daquela série de viagens no tempo, apenas para deixar de ter importância no final.
Se tivesse raciocinado melhor, Gelson teria lembrado que o livro existiu, por dois dias, simultaneamente em poder de Renée e em seu quarto. A versão que ele entregou a seu eu passado voltou para uma sua versão anterior, dois dias antes, e, portanto, deveria ter ficado histérico. Se a polícia não tivesse visto André Madeira (na pele de Romildo Rotti) na varanda de Renée Druon, Gelson teria uma prova circunstancial de seu envolvimento com a morte do travesti.
Dois dias depois, achou o livrinho em meio à sua bagunça e o guardou até a idade madura; uma leitura interessante, sem dúvida.
O dia 19 de fevereiro de 1982, para Gelson Utinga, passou correndo, de salto em salto, entre o passado e o futuro. Foi o dia em que perdeu Oscar Delgado (o amigo desapareceu como fumaça. A polícia deu o caso por encerrado – insolúvel – quatro meses depois. A dor de Gelson durou muito mais). O último dia em que viu seus amigos Klpytdy e Tajkdy de Hajykapadtydg, em Rigel (provavelmente superiores rigelianos descobriram suas estrepolias com o tempo e os probiram de voltar à Terra). Foi também o dia em que perdeu a inocência.
Muita coisa mudou naquele dia.
Trezentos e oito anos antes, a cidade de Nova Amsterdã mudava drasticamente; holandeses e ingleses assinavam o Tratado de Westminster. A cidade passava a ser dos britânicos e ganhava novo nome: Nova Iorque. O apartamento 32 do Tueris era ocupado por André Barnavi, o travesti que mudara seu nome para Renée Druon. A varanda do terraço de Renée dava para a Rua Tenente Fustado e não era guarnecida por grades até o teto. O gradil original era baixo; qualquer pessoa desavisada poderia cair de lá e despencar sobre a calçada quase vinte metros abaixo.
Durante todo o dia, Renée fora ameaçado de morte por acontecimentos comezinhos. Escapou de todas as ameças para morrer em consequência do empurrão de um garoto perdido no tempo e no espaço.
No dia do tricentésimo oitavo aniversário da cidade cruzada pela Broadway, Renée Druon caiu da varanda do apartamento 32 do edifício Tueris Fustado, na cidade cortada pelo Tamanduateí. “Morreu na contramão atrapalhando o sábado”.
Sob forte chuva, muitos moradores do Tueris acorreram ao local onde o corpo de Renée estatelou-se. Havia várias viaturas da força policial chamada por um dono de pizzaria que se sentira lesado. Qual não foi a surpresa dos policiais ao encontrar um morto fresquinho à calçada e, de bandeja, pegar o assassino com a boca na botija.
Mesmo com tamanho barulho e comoção, o menino que sabia contar histórias pegou no sono, ao som de Supertramp, exausto, por carregar nos ombros os desejos do mundo.

XXV · joguinho de múltipla escolha

30 nov

Na última página de seu “Postille a ‘Il Nome Della Rosa’”, de 1984, Umberto Eco afirmava que ninguém havia escrito “[…] um livro no qual o assassino é o leitor”.
Assumi o papel de criador dos personagens desta obra tanto quanto de sua existência, meu leitor. Transbordando de parvoíce, acredito ter criado um multiverso de realidades em que você, leitora, não passa de mais um personagem.
E pretendo preencher a lacuna literária preconizada pelo grupo francês Oulipo e do criador de Adso de Melk, dividindo a culpa de um homicídio com você!
Mas há escolhas, não duvide!
Você tem mais uma chance de provar que estou equivocado. Com sua própria vontade, você pode ratificar o total controle da vida que lhe cabe. Largue este texto já; não siga adiante!
Volte um pouco os ponteiros do relógio e deixe Renée ficar vivo em sua varanda esperando pela visita de um vizinho.
Pare a leitura aqui e ganhe a chance de imaginar os finais felizes possíveis de todas as histórias aqui narradas, inclusive a de Renée e seu cão antipático encolhido sobre o tapete do banheiro. Salpique umas tantas gotas de um aroma romântico e imagine um caso tórrido entre o travesti e seu vizinho bancário.
Se um romance não parece apetitoso, seja cruel então, reafirme sua vida sem a intervenção de um autor amalucado e assuma o papel de criador, inventando um final fatal, sem dúvida, mas de morte por causas naturais, no máximo, impingindo um assassinato a um vírus que não usa qualquer valor moral para extinguir a vida de seu hospedeiro.
Banque o escritor (venha cá, sente aqui à frente de meu computador, assuma o teclado) e escolha o assassino dentre os muitos candidatos moradores do Tueris. Quais os mais capazes? Quem com o melhor motivo?
Invente um final nunca dantes imaginado. Não me deixe indicar um caminho, induzi-lo a cometer um pecado, um erro ou um crime.
Seja bastante cruel e faça Romildo Rotti entender o sentido sexual do discurso do travesti, desistir de qualquer contato com ele, retornando ao apartamento, deixando Renée solitário, sofrendo a amargura de uma espera sem propósito.
Deixe que cada um viva sua vida para além das páginas desta obra ensandecida. Mas não leia adiante!
O aviso foi dado! O alarma disparou!
Perigo! Perigo!
Ao começar a leitura do próximo capítulo, você, leitor atento, você, leitora voraz, estará assumindo parte da culpa por uma morte que ainda não aconteceu.
E o autor terá conseguido cumprir sua missão de transformar o leitor em assassino.

XXIV · uma língua de dois gumes (apto 32)

28 nov

Repito o truque de empurrar o tempo no sentido contrário à passagem das horas. Volto até o início do último dia de aquário, no ano em que Karol Wojtila (um homem que mudou o nome para ser João Paulo II, papa da Santa Igreja Católica) visitou a África e, no Gabão, durante o discurso de despedida do continente negro repetiu o ditado mbédé: “Otcwi Holwodo mvudu a nde ha moni” [“A mente sonha o homem que viu”].
O homem que acordou naquela sexta-feira sonhara inúmeros sonhos, porém, durante toda a vida, sua mente sonhava não o homem que via, mas a mulher que previa, aprisionada num corpo masculino com trejeitos nem tão masculinos assim.
O sol penetrava o quarto através das múltiplas camadas esgazeadas da cortina, ganhando um brilho fantasmagórico previamente desejado.
