Arquivo | outubro, 2011

V · the end is nigh (apto 25)

31 out

Inquieta, ergueu a cabeça e olhou para o grande vão que deixava ver o teto envidraçado do último andar, inclinando-se como poucas mulheres de sua idade e compleição ousariam fazer. Uma obra de arte maltratada, mas ainda uma obra de arte. Oito lances de escada a separavam do patamar no quarto andar. Havia sinais da passagem inclemente do tempo sobre tudo que às retinas conseguia ganhar foco.

As manchas indeléveis nas placas de mármore acinzentado poderiam ter sido intuídas por suas primas na fachada do edifício. As infindáveis passadas dos que por ali transitaram, desde a edificação do prédio, deixaram uma concavidade em cada degrau cansado.

Havia marcas amareladas sobre todo o piso, mas Virgínia Lélis percebia que tudo estava asseado. O crioulo sabia como zelar pelo edifício, apesar de comportar-se como um filme em câmera lenta e exalar um poderoso odor acrídeo.

Puxou a correia de couro para que sua bolsa não despencasse sobre o chão e enlaçou os próprios peitos fartos com os não menos fartos braços expostos pela ausência de mangas em seu vestido de corte reto e tema floral. Os membros obedeciam ao padrão de pele manchada por sardas, na face, que lhe emprestava um ar pueril.

A velha a deixava arrepiada: estava parada como uma estátua de carne; Virgínia não conseguia sequer perceber se respirava ou não. Alguns cadáveres de cigarros espalhavam-se pelo chão: filtros alaranjados juntavam-se a cinzas que evitavam aproximar-se do cinzeiro postado aos pés da anciã.

Mexendo, mais um pouco, nos ponteiros do belo relógio pendurado a um prego não muito estável, fui adiante, ignorando o pós-guerra, o tuíste e o roquenrou, o “paz & amor” e a marijuana, o milagre brasileiro e a Copersucar, a bomba atômica e a bomba de nêutrons, os festivais da Record e os festivais de San Remo, a televisão e a polêmica transmissão da chegada do homem à Lua! O futuro apressou-se em chegar, pulando décadas como casas de amarelinha. A cena estava acontecendo na sexta-feira, 19 de fevereiro de 1982, meses antes da Guerra das Malvinas.

A argentina corada, rechonchuda e coberta de sardas esperava o retorno do zelador suarento, ouvindo os barulhos do prédio: crianças gritavam em algum apartamento; uma TV anunciava a nova fórmula do Omo; um radinho de pilha chiava enquanto alguém tentava sintonizar, sem sucesso, uma estação qualquer; sons metalizados evidenciavam o uso de panelas.

O edifício Tueris Fustado fervilhava de vida, repleto de barulhos e a reverberação dos ecos pelas paredes pintadas com um branco acinzentado.

A mulher rechonchuda olhou o pequeno relógio em seu pulso, ignorando o da parede do edifício, sapateando o piso marmóreo, dando voltinhas em torno de seu eixo avolumado.

Os passos do zelador, que morava no apartamento dos fundos, no porão, subindo as escadas, fizeram Virgínia dar meia-volta e encarar o gigante de ébano que reluzia sob uma grossa camada de suor. As escadas, mal iluminadas, lançavam sombras sobre o rosto do negro. Virgínia semicerrou os olhos e o sorriso de dentes perfeitos dançou entre as sombras, um gato de Alice urbano num edifício decadente do centro da cidade que, há muito, deixara de garoar diariamente.

– É o vinte e cinco, dona… A eletricidade tá desligada… É só abrir as janelas…

Saindo das sombras, o zelador esticou o longo braço, oferecendo a chave. Estranhou que o negro estancasse sobre o último degrau do lance central de escadas. Virgínia não conseguia disfarçar o sotaque portenho, apesar do longo período vivido no Brasil.

– No bai suvir comigo?

O negro afastou os braços e fez uma careta, arregalando os olhos de carvão e pátina amarelo-avermelhada.

– Ih, dona! Preciso terminar um serviço pro seu Manuel… E a Telma… A minha mulher… É ciumenta como o cão… Se ela descobre… E todo mundo sabe de tudo nesse edifício… Que eu fiquei sozinho com uma mulher bonita… E estrangeira… Naquele apartamento… Aí é que o mundo se acaba mesmo!

Virgínia sentiu-se lisonjeada com o elogio às avessas no discurso cheio de reticências. Observou o negro de mais de metro e oitenta, uma careca lustrosa de desenho bem proporcionado, o abdômen de gomos definidos sob a camiseta de algodão vermelha, os membros de musculatura rija e um volume promissor entre as pernas, preso sob o pano maleável e puído da calça de um verde fubento.

Hélvio não demonstrou ter percebido o interesse em sua anatomia e manteve os braços afastados do corpo para que uma das mãos não se depositasse sobre as avantajadas partes pudendas. Era um homem rústico, mas entendia um bocadinho de educação e polidez. Tinha dado uma desculpa que podia servir de cantada, porém a legítima razão de o zelador evitar ir ao 25 era terror puro, cristalino e verdadeiro.

– Pode subir, pode subir… Eu fico esperando aqui… Até a senhora descer.

Tentando ser agradável, de repente, Virgínia esticou a mão e apanhou a chave presa a um penduricalho verde, fazendo de tudo para que seus dedos se tocassem. Sorriu. O contato provocou um arrepio que percorreu o sentido contrário das gotas de suor que escorriam pelas costas de pele nacarada de Hélvio; permaneceu impávido. Ninguém, nem mesmo uma mulher de carnes apetitosas, o forçaria a ir até o 25.

– No quiero incomodar…

– Quié isso, dona… É o meu trabalho… Zelar pelo prédio enquanto o fim do mundo não vem.

Sem poder evitar voltar a olhar para o volume que balançava desavergonhadamente sob a calça gasta, Virgínia notou o alicate na mão esquerda do negro. A pressa que a deixara nervosa pela demora do zelador que anunciava o fim do mundo desaparecera.

– Como é mesmo o seu nome?

– Hélvio Hipólito de Souza… Ao seu dispor, dona.

– Enton posso suvir?

– Segundo andar… É o vinte e cinco… O dos fundos…

Forçou um pouco os olhos e descobriu algo agradável para falar do apartamento que lhe incutia medo.

– A melhor vista do edifício…

Virgínia decidiu-se em tomar o lance de escadas da direita, evitando passar ao lado da velha em sua cadeira de madeira que parecia mais viva que a dona.

Enquanto olhava a mulher subir as escadas devagar, Hélvio não resistiu à tentação de arrumar o grande membro viril que requeria mais espaço entre os panos de sua calça de malha que um dia servira de pijama para seu Manoel da padaria.