Abriu os olhos remelados e percebeu o ganido contínuo do cachorro magricela que lhe servia, maldita solidão, de filho e companheiro. Fazia um exercício atroz para não ser honesto, vez em quando, e não admitir que desejava que a criatura se desmaterializasse para nunca mais voltar.
Tinha sido salvo. Pelo cão que queria distante. Escapara da morte certa, por pouco; uns três latidos.
Com as pontas do médio e do polegar, tentou livrar as comissuras oculares daquela meleca que atrapalhava a visão e do pensamento criminoso que o poderia deixar mais sozinho. Mustache passou a latir ao perceber que havia mais partes a serem movidas no corpo do dono e senhor. Renée esfregou os dedos sobre a camisola de seda em tons de champanha e ajeitou os travesseiros sob a nuca.
O cão estremecia num frêmito de excitação a ponto de quase urinar-se, um ataque escandaloso, histérico, que pouco fazia além de imitar os modos do travesti.
Com um golpe certeiro, Renée estapeou o focinho do cão que não ousava pular sobre a cama. Não fosse veloz o bastante, Renée teria sido presenteado com os dentes afiados sobre a pele dos dedos nodosos, mais um ato reflexo que real desejo de machucar a mão que o alimentava.
– Ai, Mustache, uma vez na vida, cheri, deixe a mamãe cumprir com seu ritual antes de levantar da cama, tá bom?
Como se tivesse certeza de que o cão compreendera cada inflexão, cada significante, suas denotações e conotações, Renée passou a ignorá-lo e apanhou o volume encadernado de couro esverdeado, sua coleção de anotações pessoais marcadas numa página por uma caneta Schaeffer de cabo manchado de múltiplas cores e detalhes dourados. Retirou a tampa da caneta metida a chique e escrevinhou uma lista de coisas a fazer, duas ou três possibilidades de destinos de uma viagem ainda por planejar detalhadamente, uma frase de um entrevistado do Ney Gonçalves Dias da manhã anterior (precisava descobrir o nome do tal advogado) e o nome de dois artistas de cinema com quem adoraria dividir os lençóis. O pensamento era um raio de uma tempestade que se avizinhava. Aquela história do padeiro e da filha da moradora do porão não podia continuar.
Irritou-se ao perceber que o pequeno cão mantinha os olhos esbugalhados fixos em suas mãos, ganindo baixinho.
– Arre!
Jogou a agenda e a caneta sobre o edredom cor de vinho, com alguma violência, e pulou da cama intempestivamente.
– Cachorrinho desagradável, você, biju!
O miniatura pincher seguiu as pernas de batatas grossas até a cozinha. Renée apanhou o pote de água, vazio, do chão e o postou sob a torneira, abrindo o registro ao mesmo tempo em que fazia um biquinho falso para Mustache, que parecia prestes a partir-se em muitos pedacinhos em consequência da vibração de todos os músculos de seu minúsculo corpo.
Empinando a bunda e esticando o braço esquerdo para cima e para trás, Renée estava por depositar, com o braço direito esticado, no chão, a cuia cheia de água fresca, numa pose que não conseguiu impedir que Mustache, excitado no limite máximo, o atingisse com as patinhas dianteiras.
– Ahhh!
O grito foi emitido simultaneamente a uma sequência de ações que poderiam ser cômicas: Renée soltou a cuia a poucos centímetros do piso; a água esparramou-se sobre o marrom manchado do ladrilho hidráulico moderno. Os olhos ameaçando pular das órbitas, o cão correu para longe, optando em manter o couro sobre as poucas carnes que saciar a sede que dava nós em suas tripas. O travesti perdeu o equilíbrio e chapinhou sobre a instantânea piscina em que a cozinha se transformou; um pior acidente não aconteceu por obra e graça de um anjo da guarda e braços que se debateram até ajudar o corpo a reencontrar o eixo vertical.
O cão escondeu-se sob a mesa de refeições e espiou por baixo da toalha branca pintada com rosas monstruosas. Prescindia de palavras para apreender o mau humor do dono que tinha os olhos apertados fixados sobre a mancha avermelhada na pele esbranquiçada do braço direito.
– De hoje não passa, Mustache!
O tom azedo e estridente da voz do dono obrigou o cachorro a responder com um ganido agudo; quase um dueto.
– Vamos precisar aparar essas unhas assassinas!
Com um movimento displicente, Renée jogou o pano de pratos sobre o chão, na vã esperança de que absorvesse todo o volume da água derramada, apanhou a cuia, mais uma vez, e a encheu de água, deixando-a mais próxima da porta para que o cão pudesse, enfim, matar a sede que transformara aquele começo de dia num quase acidente espetacular. Não queria nem pensar no que poderia ter acontecido caso tivesse se estatelado no chão da cozinha. Poderia ter quebrado a cabeça, o pescoço ou, pior, uma unha!
Mustache aproveitou que o dono foi até a área de serviço para buscar um pano de chão que cumprisse a contento a tarefa de enxugar o piso e aproximou-se da cuia para beber, sem deixar de atentar para cada movimento da sombra de Renée.
O pano ia de lá para cá, sobre o piso molhado, com a ajuda de um rodo e a cabeça de Renée pairava entre fazer um corte mais moderninho, como Marisa Raja Gabaglia, ou mais tradicional, como Marta Suplicy, ou mesmo bem encaracolado, como Irene Ravache. Curto, de qualquer maneira.
Detestava São Paulo em pleno carnaval. A bicharada enlouquecia e transformava os excessos cotidianos em histeria coletiva desmedida. Quem quisesse acreditar que a Aids servira de freio aos impulsos animais realmente não entendia patavinas de psicologia humana.
Voltou ao quarto e estranhou o galho de folhas frondosas ao lado de sua cama. De onde viera aquilo? Chegou à janela apenas pra se certificar que nenhuma das árvores dali poderia ter originado aquele galho estranho. Deu de ombros, esquecido do pesadelo que quase o matara, e jogou o galho no lixo do banheiro, pouco antes de enfiar-se no chuveiro.
As tarefas domésticas voltaram à normalidade cotidiana. O café ficou pronto, as torradas foram recobertas de requeijão, a ração balanceada do cão, servida. Uma refeição frugal devorada sem cerimônia nem adiamentos. Deixando a louça por lavar, jogou uma água no rosto, apanhou o estojo que Merino entregou na manhã da quinta e maquiou-se levemente. Deixou para passar o batom depois que saísse de casa. Vestiu um conjunto de Crylor que achava simplesinho, quase uma roupa de homem. Guarneceu o pescoço e o torso de Mustache com uma coleira de couro com pespontos vermelhos e pedrinhas carmesim e preparou-se para sair.
Escancarou a porta do apartamento 32 e ouviu uma voz que lhe pareceu ser a da filha da morta. Que coincidência. Precisava agradecer-lhe pelo presente. Caminhou com cuidado até o lance de escadas, tendo mais dificuldade em equilibrar-se sobre os saltos baixos da sandália fechada do que sobre as pontas de agulha costumeiras.
Usando um leve espelhinho de mão para orientar-se na pintura dos lábios, ouviu alguém trancando a porta do apartamento no andar de baixo, e passou a aplicar o batom. Sem dúvida, o melhor item do presente que deixava muito a desejar.
– E o Merino?
Ouviu a voz de Manuel Ktir com limpidez. Mustache pareceu arregalar ainda mais os olhos naturalmente estatelados e emitiu um latido nervoso. O som ainda reverberou pelas paredes envelhecidas do condomínio e o silêncio só foi quebrado pelas pancadas estaladas de sua sandália sobre os degraus da escadaria. Renée precisou arrastar Mustache pela coleira; o cachorro evitava ao máximo aproximar-se do inventor de inutilidades. Talvez algo em seu cheiro provocasse aquele terror que divertia Renée sobremaneira.
As vozes já o haviam preparado para encontrar com os vizinhos, mas não esperava que a dupla não se esforçasse em demonstrar o desagrado por aquele fortuito rendez-vous. Encarou-os desconcertado, porém baixou os olhos para ganhar novo fôlego e guardar o batom na frasqueira tão minúscula como as dimensões de seu mascote canino. Apertou os lábios, ensaiando uma frase que não soasse ridícula, mas não conseguiu impedir que a frase fosse cuspida com ironia.
– Oh! Uma reunião de vizinhos em pleno segundo andar. Mas que coisa mais… Inusitada!
Incluía-se no comentário, mas entendeu que a frase soara como se comentasse apenas o encontro dos dois. O sorriso insincero do velho inventor o desestimulou a esclarecer qualquer mal entendido; Manuel Ktir balançou a cabeça e Renée quis interpretar o menear como um cumprimento pouco lisonjeiro, mas civilizado. Hortência soou mais natural, embora o tom agudo emprestasse um tempero um tanto apimentado à pergunta.
– Tudo bem, Renée?
Pensou em desfiar o rol de problemas do mundo, do Brasil. Rapidamente pensou nas questões que o condomínio e seus moradores estavam enfrentando, mas aquele não era o local nem a oportunidade apropriada.
– Hum! Temos tanto a discutir na próxima reunião do condomínio que não vale a pena começar agora… Se não fosse todo o trabalho que meu biju me dá, estaria às mil maravilhas. Aliás, como é difícil cuidar de crianças, não, meu bem? Você que tem duas, então!
O ângulo dos olhos da filha da morta deixaram claro que ouvir as filhas chamadas de crianças a desagradava quase tanto quanto de diabinhas. Talvez tivesse exagerado na comparação de seu cão com as filhas da filha da morta. A resposta veio consoante ao desagrado.
– Elas têm treze anos agora, estão praticamente criadas…
Renée apertou os olhos, sem muito mais a dizer. Falou assim mesmo, soando ridículo propositalmente; uma tentativa de afrouxar a tensão daquela conversa, enquanto aumentava a tensão na coleira para descer os degraus e chegar ao patamar do segundo andar.
– Vai trabalhar, meu bem?
O riso da manicura tinha um quê de cruel. Renée não havia notado esse dado em Hortência. Olhou a bolsa florida que ela lhe mostrava e, de relance, percebeu que Manuel também ria.
– Como todo dia, Renée. O salão tem muitas meninas, mas nenhuma que entenda de unhas como Hortência Costanzza! Por que não vai nos visitar qualquer dia desses?
Aí estava uma cena difícil de imaginar: Renée Druon frequentando o Salão Lurdinha, em meio àquela gente de péssimo gosto. Não havia, mesmo, nada a comentar sem tornar-se rude. E precisava levar Mustache ao veterinário. Voltou a dar uma rápida olhada para Manuel, o sorriso ainda pairava nos lábios que pareciam ter sido bonitos, um dia. Estava por dar a conversa por encerrada, quando se lembrou do presente. Sorriu seu melhor sorriso, o mais simpático e mais sincero.
– Ah! Querida, tinha esquecido de lhe agradecer!
A testa curta de Hortência ganhou alguns vincos.
– Agradecer por quê?
Impossível não ser honesto. Foi direto ao assunto sem dourar a pílula. Afinal, estavam conversando quase de mulher para mulher.
– No geral, o conjunto de maquiagem não é dos melhores, mas o batom é maravilhoso…
A expressão de Hortência fez um enorme alarme tocar, bem lá no fundo do cérebro de Renée, mas o som ainda não estava claro o suficiente.
– Maquiagem… Como assim?
Renée parecia uma imitação mal sucedida do cachorro na outra ponta da coleira. Os olhos esbugalhados, desviou a atenção para Manuel. O sorriso desvanecera. O alarme agora soava mais alto, mais claro. Mais para si do que qualquer outro, deixou que as palavras cruzassem o espaço, atravessando a barreira criada por sua mão espalmada sobre os lábios decorados de carmim. Entendera tudo errado…
– Oh! Meu Deus! Quando o Merino me deu…
O sussurro da vizinha soou como uma ameaça ofídica.
– Merino lhe deu maquiagem de presente?
Renée quase agradeceu a Manuel por sua intervenção oportuna, mas estava muito ocupado esforçando-se em não deixar que a lágrima escapasse do olho esquerdo.
– A que horas você pega no salão, Hortência? Às dez?
A filha da morta olhou ausente para o vizinho inventor. Renée aproveitou que a campainha de um telefone tocou em algum lugar para verificar o relógio de pulso e soltar um gritinho teatral.
– Ai, nossa! Já são nove e meia, preciso correr! Tenho tanta coisa a fazer hoje…
Renée desceu os degraus com pressa, sem se preocupar com a saúde de Mustache, arrastando-o à força, escadaria abaixo. Chegou à entrada do edifício tão transtornado que não percebeu Lourival Alheiras na varanda de seu apartamento, observando a rua e a todos que por ali passavam, um aparente interesse pela vida que mascarava seu fascínio pela morte.