A portenha, pé ante pé, subiu os 12 degraus até o primeiro patamar intermediário, lentamente, parando para recuperar o fôlego. Se realmente viesse a alugar o apartamento, perderia, enfim, os desgraçados dos muitos quilos adicionais.

Em frente à porta do apartamento 15, Virgínia reconheceu o som da TV que ouvira do térreo; Celso Freitas anunciava as atrações carnavalescas do Fantástico que iria ao ar dois dias depois. Mais adiante, Elis Regina cantava um samba dos bons. Dois adolescentes afogueados vinham descendo as escadas pulando degraus, sorridentes.

– Assim não vale, Biel!

Gritou o feio garoto sardento com óculos de lentes muito grossas, para o mais bonito da dupla. Os olhos de um azul encantador do garoto bonito fixaram-se nos castanhos claros da mulher gorda. Ao passar por Virgínia, o dono dos olhos de piscina piscou e diminuiu o passo.

– Boa tarde, senhora.

O sardento de olheiras profundas e cachinhos leoninos quase esbarrou no amigo. Recompôs-se e ajeitou os óculos, meio sem graça.

– Boa tarde.

Os dois tomaram o lance da esquerda e voltaram a descer os degraus em desabalada carreira e falaram, em uníssono.

– Boa tarde, dona Julieta.

A estátua tinha nome.

Virgínia olhou para o andar acima, seu destino, sem prestar atenção ao tiroteio do anúncio de algum filme da Sessão da Tarde. O radinho de pilha calara-se. Sentindo um arrepio leve, voltou a subir as escadas.

Outro alguém descia num ritmo perfeito de intervalos exatamente iguais. Tentou não voltar a cabeça para fitar a figura estranha que atravessara seu caminho, mas sentiu-se parte de um circo e o pescoço não mais obedecia às ordens do cérebro. A indumentária de um amarelo gritante apenas corroborava a sensação de estranhamento ao presenciar aquele senhor descendo as escadas. O barulho dos saltos altos sobre os degraus de pedra sobrepujava qualquer outro som. O travesti passou por ela, ausente, conversando consigo mesmo.

O segundo andar parecia vazio, mas bastou apurar um pouco os ouvidos para perceber que alguém estava lavando pratos. Uma voz rouca, no andar de baixo, chegou com clareza.

– Onde está Mustache, Renée?

A resposta foi dada com uma voz afetada.

– Na manicure. Vou buscar ele nesse momento.

Virgínia tinha mais um lance de escadas a galgar até o apartamento que a interessava.

Atravessou o lance da esquerda, passando em frente às portas marcadas com o número 23. Postou-se frente a uma das portas do apartamento25. Achave não servia. Caminhou até a outra.

O cheiro que se esgueirava pela fresta entre a folha de madeira e a soleira da porta lembrava-lhe algo familiar. A chave rodou na fechadura com facilidade. A pouca luz do corredor não era suficiente para deixar antever qualquer canto do interior do apartamento.

Os pêlos da nuca marcaram continência sob a lufada de vento. O cheiro era forte, ali dentro: um hálito de coisas passadas, um olor de esquecimento. O aroma a envolveu num abraço de mil tentáculos, penetrando as narinas e os poros.

Virgínia respirou fundo, tentando encontrar ar fresco, achando apenas o perfume que escapava do apartamento como se um bando de pássaros aprisionados buscassem freneticamente a liberdade inesperada. Escancarou a porta e caminhou até onde lhe pareceu ser uma das janelas, na parede da direita, mantendo os olhos fechados.

A brisa leve, que encontrava passagens invisíveis e se movia à vontade no ambiente enclausurado, tocou suas pernas com dedos gelados, fazendo carícias ousadas que aumentavam o ângulo de elevação dos pêlos logo acima de seu pescoço. Virgínia já sentira algo parecido antes, muitas vezes. E sempre a incomodava.

O ferrolho cedeu à pressão e a janela se abriu com um uivo longo e estalidos rápidos. A luz penetrou na sala ampla e a brisa pareceu esgueirar-se para o corredor e esconder-se em algum outro cômodo ainda às escuras.

Boa parte da rua de trás se mostrava além dos telhados das casas baixas cercadas de grandes edifícios de diferentes estilos arquitetônicos, mas a janela ficava num ângulo ruim para ver a cena por completo; precisava ir até um dos quartos.

A sala estava vazia, porém limpa, como se os antigos moradores tivessem se mudado naquela manhã. O piso de madeira clara brilhava como um espelho. Os bocais das luminárias sorriam banguelas. Com uma rápida vista-d’olhos, percebeu a saída para um cabo comunitário de TV e a tomada para instalação de uma linha telefônica. O apartamento parecia ter sofrido uma reforma recente.

Virgínia caminhou até o centro da sala e viu uma senhora jovem sair pela porta da cozinha do 24 para depositar três sacolas plásticas numa grande lixeira. As duas se cumprimentaram com acenos de cabeça.

Virgínia embarafustou-se pelo corredor. O banheiro também estava em ordem. Foi até a cozinha e abriu a janela. O tráfego na Rua Andrômeda era tranquilo. Sob a luz do dia, tudo estava asseado e os ladrilhos do piso e das paredes brilhavam como novos. Virgínia fez um agradecimento silencioso por que a brisa gelada não chegara até ali.

Havia duas portas. A chave que o negro Hélvio a entregara não servira na que dava para o patamar da escadaria. Abriu a outra e deparou-se com a área de serviço, castigada pelas chuvas. Havia, enfim, poeira e folhas secas espalhadas pelo piso. Com uma passada dos dedos sobre a louça da lavanderia, pôde verificar, no entanto, que, sob a grossa camada de pó, a superfície esmaltada mantivera o frescor e a brancura de uma peça recém-saída da fábrica.

Pareceu-lhe ouvir uma voz vinda da sala. Atravessou a cozinha e o corredor para deparar-se, aliviada, com a senhora que se desfizera das sacolas de lixo, à porta, sorridente.

– Olá!

Virgínia respondeu, seca.

– Voa tarde.

Sua antipatia não foi registrada pela mulher de cabelos cor de cobre e olhos azuis cintilantes. A curiosidade matou o gato e parecia querer devorar as entranhas da mulher vestida com calças jeans surradas, uma blusa leve de algodão e um avental azulado sem qualquer mancha de gordura.

– Meu nome é Adriana. Moro no 24 com meu marido e meu filho. É um bom apartamento, não é? Pretende alugar ou comprar?

– O apartamento tamvém está à benda?

O sorriso se ampliou no rosto de Adriana.

– De onde você é? Não. Deixa eu adivinhar. Argentina?

– Si, Buenos Aires.

– Uma cidade linda!

Virgínia não queria conversar, mas agradava-lhe a companhia.

– Bocê coniece?

– Ah, estive por lá umas duas vezes. A última foi há uns dois anos. Adorei voltar à Recoleta. Há quanto tempo você está aqui?