Sentiu que olhos projetavam-se sobre suas costas, mas não arriscou voltar-se. Não queria saber com que expressão Hortência Costanzza poderia o estar observando agora. Perdera o prumo, coisa rara. Sem qualquer intenção, plantara uma semente de desconfiança no coração da carola escandalosa e agora tinha certeza de que vinha sendo cortejado pelo representante de produtos de beleza de baixa qualidade.
Cruzou com Valéria Dubeaux e fingiu não vê-la, imitado pela vizinha envergando uma cara de poucos amigos.
Já não tinha necessidade de arrastar o cão. Mustache assumira o controle do passeio e puxava com todas as (poucas) forças, querendo chegar num lugar qualquer, para longe daquele velho que o amedrontava.
O ar estava pesado. Um bafejo agourento, traduzido por uma lufada morna, apontava a uma mudança brusca na atmosfera, anúncio antecipado de uma chuva que cairia mais choro que tormenta.
Sentia um aperto no coração. A sensação cambiou ao perceber a aproximação perigosa de uma Kombi de caçamba aberta. Renée pulou para a calçada e deu um forte puxão na coleira, alçando o cão até um porto seguro. Salvou a vida de ambos. O carro vinha carregado de lâminas de vidro que ultrapassavam, em muitos centímetros, os limites horizontais do veículo, uma transparente guilhotina ambulante. Renée não corria o risco de ser atropelado. Não fosse pelo pulinho, no entanto, teria a cabeça separada do corpo como se fosse uma boneca cujo encaixe afrouxara por sucessivas decapitações não intencionais. Precisava da cabeça no lugar para poder fazer o novo penteado! E também para resolver algumas questões pendentes e inadiáveis.
O caminho até a pet shop foi feito com os olhos baços. Tentava pensar em coisas boas, no prazer resultado de um novo corte de cabelos, mas a pressão do ar poluído o fazia pensar em Clodovil Hernandes e suas alfinetadas a torto e a direito. Balançou a cabeça e conseguiu afastar a imagem do estilista afetado apenas para que em seu lugar fosse congelada a mais triste das realidades: sua extrema solidão. Não uma solidão intrínseca à situação humana. Não uma solidão escolhida como refúgio, mas uma parede praticamente intransponível, uma barreira que impedia o livre trânsito de quereres. E ele mesmo tinha construído aquele dique. Represara seus sentimentos e os transformara em queixumes, eternamente cansado, eternamente descontente com tudo e com todos.
O descontentamento era não mais que a manifestação palpável da insatisfação consigo mesmo. Quebrara tantas barreiras, conquistara tantas vitórias e terminara escondendo-se numa fortaleza que o impedia de comungar com o próximo. Precisava mudar tudo, mas como começar um novo começo? Sentia-se amarrado, como o país. Atado a atavismos profundamente enraizados na alma, uma sequência mal calculada de medidas de segurança exageradas.
Antes de passar a correia da coleira para a atendente da loja, olhou os olhos esbugalhados de Mustache e viu-se metáfora, um cão de Pavlov; babava ao escutar um sino, arrepiava-se ao pensar na dor, fechava-se à auto-imposta impossibilidade de movimentos. Era um fantoche manipulado pela mídia, não muito mais que isso. Triste realidade. A nação carecia de um empurrão, um cutucão mais enérgico. O fim não estava próximo. Muito a fazer. Era preciso assumir novas posturas, encarar os monstros de frente. E mais do que tudo, acreditar ser capaz de submeter-se às mudanças dolorosas, porém necessárias, à nova realidade. Assumir as cordas que lhe comandavam o corpo de boneco articulado.
Saiu da loja sem olhar para trás. Bastava de Mustache naquela manhã. A roupa de tecido sintético pinicava. Estava com fome. Caminhou como um zumbi, desatento, até a padaria do Manoel, sem perceber que sua vida fora ameaçada mais uma vez. Duas balas passaram a poucos milímetros de sua cabeça, enterrando-se no muro do prédio de esquina da ladeira da Nestor Esteves com a Santo Amaro.
Chegou à padaria e arranjou um banco no balcão. Pediu um suco de laranja, um pingado e um pão com manteiga, embora o estômago ansiasse por croissants e um suco de pitanga. Manoel, de longe, o encarou com uma careta e fez sinais para o atendente do balcão.
A mão delicada em seu ombro o tirou do torpor. Voltou-se para a direita e quase sorriu. Sentara-se ao lado da mãe do principezinho. Nunca tiveram oportunidade de conversar. Conheciam-se há anos, de bons-dias e olá-como-vais.
– Aconteceu alguma coisa com seu cachorrinho?
A voz de Adriana Garcia Marquez era suave e a preocupação lhe pareceu sincera. Ensaiou um sorriso.
– Não. Deixei meu biju na manicure.
Adriana fez uma careta engraçada.
– Curioso você falar de manicure. Acabei de encontrar com Hortência… Não foi bem um encontro… Ela estava transtornada.
A respiração profunda, pausada, Renée empertigou-se sobre o banco e agradeceu a chegada de seu pedido sem atinar que Manoel, o padeiro, o encarava carrancudo.
– O que você quer?
A pergunta fora feita com dureza. Adriana foi esquecida por um instante.
– Precisamos conversar…
A rudeza ficou explícita com a interrupção.
– Não tenho nada pra falar com você, sua…
Manoel olhou de relance para Adriana e completou a frase com um eufemismo.
– Sua encrenqueira!
Afastou-se, pisando duro, sem dar bom dia a Adriana.
Com um rolar de olhos bem menos afetado que de costume, Renée voltou-se a vizinha, metade do pão na mão esquerda sendo usado como aparelho apontador, indicando o padeiro que se afastava de volta ao caixa.
– Você já sentiu que tem dias que tudo o que faz resulta em alguma merda?
Divertindo-se de certo modo, Adriana franziu a testa e sorriu.
– Isso acontece com todo mundo…
Mastigando parte da metade do pão com manteiga, o travesti balançou a cabeça, veemente.
– An-han!
Adriana esperou que ele estivesse pronto a falar.
– Tenho um jeito muito meu de fazer as pessoas não gostarem de mim. Sou um assassino de simpatias.
O banco parecia querer fugir de suas nádegas não muito fartas. Adriana ajeitou-se, sem jeito. Nunca imaginou encetar tal tipo de conversa com Renée Druon, o desafeto do condomínio.