Dando as costas para Adriana, Virgínia voltou ao corredor, sinalizando para que a senhora que queria ser simpática a acompanhasse em sua peregrinação final: precisava verificar os quartos.

– Muito tempo. Fejado há muito? Este apartamento?

Conseguindo ouvir a voz de Adriana atrás de si, Virgínia tinha certeza de que outro som insistia em soprar-lhe algo nos ouvidos. Um aviso, um lamento.

– Muitos anos. Moramos no Tueris desde que o Biel tinha três anos. – Uma pausa recheada de sons que Virgínia não conseguia entender – Ele tá com catorze agora. Uns onze anos, pelo menos.

As duas mulheres foram até um dos quartos e Virgínia testou a janela. Abriu-a e a luz entrou sem cerimônia. A brisa gelada que se aninhara ali fugiu mais uma vez, para o outro quarto.

– Onse ânios… E como ele está tan bem cuidado?

Adriana olhou à sua volta e arregalou os olhos ao se dar conta do perfeito estado de tudo. Não havia qualquer sinal de poeira, as paredes estavam como se tivessem recebido uma recente demão de tinta branco-neve. Falou para si mesma.

– Nossa… Nunca vi ninguém entrar aqui. É a primeira vez que eu vejo essa porta aberta. É a primeira vez que entro nesse apartamento. Isso é impressionante.

– O selador, talbez…

Hélvio falara da vista bonita. Os vizinhos do 15 e do 35 deveriam compartilhar da beleza da rua aladeirada que se estendia até o vale em que passava a Nove de Julho. Dava para ver a Igreja da Consolação, o Copan e o Hilton dentre os edifícios que formavam um paredão de concreto como moldura para o viaduto sobre a avenida movimentada.

– Não que eu saiba… Que bela vista, não?

– É o nome do vairro, no é? Seu filho tamvém é muito vonito.

– Você conheceu o Biel?

Virgínia sorriu pela primeira vez desde que se cumprimentaram de longe. Divertia-se com a surpresa de Adriana.

– Eu suvia para cá enquanto ele descia com un amigo.

– Davizinho.

A expressão de Adriana provocou um sustoem Virgínia. Avizinha do 24 abriu os olhos e soltou a mandíbula antes de falar, baixinho.

– Ai, meu Deus!

Virgínia voltou-se para onde Adriana estava olhando, o coração aos saltos, mas conseguiu apenas ver os telhados alaranjados de algumas casas térreas. Ao voltar para onde estava Adriana, viu-a saindo pela porta, apressada.

– Desculpa! Esqueci o frango no forno!

Sozinha mais uma vez, a sensação estranha voltou e o coração disparado teimava em não mudar de ritmo. A brisa gélida que se escondera no quarto ao lado formou uma parede quase sólida sob o umbral da porta do cômodo em que estava.

O tempo esticou-se. A janela da sala fechou-se com um estrondo. Virgínia deu um pulinho cômico, embora sua expressão fosse de uma seriedade inquestionável. Pouco depois, ouviu a porta da cozinha bater com força. Manteve-se atenta aos ruídos do apartamento que deveria estar vazio e um outro barulho deixou claro que a janela da cozinha acabara de ser trancada. A luz do cômodo começou a rarear. Também a janela do quarto em que estava iniciava um movimento para fechar-se, dotada de vontade própria.

Virgínia empertigou-se, tentando aparentar tranquilidade, e caminhou resoluta para o corredor, atravessando a brisa fria que a empurrava para longe dali, para a porta de entrada, que, conforto imediato, ainda estava aberta como a deixara: um convite para que abandonasse, de pronto, o apartamento.

Atravessou o umbral e voltou-se para a sala ainda em tempo de perceber que a brisa se encolhia, uma bruma translúcida, sob a luz que chegava pelo vão deixado entre a porta e seu corpo avantajado. Com um nó na garganta, puxou a folha da porta e girou a chave, a memória do cheiro ainda a bailar em suas narinas, fazendo uma prece para algum santo platino.

Lançou-se às escadas que a levariam para baixo, para longe daquele apartamento que não deveria estar tão bem cuidado. Adriana chegou à porta da cozinha do 24, surpresa.

– Já vai? Não aceita um cafezinho?

Tentou não demonstrar sua inquietação, balançando a cabeça negativamente, deseducada e mecanicamente.

– Não gostou do apartamento?

Desta vez, já no lance central, a meio caminho do primeiro andar, olhou fixo para Adriana, preocupada.

– No hai espacio para más nadie allá.

Desceu os degraus, sem voltar a olhar para cima. Surpreendeu-se com a velha sentada na cadeira de madeira escura, à frente do apartamento 13, fitando-a com olhos vazios, fixos num ponto para além da parede às suas costas, um fio de fumaça a escapar-lhe dos lábios finos e enrugados. A potente voz roufenha não combinava com a fragilidade do corpo feminino mirrado, parecendo fazer parte mais da fumaça que da garganta.

– Ele não gosta de visitas surpresa.

Alcançou o piso do hall de entrada e seu jardim central bem cuidado, decidida a ir embora sem emitir qualquer outra palavra, quando a voz da cega anciã a atingiu como uma pancada no estômago.

– Volte a frequentar o centro. Sua aura está manchada. Não é bom.

Sem olhar para trás, para a estátua que falava com voz de homem, Virgínia desceu o último lance de escadas da entrada, pisando duro sobre os degraus castigados pelo tempo e o vai-e-vem dos moradores do edifício. Hélvio a esperava com uma expressão de curiosidade.

– A chave, dona… Não vai ficar com o apartamento?

Devolveu a chave de maneira brusca. A ideia de que estivera num circo se dissipara e fora substituída por uma sensação de pavor. Sem conseguir controlar os arrepios que percorriam todo o corpo, Virgínia atravessou a porta de entrada do Tueris Fustado sem vontade de voltar ali.

O zelador foi até a porta e a empurrou até que a trave automática fizesse o serviço de manter os indesejados longe. Não sem antes dar uma bela olhada no grande traseiro que seguia pela Andrômeda, se afastando para os lados da Treze de Maio.

Hélvio rodou sobre os calcanhares e iniciou a descida pelas escadas que o levariam até o sótão, onde ficava seu apartamento e sua oficina de consertos de tudo o que pudesse se quebrar. Sorriu, olhou o relógio no braço esquerdo, ajeitou o pênis na calça cheia de furos e falou quase sem querer.

– Esse mundo… Tá pra acabar… Mesmo…

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a planta do tueris

30 out
planta do tueris

planta do tueris

pra que ninguém se perca pelos corredores do edifício, aí está a planta esquemática de todos os andares do tueris fustado. os apartamentos 25 e 35 estão desocupados, fechados desde datas que quase todos os moradores não sabem precisar…

indiquei os moradores de cada unidade e ainda algumas informações adicionais que podem aguçar sua curiosidade.