– Tem muita coisa errada por aí. Aos pouquinhos, certas coisas vão voltando pros seus eixos. Taí. Bem ou mal, os militares estão prometendo suavizar o regime.
Deu um gole curto, um gesto quase másculo. Adriana fez o comentário sem esperanças de que ele a ouvisse.
– Já se pode conversar sobre política abertamente.
Renée assentiu, sério.
– Pois é. Mas tem coisas que precisam ser feitas. Serviços sujos, sabe? Nem todo mundo quer ser o lixeiro…
Adriana percebeu que aquilo não era um monólogo e engatilhou, segura, sem medo de soar grosseira.
– Quem lhe elegeu o faxineiro do mundo?
Antes de abocanhar a outra metade do pão, disparou, de sua maneira afetada de sempre.
– Querida… Você também não gosta de mim, não é?
Com uma sobrancelha apertada sobre o olho, a mãe de Biel arqueou a boca num esgar sarcástico, prestando atenção aos movimentos da mandíbula do travesti que mastigava o pão como se pudesse destroçar qualquer animosidade.
– Não tenho razões concretas pra gostar ou desgostar de você, Renée!
O travesti deu de ombros, engoliu o bolo de pão e manteiga bem mastigados.
– Trés bien! Razões? Aqui começa mais um assassinato!
A expressão de Adriana era de incredulidade, mas isso não pareceu desestimulá-lo.
– Eu posso ter sido o causador do mal estar de sua amiga manicure. O marido dela me deu maquiagem de presente e eu não percebi que era uma forma grosseira de me dar uma cantada. Ela agora sabe porque eu pensei que o presente era dela. E dedurei o safado do marido dela na frente do inventor. Inocentemente… Pode acreditar.
Sem tirar os olhos de Renée, Adriana arqueou o nariz, marcando-o com rugas próximas aos olhos e expondo os dentes bem cuidados.
– Mais dois contra mim. Se você somar aos meninos da banda do fotógrafo, já tem uma multidão me rogando pragas.
– Por quê?
– Aquela banda incomoda todo mundo, mas ninguém tem coragem de reclamar porque o síndico, aquele alucinado com a morte, é amigo dos Lemague!
Adriana sorriu, divertida. Começava a entender o que o vizinho queria dizer com serviço sujo. Gostava de Merlin e de sua turma de maconheiros, mas alguém realmente precisava impedir que aqueles ensaios continuassem por muito tempo. Uma leve simpatia começou a se desenhar no coração da professora secundarista.
– E a conta vai engrossando. Esse maldito padeiro baiano tá danado da vida comigo porque eu ameacei denunciar a safadeza dele com a filha da Samanta. A menina não tem nem quinze anos ainda!
O tom de voz era propositalmente alto e Adriana incomodou-se que aquele segredo estivesse sendo comentado assim, indiscretamente.
– Renée, este é um problema que só diz respeito a…
Renée assumiu um ar mais ameaçador.
– Não! Engana-se a senhora, dona Adriana Marquez! Estamos falando de um adulto casado, pai de dois filhos menores, que tem um caso com uma menor de quinze anos, com o consentimento da esposa frígida e da mãe da criança! Isso é caso de polícia!
Pensando nas muitas implicações do caso, Adriana segurou o ombro do vizinho com alguma energia, como se ali fosse o ponto de controle do volume vocal.
– Renée. Manoel cuida bem de Neneca e da família dela…
Três piscadelas: o necessário para Adriana acostumar-se à transformação do travesti. Renée encurvou-se. Parecia um abutre maquiado. A voz assumiu um tom rascante, sombrio.
– Eu sei o que Manoel faz pela família. Mas ninguém perguntou à menina o que ele faz com ela. Eu perguntei! E é triste saber que tem gente de bem, como você, que aceita essa situação. Como se o sofrimento de Neneca fosse um preço razoável pelo bem estar da família miserável!
Sem argumentos, Adriana resolveu calar-se. Poucas pessoas poderiam entender os sussurros dele agora. Prestava atenção à articulação das palavras ciciadas e não notou que Hanna Arruda a cumprimentava, próxima à entrada.
– Não é!
Renée piscou, perturbado por algum inseto invisível. O discurso era cuspido, interrompido, frenético.
– Eu já tive uma família. E um nome. Irônico. André. Barnavi. Meu pai era um homem de bem, casado, três filhos. Batia na mulher. Homem de bem. Manoel também bate na dele, sabia? E nos filhos, todos. E em Neneca. Homens de bem. Meu pai me molestava, dona Adriana!
Adriana engoliu em seco, sentindo o frango descongelar sob seu braço, sobre a fórmica do balcão da padaria. Hanna aproximou-se lentamente, tentando reconhecer o interlocutor de sua vizinha.
– Meu pai me enrabava e me batia enquanto me chamava de meretriz. E eu nem sabia que isso significava puta. Minha mãe via tudo e não fazia nada, aquela… Meretriz! Uma senhora de bem. Eu tinha sete anos e já era a puta de meu pai. Um pequeno judeu de sete anos que cresceu com o pai brincando de enfiar o caralho no cu do próprio filho!
Adriana percebeu a chegada de Hanna e assustou-se. Sua expressão assustada fomentou o azedume de Renée, que sentenciou, sem perdão.
– Aprendi muito com ele, cheri! Aquele homem de bem me transformou numa prostituta! Belo judeuzinho de merda com a mãezinha judia que permitia toda a canalhice! Esses judeus só sabem tomar nosso dinheiro e foder com a vida alheia. São todos uns safados.
A atenção de Hanna desviou-se de Adriana para Renée. E ela reconheceu aquela aberração imediatamente. E acreditou ter entendido cada palavra infame da criatura. Renée lançou-lhe um olhar matador que não lhe era originalmente endereçado. Ao voltar o corpo, derramou a caneca quase cheia de leite pingado sobre o balcão, sem que o líquido pegajento atingisse os domínios das poças de degelo do frango de Adriana. A aberração completou, os olhos plantados sobre os olhos de Hanna, um perdigueiro feroz e furioso.
– E sabem, principalmente, foder com a própria prole.
Hanna balançou a cabeça, incrédula, viu a expressão espantada no rosto de Adriana e resolveu afastar-se sem dizer palavra, branca como uma folha de papel.