IV · o culpado não é o mordomo

30 out

Esta não é apenas uma obra confessional. Além de expor meus próprios pecados, pretendo, perpetrando um crime nada inédito, transformar histórias tolas em narrativas com alguma relevância.

Porém não se limita a essa palermice a presunção.

Eis a novidade: o mundo existe enquanto eu permito que assim seja. Você, leitor, é apenas agora e aqui, nesta narrativa. Você, leitora, poderia provar sua autônoma existência ao interromper a leitura neste exato momento!

Ainda aí?

Assim meus esforços serão facilitados!

Com a destruição da biblioteca de Alexandria, milhares de mundos deixaram de existir, milhões de criaturas deram seu último suspiro, incalculáveis miríades de ideias cessaram de pulsar.

O mundo então foi simplesmente reescrito, reeditado, revisado. A existência foi rearranjada sobre um sem-número de histórias protegidas em outras tantas bibliotecas espalhadas pelo globo.

São os autores que criam a realidade.

Assim, inicia-se a matança. Eu me transformo no mais importante assassino desta história; enquanto vou destruindo regras do escrever apropriado, permito que você, leitor inadvertido, vá matando seu precioso tempo.

Até a chegada inevitável da revelação do desfecho. Até o derradeiro falecimento. Até a última página do livro, a letrinha restante, o ponto final definitivo.

um romance em pedaços

29 out

a ideia é postar meu romance “tueris” na íntegra, aqui. a introdução já foi. a partir da próxima semana, inicio as postagens dos capítulos seguintes. alguns são enormes, outros nem tanto. depois arranjo um jeito de postar tudo em formato pdf, sei lá… abração e beijo pra todo mundo. espero que seja divertido.

III · a distração do motorneiro

28 out

O ano de 1942 alcançou Zeferino Fustado incorporando a patente de tenente do exército brasileiro e uma pança digna do Sancho, tratada a pão-de-ló.

A fortuna deixada como herança pelo senhor desembargador Hermínio Fustado fora usada com langor e poucas doses de parcimônia. Fustado vivera uma existência fausta e não economizara para satisfazer os mais absurdos desejos das mulheres da casa.

Uma mão sobre a barriga volumosa recoberta por roupas de tecidos caros costurados com maestria, a outra cofiando o farto bigode que começava a manchar-se de branco, Fustado observava os viandantes que se apressavam para alcançar uma proteção à garoa fina e gélida que caía solene sobre o distrito da Vila Buarque.

O dinheiro herdado tinha sido multiplicado com os investimentos que fizera no ramo da construção. Várias de suas empreitadas tinham mudado a cara da região. A Avenida São Luís estava desfigurada. Os monstruosos arranha-céus ruidosos haviam tomado o lugar dos casarões tranquilos. A Praça da República estava, ainda, rodeada pelos sobrados de fachadas delicadas, mas, se dependesse de Fustado, em breve, também ali, deixaria a marca do progresso transformar o passado em memórias facilmente olvidáveis.

Não lhe interessava mais dinheiro, tinha-o aos montes. Queria esquecer sua solidão e apagar da cidade os monumentos que cruelmente o faziam lembrar da perda que a fortuna não conseguira evitar.

Clotilde já não estava entre os vivos há nove anos. Sua companheira inabalável tinha sucumbido à tuberculose e não testemunhara a derrocada dos tenentes.

Os malditos médicos foram incapazes de evitar-lhe o sofrimento. De que adiantavam todos os remédios miraculosos e a vacina de Calmette e Guérin se faltavam aos curandeiros – sim, não passavam de curandeiros – a competência e o tino no trato com os pacientes e suas enfermidades?

Fustado emitiu uma tossida de cachorro e afastou-se da janela, cambiando a atenção da rua lacrimejante para a bela caixa de madeira onde guardava charutos olorosos que consumia com avidez.

Estava melancólico. E isso era normal no dia de aniversário da morte de Clotilde. Espalhou-se sobre a confortável poltrona estofada e acariciou o couro tinturado de vinho que recobria o braço do móvel. Clotilde a encomendara a Rafael Montello, o hábil marceneiro da Rua da Abolição, e o presenteara no natal de 1932.

Naquela época, seu mundo parecia dar cambalhotas. Lembrava com amargura da derrota dos Constitucionalistas e o acordo vergonhoso estabelecido com Vargas. O mundo civilizado abria-se para as democracias e o Brasil namorava o absolutismo. Plínio Salgado queria fazer crer ir contra o ditador, mascarado sob o discurso nacionalista dos integralistas, mas não passava de mais um radical querendo o poder absoluto.

As notícias da invasão da Manchúria pelo Japão e a subida de Adolf Hitler à presidência da Alemanha o tinham deixado preocupado; seus temores tinham se materializado.

Tomara a decisão certa ao investir na indústria imobiliária e não na agricultura. Quantos de seus companheiros foram à falência com a queima dos estoques de café? E as sacas continuavam a arder até aquela tarde. Os amigos o consideravam um homem de sorte.

Vargas ensaiara a redenção de seus desmandos com obras como o Cristo, no Rio, e Francisco Campos telefonara preocupado com a mudança do governo estadual e o campeonato vencido pelos carcamanos do Palestra Itália.

Estavam no novo horário de verão. E São Paulo insistia em não respeitar o clima no resto do país. Como se fosse naquele exato momento, ouviu a campainha da rua tocar e Clotilde entrar em seu escritório, um sorriso de orelha a orelha.

“Tenho uma surpresa para você, tenente!”.

E lá estava a poltrona de couro vinho, resplandecente como o rosto da mulher amada.

“Da cor das poltronas do cinema Pathé!”.

A poltrona permaneceu, mas Clotilde se foi, deixando uma menina de onze anos para ser criada num mundo que parecia a Fustado ter virado de ponta cabeça.

O tempo passou e a pequena Tueris desabrochou como uma flor selvagem, deslumbrante e caprichosa. Irascível e bela como a mãe, Tueris se transformara numa jovem inquieta e destemida como o pai.

A filha tinha sido batizada com o nome do filme que a chuva em Paris os obrigara a assistir.

Fustado suspirou baixinho, apanhou um dos charutos da caixa de madeira e mastigou uma das extremidades, cuspindo fora o tampo de folhas de fumo enegrecido sem se preocupar onde iria cair.

Nove anos sem Clotilde.

Batalhara contra si mesmo ao nomear um dos edifícios que construíra na Bela Vista. Queria homenagear as mulheres de sua vida, mas não acreditara poder suportar ver o nome de sua amada à entrada de uma construção. A homenagem migrou para a filha e o batizara, então, de Tueris Fustado.