Sem saber se corria atrás da amiga ou ficava para ouvir o resto da confissão amargurada do travesti molestado, Adriana ficou de pé, observando Hanna sumir na Rua Andrômeda, os ouvidos atentos às palavras rancorosas de Renée.
– O que tá fazendo aqui, seu nojento? Já comeu? Vai embora, então!
Adriana voltou-se e deu de cara com Maria Silva, a mulher de Manoel, o padeiro pedófilo. Desviou o olhar para os braços da nordestina franzina e reconheceu as marcas de maus tratos. Renée não estava mentindo, tinha certeza.
O desprezo era óbvio; Renée jogou algumas notas de cruzeiros sobre o balcão, sem contar se precisaria de troco ou não. Levantou-se e caminhou para a saída. Adriana sentiu muita vontade de sorrir com o comentário aparentemente inócuo.
– Não esqueça da galinha.
Apanhou o frango e seguiu o travesti.
– Espera…
– Não é bom ser visto comigo agora, cheri. Sua amiga judia parece precisar de ajuda. Viu? Está somando os desafetos?
Com um forte puxão, Adriana agarrou o braço de Renée e o encarou desafiadora.
– Ninguém lhe deu o direito de se meter na vida alheia, Renée! Esse é o seu problema!
Renée reassumiu sua postura afetada tradicional.
– Vamos aumentar a soma!
E apontou o nariz de Adriana.
– Seu silêncio é um crime. Você se cala e se torna uma assassina. Meu problema é que somos todos assassinos! Ao permitir que bastardos tomem nossa nação sem corrermos o risco de perdermos a pele, somos assassinos de ideais, assassinos de sonhos! Quando permitimos que uma criança seja marcada para toda a vida por um canalha como o padeiro ou meu pai, somos assassinos mais cruéis ainda, porque a alma morre e o corpo permanece vivo, morrem os sonhos e ficam apenas os pesadelos.
Adriana balançou a cabeça, negativamente. Não havia muito a fazer com Renée Druon.
– Você é uma assassina como todos os outros, senhora dona Adriana Marquez.
Sem mais o que dizer, sem desejar ouvir mais nada, Adriana deu as costas para Renée e caminhou em direção do edifício em que moravam. A criançada estava reunida à frente do terreno baldio. As ancas magras de Adriana balançavam numa cadência pesada, um balé de vencida, um corpo a atravessar um turbilhão aquoso, evitando, por um triz, afogar-se naquela torrente.
Renée precisava tomar um banho de imersão, afogar essas mágoas submersas que voltaram, momentaneamente, à tona.
Atravessou a rua e gravou com perfeição cada expressão no rosto da garotada. Pareciam jurados num processo em que ele, o réu, ouvia o veredicto de culpado. A cena lhe pareceu congelada, um quadro doloroso a traduzir sua solidão, seu talento, sua sina.
Estava ainda sob o efeito daquele fuzilamento público quando tomou um grande susto. Estava mais alterado do que imaginava. Entrou no Tueris e, no grande hall do térreo, cruzou com Gelson Utinga, o mesmo Gelson que vira há instantes, no meio da rua, em frente ao terreno baldio, com a criançada que o sentenciara em silêncio. Aquela cópia, aquela alucinação, parou no meio do último lance de escadas antes de alcançar o patamar com o jardim central. Estavam sós; Renée e uma imagem fantasmagórica de um contador de histórias adolescente que o atraía sexualmente. Sentiu uma vontade quase incontrolável de rir ao pensar num duelo ridículo de pistoleiros num filme italiano de faroeste. O olhar da cópia do filho da designer era de desafio.
Caiu na gargalhada. Estava enlouquecendo. Desafiado por uma alucinação travestida de um desejo inconsciente? Será que Adriana não tinha razão? Será que seus desejos latentes não comprovariam que crianças molestadas se transformavam em adultos molestadores?
Não era hora de chegar a qualquer conclusão. Nem de prestar atenção às invenções tresloucadas de seu inconsciente. Atravessou o hall e subiu as escadas sem voltar a cabeça pra encarar a cópia de Gelson Utinga que o encarava imóvel.
Chegou em casa e abriu a torneira da banheira, lacrando a saída do ralo. Em poucos minutos estava jogado em meio a uma cordilheira de espuma de banho olorosa, preparando o espírito para esquecer e esquecer-se por algumas horas restauradoras.
O primeiro espasmo o fez dobrar o abdômen com violência. Saiu da banheira e sentou-se no trono, desfazendo-se em merda rala, talvez consequência do pouco veneno que ingerira com o leite pingado servido pelo padeiro. Mais uma vez, Renée livrara-se da morte por causa do acaso. A diarréia causada pelo raticida duraria, no máximo, uns quatro dias.
A caricatura de mulher que se acreditava o salvador da pátria, passou boas horas em seu banheiro, pulando da bacia sanitária para a banheira, do banho de espuma, que esfriava rapidamente, para a disenteria fétida e dolorosa, numa caricatura de sauna que o fez suar muito. Na sétima vez em que sentou no trono, nada saiu, garantindo-lhe que já era hora de ir buscar Mustache. Tomou uma chuveirada refrescante, preparou soro caseiro com açúcar e sal, engoliu de uma vez, vestiu-se com um macacão amarelo-ovo justíssimo, calçou um par de sapatos stiletto e carregou na maquiagem. Estava vestido para matar ou morrer.
Saiu de casa e deparou-se com Gelson. Desta vez era o Gelson real, acompanhado do surdo do 34. Lembrou-se do olhar da garotada e foi propositalmente irônico, carregando nas tintas, insinuando uma relação que sabia não existir.
Ouviu a voz de Hanna Arruda e sorriu. Ela sempre o tratara com desprezo. Depois de seu comentário na padaria, não teria mais muita paz, cogitando bobagens sobre o marido, que bem poderia ser tão canalha quanto seu próprio pai.
Desceu as escadas sem muito interesse em conversar com ninguém. Deu de cara com uma desconhecida gorda e com a gorda da judia que não mais fingia ser educada, à porta.
Cumprimentou dona Julieta Bentes e Hélvio, os únicos moradores do Tueris por quem nutria algum tipo de afeto (sem contar com a família do zelador).
Saiu à rua, um toc-toc cadenciado chamando atenção de todos, até o pet shop onde apanhou Mustache, tosado e de unhas aparadas. Não pretendia voltar ao Tueris de imediato. Andou pelas ruas do centro, vendo gente, tentando ler as pessoas, entender cada impulso, prever os sonhos, escutar os medos em cada gesto, cada olhar, cada entonação de palavra pescada casualmente.