Nove anos sem sua companheira. Quase uma década de batalhas para manter sua posição inabalável e outras tantas para evitar que Tueris saísse dos trilhos. Aos 45 anos de idade, Fustado testemunhara e participara de muitas guerras e escaramuças. Não demoraria para o país entrar na Guerra, enredado pelas manobras americanas em território brasileiro.

Não havia nada mais ridículo do que um país governado por um ditador entrar numa guerra para defender as causas democráticas. Mas Getúlio Vargas era um político de mão cheia, um demagogo populista com um clube de admiradores maior do que os do Corinthians e quase tão grande como o dos detratores do coitado do Lourival Pontes.

O cuco da máquina grudada à parede anunciou a quinta hora da tarde. Fustado puxou a pesada corrente de ouro para verificar o seu relógio de algibeira. Precisava ir até a matriz da Consolação para a missa pela alma de Clotilde. Tueris estava atrasada, como sempre.

Dando potentes tragadas em seu charuto, Fustado levantou-se da poltrona, apanhou o casaco e o chapéu do cabide do chapeleiro e preparava-se para deixar o escritório quando ouviu as pancadas em sua porta.

Escancarou-a esperando ver a filha afogueada, mas não se surpreendeu ao dar de cara com Mariinha, sua secretária, aos prantos, acompanhada de um cadete da polícia, de cenho consternado.

“Pára com essa choradeira, mulher. O que Tueris aprontou desta vez?”

Mariinha, uma mulher franzina de meia idade, deu-lhe as costas e desabou num choro escandaloso que obrigou Fustado a engolir em seco.

O cadete teve que repetir a mensagem para que ele pudesse atentar para o conteúdo trágico.

Fustado não conseguiu prestar atenção a mais nada, plantado sobre o piso de parquet escolhido por Clotilde. O charuto caiu sobre seu sapato, rolou para o tapete persa e o queimou como reflexo da dor que o tenente sentia no peito.

Mesmo aos soluços, Mariinha conseguiu debelar o início de incêndio, mas nada podia fazer contra a queimação que se refletia até o braço esquerdo do militar empreiteiro.

As palavras do cadete ficaram ecoando por um tempo incomensurável na cabeça de Fustado, parte indivisível de sua dor.

“Os trilhos estavam molhados e o motorneiro não conseguiu fazer o bonde parar em tempo. Sua filha atravessou a rua apressada e foi atingida em cheio. Lamento informar que Tueris faleceu a caminho do hospital”.

Depois de ter sido atendido por um médico particular que o tirou de seu torpor, sessenta minutos mais tarde, durante a execução da Ave Maria de Gounod e Bach, na hora do ângelus, Fustado, acreditando ter gastado toda a sorte, conseguiu articular duas palavras, num sussurro.

“Maldito dia.”

II · le livre est sur la table

27 out

O edifício Tueris Fustado continuava teimosamente de pé, até o dia 19 de fevereiro de 1982, localizado no número 443 da Rua Tenente Fustado, na esquina da Rua Andrômeda, no bairro italiano da Bela Vista (o famoso Bixiga dos boêmios), na cidade de São Paulo, a brasileira terra da garoa.

A história do edifício começa no Velho Mundo, em Paris, a cidade da torre Eiffel, do Arco do Triunfo, das tuilerias, da igreja de Notre Dame e seus Quasímodos bem vestidos, dos ricos museus e galerias de arte quilométricas, dos pães carregados sob os sovacos, dos bares e cafés ocupados por jovens e intelectuais enfastiados de Montmartre, e dos cinemas de arquitetura deslumbrante.

Num toque de prestidigitação voluntária, pouso o indicador sobre o ponteiro das horas de um velho relógio marchetado. O mogno cortado na Bahia e trasladado para a França num cargueiro jesuíta há mais de duzentos anos foi trazido de volta ao Brasil na bagagem de uma comissária de bordo, em 1992, transfigurado numa máquina fantástica, cada pequena engrenagem trabalhada à perfeição para que o conjunto pudesse marcar a passagem inexorável do fluxo da vida e para enfeitar a parede de um quarto de dormir desarrumado. Depois de muitas voltas contrárias à índole de seu mecanismo delicado, o ponteiro pára quando a contagem chega à segunda década do Século XX. Foi fácil. Liberado do dedo invasor, o ponteiro segue seu caminho, o tempo passa a fluir no sentido natural, os segundos vão transcorrer na mesma direção que todos os vivos percorrem, lentamente, sem se dar conta: rumo ao futuro.

As luzes se acenderam quase simultaneamente à queda das cortinas de veludo bordô. Zeferino Fustado levantou-se da cadeira coberta de couro cor de vinho e imitou os poucos presentes que se dignaram a apupar a obra que acabaram de ver. Clotilde Carvalho Fustado não demorou a seguir o exemplo do moço que desposara há pouco.

Muitos franceses, a maioria dos 573 pagantes que lotavam o theátre, lançaram-lhe olhares indignados e palavras duras cujo significado escapava a Clotilde e seu marido.

Durante a exibição da película, não entendera muito mais que os nons e ouis das plaquinhas que pretendiam substituir as falas, impossíveis àquela data dos “Annés Folles”, porém as expressões do elenco devotado à arte da ilusão a deixaram verdadeiramente emocionada, em vários momentos da audiência da estréia de Tueurs Futés, um filme extremamente violento para os padrões de 1922.

Tivesse nascido uns trinta anos depois, Serge Carreau poderia ser considerado ingênuo se comparado a Quentin Tarantino.

A trama dava voltas pelas franjas de um tórrido caso de amor impossível e os cadáveres eram mostrados de relance, os bofes espalhados pelo chão – uma desfaçatez que custaria o futuro da carreira ao diretor, de quem ninguém mais ouviu falar.

O filme ficou em cartaz por dois dias apenas. A administração da empresa já tradicional cancelou a temporada e o cartaz do filme foi tirado, no terceiro dia, da fachada do Pathé Lecourbe. Os anos vinte foram carregados de exageros, mas os parisienses acreditavam que certas ousadias eram imperdoáveis.

Os cartazes que anunciavam absinthe se espalhavam pela cidade, dezenas de marcas (Vichet, Robette, Parisienne, J. Edouard Pernot, Ducros Fils, Cusenier e Berthelot, só para citar alguns) competiam pela atenção dos que pretendiam inebriar-se com a bebida do diabo. Os cartazetes da Acqua Mineralle Ferrarelle também apresentavam moças seminuas, porém eram eclipsados pelas promessas estupefacientes do drinque.

Enquanto se intoxicava com a bebida que matou a muitos, a cocaína vendida nas apothecaries e anunciada nas páginas do Le Figaro, ou rapé, e esbaldava-se com as noitadas sem fim, em orgias que fariam corar Mata Hari, a nata da sociedade francesa escandalizava-se com a violência da marginália que a atraía como mel à mosca.

A morte do Papa Bento XV fora encarada como inevitável, preparando o caminho para seus pios sucessores.

O final definitivo da “guerra que poria fim a todas as guerras” tinha sido negociado em Versalhes, três anos antes, e muitos ficaram insatisfeitos com os resultados. Como pudera ter sido permitida a criação dos estados da Palestina, do Iraque e da Iugoslávia e deixado os judeus de fora da festa? Os debates sobre Kosovo não foram encerrados com a dispersão dos representantes mundiais que se apresentaram à reunião de Paris; todos temiam a ameaça do comunismo, acreditando que os bens maiores – liberdade, igualdade & fraternidade – seriam varridos da História com o crescimento do movimento que pregava a revolução do proletariado.

As mulheres se dividiam entre lutar por direitos iguais e adquirir o mais novo parfum de Coty, com caixa desenhada por Lalique. Todas concordavam numa coisa: a tentativa de enquadrar seus companheiros nos novos conceitos junguianos de introvertido e extrovertido, enumerando este ou aquele feito, sob o efeito do nefasto absinto.

A violência era inadmissível.

Pobre Serge Carreau, nascido num tempo em que seus pares eram incapazes de compreendê-lo. Os Assassinos Ardilosos ficaram engavetados até o dia 6 de junho de 1965, dois anos depois do fechamento do cinema Pathé Lecourbe, quando todo o acervo da sala foi posto à venda para o grande público e algum colecionador os arrematou por um punhado de francos.

O casal Fustado não vira o filme propriamente. As cenas na pequena tela tinham sido entrecortadas por carinhos singelos e beijos ardentes, com o acompanhamento luxuoso da pianola com um ré desafinado. Os corações disparados, de excitação e medo, Fustado e Clotilde aproveitaram-se do escuro da sala, em meio aos quase seiscentos espectadores, para liberar seus instintos selvagens e dar vazão ao afã do desejo; os toques mais ousados insinuando-se entre as camadas de tecidos acetinados e drapeados generosos.

Clotilde achava os franceses estranhos, mas a reação do público a deixara corada, acreditando que as palavras duras (que não compreendia) e os olhares de censura (fáceis de serem traduzidos) eram consequência de seus atos libidinosos durante a seção e não às palmas efusivas ao filme que não assistira.

Puxava Fustado para que se afastassem céleres do cinema. O marido acreditava que a pressa adivinhava um final de tarde coroado de gritinhos e sussurros esganiçados entre os lençóis engomados do quarto do pequeno (porém nada barato) hotel na Rue Duvivier, não muito distante dos jardins do Campo de Marte e da Torre Eiffel.

Desceram as escadas do Pathé, no número 115 da Rue Lacourbe, a duzentos metros do Boulevard Pasteur, atravessando os arcos da fachada art-nouveau tipicamente parisiense, arriscando estatelar-se sobre a calçada coalhada de gente bem vestida.

A multidão deixava o cinema e se espalhava pela rua de pedras batidas numa procissão ordenada, um belo balé ensaiado em tantas outras ocasiões semelhantes. Solitários, casais e grupos animados de machos imberbes se misturavam às elegantes carruagens que competiam com os carros fumarentos pilotados por audazes jovens bigodudos, escondidos sob seus capacetes de couro e óculos de grandes lentes reluzentes.

Fustado segurou a cartola como se o impulso empregado pela mulher a pudesse lançar para longe até o calçamento, onde certamente sofreria danos sérios sob as rodas de um Citroën Cloverleaf ou um Rover inglês de oito cavalos, guiados por um dos tantos motoristas dementes que infestavam a capital francesa. O sorriso maroto bailou em seus lábios enquanto comentava, tentando emprestar o maior decoro possível às suas palavras de duplo sentido.

“Que bicho te mordeu, minha senhora?”

Clotilde, a respiração entrecortada pelo esforço de guindar aquele homem magro de ossatura pesada no sentido contrário do trânsito da rua movimentada, falou sem olhar para trás.

“Esses franceses… me assustam, homem…”

Arqueando uma das sobrancelhas, Fustado estancou na esquina da Rue François Bonvin, próxima à Rue des Volontaires. Clotilde quase escorregou sobre as pedras da calçada molhada pela chuva leve que se abatera sobre a cidade e que os forçara a encontrar abrigo sob a marquise do cinema Pathé. Assistir a película não fora uma opção planejada com antecedência. Depois de caminharem por horas pelas cercanias dos Invalides, cinquenta minutos no cinema se apresentaram como o perfeito descanso antes de voltarem para o Hôtel Juvet. Depois de recuperar o equilíbrio, Clotilde verificou a arrumação do vestido de muitos panos que ondeavam sobre as curvas de seu corpo robusto. Só então lançou um olhar de censura para o marido que a observava curioso.

“Perdeste o juízo? Quase me deixas nua à frente de todos!”

Fustado acariciou o próprio rosto com a mão enluvada, acompanhando os movimentos delicados e rápidos que sua mulher fazia para reposicionar o chapéu desmaiado sobre os cabelos negros que tinham ganhado um corte reto e curto recentemente. O generoso decote deixava antever partes do soutien cor de pele que Clotilde insistira em comprar no magazin Au Bon Marché.

“Teu afobamento me parece bem mais insensato…”

Clotilde, sem encarar o marido, o interrompeu.

“Não percebes os olhares de todos?”

O jovem sargento virou a cabeça, para lá e acolá, parando os olhos sobre alguns dos passantes que rescindiam a perfume adocicado e suor encruado. As narinas, acostumadas às colônias leves da esposa e da lavanda que aplicava à barba feita, estavam saturadas da abundância de cheiros de Paris.

“Do que estás falando? Fico mais impressionado com o sentido do olfato que da visão. Olho e olho, sem cessar, e apenas consigo experimentar certa náusea pelo excesso de odores.”

Clotilde fungou de leve, ultrapassando os limites da etiqueta de uma dama. Inclinou o tronco, graciosamente, para que a boca pudesse emitir as palavras num tom bastante baixo sem que fossem perdidas em meio ao barulho do entorno.

“Vês? Teu comentário apenas ratifica meu temor. Que espécie de gente é essa que se denomina civilizada e teima em não fazer as pazes com o quarto de banho?”

Sorrindo, o marido estendeu a mão até tocar o braço da companheira. Clotilde tinha as faces afogueadas.

“A eles deve parecer que nós nos banhamos demais.”

“Que estultice.”

As sobrancelhas de Fustado se apertaram num sinal franco de sua preocupação sincera, afinal três semanas tinham se passado desde sua chegada.

“Te desagrada estar em Paris, Clotilde?”

Clotilde adiantou-se e voltou a caminhar para a Bonvin, em direção do imponente perfil da torre terminada em 1899 e que fora o palco do mais belo réveillon de suas vidas.