Saiu da Nova Barão e dobrou à esquerda em direção do Mappin. Viu, ao longe, Marlise Utinga e acreditou ser a hora de saborear o resto da refeição fria, completar a vingança. Puxou Mustache e ziguezagueou, com certo desembaraço, entre os pedestres até alcançar a designer numa das entradas da grande loja de departamentos. Aproximou-se furtivamente e, sem qualquer prévia preparação, expôs as garras (não fora ele a visitar a manicura) e falou, a língua como navalha.
– Tome cuidado com Oscar Delgado. Ele é surdo, mas não é castrado!
Afastou-se sem dar tempo a Marlise de esboçar qualquer reação. Não olhou para trás, para não se arrepender. Uma parte do peito ardia como uma ferida exposta. O que pensara? Que seria fácil? Ser cruel exigia sacrifícios além do razoável. Como o herói vence o medo, o bandido precisa matar a consciência, qualquer resquício de humanidade, o afeto mais sincero.
Estabeleceu um ritmo alucinado, atravessando o viaduto do Chá como um furacão arrastando um cãozinho com cara assustada, abrindo caminho em meio à multidão de atarefados e desocupados que se mesclavam sem distinção. Quase sem perceber, Renée Druon descobriu-se na Praça da Sé, em frente à catedral que há muito precisava de cuidados, mais uma palmeira plantada a poucos metros do marco zero. Sem coragem para entrar na nave da casa de Deus, sentou-se no banco de concreto e ali, sob os gritos de admoestação de crentes e anúncios de pente, loterias e jogo do bicho, deixou que o peito se adiantasse à chuva prometida.
Chorou de soluçar. As resoluções da manhã transformando-se em pouco mais que nuvem passageira, esvaindo-se com uma frase com meia dúzia de palavras venenosas.
– O sangue de Cristo tem poder!
Levantou a cabeça e conseguiu perceber o vulto de pouca estatura aproximando-se, um braço estendido como um nazista em continência, um livro aberto, certamente uma bíblia, na outra mão. Uma visão pouco alentadora.
– Arrepende-te, criatura. Deixa que a paz do Senhor invada seu coração empedernido!
Não podia sequer chorar em paz! Olhou para o rosto do homem feio que não deveria suspeitar o que era materialismo histórico nem ópio das massas. Quase sentiu pena daquele macaquinho ignorante bem treinado. Levantou-se, ameaçador, deu um safanão no baixinho que pretendia catequizá-lo e puxou Mustache, afiando a língua, mais uma vez.
– Vai tomar no meio do seu cu!
Atravessou a praça e ouviu um clarinetista tocando as notas iniciais da Rhapsody in Blue, de Gershwin! As lágrimas saíam-lhe dos olhos como as águas das fontes à frente da catedral maneirista, mais feia que bonita. Perdeu-se pela Avenida da Liberdade, levado pelo rio de lágrimas que vertia em profusão. Esperou a fonte secar em frente à banca de revistas da estação do metrô e descobriu um lenitivo nas ruas vicinais, gastando todo o tempo do mundo para observar cada peça posta à venda nas muitas lojas identificadas com garatujas que não conseguia traduzir. O dia foi, lentamente, preparando a chegada da noite e da chuva e Renée achou por bem retornar a casa, seu último refúgio.
A umas duas quadras do edifício, reconheceu o vizinho que morava no apartamento ao lado do seu. Havia algo de terrivelmente assustador em sua expressão ausente. Porém Renée sentia-se tão vazio que mesmo a possibilidade de flertar com o perigo parecia uma experiência válida, naquele momento.
– Você é o meu vizinho do terceiro andar.
A ausência foi substituída por uma expressão de alerta. Com essa cara, Romildo Rotti encarou Renée Druon, dando pouca atenção ao cachorro minúsculo. O rosto foi se transmutando: de ausente a alerta, e então a incomodado. Renée tentou ser simpático, sorrindo, apesar de estar irritado com o cachorro que estancava feito asno empacado.
– Vamos, Mustache! Vem com a mamãe, vem. É um menino muito desobediente, meu biju.
Renée percebeu que Mustache latia desacatando o vizinho que o olhava feio.
– Seja educado, biju. Ele é nosso vizinho, cherrí.
Qualquer animal percebe o medo. Renée farejou o medo em Romildo, mas o traduziu como timidez. Por que não, afinal? Seguiu o rapaz que, tímido, bancava o antipático.
– Renée. Meu nome é Renée. Eu moro no 32, ao lado do seu apartamento.
Fez uma pequena pausa, dando-lhe tempo para digerir a informação e saborear o nome que lhe jogara como uma flor, um convite despudorado.
– Esta cidade às vezes é tão desagradável, não é?
A resposta ampliou sua confiança.
– Muito. Mesmo.
– As pessoas se protegem sob máscaras, escondendo o que são de verdade para terem a ilusão de que podem ser livres.
Romildo estancou.
– Como?
Com um passo para trás, Renée preparou-se para retomar o discurso. A isca havia sido abocanhada. Agora era só uma questão de gerenciar o comprimento da linha, puxar e soltar, puxar e soltar, com paciência, um jogo delicado de avanços e recuos.
– As pessoas que moram neste monstro de cidade vivem evitando as outras. É como um grande palco em que as personagens escondem a verdadeira identidade com papéis estereotipados…
A testa franzida de Romildo não arrefeceu o impulso de Renée. Era um balé, os passos acompanhando o Bolero de Ravel.
– O que você quer…
– Eu não nasci Renée, meu querido.
– Tenho certeza disso.
– Veja bem. Nós moramos um ao lado do outro há mais de dois anos e nunca trocamos palavras. Eu olho para você nessas roupas baratas e não consigo ver o jovem elegante que sai à noite naquele carro sem capota…
– Você anda me espionando!
Renée arregalou os olhos.
– Espionando? O que é isso, meu bem? Da varanda do meu apartamento eu consigo ver o estacionamento em frente, onde você guarda seu carro. Qualquer pessoa que mora no Tueris pode ver você saindo toda noite.
Mustache emitiu um ganido.
– Você anda me espionando.