Poderia ter sido Berlim, na República de Weimar, e não a capital francesa a escolhida para aquele final de ano, mas a remarcação absurda dos preços nas prateleiras das lojas da Alemanha deixava Clotilde enjoada, imaginando a angústia dos prussianos verem seus milhões de marcos transformando-se rapidamente em nada.

“Paris é tão maravilhosa quanto a capital do Brasil, Zeferino. E padece do mesmo mal. Lá, temos os fluminenses, aqui, os parisienses.”

Fustado agarrou o braço de Clotilde, fazendo-a tropeçar, mais uma vez, sobre os saltos de seus sapatos azul-escuro que combinavam à perfeição com o vestido de um tom predominantemente anil. A reclamação procedia.

“Queres mesmo me transformar na galhofa do dia?”

Fustado riu, de leve, desculpando-se com um sutil menear da cabeça, indicando com a mão enluvada um caminho diverso.

“Vamos pela Breteuil.”

O olhar indignado da mulher o fez apagar, dos lábios, qualquer lembrança de um sorriso.

“Por aqui é mais rápido, estou certa!”

“Decerto, minha querida, porém por lá é mais agradável. A caminhada mais longa irá nos ampliar o apetite e pretendo comprar um jornal naquele quiosque simpático próximo ao Hospital.”

A expressão divertida de Clotilde deixou Fustado mais tranquilo.

“Mas se tu não sabes ler uma vírgula de francês, homem!”

“Tu tens tuas esquisitices, deixa-me nutrir as minhas.”

Caminharam em silêncio, até o quiosque de ferro batido em volutas semi-escondidas por publicações em várias línguas – Clotilde não vendo a hora em que pudessem chegar ao hotel para trocar de sapatos e atenta aos olhares furtivos dos que por eles passavam; Fustado embebido com o mesmo ar saturado que um dia enchera os pulmões de Bonaparte enquanto estudava na École Militaire.

A noite se anunciava no horizonte e os milhares de candeeiros abriam suas goelas a velhos desdentados e garotos maltrapilhos fazendo malabarismos para acendê-los; Paris precisava fazer jus ao epíteto de cidade das luzes.

A lua-de-mel estava chegando ao fim.

Fustado despedia-se de tudo, dos edifícios clássicos e dos museus austeros, dos grandes jardins e dos bulevares floridos. Havia pouco tempo para usufruir os encantos da cidade que se recuperara magnificamente de uma guerra que desfigurara a face do Velho Mundo. Sem entender qualquer palavra do que o vendeiro falara, Fustado comprou um exemplar do Le Figaro. Não diria nada à esposa, mas já que estava impossibilitado de permanecer por mais tempo em Paris, tinha esperanças de levar consigo um anúncio, ao menos, da peça La Mort de Moliére que estrearia dali algumas semanas com a divina Sarah Bernhardt.

Enfiou o jornal sob a axila esquerda e olhou, antecipadamente saudoso, para o pináculo da torre metálica que dominava os céus daquela parte da capital francesa.

Mais três dias e deixariam a cidade para tomar o navio de volta ao porto de Santos, passagem obrigatória até São Paulo, onde o exército esperava pelo retorno do sargento Fustado. Homero Batista, ministro da Fazenda do governo de Epitácio Pessoa, ostentava, orgulhoso, a cifra irrisória de três por cento de inflação acumulada no ano anterior.

Os militares estariam comemorando o centenário da independência e preparando as bases para as manifestações rebeldes tenentistas contra a política oligárquica do café-com-leite. As eleições presidenciais aconteceriam no dia primeiro de março e, apesar da briga acirrada, Artur Bernardes levaria a melhor contra o oposicionista Nilo Peçanha.

O casal deixaria Paris com mais coisa do que chegara vinte dias antes: a bagagem estaria superlotada de exemplares de La Mode Illustré e quinquilharias amealhadas nas feiras da Rue Cler e nas lojas careiras de Montmartre.

Clotilde, no entanto, carregava a mais preciosa carga: no útero, um embrião estava ocupado em multiplicar suas células para que, nove meses depois, se transformasse em gente – uma filha que seria parida na cidade sob o trópico de capricórnio e a égide do modernismo antropofágico.

I · balé de balas

26 out

“Onde está o Fustado?” O soldado esticou o pescoço e tentou divisar as marcas da patente nos ombros dos homens à sua volta. Não conseguiu ver qualquer tenente entre eles.

Um morteiro passou alguns metros acima e foi estourar sobre ninguém, mais adiante. Ao ouvir o zunido das balas, baixou a cabeça com urgência. Daria tudo para poder enterrá-la numa carapaça intransponível, seguro das agruras da guerra, um gigantesco quelônio centenário, numa das tantas ilhas das Galápagos, sob o escrutínio cuidadoso de um evolucionista de semblante sereno.

Havia lama, muita, por todos os lados. A chuva caía sobre o campo de batalha coberto de neve e os homens pisavam o solo com cuidado, mais bailarinos que combatentes, preocupados com a superfície escorregadia e a saraivada de balas que ameaçavam atravessar-lhes os cocurutos.

O corpo acostumado à inclemência do sertão mineiro reclamava dos vinte graus negativos na encosta do Monte Belvedere, nos Apeninos.

Zé Renato tinha comemorado seu vigésimo segundo aniversário no General William A. Mann, o grande navio americano que os trouxera até o porto de Nápoles. O Capitão Klayton exclamara, todo contente, no navio: “Ah, vedere Napoli, dopo morire!”. Zé Renato perguntou o que significava a frase. Não gostou da explicação.

Sobrevivera ao meio mês da viagem no forno metálico que flutuara sem ser atingido por torpedos alemães, aos banhos de água salgada, ao interminável balanço emético e ao odor nauseante de homens suados sob as luzes vermelhas dos porões travestidos de dormitório; sobrevivera às pedradas dos franceses que os confundiram com alemães, à chegada, e a uma tentativa de assalto na movimentada Corso Umberto Primo da cidade portuária; sobrevivera à primeira tragada num Camel, que os ianques distribuíam em profusão, e à triste – porém farta – dieta das rações enlatadas made in usa (mas que, na verdade, eram produzidas em Livorno); sobrevivera aos deslocamentos de Nápoles a Astroni, de Astroni a Litória (maldito trem!), de Litória a Tarquínia (maldito caminhão!) e de lá a Vada, sob frio intenso, a poucos quilômetros da frente de batalha – o pé do morro de nome bonito – e pretendia sobreviver às balas dos chucrutes.

Ali, sob fogo cerrado, lembrava da frase do capitão e achava um absurdo. Sem essa de ver Nápoles e depois morrer!

Não tinha passado por tudo aquilo para acabar afogado na pinóia da neve enlameada de uma montanha ou enterrado no cemitério de Pistóia, num país do outro lado do mundo. Depois da manobra do tenente Fustado, no dia anterior, a tropa iniciara o ataque com ânimo redobrado, mas a chuva estava minando as forças de todos.