– Admita, querido. Somos a prova da monstruosidade desta cidade sem alma. Vivemos num mundo em que as ameaças pairam sobre nossas cabeças. O Brasil, apesar da inflação escandalosa, está para inaugurar uma usina nuclear que pode explodir e matar um montão de gente. O futuro é incerto. O presente é tenebroso. Somos dois solitários que se escondem sob camadas de segredos, vivendo nossas vidas sem sentido por causa de perdas irreparáveis no passado.
– Solitários…
– Apesar de toda a torcida contra, o feioso Charles e a encantadora Diana resolveram compartilhar suas solidões. Por que temos que continuar nos isolando quando podemos dividir as mazelas com nossos semelhantes?
– Então… O que você propõe?
Renée estava animado.
– Que bom que estamos começando a nos entender. Que tal conversarmos em meu apartamento tomando um delicioso chá inglês?
Romildo pareceu pestanejar, olhando para o Tueris.
– Vamos, querido, vamos.
– Vá na frente e prepare o chá. Preciso passar no mercado pra comprar umas coisas.
Renée voltou-se, querendo rir do choro na praça da Sé. O sorriso foi afogado pelo ganido do cachorro cuja pata havia sido tratada pela veterinária e maltratada pelo salto agulha do dono.
– Perfeit… Oh, biju, pardon!
– Então tá combinado. A gente se vê daqui há pouco.
Romildo encaminhou-se para o mercado do coreano e Renée apressou-se em subir ao apartamento para preparar uma noite promissora.
O edifício estava estranhamente quieto. Dona Julieta o cumprimentou enigmática sem tentar interromper sua escalada até o terceiro andar.
– As aparências enganam, Renée.
– Boa noite, dona Julieta.
Enquanto passava pelos andares, sentiu-se observado por olhos invisíveis, uma perseguição mágica numa antecipação trágica… Entrou no apartamento e pôs água na chaleira para esquentar, torradas no forno para ficarem crocantes, uma garrafa de vinho Riesling no freezer para temperar e pacotinhos de chá inglês no bule, esperando a água que liberaria seus aromas.
A banda do fotógrafo reiniciou o castigo aos ouvidos dos vizinhos. Não poderia permitir que esse detalhe estragasse a noite. Separou uns discos de música romântica e decidiu-se por Billie Holiday como repertório inicial.
Sob o olhar abobado do cachorro tosado, destrancou a porta de entrada e a deixou entreaberta. Foi até a cozinha e despejou a água fumegante no bule. Havia algo de muito estranho com o dono. Mustache não gostava da mudança de comportamento; no que dizia respeito a Renée Druon, a bonança sempre prenunciava a tempestade. Achou por bem aninhar-se sobre o tapete do banheiro, esperando pelo pior.
Renée verificou tudo, satisfeito. Foi até o quarto e apanhou o caderno de capa de couro que permanecera, obedientemente, onde tinha sido abandonado pela manhã. Precisou procurar pela caneta que se deixara abraçar pelas dobras das roupas da cama, escondendo-se numa prega do lençol de linho branco espremida entre volutas do edredom cor de vinho. Voltou à sala e jogou-se no sofá de veludo cotelê num tom indefinido entre a fúcsia e o grená, de frente para uma cadeira rococó de madeira estranhamente pintada de pink e uma poltrona estofada coberta de fustão púrpura de linhas retas e austeras. A mesa de centro era um bloco de madeira de um metro quadrado coberto por lâminas de aço escovado, nas laterais, e laminado plástico preto, no tampo. As mesas laterais, duas, eram idênticas e assemelhavam-se à central, porém mais altas.
Sobre o tampo da mesa, Renée jogou os pés descalços e abriu a caderneta na página usada naquela manhã. Usou a página seguinte para descrever, em linhas econômicas, os encontros do dia, caprichando nos temperos da conversa com Romildo Rotti acontecida há poucos minutos.
Pareceu-lhe escutar alguma coisa no hall fora de seu apartamento. Deixou o livrinho sobre o sofá e deu uma espiada naquela direção, antecipando a chegada daquele que acabaria com todas as agruras de uma vida solitária.
Apagou a luz da sala, o abajur lateral de papel chinês dava perfeita conta da iluminação. Caminhou, apressado, até a varanda para olhar a chuva que começava, fininha, e assumir uma postura em que a ansiedade não ficasse óbvia. O corpo tremia como mimetismo ao frêmito de Mustache no início do dia. A voz fanhosa da cantora negra atacou com “Embraceable You” e o travesti vestido de amarelo-ovo sonhou um sonho molhado, olhando a chuva e sentindo o olor adocicado do chá que se espalhava pela noite.
Um tanto irresponsável (a paixão transforma a todos em ridículos audazes adolescentes), projetou o corpo para fora da varanda, deixando que algumas gotas lhe escorressem pelo rosto, deliciado. Fechou os olhos para atentar aos sons da cidade. Voltou à segurança da varanda, protegido dos pingos da chuva e da telha assassina que despencou do telhado, atravessando o espaço há pouco ocupado por seu rosto.
Uma pequena sinfonia de telefones soou pelo edifício. Cada andar participando com um ou dois aparelhos. Cada voz foi sendo calada até que não sobrou nenhuma.
Ouviu o ranger das dobradiças da porta sendo aberta e sorriu, o coração aos pulos. Passou o dorso da mão esquerda sofre a face, tentando enxugar a chuva e o choro que se mesclavam, sem pudor, à maquiagem que se desmanchava, lânguida.
– Eu sabia que isso aconteceria, mais cedo ou mais tarde.
O movimento na sala foi interrompido, Renée tremia de excitação, antecipando o contato físico, o enlevo que transformaria seu corpo em leve pluma a pairar sobre o céu da cidade cinza.
– Era inevitável…
As gotas da chuva engordaram e um arrepio ligeiro usou sua coluna vertebral como tobogã. Ah, doce sofrimento! Ah, dolorosa antecipação! Voltou-se para encarar seu algoz, um carrasco impiedoso que o fazia antegozar o desfecho.
Conseguiu abrir a boca, mas o grito emudeceu nos lábios rubros. O empurrão foi rápido e preciso. O corpo fez um giro sobre a balaustrada da varanda e projetou-se no espaço vazio. Tudo deixou de ser importante antes de estatelar-se na calçada da Tenente Fustado.
Renée Druon caiu como uma pedra, mas, num átimo, sentiu o corpo perder peso e atravessar o universo, projetado em linha reta como o último raio de sol que bruxuleava entre as nuvens plúmbeas que antecipavam a tempestade.