Cinco dias antes, a Task Force 45 ianque havia tomado o Monte Belvedere (e que bela vista se tinha de lá!) com o apoio dos inexperientes soldados brasileiros. A 232a Divisão de infantaria alemã, no entanto, conseguiu expulsar os americanos, no dia 28 de novembro de 1944, e aquele ataque estava sendo feito apenas pelos pracinhas de três batalhões da Força Expedicionária Brasileira.

A coisa estava feia. Não havia como desfrutar da bela vista do monte porque chovia muito; a chuva também impedia que os aviões americanos dessem apoio aéreo. A lama nas encostas fazia os tanques imitarem os soldados brasileiros, escorregando montanha abaixo, um tobogã lambuzado de sangue, suor e lágrimas, sob os olhares indiferentes das árvores peladas.

O ataque fora iniciado quatro horas antes e já dava sinais de que acabaria em breve, com a derrota dos que a história registraria como os mocinhos.

O sargento Otílio queria falar com o tenente Fustado, mas o tenente não estava ao alcance dos olhos.

Zé Renato jogou-se no chão enlameado, protegendo-se por trás de um morrote de neve, já não ligando para o líquido gelado que encharcava suas galochas estofadas de jornal e feno. O sargento apontou para a retaguarda.

“Vai atrás dele, soldado!”

A ordem chegou abafada, as palavras tendo que transpor a barreira do vapor que se formava à frente da boca do sargento, do barulho ensurdecedor dos tanques que patinavam sem sair do lugar, do batecum ininterrupto das gotas da chuva sobre tudo e todos, e o matraquear das armas dos inimigos, à frente e à esquerda dos três batalhões de pracinhas da FEB.

Zé Renato estava pronto para encetar uma corrida até o grupo mais atrás quando uma bala atingiu o peito de Marco Antônio, com quem jogava biriba nas horas vagas. Quase irreal: Marco Antônio falando alguma coisa, num momento, e calado, no outro, o corpo fazendo um arco até tocar o solo – num baque molhado, espalhando a lama sobre seus companheiros – para permanecer quieto, sob as águas da chuva que caíam sem trégua.

A mancha de sangue em seu peito se espalhou com a ajuda do aguaceiro inclemente e um pequeno rio vermelho se juntou à enxurrada que não se decidia se incrustava na neve ou fluía morro abaixo.

Por que ninguém parecia capaz de repetir a façanha do tenente Fustado? O homem virara herói agindo bravamente na primeira tomada do Belvedere, no dia 25 de novembro, salvando quarenta de seus companheiros ao jogar-se sobre uma casamata e aniquilar os cinco soldados que comandavam uma metralhadora devastadora. Com as mãos nuas, Zeferino Fustado desaninhou os safados que desovavam balas a granel sobre as cabeças dos pracinhas.

Zeferino Fustado tinha sido um homem de uma sorte assombrosa. Ninguém mais queria jogar cartas com ele – sempre ganhava, não importando se eram apostados cigarros ou um dia completo de bóia.

O empurrão do sargento deixou claro que não poderia adiar mais a procura pelo herói do batalhão. Zé Renato fez uma oração curta para Nossa Senhora dos Inválidos e arremeteu em direção da retaguarda, as balas inimigas mergulhando na neve enlameada sob seus pés.

Não saberia precisar quanto tempo levou para atingir o grupo de retardatários, sob a chuva de morteiros que completavam os estragos causados pela água que caía do céu encoberto de nuvens pesadas, mas não demorou em descobrir que, também ali, ninguém sabia do paradeiro do procurado.

Talvez fosse bonito – poético até? – imaginar o Tenente Zeferino Fustado à beira da morte, atingido na cabeça por um projétil disparado de uma das armas dos chucrutes que seguravam a investida dos pracinhas que escorregavam pela encosta.

Os americanos forneceram o grosso do equipamento, mas alguns pracinhas usavam Mausers 1908 levados até o Brasil por um acordo entre Hitler e Getúlio, num tempo em que os tupiniquins não se tinham ainda definido contra ou a favor do Eixo. Os rifles germânicos eram superiores aos Springfield americanos e os que podiam não estavam interessados em dar uma chance ao azar. Poderia-se aventar a possibilidade (caluniosa?) de que a bala teria saído de um dos fuzis alemães carregados por seus compatriotas.

Sob a luz bruxuleante do sol se despedindo naquela tarde do dia 29 de novembro de 1944, Marco Antônio se transformou em Fustado, escorregando sobre a lama, o sangue escorrendo-lhe sobre os olhos, a voz, num fio, clamando pelas coisas que não mais veria, por tudo o que havia deixado no Brasil. Os companheiros pracinhas desesperados, mesmo sob a batuta precisa do coronel Castelo Branco, subordinado ao nem tão eficiente general Mascarenhas de Morais, ficariam sem saber como reagir à cena tocante que engrossaria o número final de 454 brasileiros mortos nas terras de Mussolini.

Não. Certamente o Tenente Fustado não pensaria nas mesquinharias da guerra que o arrancara de sua solidão na cidade da garoa e o fizera juntar-se ao quinto exército americano, na Décima Divisão de Montanha – elogiada por sua eficiência pelo marechal da defesa alemã, Albert Kesselring –, para suprir o desfalque que o grosso dos aliados deixou ao deslocar-se para a França. Talvez ele sorrisse ao vislumbrar o reencontro com a mulher amada, vítima da tísica, e a filha, vítima de um bonde.

O capelão lhe ungiria a cabeça ensanguentada com óleo para lubrificar fuzis (uma ironia?) e, sob libações consternadas e o matraquear das armas inimigas, encomendaria sua alma imortal para que pudesse atravessar os portões do Paraíso, onde sua família o esperaria de braços abertos.

Seria bonito, quase poético. Mas não aconteceu assim.

25.334 brasileiros foram levados até a Itália. Em meio às baixas fatais, aos 1577 soldados brasileiros feridos em ação de combate e aos 1145 acidentados, há um número curioso nos documentos oficiais da empreitada da FEB na Segunda Grande Guerra: 23 pracinhas se extraviaram. Na lista dos que perderam o caminho, constava o nome de Zeferino Marcondes Fustado, tenente.

Uma bala alemã saída da Linha Gótica fez um belo serviço de prospecção encefálica no crânio do sargento Otílio Duarte e o leitor, como Zé Renato, ficará se perguntando o que ele queria com Fustado.

Ninguém sabe exatamente quando o tenente se perdeu, mas, nos depoimentos posteriores ao retorno à pátria, todos afirmaram categoricamente que ele lutava com seus companheiros do Décimo Primeiro Regimento de Infantaria nas primeiras horas da batalha. O tenente Fustado se extraviou durante o terceiro ataque ao Monte Belvedere, próximo ao Monte Castelo; os registros o indicam como desaparecido.